Cabeça erguida ou nariz em pé?

Amina é segura demais ou esconde sua insegurança atrás de uma armadura? Confesso que não sei. A postura é de extrema segurança. O corpo fala: coluna ereta, peito aberto, queixo para cima. Caminha quase como se desfilasse. Diria que olha o mundo por cima. Quando fala, ouve-se a voz da certeza. Quase sempre afirma. Raramente indaga. O olhar, porém, dá a impressão, às vezes, de desconforto íntimo. Seria uma ponta de insegurança? Admito que ainda não sei, mas gostaria de saber se Amina é mesmo tão segura quanto parece ou se criou para si uma personagem superpoderosa.

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Seja como for, Amina é um tipo que cansa – pelo menos me cansa. Sabe aquela pessoa que tem opinião formada sobre quase tudo e conversa com você como se concordar com ela fosse algo óbvio? Afinal, o que ela diz só pode estar certo, não é verdade? O problema é que, para mim, não. Não é verdade tudo o que ela diz. Diria até que só concordo com ela ali na faixa dos 50%, 60%. Dificilmente, mais do que isso. Não que ela seja uma estúpida. De forma alguma. É que seu discurso vem pronto, sem espaço para contestação, nem mesmo para ponderação. Lembra um sanduíche do Mac Donald’s. Não há como fazer alterações. Segue um padrão rígido, idêntico em todas as lojas.

Amina, na verdade, não dialoga. Estabelece um monólogo em que ela sempre tem a primeira e a última palavra. Ai de você se a enfrentar, como caí na besteira de fazer um dia! Erro meu ter engolido tanto “sanduíche verbal” e regurgitado tudo de uma vez! Claro que, dessa forma, parecia ser eu o autoritário! É a velha história: quem atira sempre é suspeito, mesmo que tenha agido em legítima defesa. A propósito, cabe lembrar que ela está sempre na defensiva. Diria até que na ofensiva também – não dizem, afinal, que a melhor defesa é o ataque? Então ela policia, patrulha, quer corrigir o mundo a seu redor. Em português grosseiro: gosta de cagar regra.

Justiça seja feita. Essa postura rígida e altiva se dilui em meio a gestos de cordialidade, brincadeiras, demonstrações de simpatia. Daí não ser visível a olho nu. É preciso ter certo grau de perspicácia para identificar suas tendências autoritárias e sua soberba. É preciso também enfrentar Amina para vê-la colocar, mais claramente, suas afiadas garras de fora. Paradoxalmente, quando expõe sua força, deixa escapar uma aparente fragilidade. É como se, dentro daquela armadura de guerreira, sempre pronta a enfrentar o inimigo (real ou imaginário), houvesse uma pessoa hipersensível. Não me espantaria se, nela, corpo e armadura se confundissem e se retroalimentassem.

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Dou-me ao trabalho de descrever Amina porque acredito haver muita gente parecida com ela por aí. Posso apostar que minhas leitoras e meus leitores se lembrarão de alguém assim. Em ambientes onde se defendem causas, por exemplo, é fácil localizar pessoas desse tipo. Nas universidades públicas, igualmente. É gente aguerrida, sempre pronta para debater ou mesmo brigar. Não raramente, subestima quem pensa de outra maneira. Menospreza ou até despreza quem não está do seu lado da trincheira, mais ou menos na linha do “quem não está comigo, está contra mim”. Ai de quem ousa lembrar a palavra “radical”! Apanha. Pois é…

Essa é uma gente que se sente revolucionária. Sua causa (ou suas causas) justifica tudo. É comum identificar, em pessoas como Amina, o autoritarismo daqueles que julgam saber o que é melhor para todo mundo. É gente que debocha de quem não leu determinadas obras ou não se interessou por determinados temas. Presunçosa, pretensiosa essa turminha! Convicta está de seu heroísmo e, portanto, de sua superioridade moral e intelectual.

Ainda assim, indago-me se, de fato, por trás dessa armadura, não existe fragilidade. Suspeito disso por dois motivos principais: 1- deve haver casos – não poucos – em que a real motivação para o engajamento em uma causa esteja em algum tipo de trauma psicológico (portanto, algo bastante pessoal, individual, subjetivo) e 2- certas lutas pressupõem uma visão mais ou menos romântica do mundo, o que não raramente redunda em alguma dose de ingenuidade. Eis onde entra a fragilidade e, por conseguinte, uma possível insegurança.

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Reconheço que especulo. Não estou aqui para psicoanalisar Amina e seus semelhantes. Minha ideia é compartilhar seu perfil no afã de que outras pessoas se identifiquem comigo e – quem sabe? – ajudem-me a entender e a lidar melhor com pessoas que me parecem tão difíceis às vezes, por melhores que sejam ou que pareçam ser. Gosto sinceramente de Amina. Só não consigo é seguir sua cartilha e, muito menos, ouvir sempre calado seu discurso carregado de supostas verdades, convicções pessoais, indicações rigorosas sobre como agir. Se eu quisesse ouvir pregação, frequentaria uma igreja. Definitivamente, não é o caso.

Amina e todas e todos aqueles que se parecem com ela têm seu lugar na sociedade, seu papel, sua relevância, quando evidenciam injustiças sociais ou crimes socioambientais. Só precisam entender que esse lugar, esse papel, essa relevância não são necessariamente superiores aos de todas as outras pessoas. Se Amina realmente se acha superior ou se, na verdade, usa uma armadura para esconder sua fragilidade é menos importante do que sua postura no mundo, cujo impacto se sente de maneira direta. O dedo em riste incomoda, independentemente de quem o esteja levantando e do porquê de tê-lo levantado. Convém ter em mente a sutil diferença entre cabeça erguida e nariz em pé.

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Ou ela ou eu!

Quem me vê malhando forte três vezes por semana não deve sequer imaginar o quanto sinto preguiça. Sério! Muita mesmo. Só que preguiça é assim: ou você vence a infeliz ou ela detona você. O que é melhor? Descobri a resposta a duras penas…

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Desde a infância, praticar exercícios físicos representa esforço extra para mim. Na escola, as aulas de educação física só não eram mais destestáveis que as de matemática. Esportes como futebol, vôlei e handball? Fugia deles como o Diabo da cruz! Na faculdade, graças a um problema de saúde que, bem administrado, não me impediria de malhar, dei um jeito de obter dispensa dos dois semestres de prática desportiva.

