Quando bate a saudade…

A gente se desentende. A gente termina. A gente sofre. Para quê? Sofrer mais depois? O problema é que, muitas vezes, manter uma relação tem preço alto demais. Custa tolerância, paz, dignidade. Há que pague qualquer preço. Feliz ou infelizmente, não sou desses.

É preciso conhecer e respeitar os próprios limites. Um, dois, três, dez chifres? Um, dois, três, dez vexames? Uma, duas, três, dez ofensas? Cada caso é um caso, e cada um sabe de si. Há situações desagradáveis que não tolero mais de uma vez, e outras que me são indiferentes.

Quando a gente opta pela separação porque refletiu a respeito e concluiu que esse é o melhor caminho, a gente tem o suporte da razão e costuma se manter firme mais tempo – ou definitivamente. Já quando a gente se separa porque “explodiu”, a gente está ancorado na emoção, e essa decisão geralmente não sobrevive à primeira crise de saudade.

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Seja como for, a dor fica. O tempo em que ela permanece também varia de pessoa para pessoa, mas todo o mundo sabe que se separar machuca, principalmente quando a separação não se deu por falta de amor. A saudade é inevitável, inclusive para quem se apoiou na razão para colocar um ponto final no relacionamento. Quem agiu por impulso… Não preciso nem dizer!

Quando bate a saudade, a gente logo esquece os maus momentos. Vêm à cabeça os abraços, os beijos, os passeios, os diálogos. Tudo, de repente, parece um sonho perfeito. Nele, não existem decepções, surpresas desagradáveis, palavras duras. É ou não assim? Para mim, é. Sempre foi.

A saudade faz a gente querer procurar. É forte a tentação de uma mensagem, uma ligação, até mesmo uma visita. Sobrevive a esperança de que tudo se encaixe novamente, os conflitos desapareçam, as diferenças se reduzam. Se a relação tinha mais momentos felizes que infelizes, a gente sofre mais.

Racional, a gente se mantém firme. Pensa que não vale a pena fraquejar. Não é a hora. Talvez mais adiante. Agora é cedo. Por isso, nesses momentos, o álcool pode ser arriscado. Prefiro evitá-lo ou reduzi-lo a doses “administráveis”. Recomendo o mesmo a quem está seguro de que a separação é o melhor naquele momento.

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Outro desafio para os casais recém-separados é o ciúme. Imaginar a outra pessoa acompanhada é um mecanismo de tortura. Mesmo que a gente tenha certeza de que o amor persiste, dói pensar que… Não preciso explicar o óbvio. Para que se martirizar?

De repente, uma mensagem na tela do celular. Feliz Natal ou Feliz Ano Novo ou Feliz Aniversário… Tanto faz. Bastam duas ou três palavrinhas para você lembrar que a outra parte obviamente se recorda de você também. Pode ser um mero gesto de educação, de cordialidade. Mesmo assim, você pensa: ela/e se lembrou em mim. Nem tudo está perdido.

A verdade é que a gente nunca tem certeza de nada. Não sabe se a outra parte está com saudade também ou se a gente já se tornou indiferente para ela a ponto de ter ficado fácil enviar uma mensagem cortês em uma data especial. O jeito é fazer de conta, para si mesmo, que não deu muita importância a esse repentino gesto de cortesia.

Dentro da gente, as tábuas de salvação de sempre: amor próprio, dignidade, racionalidade. Quem terminou por impulso, claro, costuma buscar outras saídas: chorar, beber com amigas/os, sair por aí beijando mil bocas. Como quer que seja, a saudade dói. Haja força! Haja força!

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O vício em séries de TV.

Quem nunca? Quem nunca passou um fim de semana inteiro maratonando séries de televisão? Eu, você, ela, ele, nós, vocês, elas, eles. Todo o mundo. É difícil resistir ao gigantesco leque de opções de narrativas cativantes – ainda mais nestes tempos de distanciamento social, quando o lazer está restrito.

