O futuro já era!

Um dia, vivi a ilusão de que a humanidade andava para a frente. Minha ideia de futuro era a de um mundo mais liberal em termos de comportamento, mais responsável no aspecto ambiental e mais sofisticado do ponto de vista das artes. Previa que as metrópoles, inclusive no Brasil, fossem parecidas com Amsterdã, Berlim ou Nova York, ou seja, cosmopolitas, onde imperariam diversidade cultural, oportunidades, desenvolvimento de uma consciência ecológica, liberdade e certo glamour.  Ledo engano! Não é o que tenho visto, pelo menos por aqui. Bem ao contrário, aliás!

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Foto por Lukas Kloeppel em Pexels.com

O que tenho observado em parte do mundo e no Brasil (prefiro me limitar, a partir daqui, a meu país) é, em certo sentido, um retrocesso. Seguirei por partes.

Música. O que mais faz sucesso hoje entre os jovens brasileiros? No século 20, talvez ninguém apostasse que, no 21, seriam o sertanejo (especialmente o chamado sertanejo universitário) e o funk carioca. O rock e o pop estão em segundo plano. Resistem bravamente, claro, mas não é o que a gente mais ouve nas festas. A música eletrônica tampouco chega a ser mainstream. O eletropop, muitas vezes, cede à tentação do funk e faz mixagens dos hits mais ouvidos desse gênero musical. Ignoremos a música erudita, pobrezinha! Quase não tem vez por aqui.

Talvez alguém argumente: o funk é ousado, inovador, tem letras sensuais, provocativas. Pode ser. Mas isso faz dele realmente um som ultramoderno? Sua batida nada tem de revolucionário, e a maioria de suas letras exalta um sensualismo barato que, ainda por cima, como dizem algumas feministas, “objetifica a mulher”. O funk reverbera também a violência presente, sobretudo, nas favelas das grandes cidades, convertendo miséria humana em entretenimento. Até que ponto esse ritmo contribui para a banalização da violência e do sexo é uma questão em aberto.

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Foto por Wendy Wei em Pexels.com

Vou a festas da classe A em que o funk faz rebolar até o chão jovens que provavelmente nunca pisaram um morro apinhado de casebres e certamente só sabem da existência de balas perdidas porque, de vez em quando, ouvem falar delas nos telejornais. Se o funk conscientiza alguém? Duvido muito. No máximo, enriquece meia dúzia de compositores oriundos da extrema pobreza, mantendo na miséria a esmagadora maioria que lhes serve de inspiração. Quer algo mais conservador que isso?

Quanto ao sertanejo… Preciso mesmo me alongar? Basta resgatar suas origens: o campo, o meio rural. Nada contra. Gosto muito de fazendas, sítios, chácaras. A questão é: por que esse gênero musical, especialmente seu subgênero mais conhecido como sertanejo universitário, ganhou mentes e corações nas metrópoles? O ritmo é quase sempre lento, arrastado. As letras remetem a dores de amor. São, muitas vezes, narrativas musicadas de paixões primitivas: ciúmes, traições, vinganças. Assim como no funk, referem-se sempre a relações heterossexuais, e a representação da mulher raramente é digna de orgulho (ainda que a figura feminina geralmente apareça como alvo do desejo e da paixão masculina).

Abro parêntese aqui. Nada contra a existência em si do funk ou do sertanejo universitário. Nada contra esses gêneros terem algum espaço na cena musical brasileira (apesar das muitas restrições que tenho a eles). Nada contra pessoas que apreciam esses tipos de música. O que me chama a atenção e me incomoda é o fato de o funk e o sertanejo predominarem, serem mainstream, inclusive e principalmente nas grandes cidades, onde supostamente deveriam habitar cidadãs e cidadãos do mundo, gente mais crítica, exigente, aberta à inovação, à experimentação, à vanguarda. Isso realmente me intriga porque me iludi com a ideia de que haveria um progresso nesse sentido. Esperava uma trilha sonora bem diferente para as metrópoles do século 21. Fecho parêntese.

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La Maja Desnuda, Francisco Goya (1746-1828).