Resultado de anos de preguiça: sobrepeso. Seguisse aquele ritmo, chegaria à obesidade.

Vivi uma fase excepcional quando, já gorducho, decidi encarar uma longa temporada de academia. Fiquei empolgado com os resultados, tomei gosto pelos treinos (sobretudo os coletivos), mas curiosamente, uns dois anos depois, acabei retomando minha vida sedentária. Passei a fazer inócuas caminhadas ao ar livre, uma vez por semana, sem compromisso, aproveitando o momento para conversar.

Um belo (?) dia, passeando no Parque da Cidade, em Brasília, senti uma pontada na região lombar. Era o prenúncio de uma crise que, dias depois, teria como diagnóstico hérnia de disco. Pois foi ela a responsável por me fazer, na marra, vencer outra vez  a preguiça de malhar, afinal o ortopedista fôra claríssimo: eu nunca me livraria dela (sem cirurgia) se não emagrecesse e me exercitasse regularmente para fortalecer a musculatura de apoio à coluna. Lá fui eu encarar uma academia outra vez!

Salto no tempo: doze anos e muita malhação depois, sob o acompanhamento rigoroso de um personal trainer, venço três vezes por semana a preguiça de praticar exercícios físicos. Afinal, sempre me lembro da dor de uma hérnia e do que ela me impediria de fazer se eu não controlasse meu peso e reforçasse minha musculatura, além de me alongar.

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Foto por Bruce Mars em Pexels.com

Entre sofrer um pouco durante 40 minutos de treino, em média, e parar de dançar, correr, saltar e fazer sexo selvagem (esse último é brincadeira), adivinha qual prefiro?

A bem da verdade, estou longe de ser um daqueles magníficos exemplos de superação, que a gente admira nas reportagens de TV. Afinal, a preguiça de malhar nunca passou e provavelmente nunca vai passar. Por outro lado, gosto de lembrar que, mesmo sem cirurgia, levo uma vida absolutamente normal ou talvez até acima média. Danço, salto, corro, faço caminhadas sem sentir dor e, quando sinto alguma, ela logo passa.

Não venci minha preguiça, mas ela tampouco me venceu. A gente vive uma espécie de cabo-de-guerra. Ela puxa de um lado. Eu, de outro. Não devo negar que ela me vence às vezes, mas eu acabo por superá-la em nome justamente da vontade de aproveitar a vida sem dores. Facilita muito o privilégio de poder pagar um personal trainer. É dele expressiva parte do mérito de eu vencer a preguiça e ter a hérnia de disco sob controle. Em todo caso, eu poderia gastar o dinheiro com outras atividades. Pagar um profissional para me ajudar a malhar direito significa algo, não?

Meu caso é literalmente de no pain, no gain. Não fosse a dor da hérnia, provavelmente não teria conquistado os benefícios da atividade física regular. Era a preguiça ou eu. Ainda é. Sigo vencendo.

 

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Galera da hora, é hora!

Esta é uma carta de revelações, endereçada apenas a meus amigos jovens — ou pelo menos mais jovens que eu.

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“Centro da Juventude Bacchus dt.”, William Adolphe Bouguereau (1825-1905).

Antes de tudo, quero agradecer a vocês pelo carinho e pela atenção com que me tratam. Vocês me acolhem espontaneamente como se eu tivesse a mesma idade de vocês. Alguns fazem questão de minha companhia. Chegam a insistir para ter minha presença, e essa é uma demonstração inegável de afeto e ausência de preconceito etário.

Por isso mesmo, acho importante revelar a vocês o que vem a seguir. Espero ajudá-los a me entender melhor e, se houver algum “generation gap” entre a gente, que ele se reduza (ou se acabe de vez). Bora?

Linguagem

Li muita literatura clássica na adolescência, muita mesmo. Essa leitura teve forte influência sobre minha maneira de falar e escrever. Desde os 13, 14 anos, portanto, tenho um vocabulário meio rebuscado. Uso “lhe” e “deveras”, por exemplo, não por ser de outra geração, mas porque sempre me expressei assim, devido à influência dos clássicos.

Nunca dei importância às críticas a meu estilo e vocabulário, até porque a maioria de meus colegas do Ensino Médio admirava a maneira de eu me expressar. Jamais pretendi ser um novo Machado de Assis, até porque eu não conseguiria, mas ele, de fato, influenciou um pouco meu estilo. Sou fascinado pelo século 19 e por seus escritores e demais artistas. Isso não quer dizer que eu despreze o vocabulário e as tendências atuais. Ao contrário, mesclo tudo e me divirto sinceramente com isso (como, aliás, poderão verificar neste texto).

Edição encadernada de “Dom Casmurro”, de Machado de Assis.

Adoto as gírias desta geração sem resistência, mesmo porque, mais cedo ou mais tarde, todo mundo acabará por adotá-las. Observem. Poucos anos atrás, era raro ouvir um adulto dizer “galera”. “Top“? Nem pensar! De uns tempos para cá, ouço amiúde senhores e senhoras usarem esses e outros termos, comuns entre jovens há anos. Por isso, não se incomodem com quem zoar — ou, como se dizia antigamente, “fazer troça” — da maneira como vocês se expressam. Vocês é que ditam as tendências, como gerações anteriores de jovens o fizeram e lançaram “legal”, “trampo”, “rango”, “balada”, “massa” etc.

Uma dica apenas: tentem conhecer também o vocabulário de seus tios, pais e avós. Pode ser útil e enriquecedor, além de divertido. Não limitem o léxico apenas por preconceito. Sei que a maioria de vocês tem interesse no palavreado formal e se expressa bem quando precisa, mas a dica vale, sobretudo, para quem só tem ouvidos para a fala do século 21. Usar o dicionário hoje está bem mais fácil. Basta um clique no Google ou num app.

Comunicação online 

Galera, confesso que um dos “generation gaps” entre mim e vocês está na comunicação a distância. Não me refiro, claro, ao telefone celular (muito menos ao fixo), mas a meios como WhatsApp e messengers do Facebook e do Instagram. A maneira como vocês trocam mensagens é bizarra!

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Telefone da Lata, por Joaz Silva.

Vocês não têm ideia do quanto me causa estranheza o fato de vocês ignorarem o princípio básico de qualquer comunicação humana: troca de mensagens com início, meio e fim. A maioria de vocês começa um diálogo e o abandona no meio. O mais bizarro: às vezes, vocês largam a conversa depois de vocês mesmos terem feito uma pergunta. Não esperam pela resposta! Podem ficar offline horas. Somem sem explicação, sem dar tchau. Oloko!

Comunicação offline

Tenho observado que vocês desconhecem ou conhecem pouco os movimentos estéticos de vanguarda do fim do século 19, os quais tanto influenciaram as artes dos séculos 20 e 21. Essa é outra questão geracional, suponho. Devo me limitar a poucos exemplos.

Quais de vocês têm ideia do que é Surrealismo? Posso apostar que muitos. Mas vocês já leram obras surrealistas? Viram filmes surrealistas? Saberiam mencionar de cabeça um ou dois nomes de expoentes do Surrealismo? Conhecem os princípios desse movimento?

E do Dadaísmo vocês já ouviram falar? Já leram poemas dadaístas? Têm em mente alguma obra ou autor ou autora dadaísta?

Calma. Não estou tretando nem pagando de fodástico das artes. Não mesmo! Só levanto esses pontos porque eles são relevantes para a geração de vocês superar ou, pelo menos, amenizar a tendência à literalidade. Vocês, por mais zoadores que sejam, costumam levar tudo ao pé da letra. Quando interpretam discursos em geral (falas, notícias, posts), vocês (não todas nem todos, evidentemente) esquecem que existem figuras de linguagem (metáforas, metonímias, hipérboles) e, principalmente, posturas surrealistas, dadaístas, futuristas, entre outras.

Quando exagero (hipérbole), vocês se assustam. Quando faço analogias malucas (metáforas surrealistas), vocês se assustam. Quando meto o loko e apelo ao nonsense (dadaísmo), vocês se assustam. Esse espanto, noto, tem diminuído com o passar do tempo, mas volta e meia reaparece. Eu não chocaria ninguém que tivesse familiaridade com os movimentos estéticos de vanguarda ou, no mínimo, com as múltiplas figuras de linguagem — cada dia menos comuns no meio hiperliteral do ativismo social predominante nas universidades e alhures.

The Elephant Celebes, 1921

The Elephant Celebes, por Max Ernst (1891-1976).

Minha geração parecia mais simpática ao universo alegórico. A de vocês — sob a batuta do politicamente correto — tende ao rigor das palavras, à rigidez do discurso, ao controle dos gestos. Adere, às vezes sem resistência, à patrulha política.

Naturalmente, muitos de vocês odeiam o politicamente correto e preferem a liberdade de dizer o que quiserem e quando quiserem sem se preocuparem se estão ferindo almas sensíveis. De qualquer forma, acabam se contagiando com a literalidade destes tempos, graças especialmente aos meios de comunicação.

Sexualidade

Observo uma adorável diversidade entre vocês. Há, porém, pontos em comum. Alguns exemplos: confusão sentimental, liberalidade (às vezes, libertinagem) sexual em público, projetos de vida tradicionais.

A confusão sentimental aparece principalmente quando as relações caminham para algo mais sério. Muita gente sai correndo apavorada, às vezes sem dar qualquer explicação. Feio isso! Por outro lado, parece-me natural alguém se espantar diante de caras ou minas que partem para cobranças logo na primeira semana de contato. Isto mesmo: primeira semana! Muitas minas, principalmente, têm demonstrado interesse em “prender” os  caras mal engatam a primeira. Claro que isso geralmente queima a largada. Dá ruim.

Muitos caras, por seu turno (e isso me parece incoerente), tendem a tratar as minas como se ainda vivessem nos tempos da cavalaria. Carregam as bolsas de suas donzelas, pagam a conta do bar, gastam fortunas com os tais combos nas festas, abrem para elas a porta do carrão e, em troca, esperam docilidade, fidelidade (que eles geralmente não oferecem) e, em alguns casos, até subserviência — fora sexo, naturalmente. Pagam de macho-alfa e, ao mesmo tempo, usam toneladas de cosméticos ou ajeitam os cabelos de cinco em cinco minutos, sem contar o “culto ao corpo”, que praticam nas academias, para depois exibirem a “shape” nos rolês e nas redes sociais.

Na minha geração, também havia tudo isso evidentemente, excetuando-se o frenesi nos social media. Só que eu esperava um mundo mais bem resolvido hoje. A atual geração parece ter potencializado as características da anterior. O tal “contatinho”, por exemplo, é uma versão mais banalizada do “pinto amigo”, da “gaveta”, do “gadinho”, da “amizade colorida”, do “amigo ou amiga com benefícios” etc. O vazio desse “amor líquido”, porém, continua, talvez mais forte e profundo ainda.

Da série de pinturas eróticas de Tania Maria Helena.

As pessoas se pegam em público como se fizessem as preliminares do sexo privado. São beijos afoitos, mãos atrevidas, libido regada a muito álcool e outras drogas, trajes sumários, confiança apressada. Sim, isso também vivi. No entanto, revelo que esperava postura mais comedida diante da avalanche atual de informações sobre epidemias de IST (infecções sexualmente transmissíveis), casos de gravidez precoce, estupros e outras formas de abuso sexual.

Moralista eu? Talvez. Fato é que minha geração parecia mais preocupada com as consequências de sua avidez carnal. O uso do preservativo era regra junto à maioria das pessoas que conheço. Digo isso baseado, por exemplo, no crescimento recente da aids junto a pessoas na faixa etária dos 20 aos 30 anos e nos depoimentos de muitos amigos (nenhuma amiga), que confessaram abrir mão da camisinha na maioria de suas relações sexuais, inclusive as casuais. Fogosos, não raramente bêbados, metem-se sob os lençóis de mulheres que mal conhecem. Elas, pelo jeito, são cúmplices. Poderiam exigir o uso do preservativo ou usarem-no elas próprias ou simplesmente não levarem para suas casas ou não irem para as casas de homens desconhecidos (ou quase). A via costuma ser de mão dupla: os dois querem brincar de roleta russa. Pois é…

Em meio a isso tudo, a eterna cobrança social pela constituição de uma família o mais tradicional possível: casal heterossexual, da mesma etnia, de preferência da mesma classe social, fértil (ainda que seja para ter um filho apenas), disposto a seguir o modelo familiar dos pais. Nada contra. A permanência de certos valores, todavia, me parece mais contraditória agora, quando o vale-tudo dos rolês aposta na “putaria”.

Ouço um funk a distância. Opa! Leiam isso em sentido figurado.

Trabalho

No que diz respeito à vida profissional, sinto orgulho de vocês. Não brincam em serviço, literalmente. Todos cursaram uma faculdade, ou seja, aproveitaram a oportunidade de fazer isso. Hoje perseguem a realização profissional com determinação admirável. Quem vê a maioria de vocês nos bares e nas festas jamais pode imaginar o quanto vocês se dedicam ao trabalho — ou aos estudos ou a ambos simultaneamente.

Alguns de vocês cagam para a política. Ao mesmo tempo, estão por dentro das principais notícias e votaram em quem votaram porque acreditaram no discurso de seu candidato, ou seja, acompanharam as campanhas eleitorais. Tenho, entre vocês, amigas e amigos de esquerda, de direita e de centro no espectro político. Desconfio dessa divisão assim, rígida, mas a emprego para simplificar. Todas e todos, porém, trabalham com afinco porque acreditam no próprio futuro e no do país — uma fé que morre em mim a cada dia.

Amizade

Sou uma pessoa de sorte porque, no âmbito da amizade, não tive decepções e frustrações traumáticas. Na infância e na adolescência, sofri bullying “de raiz”. Não foi esse bullying Nutella que faz um moleque chorar porque o coleguinha riu de seu par de meias furadas. Passei por situações que me fizeram acreditar ser impossível ter amigas e amigos de verdade um dia. Foi foda! Pior do que podem imaginar. Ainda assim, superei essa fase.

Há muitos anos, cultivo amizades que quase só me dão alegrias. Digo “quase” porque somos todos falíveis. Rolam tretas de vez em quando. Erro com as pessoas. Elas erram comigo. Só que, em meio a tantas amigas e tantos amigos, nunca me faltam ombro, colo, abraço, cafuné, palavras de conforto. Vocês me acolhem, e eu acolho vocês.

Nem todos sabem que, como em alguns romances e em todas as telenovelas, minha vida social se divide em núcleos. Os que sabem estranham isso. Quando se trata de amizade, vocês costumam ter um grupo só, no máximo dois. Eu tenho diversos. Uso até apelidos para cada núcleo: os twenties, os coxinhas, as meninas, os meninos, os onusianos.

Vocês são muito mais sussa que eu! Tenho essa parada meio cartesiana que me faz parecer sistemático, rígido, rigoroso, linha dura. Às vezes, sou mesmo. Levo certas situações a ferro e fogo. Nāo deveria. Melhor ser suave. Vocês se espantam com meus “surtos” de indignação, raiva, ressentimento. Costumam compreender e me dar razão no que diz respeito a minhas motivações, mas sei que nāo aprovam o radicalismo de certas atitudes. Bem… Estou me esforçando para mudar, inclusive por meio de psicoterapia.

Amor

Galera, cada um de vocês tem lá sua dose de romantismo. Contudo, duvido de que tenham bebido tanto na fonte dos românticos quanto bebi. Aliás, foram diversas fontes: música, literatura, cinema, televisão. Que influência negativa, eu diria! Vocês vivem a era do “amor líquido”, como teoriza Zygmunt Bauman. Eu ainda inalo o aroma de uma esperança cada vez mais distante.

Acredito – estupidamente, talvez – que as relações amorosas tenham de durar para sempre. Não faço amigos para descartá-los em alguns meses, quando não me servirem mais. Faço amigos na esperança de que a relação dure uma vida inteira. O mesmo vale para as relações afetivo-sexuais.

Precisamos de muito tempo para conhecer alguém de verdade. Semanas e meses são pouco. Por isso, quando amo, quando me envolvo afetivamente com alguém, desejo que essa relação dure. Não desisto facilmente das pessoas. A paixão sempre acaba, então é preciso cultivar o amor que ficou, se ficou. Isso demanda um empenho que vocês nāo parecem ter — salvo algumas exceções.

O amor líquido evapora-se ou congela-se. Oscila conforme a temperatura do momento. Prefiro o amor sólido, menos vulnerável, ainda que demande mais esforço. Para mim, relação = ralação. Pena que essa minha forma de ver assuste muitas pessoas, que ficam logo temerosas de que eu esteja a fim de dominá-las, controlá-las, prendê-las em um castelo de sonhos. Falha minha também por não conseguir traduzir meu real modo de ver. Envio a mensagem errada. Lost in translation, we lose ourselves.

Um aparte muito importante, sobre o qual poderemos conversar um dia se quiserem: minha intuição. Ela é uma característica que nem todo mundo entende e aceita. Parece mediunidade. Sacam? É forte, impactante, incontrolável às vezes. Simplesmente enxergo e sei. Antecipo comportamentos. Como? Já li a respeito em revistas de psicologia. Encontrei explicações interessantes e convincentes, mas ninguém deve ser obrigado a aceitá-las.

Encontro uma pessoa pela primeira vez. Posso não “ver” nela absolutamente nada, mas também posso ver muito: caráter, personalidade, traumas, intenções. Quando cometo o erro de expor o que vi, geralmente me dou mal. As pessoas acham estranho, suspeitam de mim, ficam com um ou dois pés atrás. “O que diabos esse cara quer com isso?”, alguns de vocês devem pensar. Perdoem-me. Estou me empenhando para guardar só para mim mesmo as “visões” que tenho sobre as pessoas. Desistir de ser assim não posso nem devo, pois o tempo prova que estou certo – pelo menos na esmagadora maioria das vezes, e tenho várias testemunhas disso. Acreditem se quiserem.

Sigo…

Prometi revelações, não fofocas ou confissões embaraçosas. Por isso, encerro esta carta-artigo com uma revelação final. Preparem-se para ficar um pouco tristes, talvez.

Valorizo tanto o amor entre duas pessoas que, como já disse, acabo enviando a falsa mensagem de que estou ansioso e pronto a sufocar quem se envolver comigo. Curiosamente, nas poucas vezes em que senti alguma segurança ao lado de alguém, relaxei, pois me entrego com certa facilidade a quem me inspira confiança e também se entrega para mim. Inseguro, porém, comporto-me mais ou menos como uma fera ferida: rosno, avanço, mordo e, lamentavelmente, chego até a ferir de vez em quando. Nunca matei ninguém, felizmente, nem pretendo matar. Quer dizer…

Eis a parte um tanto dramática desta história. Espero que a compreendam, especialmente à luz de tudo o que escrevi aqui. Abomino a ideia de tirar a vida de qualquer pessoa, exceto a minha própria. Ao afirmar isso, não estou alertando vocês para um ato fatal contra mim mesmo. Estou tentando dizer que prefiro morrer a matar. Como vivo um tempo que me corrói internamente com sua arrogância e superficialidade extremadas, confesso que não raramente desejo partir deste mundo o quanto antes.

Sei que vocês já estiveram em rolês errados. Então… De vez em quando, sinto como se minha vida, este mundo, a sociedade atual fossem um imenso rolê errado. Ai que vontade de vazar! Partiu Marte! Partiu Vênus! Partiu Sol! Partiu Céu! Ou será que eu partiria para o Inferno? Lembrem-se, por favor, de não ser literais… Lembrem-se de tudo o que revelei antes de chegar até aqui.

“Namorados”, de Ismael Nery.

É a frustração amorosa, galera, que pega. Tão ligados? Um amigo me disse outro dia: você superestima essa parte. A vida é mais que isso. Outro falou algo semelhante: Love’s overestimated. Ambos namoram sempre que podem. Será que pensam mesmo assim? Ou será que se aproveitam destes tempos de amor líquido e se refestelam num rolê errado, porém viável, suportável, conveniente, do tipo “é o que temos para hoje”?

Ah, esse pragmatismo que flerta com a frieza, com a leviandade, com o cinismo! É justamente isso que me deixa infeliz. O pior é que pouca gente realmente entende aonde quero chegar e o que estou de fato afirmando. Beleza!

Vocês, que chegaram até aqui (tenho certeza de que foi mais de um), merecem um agradecimento especial: em breve, receberāo algo meu. Como? Copiem este parágrafo (o antepenúltimo) e colem-no em uma mensagem que vocês podem enviar para mim por e-mail ou WhatsApp. Depois, é só aguardar.

Grato, mil vezes grato,  por estarem em minha vida, perto ou longe. Esteja eu em Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Sol, outro sistema solar ou esteja eu no Sétimo Céu, saibam que vocês fazem toda a diferença em minha vida. Meu tempo é curto. Aguarda-me, como sabem, o lendário cemitério de elefantes. Vocês ficarão e, mansos, herdarão a Terra. Transformem-na em um mundo de amor sólido, por favor.

Entendedores entenderão. Abraço bem apertado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Crédito com o mundo.

Já observei que algumas pessoas se comportam como se o mundo lhes devesse algo. Têm uma postura que combina revolta, cinismo, inveja e arrogância. A dose de cada uma dessas atitudes varia de pessoa para pessoa e até de momento para momento.

Gente assim se sente lesada, injustiçada. Acha que merece muito mais do que tem. Acredita que seu prejuízo é superior ao de todas a outras pessoas e que as demais prejudicadas são covardes ou ingênuas por não cobrarem do mundo o que lhes é devido.

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Não me refiro, claro, às pessoas que reivindicam seus direitos éticos e legais. Refiro-me àquelas que projetam suas frustrações e insatisfações no mundo a sua volta. Não vão à luta para conquistar o que lhes falta. Preferem cobrar isso de quem está perto, sobretudo se essa pessoa próxima lhe parecer mais afortunada. Gratidão passa longe. Gente assim não enxerga favor, só obrigação. Afinal, repito, acredita que o mundo lhe deve algo.

A revolta íntima por não possuir tudo o que julga merecer mescla-se, então, à inveja. “Se ele tem, por que eu não posso ter também?”, pensa aquela ou aquele que vê no mundo seu eterno devedor. “Se ela faz isso, por que eu não posso fazer?”, raciocina.

Esse espírito competitivo, que poderia, em certa medida, até ser saudável, torna-se pernicioso. A autocrítica, evidentemente, inexiste. Se não consegue realizar algo, o sujeito sempre atribui a responsabilidade pelo fracasso às outras pessoas ou ao mundo ou à vida, nunca a si próprio. Ele é sempre vítima.

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Gente assim costuma ser cínica. O mais provável é que esse cinismo seja um subproduto da revolta, a qual tem por hábito endurecer o indivíduo por dentro. A arrogância vem completar o pacote. Afinal, o “credor do mundo”, julgando-se cheio de direitos e quase sem deveres, costuma fazer suas cobranças com o nariz empinado. “Grato”, “obrigado”, “por favor” são palavras raras na boca dessa gente.

Devo dizer que a postura de “credor do mundo” não se manifesta somente em pessoas menos afortunadas. É mais comum em quem enfrenta dificuldades, sejam de que ordem forem. Todavia, acomete também quem ocupa posição social confortável.

A frustração diante do insucesso só complica esse quadro psicológico. Quando a cobrança é inviável ou infrutífera, cresce a revolta no cobrador, que a exterioriza de formas diversas. Pode ser atravessando uma rua em movimento e obrigando, assim, os carros a frearem só para ele passar (soberba). Pode ser infringindo uma regra apenas para mostrar-se acima dela (infantilidade). Pode ser reagindo com desdém a uma queixa ou cobrança de alguém hierarquicamente superior, de maneira a demonstrar que não se sente por baixo ou que o outro não tem tanto poder quanto pensa (orgulho).

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Reitero que não se pode confundir o tipo que descrevo neste artigo com uma pessoa que conhece seus direitos de cidadã e procura exercê-los. Trata-se, nesse último caso, de uma questão de justiça, não de desforra. Não se percebe ressentimento, mas conciliação. O espírito competitivo dá lugar ao espírito colaborador. Há, enfim, muito mais cérebro que fígado. Geralmente, quem busca justiça para si também pensa no benefício direto ou indireto dos demais. O “credor do mundo”, ao contrário, costuma ser egoísta.

Conheci algumas pessoas assim e, de quando em vez, deparo com mais outras tantas. São bastante comuns na verdade. Nem sempre se pode identificá-las “a olho nu”. Uma observação mais atenta, porém, logo revela os sinais. Lá está mais um espécime da curiosa fauna dos “credores do mundo”. Segue garboso, autoconfiante, sorriso cínico. Ao menor sinal de ameaça, mostra as garras. Como o Rei da Selva, o “credor do mundo” é uma fera.

 

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Tempo, trampo e desencanto.

Uma hora, a gente se cansa. É muita luta. O mundo não para. A gente não para. Não sobra tempo nem sequer para pensar no que a gente tanto faz e por que faz tanto. Se ao menos esse trabalho todo mostrasse resultados que nos entusiasmassem, não seria tão mal. Só que, muitas vezes, a luta pela sobrevivência tem fim em si mesma. Não traz nada de mágico, sobrenatural, fantástico. Isso gera um desencanto!

 

“The Sower with Setting Sun”, 1888, Vincent van Gogh.

 

Pessimismo? Um pouco. Evidentemente, enxergo as cores da vida. Nem tudo é cinza. Reconheço que há momentos de prazer. A questão é: por que eles são tão pouco frequentes? Ou, dito de outra forma, por que não são muito mais frequentes? Arrisco um palpite. O ser humano organizou-se em função da própria sobrevivência. Comer, beber, vestir-se, além de alimentar e criar a prole, obrigaram a humanidade, em algum momento, a “ir atrás”, a ganhar o pāo com o suor do próprio rosto. Ao lazer restou o tempo que sobrou da luta pela subsistência.

Sim, estou ciente de que há gente que sente prazer no esforço diário pelo próprio sustento e o sustento daqueles que mantém. Em outras palavras, há quem encontre prazer no trabalho. Nesse caso, o lazer vem somente complementar a satisfação da labuta. Felizes esses! Estou certo, porém, de que não são a maioria. Quem, por exemplo, precisa madrugar, assear-se, vestir-se, comer algo e caminhar ou correr até um ponto de ônibus para deslocar-se ao trabalho onde um chefe severo passa o dia fazendo cobranças, tem sentimento bem diferente.

 

“Harvest in Provence”, 1888, Vincent van Gogh.

 

Claro está que associo lazer e prazer ao mesmo tempo em que admito a existência de muitas pessoas que encontram prazer no trabalho, embora elas não sejam maioria. Esse é o resumo do que afirmei até aqui. Agora, retomo ideias do primeiro parágrafo deste texto para explorá-las melhor.

Afirmo que a gente se cansa. Mesmo os que gostam do próprio trabalho se cansam física e mentalmente. Amam as férias. Há, porém, um cansaço mais profundo, por assim dizer. É o cansaço da luta diária pela sobrevivência em um mundo injusto. É o cansaço diante de um estilo e de um ritmo de vida estressantes. Independentemente de se gostar ou não do próprio ofício, esse tipo de fadiga aparece mais cedo ou mais tarde.

O fato de trabalhar muito — como a maioria das pessoas que conheço — também pode gerar desencanto se quem se esforça não vir resultados práticos de seu empenho, se não sentir que o fruto de seu suor faz alguma diferença. Outro fator de desencanto que tenho observado é a falta de tempo para se refletir sobre o próprio trabalho: o que faço vale a pena, a forma como executo minhas funções é a melhor, por que tomo sempre esse tipo de decisão e não ouso mais? Há numerosas indagações possíveis.

 

“Vincent’s Chair with his Pipe”, 1888, Vincent van Gogh.

 

Acredito que, com este artigo, desagradarei àqueles que amam sua profissão e a exercem com êxito e alegria (não necessariamente nessa ordem). Poderão argumentar que nunca sentem esse desencanto a que me refiro porque gostam do que fazem e sentem tanto prazer no trabalho quanto no lazer. Cansam-se, realmente, mas acham que o cansaço compensa. Está bem. Acredito nisso. De qualquer forma, desafio qualquer uma dessas pessoas a fazer uma autoanálise profunda e a se indagar se continuariam trabalhando tanto se ganhassem muito dinheiro em uma loteria. Alguns diriam que jamais deixariam de trabalhar, e eu responderia com mais perguntas: do mesmo jeito, a mesma quantidade de dias e horas? Duvido! Poderia até haver exceções, mas essas confirmariam a regra. Essa, pelo menos, é minha aposta.

Aceito contribuições a esta breve reflexão, concordantes ou discordantes. Meu objetivo com este blog nunca foi lançar ideias feitas, imutáveis. Gosto de ouvir contrapontos, críticas e, claro, elogios também, sobretudo se bem fundamentados. Até breve!

 

 

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O futuro já era!

Um dia, vivi a ilusão de que a humanidade andava para a frente. Minha ideia de futuro era a de um mundo mais liberal em termos de comportamento, mais responsável no aspecto ambiental e mais sofisticado do ponto de vista das artes. Previa que as metrópoles, inclusive no Brasil, fossem parecidas com Amsterdã, Berlim ou Nova York, ou seja, cosmopolitas, onde imperariam diversidade cultural, oportunidades, desenvolvimento de uma consciência ecológica, liberdade e certo glamour.  Ledo engano! Não é o que tenho visto, pelo menos por aqui. Bem ao contrário, aliás!

aerial architecture blue sky buildings

Foto por Lukas Kloeppel em Pexels.com

O que tenho observado em parte do mundo e no Brasil (prefiro me limitar, a partir daqui, a meu país) é, em certo sentido, um retrocesso. Seguirei por partes.

Música. O que mais faz sucesso hoje entre os jovens brasileiros? No século 20, talvez ninguém apostasse que, no 21, seriam o sertanejo (especialmente o chamado sertanejo universitário) e o funk carioca. O rock e o pop estão em segundo plano. Resistem bravamente, claro, mas não é o que a gente mais ouve nas festas. A música eletrônica tampouco chega a ser mainstream. O eletropop, muitas vezes, cede à tentação do funk e faz mixagens dos hits mais ouvidos desse gênero musical. Ignoremos a música erudita, pobrezinha! Quase não tem vez por aqui.

Talvez alguém argumente: o funk é ousado, inovador, tem letras sensuais, provocativas. Pode ser. Mas isso faz dele realmente um som ultramoderno? Sua batida nada tem de revolucionário, e a maioria de suas letras exalta um sensualismo barato que, ainda por cima, como dizem algumas feministas, “objetifica a mulher”. O funk reverbera também a violência presente, sobretudo, nas favelas das grandes cidades, convertendo miséria humana em entretenimento. Até que ponto esse ritmo contribui para a banalização da violência e do sexo é uma questão em aberto.

several people at a party

Foto por Wendy Wei em Pexels.com

Vou a festas da classe A em que o funk faz rebolar até o chão jovens que provavelmente nunca pisaram um morro apinhado de casebres e certamente só sabem da existência de balas perdidas porque, de vez em quando, ouvem falar delas nos telejornais. Se o funk conscientiza alguém? Duvido muito. No máximo, enriquece meia dúzia de compositores oriundos da extrema pobreza, mantendo na miséria a esmagadora maioria que lhes serve de inspiração. Quer algo mais conservador que isso?

Quanto ao sertanejo… Preciso mesmo me alongar? Basta resgatar suas origens: o campo, o meio rural. Nada contra. Gosto muito de fazendas, sítios, chácaras. A questão é: por que esse gênero musical, especialmente seu subgênero mais conhecido como sertanejo universitário, ganhou mentes e corações nas metrópoles? O ritmo é quase sempre lento, arrastado. As letras remetem a dores de amor. São, muitas vezes, narrativas musicadas de paixões primitivas: ciúmes, traições, vinganças. Assim como no funk, referem-se sempre a relações heterossexuais, e a representação da mulher raramente é digna de orgulho (ainda que a figura feminina geralmente apareça como alvo do desejo e da paixão masculina).

Abro parêntese aqui. Nada contra a existência em si do funk ou do sertanejo universitário. Nada contra esses gêneros terem algum espaço na cena musical brasileira (apesar das muitas restrições que tenho a eles). Nada contra pessoas que apreciam esses tipos de música. O que me chama a atenção e me incomoda é o fato de o funk e o sertanejo predominarem, serem mainstream, inclusive e principalmente nas grandes cidades, onde supostamente deveriam habitar cidadãs e cidadãos do mundo, gente mais crítica, exigente, aberta à inovação, à experimentação, à vanguarda. Isso realmente me intriga porque me iludi com a ideia de que haveria um progresso nesse sentido. Esperava uma trilha sonora bem diferente para as metrópoles do século 21. Fecho parêntese.

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La Maja Desnuda, Francisco Goya (1746-1828).

Artes plásticas.  A “caretice” também atingiu as artes plásticas no Brasil. Acertou-as em cheio de duas formas: censura à irreverência e louvor à banalidade. No caso da repressão à ousadia, fico aqui pensando: como seria recebida hoje a célebre pintura “La Maja Desnuda”, do espanhol Francisco Goya (1746-1828)? Baseado em noticiário recente sobre a reação de expressiva parte da sociedade brasileira a certas manifestações de arte contemporânea, estou seguro de que, nas redes sociais, abundariam impropérios contra a obra de Goya. Muitos diriam que o artista desperdiçou seu talento com pornografia. A pintura, do fim do século 18, está entre as obras primas da arte espanhola e ocupa lugar de destaque no famoso Museu do Prado, em Madri. Hoje, ao menos no Brasil, renderia polêmicas e indignação semelhante à dos inquisidores espanhóis que quase deram cabo de Goya por sua audácia.

No que diz respeito à valorização da banalidade, suficiente é citar o retumbante êxito de mercado do brasileiro Romero Britto. A despeito da defesa que alguns ainda fazem dele, parece-me óbvio que ele está mais para artista gráfico do que para artista plástico. Tem seu valor como autor de desenhos alegres, coloridos, de fácil absorção e reprodução, mas dificilmente conquistará a crítica especializada e colecionadores de arte mais exigentes, connoisseurs, habituados a uma produção intelectualmente mais sofisticada e original. A obra de Britto está para as artes plásticas mais ou menos como os gibis da Turma da Mônica estão para a literatura.

Comportamento. Abordo agora o aspecto dos costumes. Se, nas artes, a vanguarda está praticamente escondida em galerias e museus de visitação restrita a uma elite intelectualizada, no âmbito do comportamento, ela parece ainda mais distante. Talvez soe equivocado dizer isso quando um passeio pelos Jardins, em São Paulo, ou uma novela das nove na Globo me desmente com a presença desinibida de casais gays, mulheres emancipadas, negras e negros em postos de comando (assim mesmo, com frequência limitada). Acontece que isso se restringe a parcela da sociedade brasileira. Uma minoria corajosa (ou que tem condições para isso) se manifesta, se expõe, se permite ser ela mesma e realizar seu potencial. A maioria se esconde, tem medo, é alvo de agressões e, não raramente, busca refúgio no isolamento, na hipocrisia ou no autoengano. Há mesmo quem cometa suicídio por ser como é.

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Foto por Brett Sayles em Pexels.com

Fora do showbiz e das avenidas e shopping centers das megalópoles, ainda sofrem de preconceito e discriminação milhares de LGBTI, mulheres (sobretudo negras e pobres), pessoas “de cor”, entre outros grupos. Muita gente se poda, deixa de viver um amor por medo, interrompe uma carreira por baixa autoestima, abandona os estudos por se sentir “peixe fora d’água” ou sofrer bullying no ambiente escolar. Posso ir mais longe e lembrar os crimes contra esses e outros segmentos populacionais.

A intolerância à diversidade entrou século 21 adentro. Nem mesmo a indiferença ao diferente predomina. O desprezo pelo diverso de si ainda impera num mundo tecnologicamente avançado e sempre avançando. Reina o contraste entre uma mentalidade medieval e um ambiente às vezes semelhante a uma ficção científica.

