A quem este blog pode desagradar.

De repente, não mais que de repente, achei por bem alertar determinados internautas sobre este blog. Assim, não perderão seu tempo navegando por aqui. Segue-se uma síntese do perfil dos que dificilmente apreciarão minhas publicações neste espaço:

  1. Eruditos (acadêmicos ou não).
  2.  Radicais (de qualquer partido, religião, crença etc.).
  3. Pessoas que têm certezas demais (maniqueístas incluídos).
  4. Moralistas.
  5. Mal-humorados.
  6. Defensores ardorosos da nova ortografia.
  7. Leitores desatentos e apressados.
  8. Críticos de cinema.
  9. Pessoas com grau de instrução inferior ao Ensino Médio completo.
  10. Crianças e pré-adolescentes.

 

Moral_bons_costumes

 

Afirmei aqui uma vez que leitores de elevadíssimo nível de conhecimento – especialmente se forem das chamadas “Ciências Humanas” –  devem ter pouco ou nada a adquirir neste blog, o qual, aliás, não pretende, nem de longe, equiparar-se aos livros de especialistas de alto gabarito, publicados mundo afora e aos quais esses leitores têm pleno acesso.

Como sou homem de poucas certezas – aliás, desconfio tanto das certezas quanto de quem as têm incrustradas na cabeça, no coração e no fígado – é natural que radicais e pessoas de convicções profundas não sintam muita simpatia por meus escritos. O mesmo devo dizer sobre maniqueístas, ou seja, aqueles que classificam pessoas e ações entre boas e ruins (Bem x Mal), sem qualquer espaço para o meio termo.

 

juiz-dedo-na-cara

 

Defensores da “moral e dos bons costumes” – os tais “caretas”, como se diz na gíria -, assim como os mal-humorados, dificilmente apreciarão minhas idéias, embora eu não as defenda com unhas e dentes. Em todo caso, são idéias que penso ser, ao menos na maioria, liberais em termos de costumes, assim como debochadas e escrachadas às vezes.

Não adotei e não tenho em mente adotar neste blog a nova ortografia da língua portuguesa — possivelmente nem mesmo depois de ela tornar-se oficial. Um dia, com calma, explico meus porquês. Portanto, quem a defende com ardor corre o risco de incomodar-se com minha desobediência a essas novas regras.

 

Nova_ortografia

 

Quem lê às pressas também interpreta às pressas. Portanto, prefiro ter menos leitores, porém atentos, a milhões dispostos a ler meu texto na diagonal, sem prestar atenção aos detalhes, à malícia de alguns deles, às pistas menos óbvias que deixo aqui e ali.

Críticos cinematográficos têm muitos filmes para ver, livros sobre cinema para ler, portanto não devem perder seu tempo com um autor que não tem a menor pretensão de analisar películas do ponto de vista artístico.

Quando se trata de cinema, eventualmente exponho minhas impressões. Na maioria das vezes, escrevo sobre um filme apenas porque seu enredo me levou a refletir, a “viajar”, independentemente de ser considerado obra-prima ou “de arte”.

 

Critica_cinema

 

Alguns filmes são, para mim, “ganchos” (como se diz em jornalismo), ou seja, ensejam a oportunidade para eu redigir sobre o tema que abordam. O fato de eu escrever sobre eles não significa sequer que gostei deles. Posso ter ou não gostado. Tanto faz.

Como, não raramente, lanço mão de referências e vocabulário mais usuais ao universo de quem concluiu ou está cursando o nível superior de ensino, acho improvável que pessoas com grau de instrução abaixo do Ensino Médio aproveitem e apreciem meus artigos e crônicas. Evidentemente, há autodidatas incríveis, mas suponho que não sejam a maioria, assim como crianças e pré-adolescentes intelectualmente precoces.

 

Menino_prodigio

 

Espero ter sido claro. Quanto aos demais, suspeito de que compartilhamos muitas afinidades…

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Por que “Lucy” pode fazer pensar?

Vejo filmes para me divertir. Vejo filmes para aprender. Vejo filmes para pensar. Vejo filmes. Fomos eu e uma de minhas irmãs assistir a “Lucy”, de Luc Besson, para nos entretermos, e nos entretivemos. Curiosamente, a aventura também nos fez pensar. Por mim respondo e já me explico!

 

Lucy_cartaz

 

Abro antes um parêntese. Não sou crítico de cinema. Portanto, pouco me importa se Luc Besson fez concessões demais ao padrão Hollywood e, por causa disso, usou e abusou de perseguições de automóvel, explosões, tiros, socos e pontapés. O que mais me excitou em “Lucy” foi a possível mensagem da história. Fecho parêntese.

“Lucy” é um tentador pretexto para quem gosta de “viajar” pelo que há por trás de uma narrativa, seu conteúdo, sua matéria-prima. Se o diretor soube ou não aproveitar bem isso em termos de arte cinematográfica, que se entenda com os críticos e parte do público (igualmente crítica). Para mim, “Lucy” foi um prato cheio.

 

Lucy_superpoder

 

Em primeiro lugar, porque o filme combina ficção científica e certa dose de filosofia. Em meio à ação eletrizante (Lucy, a personagem de Scarlett Johansson, é quase uma versão feminina de Jason Bourne), há uma pergunta que serve de pontapé inicial para a história, e essa indagação suscita uma hipótese: o que ocorreria se uma pessoa conseguisse utilizar 100% do potencial de seu cérebro?

Importa-me pouco se é mito o fato de o ser humano utilizar somente 10% de seu potencial cerebral. O curioso na trama de Besson está na construção de uma personagem que atinge, involuntariamente, um suposto grau máximo de controle sobre o próprio corpo e a própria mente, assim como um nível excepcional de inteligência. De tal acontecimento não há registro na história. Talvez por isso mesmo, a imaginação tenha ainda maior importância.

Da parte científica (ou pseudocientífica), encarrega-se o personagem de Morgan Freeman, o professor Samuel Norman, justamente quem, durante uma palestra sobre a evolução da espécie humana, responde a um de seus ouvintes sobre o que poderia ocorrer se uma pessoa chegasse a utilizar 100% de seu cérebro. Ele diz simples e honestamente: “Não sei”. Os destinos de Lucy e do professor Norman precisarão se cruzar para que ele descubra a resposta (ver foto abaixo).

 

Lucy_Prof.Norman

 

Antes que isso ocorra, porém, a narrativa induz o espectador a observar o mundo em que vive: seja em Taipei, seja em Paris, seja em Nova York (cidades de três continentes, onde a trama se desenvolve), impera a cobiça, que leva à corrupção, à violência e à morte.

Curiosamente, é pelas mãos do crime que Lucy desperta seu potencial máximo, como no ditado segundo o qual “há males que vêm para bem”. Seria essa uma das possíveis mensagens do roteiro de Besson?

Se, porventura, o filme parece suscitar a crença em um “super-homem” (em sentido genérico, com o perdão de quem alerta contra o sexismo na linguagem), se induz o espectador a crer em um gigante adormecido dentro de cada indivíduo, a narrativa também parece, em princípio, advogar pela crença no poder da ciência. Seria casual o fato de a heroína da trama converter-se em mártir em nome do conhecimento?

 

Lucy_primata

 

As referências do filme às teorias darwinistas são óbvias, especialmente no que diz respeito à evolução das espécies. Daí Besson brincar com a Lucy do século 21 e sua ancestral Lucy, primata de 3.2 milhões de anos (representação na foto acima).

Em uma viagem no tempo, ambas se encontram, e seus dedos se tocam (referência ao elo perdido?) – mais ou menos como no célebre afresco de Michelangelo “A Criação de Adão”, exposto no teto da Capela Sistina, no Vaticano, o qual retrata justamente a criação do primeiro homem, segundo o livro do Gênesis (imagem abaixo). Tanto simbolismo não pode ser gratuito – goste-se ou não dele.

 

A_Criacao_de_Adao

 

É possível ir mais longe. Segundo relato jornalístico, os cientistas que deram o nome de Lucy ao primeiro esqueleto encontrado de um Australopithecus afarensis inspiraram-se na canção “Lucy in the sky with diamonds”, dos Beatles (os motivos disso não fazem diferença aqui). Para alguns intérpretes da letra dessa música, a banda de Liverpool referia-se ao LSD (L de Lucy, S de Sky e D de Diamond). É justamente uma droga ultrapoderosa que desperta, na Lucy do filme, o potencial máximo de seu cérebro. Seria mera coincidência? Talvez sim. Talvez não.

A seqüência final de “Lucy” deixou-me igualmente intrigado porque, após aparente apologia à ciência, Luc Besson parece sugerir, além de uma ética baseada na suprema inteligência (idéia bastante cara a diversos teólogos), a possibilidade de conciliação entre a ciência e a fé. Afinal, em que se converte um super-humano?

Se Lucy é capaz de condensar todo o conhecimento do mundo em uma espécie de pen-drive, ela também demonstra claramente a transcendência do próprio humano, da própria matéria. Mais: da própria morte.

 

Lucy_mensagem

 

“I am everywhere” (“Estou em todos os lugares”) é a mensagem final da heroína, que, ao longo do filme, vai provando sua redenção e abnegação (supremo amor à humanidade, apesar de todos os crimes que cometeu e dos quais foi vítima?). Demonstra também sua onisciência e onipotência. No desfecho da história, então, Lucy prova ter se tornado também onipresente.

Não seriam exatamente esses os principais atributos de Deus, segundo os cristãos? É à imagem e à semelhança d’Ele que se faz o super-humano, ou melhor, o sobre-humano? Besson parece longe de ser para o cinema o que Michelangelo foi para a pintura, mas que mal há nas inspirações?…

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O triste fim da língua inglesa (parte 2).

Pensar na própria língua e comunicar-se em outra pode ser fatal. Para o inglês, o idioma mais popular (ainda que não o mais falado em termos populacionais), essa foi uma das principais causas de seu passamento prematuro. Sim, prematuro! O inglês poderia ter sobrevivido mais alguns séculos se milhões de estrangeiros não o tivessem esculhambado até o limite.

English_is_dead

 

Em artigo anterior, dei exemplos da crueldade contra o idioma de Shakespeare. Leitoras e leitores escreveram para mim com outros tantos. A situação chega a ser tragicômica. Às vezes, suspeito de que os ingleses, irlandeses, escoceses, estadunidenses, canadenses, australianos, neozelandeses, sul-africanos e demais nativos da língua inglesa mundo afora não têm a verdadeira dimensão do que o resto do planeta fez com o idioma pátrio deles. Possivelmente, ainda acham que ele vive. Pobrezinhos…

 

Agora, Inês é morta – ou talvez fosse melhor dizer “Now, Ines is dead”, como diriam alguns lusoparlantes dispostos a jogar uma pá de cal sobre o túmulo da língua inglesa. Não há mais saída. Não há mais jeito. Como disse na parte 1 de “O triste fim da língua inglesa”, a disseminação do idioma de Chaucer gerou contaminações e infecções incuráveis. De lingua franca a língua fraca, foi um pulo. “Now, English is dead!”.

 

English-is-now-dead

 

Para encerrar este assunto, que me causa tanto dissabor e tristeza, delato mais alguns exemplos, agora menos óbvios, que contribuíram para a morte da língua inglesa:

 

  • I live here since 2010 (O correto seria dizer: I have lived here since 2010).
  • I’m not dog no! (Quem não conhece a música: “Eu não sou cachorro, não!”? Uma possível versão em inglês seria “I’m not a dog at all!”).
  • Could you reserve two places for me, please? (O mais adequado seria: “Could you reserve two seats for me, please?”. Ou, no caso de dois lugares à mesa: “Could you reserve a table for two, please?”).
  • I want to make a DDI to Brazil, please. (Essa é dos velhos tempos. Em hotéis no exterior, havia quem achasse que soletrar siglas brasileiras em outra língua resolveria o problema. Uma telefonista americana, por exemplo, não teria a menor idéia do que o sujeito queria. A chamada DDI – Discagem Direta Internacional à Distância, agora praticamente superada por outros meios mais modernos e gratuitos, em inglês de respeito seria “a long distance call”.)

 

"I'm not dog no!", diverte-se o cantor Falcão.

“I’m not dog no!”, versão do cantor Falcão para “Eu não sou cachorro, não”, de Waldick Soriano.

 

A gente zomba, mas sabe, no fundo, que também foi capaz de, em algum momento, mesmo que por distração, cometer esse tipo de crime contra o inglês e outras línguas estrangeiras. Melhor parar por aqui. Se eu for discorrer sobre o tal do “portunhol”…

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