Artes plásticas.  A “caretice” também atingiu as artes plásticas no Brasil. Acertou-as em cheio de duas formas: censura à irreverência e louvor à banalidade. No caso da repressão à ousadia, fico aqui pensando: como seria recebida hoje a célebre pintura “La Maja Desnuda”, do espanhol Francisco Goya (1746-1828)? Baseado em noticiário recente sobre a reação de expressiva parte da sociedade brasileira a certas manifestações de arte contemporânea, estou seguro de que, nas redes sociais, abundariam impropérios contra a obra de Goya. Muitos diriam que o artista desperdiçou seu talento com pornografia. A pintura, do fim do século 18, está entre as obras primas da arte espanhola e ocupa lugar de destaque no famoso Museu do Prado, em Madri. Hoje, ao menos no Brasil, renderia polêmicas e indignação semelhante à dos inquisidores espanhóis que quase deram cabo de Goya por sua audácia.

No que diz respeito à valorização da banalidade, suficiente é citar o retumbante êxito de mercado do brasileiro Romero Britto. A despeito da defesa que alguns ainda fazem dele, parece-me óbvio que ele está mais para artista gráfico do que para artista plástico. Tem seu valor como autor de desenhos alegres, coloridos, de fácil absorção e reprodução, mas dificilmente conquistará a crítica especializada e colecionadores de arte mais exigentes, connoisseurs, habituados a uma produção intelectualmente mais sofisticada e original. A obra de Britto está para as artes plásticas mais ou menos como os gibis da Turma da Mônica estão para a literatura.

Comportamento. Abordo agora o aspecto dos costumes. Se, nas artes, a vanguarda está praticamente escondida em galerias e museus de visitação restrita a uma elite intelectualizada, no âmbito do comportamento, ela parece ainda mais distante. Talvez soe equivocado dizer isso quando um passeio pelos Jardins, em São Paulo, ou uma novela das nove na Globo me desmente com a presença desinibida de casais gays, mulheres emancipadas, negras e negros em postos de comando (assim mesmo, com frequência limitada). Acontece que isso se restringe a parcela da sociedade brasileira. Uma minoria corajosa (ou que tem condições para isso) se manifesta, se expõe, se permite ser ela mesma e realizar seu potencial. A maioria se esconde, tem medo, é alvo de agressões e, não raramente, busca refúgio no isolamento, na hipocrisia ou no autoengano. Há mesmo quem cometa suicídio por ser como é.

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Foto por Brett Sayles em Pexels.com

Fora do showbiz e das avenidas e shopping centers das megalópoles, ainda sofrem de preconceito e discriminação milhares de LGBTI, mulheres (sobretudo negras e pobres), pessoas “de cor”, entre outros grupos. Muita gente se poda, deixa de viver um amor por medo, interrompe uma carreira por baixa autoestima, abandona os estudos por se sentir “peixe fora d’água” ou sofrer bullying no ambiente escolar. Posso ir mais longe e lembrar os crimes contra esses e outros segmentos populacionais.

A intolerância à diversidade entrou século 21 adentro. Nem mesmo a indiferença ao diferente predomina. O desprezo pelo diverso de si ainda impera num mundo tecnologicamente avançado e sempre avançando. Reina o contraste entre uma mentalidade medieval e um ambiente às vezes semelhante a uma ficção científica.

Peles tatuadas, piercings, cabelos arrepiados, pernas e peitos nus em público, sexo livre entre adolescentes e jovens, preservativos e contraceptivos de fácil acesso, drogas sintéticas e semi-sintéticas em abundância, nada disso representa uma sociedade verdadeiramente avançada, vanguardista, libertária, “cabeça aberta”.  De perto, a maioria é “careta”. Ao menos é o que concluo de minha própria experiência. Convivo com jovens, adultos, idosos. Mesmo os que estão na faixa dos 20 aos 30 anos de idade parecem mais inclinados a valores e escolhas tradicionais. Não por acaso, elegem governantes que defendem esses mesmos princípios e opções.