Se você tem um gosto eclético, como eu, aí mesmo é que a tentação se torna irresistível. Ação, comédia, drama, documentário, suspense, o que me importa é a capacidade da série de prender minha atenção. Confesso que engulo até algumas porcarias. Afinal, para me distrair, vale (quase) tudo.

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Ao longo dos anos, a variedade e a qualidade vêm melhorando. Deve ser a experiência com esse formato, um dia preso às limitações da TV aberta. Os serviços de streaming abriram as portas para um mundo de alternativas. Uma das vantagens, além da multiplicação de títulos, é que ninguém precisa mais esperar uma semana para ver o capítulo seguinte das séries favoritas – ainda que hoje seja necessário aguardar a próxima temporada. Para isso, há a saída de optar por aquelas que já tenham ao menos 3 temporadas disponíveis.

Eis onde entra o vício. Você não se segura. Quer ver mais um episódio e mais um e mais um… Passa horas diante da TV e não sente o tempo correr. Às vezes, fico um domingo inteiro grudado na televisão. Só paro quando vou ao banheiro ou desço ao térreo para buscar a comida que pedi via iFood ou Uber Eats. Sinal dos tempos.

Quem vive essa experiência sabe também que um dos desafios do “vício” em séries de TV é escolher qual delas assistir naquele dia, naquele momento. Pois isso envolve clima. Você pode estar deprimido e querer se alegrar – ou o contrário: ver algo condizente com sua tristeza. Daí que você pode estar adorando uma série de ação, como “Vikings”, mas preferir assistir a “13 Reasons Why”. Quando a “bad” passa, você pode estar no clima de algo mais divertido e inverossímil, como “Dynasty”, que aliena você de tudo e, conforme seu tipo de humor, faz você rachar o bico.

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Agora, há dias em que estou realmente propenso à reflexão. Quero algo que desafie o raciocínio. Sinto que, se eu vir uma série só por distração, estarei perdendo tempo. É quando escolho documentários, como “The Social Dilemma”, sobre o impacto negativo das redes sociais em nossas vidas, ou “Behind the Curve”, a respeito das absurdas teorias terraplanistas, entre outros tantos títulos disponíveis na Netflix, na Amazon Prime ou na Globoplay, para me limitar aos serviços de streaming a que tenho acesso.

Se estou no clima realista, mas não a ponto de ver um documentário, opto por narrativas pouco ou nada fantasiosas. É o caso de “Fauda”, uma de minhas séries favoritas. Retrata o conflito entre árabes e israelenses de maneira crua e ao mesmo tempo cativante. Há muita violência, mas não gratuita. “Bloodline” também se encaixa nesse perfil, só que sem o viés político. Relata a tragédia da fictícia família Rayburn.

Algo que sempre me atraiu nessas séries de TV do século 21 é a possibilidade de viajar pelo mundo inteiro sem sair de casa. Durante a infância e a adolescência, sempre questionava por que diabos só havia seriados americanos na televisão. Cresci vendo exclusivamente o que, à época, chamavam-se enlatados. Explicava-se que levavam essa denominação em sentido pejorativo porque as emissoras de TV brasileiras, quando adquiriam um programa norte-americano de elevada audiência, eram obrigadas a comprar junto um pacote de filmes e séries de qualidade inferior. Daí que consumíamos aqueles “enlatados” sem saber que nos eram impostos pela indústria de entretenimento do Tio Sam. Hoje, felizmente, temos acesso a filmes e séries da Islândia à Coreia do Sul, da Argentina à Turquia.

Fauda - Caos no Oriente Médio - Conexão Israel

Na adolescência, também fiquei fã de várias séries televisivas. Só que, naqueles tempos, não havia a mesma quantidade de opções. Então, o jeito era se contentar com aquelas doses semanais de duas ou três delas – sem contar que as telenovelas sempre fizeram sombra aos “enlatados”. Eles eram divertidos, mas não tão sedutores quanto o produto nacional, exibido todos os dias.

É interessante notar que muitas das séries que a gente ama poderiam perfeitamente render um único filme. Não precisariam de três, quatro, cinco temporadas. Mas curiosamente a gente se prende nessa enrolação, aceita morder a isca e, de gancho em gancho, ir consumindo episódios e mais episódios, alguns absolutamente desnecessários. Eis onde entra o “vício”. A gente simplesmente não consegue parar. Quer conhecer o desfecho de cada personagem e, por fim, da trama inteira.

A verdade é que a maioria dos truques para prender nossa atenção, que a esmagadora maioria das séries de TV utiliza, já existe há séculos. Eles vêm do teatro, da literatura. A narrativa entregue pouco a pouco já está presente em “As Mil e Uma Noites” (compiladas em árabe a partir do século 9), e o romance-folhetim do século 19 grudava em suas páginas, durante meses a fio, os olhos das moças alfabetizadas. As telenovelas são herdeiras desse modelo narrativo, que antes passou pelo rádio.

Livro das Mil e Uma Noites – Volume 2

O suspense que um capítulo (ou episódio) deixa no ar, as peripécias envolvendo os personagens, as surpresas, as coincidências, as reviravoltas, tudo isso está presente no teatro e na literatura mais antigos. Hoje em dia, porém, temos imagens coloridas em movimento, atores e atrizes “estelares”, efeitos especiais, sonoplastia, enfim recursos dramáticos e tecnológicos impossíveis no papel.

Fato é que a narrativa nos fascina desde a infância da humanidade e desde que, pequeninos, ouvimos nossas mães ou pais ou avós relatarem histórias para dormirmos. O que me preocupa hoje é esse mesmo fascínio pelas séries de TV estar nos afastando dos livros. Afinal, a televisão nos oferece tudo “mastigado”. Não precisamos usar muito a imaginação, menos ainda recorrer ao dicionário. Vem tudo pronto. Não se aprende tanto assim. Os livros ainda guardam o segredo do conhecimento mais profundo.

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Amizade e angústia.

Quando a gente pensa em amizade, costuma vir à cabeça a ideia de companheirismo, parceria, cumplicidade, apoio. Raramente ocorrem imagens de dor, abandono, frustração, angústia. A verdade é que numa amizade tudo se mistura. Assim como a maus momentos podem suceder alegrias, expectativas podem trazer decepções. Da mesma forma, aquela agradável sensação de bem-estar pode, de repente, virar profunda angústia. Enfim, amigos podem se tornar meros conhecidos ou mesmo inimigos. O que transforma o vinho em vinagre? Depende. De quê? Eis a questão de que pretendo tratar brevemente aqui, com uma abordagem bem pessoal: a aflição que certos amigos me causaram.

Foto por Brett Sayles em Pexels.com

Considero-me sortudo no campo da amizade. Não me faltam amigas e amigos. Digo que tenho sorte, mas, na verdade, ninguém caiu ou cai do céu nos meus braços. Faço minha parte. Invisto nas relações que julgo valer a pena. Talvez a sorte esteja no fato de meu investimento quase sempre dar retorno. No mais, haja suór, haja construção! Relações humanas dão trabalho. Todo o mundo sabe disso.

No que me diz respeito, vejo como mais desgastante numa amizade a tentativa frustrada de abrir os olhos de um amigo. É duro você enxergar o que ele não consegue ou não quer ver. É mais difícil ainda passar pela experiência de ver o amigo se magoar e até se afastar de você justamente porque você está tentando abrir os olhos dele. Às vezes, nada do que você diz ou faz adianta. O amigo quer seguir aquele caminho, e tentar impedi-lo pode ser pior. Muitas vezes, seu alerta até o incentiva a tomar determinado rumo, seja por teimosia, seja pela vontade de provar independência.

Já passei por várias situações assim, mas relatarei apenas duas:

  • O amigo se apaixonou por uma pessoa não confiável. Ficou tão cego que preferiu duvidar de minha amizade a acreditar no risco de estar metido em uma roubada. No caso, a cegueira da paixão combinou-se com o amor próprio. Dar o braço a torcer? Jamais! Observar melhor a “pessoa amada”? Nem pensar! E o medo de se decepcionar e cair das nuvens?
  • O “brother” descobriu o álcool. Sóbrio, tinha vida admirável. Sob efeito de bebida, convertia-se em um louco. Depois, encantou-se por outras drogas. Ficou pior. Nesse caso, nunca se voltou contra mim (a não ser quando estava à base de “aditivos”, e eu tentava contê-lo), mas simplesmente ignorava meus constantes pedidos para que moderasse. Lúcido, dava-me sempre razão e prometia interromper suas perigosas aventuras, mas, uma vez embriagado, esquecia tudo o que havia prometido. Virava um bicho. Algumas vezes, com muito esforço, eu o contive. Outras, agi em vão. Na mais frustrante delas, voltei sozinho para casa e, apenas muitas horas depois, tive notícias dele. Passei a madrugada em claro, sem saber em que estado ele se encontrava.
Foto por Harrison Haines em Pexels.com

É preciso ter muita paciência para suportar situações como essas e outras, que não relatei aqui. Sinto profunda angústia nessas ocasiões. Sinto também frustração, impotência. O que fazer quando um amigo está cego? Desistir de abrir seus olhos? Com o tempo, sim, desisto, mas confesso que essa desistência tem um preço: minha decepção com o amigo e comigo mesmo. Afinal, gostaria de ter sido mais persuasivo, convincente. Bate aquela sensação de fracasso. Tudo isso é realmente angustiante.

Se o amigo quer pagar o preço de namorar ou se casar com uma pilantra, problema dele! Chegará o dia em que a vida lhe abrirá os olhos. Não é assim que a maioria pensa? Levo tempo até chegar a essa conclusão, mas acabo chegando, mais cedo ou mais tarde. Foi assim com um “brother” que não quis acreditar em mim quando o alertei para o fato de a namorada estar, claramente, pronta a aplicar nele o velho “golpe da barriga”. Não me ouviu uma, duas, dez vezes. Desisti. Só depois de, muito a contragosto, ele virar pai, despertou do sono. Por fim, “caiu da cama” quando se deu conta de que a jovem por quem havia se apaixonado queria lhe arrancar todos os centavos do bolso. Paga pensão alimentícia até hoje, embora os dois pombinhos não dividam o mesmo teto.

Sabe o que é pior? Quando o amigo é teimoso, mesmo que você o desculpe, a decepção fica. Até porque o desapontamento vai além do fato de o amigo não ter ouvido você. É também com a inteligência dele que você se decepciona. Afinal, no fundo, no fundo, você esperava que seu amigo fosse mais esperto.

Foto por cottonbro em Pexels.com

No caso do amigo dupla face (sóbrio/alucinado), a questão é um pouco mais complexa. Você não quer que o sujeito se dê mal. Desistir dele pode significar vê-lo viciado, ferido, abusado, acidentado, preso, trapaceado, roubado ou – bate na madeira! – morto. Tudo pode acontecer com uma pessoa inconsciente. Como virar as costas para um amigo assim? Admito que tenho dificuldade. Prefiro insistir. Se, a despeito de todo o meu esforço, ele preferir continuar fraquejando diante da bebida e de outras substâncias e acabar se dando mal, ele saberá (e eu também) que não foi por falta de boa vontade de minha parte. De toda forma, bate em mim a sensação de estar solitário na amizade, ou seja, remando sozinho, enquanto o outro se deixa levar.

Talvez a leitora ou o leitor esteja se perguntando: “E você? Nunca frustrou amigas ou amigos? Nunca decepcionou? Nunca foi causa de angústia para uma ou mais pessoas de seu círculo?” Para ser sincero, sim. Conheço os dois lados do balcão. Já dei dor de cabeça e já tive dor de cabeça. Por isso mesmo, uso termos como angústia, frustração, decepção. Não cito ódio, raiva, mágoa. Sou do tipo que perdoa com certa facilidade, pois reconheço que, muitas vezes, também precisei de perdão e talvez venha a precisar outras tantas. Em todo caso, tenho me esforçado comigo mesmo também. Acho que dou bem menos trabalho para meus amigos hoje do que dei um dia.

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