Peles tatuadas, piercings, cabelos arrepiados, pernas e peitos nus em público, sexo livre entre adolescentes e jovens, preservativos e contraceptivos de fácil acesso, drogas sintéticas e semi-sintéticas em abundância, nada disso representa uma sociedade verdadeiramente avançada, vanguardista, libertária, “cabeça aberta”.  De perto, a maioria é “careta”. Ao menos é o que concluo de minha própria experiência. Convivo com jovens, adultos, idosos. Mesmo os que estão na faixa dos 20 aos 30 anos de idade parecem mais inclinados a valores e escolhas tradicionais. Não por acaso, elegem governantes que defendem esses mesmos princípios e opções.

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Foto por Irina Kostenich em Pexels.com

Meio ambiente. Quando se trata de consciência ambiental, confesso que também esperava mais avanços no século 21. Apesar do heroísmo dos que promovem campanhas pelo fim do uso excessivo do plástico e lutam pela sobrevivência da fauna em risco de extinção; a despeito do aumento da exploração de fontes alternativas de energia e do estímulo ao uso de bicicletas, entre outras iniciativas admiráveis, inclusive por parte de governos de muitos países; noto que o colapso do meio ambiente segue mais rápido.

No plano individual, por assim dizer, observo o antitabagismo recuando no Brasil, a se crer na quantidade de jovens que fumam, muito mais elevada que a da geração imediatamente anterior. Admito que não disponho de dados, mas acho improvável minha observação estar muito distante da realidade.

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Foto por XU CHEN em Pexels.com

Moro em Brasília. A capital modernista, a cidade de arquitetura irreverente, a sede do poder do maior país da América Latina abriga ávidos concurseiros e privilegiados concursados, promissores comerciantes e ricos proprietários, novos e velhos políticos, gente que sua e gente que suga, quase todos comprometidos com um Brazilian way of life que em nada lembra a promessa dos ousados movimentos estéticos de vanguarda, dos “poetas malditos”, dos aristocratas da Belle Époque, dos modernistas da Semana de 22, dos hippies e beatniks, dos pioneiros do rock, dos clubbers, dos góticos, dos ecologistas, dos caras-pintadas.

Foi ilusão minha achar que o Brasil estaria mais livre, leve e solto no século 21. Como em diversas partes do mundo, parece ter voltado no tempo. É quase certo, aliás, que partirei desta para melhor sem ver minha cidade tão cosmopolita quanto uma Amsterdã, uma Berlim, uma Nova York. Quem sabe em outra encarnação?…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Patrulha política.

No Brasil, tenha ou não candidato ou candidata à Presidência da República, à Câmara dos Deputados, ao Senado Federal, ao Governo do Estado ou do DF ou a qualquer outro cargo eletivo, você tem o direito a manter seu voto em sigilo, até porque, por lei, o ato de votar é secreto. As pessoas aqui podem manifestar suas preferências eleitorais ou optar por guardá-las para si, e ninguém, na cabine de votação, pode fiscalizar sua escolha. Há, no entanto, quem tenha restrições a esse direito e exija abertamente posicionamento político.

Para muita gente, o silêncio na política é ofensivo, principalmente nas eleições deste ano, que muitos especialistas consideram acentuadamente “polarizadas”. Cobra-se, no mínimo, que você declare em quem não vai votar, e essa cobrança nem sempre é sutil. Pode até ser agressiva. No caso de celebridades, ganha tons de ameaça, desprezo, boicote. A cantora Anitta que o diga!

 

Anitta

Cantora Anitta em foto de seu perfil no Twitter.

 

Posso compreender essa cobrança, mas discordo dela. Em primeiro lugar, porque é, de fato, um direito (independentemente de estar na lei) da pessoa optar por manter seu voto em sigilo. Em segundo, porque, justamente em vista da tal polarização, parece-me razoável muita gente preferir não entrar em briga. Em terceiro, sinto cheiro de autoritarismo quando alguém se acha no direito de cobrar posicionamento político. Um dia, isso se chamou patrulha ideológica. Patrulha, sabe-se, não combina com liberdade.

Compreendo a cobrança no sentido de que, no atual momento político brasileiro, a defesa de determinados direitos faz diferença. Nada impede, porém, uma pessoa de continuar defendendo esses direitos e, ainda assim, manter seu voto em sigilo. Vou mais longe. Por que uma pessoa tem de necessariamente escolher esse ou aquele candidato, essa ou aquela candidata, para provar algo a alguém ou a um grupo? Chega a ser curioso e até paradoxal — ou talvez sintomático mesmo — que essa patrulha se dê justamente quando mais se discute democracia e, muitas vezes, por quem mais usa essa palavra.

 

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Vale lembrar que a questão de se posicionar em público tem dois aspectos: 1) a pessoa pode não se manifestar publicamente e fazer isso em um círculo íntimo, com quem se sinta mais à vontade, portanto não se trata de alienação, mas de discrição, reserva ou algo semelhante; 2) não escolher é uma escolha, então perde sentido a acusação de “isentão” ou “isentona” para quem optou por não escolher, afinal, na maioria das assembleias e espaços similares, há sempre a alternativa da abstenção, justamente para contemplar aqueles que estão em dúvida ou recusam as opções apresentadas. Parece-me legítimo, portanto, recusar-se a votar ou a declarar o voto.

Por último, permito-me fazer uma crítica ao comportamento bovino. O fato de haver duas, três ou quatro manadas, pouco importa. Parece-me “bovino” seguir uma delas por obrigação. Quem quiser ir só, em silêncio, “na sua”, deve ter esse direito. Ponto.

 

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Quando se trata de política, você, hoje um eleitor ou uma eleitora, amanhã vai ser uma espécie de cúmplice de seu candidato ou de sua candidata. Porque ele ou ela inevitavelmente vai errar, vai fazer besteira. Claro que também vai acertar. Mas você pode achar, aqui e agora, que são bem mais elevadas as chances de os candidatos ou as candidatas “do cardápio” errarem do que de acertarem. Daí, não quer ver nenhum ou nenhuma no palco político. Direito seu. Ponto final.

O verdadeiro democrata respeita escolhas — sem patrulhamento, sem imposições.

 

 

 

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