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Foto por Irina Kostenich em Pexels.com

Meio ambiente. Quando se trata de consciência ambiental, confesso que também esperava mais avanços no século 21. Apesar do heroísmo dos que promovem campanhas pelo fim do uso excessivo do plástico e lutam pela sobrevivência da fauna em risco de extinção; a despeito do aumento da exploração de fontes alternativas de energia e do estímulo ao uso de bicicletas, entre outras iniciativas admiráveis, inclusive por parte de governos de muitos países; noto que o colapso do meio ambiente segue mais rápido.

No plano individual, por assim dizer, observo o antitabagismo recuando no Brasil, a se crer na quantidade de jovens que fumam, muito mais elevada que a da geração imediatamente anterior. Admito que não disponho de dados, mas acho improvável minha observação estar muito distante da realidade.

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Foto por XU CHEN em Pexels.com

Moro em Brasília. A capital modernista, a cidade de arquitetura irreverente, a sede do poder do maior país da América Latina abriga ávidos concurseiros e privilegiados concursados, promissores comerciantes e ricos proprietários, novos e velhos políticos, gente que sua e gente que suga, quase todos comprometidos com um Brazilian way of life que em nada lembra a promessa dos ousados movimentos estéticos de vanguarda, dos “poetas malditos”, dos aristocratas da Belle Époque, dos modernistas da Semana de 22, dos hippies e beatniks, dos pioneiros do rock, dos clubbers, dos góticos, dos ecologistas, dos caras-pintadas.

Foi ilusão minha achar que o Brasil estaria mais livre, leve e solto no século 21. Como em diversas partes do mundo, parece ter voltado no tempo. É quase certo, aliás, que partirei desta para melhor sem ver minha cidade tão cosmopolita quanto uma Amsterdã, uma Berlim, uma Nova York. Quem sabe em outra encarnação?…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Patrulha política.

No Brasil, tenha ou não candidato ou candidata à Presidência da República, à Câmara dos Deputados, ao Senado Federal, ao Governo do Estado ou do DF ou a qualquer outro cargo eletivo, você tem o direito a manter seu voto em sigilo, até porque, por lei, o ato de votar é secreto. As pessoas aqui podem manifestar suas preferências eleitorais ou optar por guardá-las para si, e ninguém, na cabine de votação, pode fiscalizar sua escolha. Há, no entanto, quem tenha restrições a esse direito e exija abertamente posicionamento político.

Para muita gente, o silêncio na política é ofensivo, principalmente nas eleições deste ano, que muitos especialistas consideram acentuadamente “polarizadas”. Cobra-se, no mínimo, que você declare em quem não vai votar, e essa cobrança nem sempre é sutil. Pode até ser agressiva. No caso de celebridades, ganha tons de ameaça, desprezo, boicote. A cantora Anitta que o diga!

 

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Cantora Anitta em foto de seu perfil no Twitter.

 

Posso compreender essa cobrança, mas discordo dela. Em primeiro lugar, porque é, de fato, um direito (independentemente de estar na lei) da pessoa optar por manter seu voto em sigilo. Em segundo, porque, justamente em vista da tal polarização, parece-me razoável muita gente preferir não entrar em briga. Em terceiro, sinto cheiro de autoritarismo quando alguém se acha no direito de cobrar posicionamento político. Um dia, isso se chamou patrulha ideológica. Patrulha, sabe-se, não combina com liberdade.

Compreendo a cobrança no sentido de que, no atual momento político brasileiro, a defesa de determinados direitos faz diferença. Nada impede, porém, uma pessoa de continuar defendendo esses direitos e, ainda assim, manter seu voto em sigilo. Vou mais longe. Por que uma pessoa tem de necessariamente escolher esse ou aquele candidato, essa ou aquela candidata, para provar algo a alguém ou a um grupo? Chega a ser curioso e até paradoxal — ou talvez sintomático mesmo — que essa patrulha se dê justamente quando mais se discute democracia e, muitas vezes, por quem mais usa essa palavra.

 

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Vale lembrar que a questão de se posicionar em público tem dois aspectos: 1) a pessoa pode não se manifestar publicamente e fazer isso em um círculo íntimo, com quem se sinta mais à vontade, portanto não se trata de alienação, mas de discrição, reserva ou algo semelhante; 2) não escolher é uma escolha, então perde sentido a acusação de “isentão” ou “isentona” para quem optou por não escolher, afinal, na maioria das assembleias e espaços similares, há sempre a alternativa da abstenção, justamente para contemplar aqueles que estão em dúvida ou recusam as opções apresentadas. Parece-me legítimo, portanto, recusar-se a votar ou a declarar o voto.

Por último, permito-me fazer uma crítica ao comportamento bovino. O fato de haver duas, três ou quatro manadas, pouco importa. Parece-me “bovino” seguir uma delas por obrigação. Quem quiser ir só, em silêncio, “na sua”, deve ter esse direito. Ponto.

 

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Quando se trata de política, você, hoje um eleitor ou uma eleitora, amanhã vai ser uma espécie de cúmplice de seu candidato ou de sua candidata. Porque ele ou ela inevitavelmente vai errar, vai fazer besteira. Claro que também vai acertar. Mas você pode achar, aqui e agora, que são bem mais elevadas as chances de os candidatos ou as candidatas “do cardápio” errarem do que de acertarem. Daí, não quer ver nenhum ou nenhuma no palco político. Direito seu. Ponto final.

O verdadeiro democrata respeita escolhas — sem patrulhamento, sem imposições.

 

 

 

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O guarda belo.

Meu amigo W compartilhou comigo uma dúvida pouco modesta. “Fico aqui pensando o que me faz ser tão desejado pelas mulheres, por que elas ficam loucas (por mim)”, ele me disse por Whatsapp. Não mentia nem exagerava. Sou testemunha de que ele provoca suspiros por onde passa e parte corações onde para. Resolvi, então, entrar no jogo dele e fazer minhas apostas.

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Guarda Belo, personagem do desenho “O Manda-Chuva”, dos estúdios Hanna Barbera.

Pelos padrões atuais de beleza masculina, W está muito bem classificado e, no fundo, sabe disso. Essa foi, portanto, minha primeira aposta. “Acredito que alguns tipos de mulher não teriam interesse em você, mas é fato que a maioria parece ter. O que mais chama a atenção é a beleza física. É seu cartão de visita”, comecei. Ele se mostrou curioso. Prossegui.

“Além disso, deve pesar também seu jeito sedutor. Você joga charme. Outro aspecto: você é gentil, cavalheiro, simpático. Tudo isso conta”, eu disse, e ele não negou. Realmente, W é o típico Don Juan. Dá para notar o quanto se sente bem nesse papel. A simples conquista parece ter valor em si mesma. Até porque suas vitórias no campo da sedução têm prazo de validade. Em pouco tempo, ele já não dá a mínima importância a elas.

Continuei elaborando… Afinal, em minha opinião, W realmente não tem como trunfos somente o aspecto físico e a postura envolvente. É agente de trânsito. No que isso pesa? “Muitas mulheres têm fantasia com homens de uniforme, como o de policial, de bombeiro, de militar. Essas profissões passam a imagem de virilidade.Você é agente de trânsito. Usa uniforme. Isso atiça a fantasia porque transmite a ideia de força, coragem, masculinidade.”

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Mesmo à distância, deu para perceber que ele estava contente. Provavelmente, recebia de mim a confirmação para suas próprias suposições. Como tendo a desconfiar da modéstia, acredito que ele sempre soube ou pelo menos suspeitou da origem de seu poder de sedução. Gente rica sabe que é rica. Gente bonita sabe que é bonita. Gente inteligente sabe que é inteligente. Assim por diante. Até porque há sempre quem lhe faça elogios e acaricie o ego. Poucos são os verdadeiramente inocentes que não se dão conta de seus atributos, sejam eles quais forem.

Parti, então, para a cartada final: “Deve pesar também o desempenho sexual. Provavelmente você agrada na cama. Mesmo que você não mandasse bem no sexo, o simples fato de reunir as características que citei acima já seria suficiente para excitar muitas mulheres. A mera realização da fantasia que você desperta daria ao sexo um sabor especial.” Mais uma vez, ele não negou. Deduzi que estava de acordo.

“Para algumas mulheres, você é uma espécie de troféu. Elas se sentem mais fortes e poderosas diante de si mesmas e de outras mulheres por terem ