O medo de amar.

Há uma canção de Beto Guedes que diz: “O medo de amar é o medo de ser livre para o que der e vier…”. Durante anos, esse trecho me fez pensar. Sempre quis entender por que alguém pode ter medo de ser livre. Todo o mundo parece propenso à liberdade. Desconheço quem defenda a falta de liberdade – a não ser para meliantes. Parece que o problema está em ser livre “para o que der e vier”.

 

Liberdade

 

Provavelmente como a maioria, aprendi que amar tem um preço, e esse preço pode ser a liberdade. Ao que tudo indica, isso vale para qualquer tipo de amor: maternal, paternal, filial, entre amigos, entre amantes. Quem ama deve abrir mão de fazer apenas o que quer e passar a considerar a vontade ou a necessidade do ser amado.

 

Quem nunca renunciou a um programa sensacional porque a mãe ou o pai ou o filho ou a filha ou o namorado ou a namorada etc. estava doente e carecia de cuidados? Quem nunca fez algum tipo de sacrifício por alguém de quem gosta?

 

Portanto, à primeira vista, amar implica perda de liberdade, mesmo que eventual. No entanto, Beto Guedes, em sua composição, aparentemente contradiz isso ao afirmar que “o medo de amar é ser livre para o que der e vier”. Na canção “O Medo de Amar é o Medo de ser Livre”, essa idéia, se levada a sério, pode ser perturbadora. Como seria possível conciliar liberdade com estar pronto para o que der e vier?

 

Liberdade2

 

O pior (ou o melhor) é que, ao menos para mim, a letra de Beto Guedes faz sentido. Se uma pessoa se sente pronta para o que der e vier, essa pessoa é livre. Não teme os pequenos nem os grandes sacrifícios do amor. Não por acaso, a letra prossegue mencionando os tipos de medo que dificultam a liberdade de amar. Vale a pena reproduzir a íntegra da composição, bem curta por sinal:

 

O medo de amar é o medo de ser

Livre para o que der e vier

Livre para sempre estar onde o justo estiver

 

O medo de amar é o medo de ter

De, a todo momento, escolher

Com acerto e precisão a melhor direção

 

O sol levantou mais cedo e quis

Em nossa casa fechada entrar pra ficar

 

O medo de amar é não arriscar

Esperando que façam por nós

O que é nosso dever: recusar o poder

 

O sol levantou mais cedo e cegou

O medo nos olhos de quem foi ver

Tanta luz

 http://youtu.be/POgMvToR4-s?list=RDPOgMvToR4-s

 

Quem se sente livre o bastante para sempre estar “onde o justo estiver”? Defender a justiça implica ter liberdade (e coragem) para isso. Muitos têm medo de defender o justo, quando este é injustiçado. Não quer comprar briga. Não quer dor de cabeça. Quem ama para valer tem de ser livre para estar onde o justo estiver.

 

Justica2

 

A liberdade costuma estar relacionada a poder de escolha. Portanto, acertar também implica ser livre. O covarde não defende o justo e nem sempre escolhe “com acerto e precisão, a melhor direção”. Escolhe o caminho mais fácil, não necessariamente o melhor. Na composição, agir assim equivale a fechar as cortinas para o Sol não entrar.

 

Quando diz que “o medo de amar é não arriscar”, a canção remete, mais uma vez, à idéia de covardia. O covarde não cumpre seu dever, deposita a própria responsabilidade sobre os outros. E, finalmente, quem se apega ao poder tampouco é livre – o que me parece óbvio. Apego e liberdade não rimam mesmo, sobretudo quando se trata do poder.

 

Sol

 

Já quem aceitou o convite do Sol – símbolo da luz, da consciência –, o qual se levantou mais cedo (só é possível enxergar com claridade, ou seja, a consciência precede a visão), quem assim fez teve o privilégio de perder o medo.

 

Nesse jogo de paradoxos, com uma leve pitada de moralismo, Beto Guedes lança, poeticamente, luz sobre algo comum e, ao mesmo tempo, pouco presente nas reflexões cotidianas: o medo de amar relacionado ao egoísmo.

 

Se amar é ser livre para o que der e vier, poucos estão realmente dispostos a isso. Quem discordar da canção (refiro-me ao conteúdo dela, obviamente) talvez precise olhar melhor em volta – ou talvez no próprio espelho. Por que não?

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Entre o feijão e o sonho.

Há um ditado bastante maldoso sobre o ofício de professor: “Quem sabe faz. Quem não sabe ensina”. De falácias como essa vão se construindo alguns ditos populares. O fato é que eles acabam por simultaneamente espelhar e traduzir preconceitos que ainda giram em torno da profissão de professor.

 

“For the teacher”, pintura de Becky Alden.

 

Alguns preconceitos, claro, podem ser favoráveis. Há quem admire tanto a figura do professor que o coloque em um pedestal e se julgue inferior a ele e até incapaz de alcançá-lo.  Para alguns estudantes, tornar-se amigo do professor chega a ser símbolo de prestígio. Daí também as célebres adulações, como presentear o mestre com uma maçã vermelha lustrada, gesto clássico e simbólico, mais comum no passado.

No Brasil, o oposto dessa atitude ocorre com freqüência: estudantes de certas áreas menosprezam o professor por acharem que ele, se fosse bem-sucedido, estaria no mercado ganhando muito dinheiro e não ali, dando aulas e corrigindo provas. Será que não lhes ocorre que o ensino também integra o mercado de trabalho e que a ele é imprescindível?

 

Professor4

 

Lecionar é ofício tão ou mais relevante que projetar edifícios, administrar empresas, gerir pessoas, vender geladeiras. Pode haver profissionais mais felizes – e até mais bem pagos – em salas de aula do que em escritórios, hospitais, fábricas, consultórios. Muitas vezes, o magistério é uma escolha.

A despeito dos preconceitos, contra ou a favor, um fato a maioria parece reconhecer: sem professor, não há outro profissional. Mesmo um autodidata não aprende realmente sozinho. Além de utilizar livros e produtos audiovisuais (geralmente, obras de especialistas, a maioria professores), o “autodidata”, em algum momento, sentirá a necessidade de tirar dúvidas ou discutir temas ou simplesmente enxergar além da própria perspectiva. Entre seus pares, o “autodidata” nem sempre encontrará a resposta segura ou a pergunta desafiadora.

 

Autodidata

 

Idealmente, é na figura do professor que repousa a confiança, oriunda da experiência de aprender e de ensinar. Com o professor, pode-se, inclusive, aprender a aprender. Afinal, a ingestão indiscriminada de informações não garante verdadeiro conhecimento.

Todavia, também é inegável a existência de professores despreparados, que podem confundir e até mesmo traumatizar um estudante. Longe do desejável, eles lecionam o que não sabem – ou conhecem pouco a matéria que ministram ou, pior, são desprovidos de noções mínimas de pedagogia.

Geralmente, esse tipo ocupa uma lacuna: a dos que desistiram da carreira por não verem nela suficiente motivação. Salários baixos (sim, embora haja professores bem pagos, a maioria ganha pouco), perspectivas limitadas (sobretudo no Ensino Básico), insegurança (a violência nas escolas é maior do que parece), excesso de trabalho, são diversas as explicações dos que pulam fora do magistério.

 

Professor3

 

Por mais amor que um professor tenha à pedagogia, há casos em que o feijão pesa mais que o sonho. A solução, para muitos, está na renúncia ao magistério e na busca de carreiras financeiramente mais promissoras e respeitadas.

Nos níveis fundamental e médio de ensino, a desistência, por parte dos professores, parece ser maior que no nível superior, no qual salários, perspectivas, segurança e estabilidade parecem motivá-los mais. Ainda ali, porém, vêem-se greves freqüentes.

Seriam os professores mais propensos à reivindicação que outras categorias? Por quê? O mais provável é que, de fato, sintam-se menos valorizados que outros profissionais de formação equivalente ou inferior, porém com remuneração muito superior. O mercado dá as cartas. Valoriza mais quem faz do que quem ensina.

 

Greve_professores

 

O professor produz o quê? Novos profissionais parecem não ser o bastante. Pesquisas? Tampouco. Discussões que possam gerar novas idéias? Igualmente insuficientes para a pressa e a ganância do mercado.

Uma pena! O fato de haver maus professores não justifica salários aquém da importância do educador, menos ainda a desvalorização da carreira. Milhões de maçãs vermelhas  não bastam. Um dia de homenagem ao professor não basta. Quem lida com educação merece muito mais. Merece, ao menos, que o feijão alimente o sonho.

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O mundo é quadrado.

Sou homem de poucas certezas, mas começo a me convencer de que o mundo é quadrado. A Terra pode até ser redonda, mas o mundo, isto é, a parte que cabe aos seres humanos neste latifúndio, é tão quadrangular quanto um cubo.

 

Terra

 

Enquanto a Terra, circular, esférica, cilíndrica, gira com a facilidade de tudo o que tem esse formato, o mundo dos homens e mulheres não roda. Quando se movimenta, é com dificuldade, bem devagar.

 

Quem já tentou (ou viu alguém tentar) mover um cubo grande e pesado entende melhor o que estou dizendo. Natural e espontaneamente, ele permanece estático. Se uma força externa age sobre ele, arrasta-se. Quando ela é mais intensa, pode virá-lo e levá-lo adiante à medida que cada lado vai se apoiando na superfície, sempre a passos de tartaruga.

 

Quadrado

 

Claro está que, ao me referir à idéia de um mundo quadrado, emprego o termo no sentido de anacrônico, antiquado, atrasado, retrógrado, pois é assim que vejo tantas pessoas com dificuldade para se mover mentalmente, acompanhar o passar do tempo, compreender e aceitar o novo, o diferente.

 

Observo que há pessoas apegadas a antigos modelos de família, por exemplo. Só concebem o padrão “pai, mãe, filho ou filhos, todos unidos sob o mesmo teto”, chova ou faça sol. Têm esse paradigma como ideal. De fato, ele é ideal, porém mais no sentido de “restrito ao plano das idéias”, não ao plano da realidade.

 

FAMÍLIA_MARGARINA_VINTAGE_RETRO_ANOS 70

 

Digo isso por dois motivos principais: 1- há numerosas famílias problemáticas (no extremo, vale lembrar a ocorrência de parricídios, matricídios, fratricídios e tantas outras formas de violência física e mental dentro de núcleos familiares) e 2- existem modelos alternativos de família hoje em dia, como casais que moram separados, embora sejam afetivamente unidos (às vezes, mais que aqueles sob o mesmo telhado); a opção pela vida de solteiro reunido de amigos (os tais parentes que se podem escolher); carreiras eclesiásticas celibatárias (muitos monges se dizem felizes); entre outros.

 

Também se reproduzem por aí aqueles para quem a História do Brasil parou ou deveria ter parado antes de 1888. Ainda vêem negros como sub-raça e tratam como escravos quem lhes presta serviços domésticos. Há mesmo quem literalmente escravize trabalhadores!

 

Original da Lei Áurea, de 1888 (Arquivo Nacional). Original da Lei Áurea, de 1888 (Arquivo Nacional).

 

Os mais liberais (?!) querem conviver o mínimo possível com gente “diferenciada”, ou seja, de poder aquisitivo muito inferior ao seu. Estão ou não parados no tempo? Comportam-se ou não como quadrados? Empacaram. Não saem do lugar. Um guincho talvez resolva?…

 

Tampouco se movem os que ignoram a simbólica “Queima dos Sutiãs” de 1968, quando ativistas do Movimento de Libertação das Mulheres (WLM, na sigla em inglês) foram às ruas em Atlantic City, nos Estados Unidos, para protestar contra a redução da figura feminina a mero símbolo sexual. Dorme em pé quem acredita que o machismo virou cinzas com esse episódio.

 

Bra-burning

 

A despeito dos avanços, o sexismo resiste tanto no plano do discurso quanto no da prática – basta conferir o número de mulheres recém-eleitas para o Congresso Nacional brasileiro em comparação com o de homens, para ficar em um só exemplo.

 

Quer mais quadrado que um sujeito homofóbico? Que diferença faz quem o outro ama e com quem faz sexo? Isso só deveria importar quando está em jogo interesse afetivo, sexual ou ambos. No anonimato das ruas, no ato de contratação de trabalhadores, na convivência pública, esse deveria ser mero detalhe. Cada um que cuide de si! Ah, se fosse assim!

 

Insisto na questão tempo: para o homofóbico, a História parou antes de 1969, quando se deu a célebre Rebelião de Stonewall, em Nova York (EUA). O protesto leva esse nome porque teve início no bar Stonewall Inn e espalhou-se pelas ruas vizinhas.

 

Stonewall-Riot

 

Farta dos abusos da polícia e da discriminação, a população hoje conhecida como LGBT reagiu. A manifestação foi um marco histórico, mas os quadrados até hoje insistem em se meter nos lençóis dos outros – muitas vezes, na base da pancada ou do homicídio. Talvez Freud explique…

 

Dá para voltar (e parar) um pouquinho mais no tempo: 1960, ano de fundação da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade. O nome é auto-explicativo, embora os conceitos de tradição, família e propriedade sejam discutíveis, especialmente com o passar de mais de 50 anos.

 

Ademais, a TFP e seus simpatizantes defendem valores cristãos, e o planeta em geral, assim como o Brasil em particular, como se sabe, reúne também adeptos de outras religiões, além de agnósticos e ateus.

 

Está na moda a expressão “pensar fora da caixinha”. Caixas, em sua maioria, costumam ser quadradas. No meio empresarial, quem tem criatividade, escapa do óbvio, quebra paradigmas, aposta na inovação – outro termo bastante em voga – tende a ter melhor imagem. É a figura do empreendedor, do vencedor do século 21.

 

Thinking_outside-the-box

 

Claro que “pensar fora da caixinha” – não ser quadrado, portanto – é algo bem visto no mundo dos negócios! Dá lucro. Fatura. Só por isso. Saiu desse contexto, vitorioso, bem-sucedido, respeitado é quem se encaixa, quem se enfaixa. A palavra-de-ordem parece ser: “Inove nos negócios, mas se enquadre no sistema”.

 

Não por acaso, os verbos “encaixar-se” e “enquadrar-se” têm a origem que têm. Pertencem ao universo do comportamento bovino, de manada. Destacar-se só é visto como positivo quando representa sucesso material – inclusive, simbolicamente material, como no caso do estrelato, que reúne fama e fortuna. O pop star pode. O empregado doméstico não. No palco, tudo bem. No chão de fábrica, nem pensar!

 

Que me perdoem os quadrados – e tenho amigos entre eles – mas essa postura, para mim, não “desce redondo”! Nem com muita cerveja!

 

Cervejas_artesanais

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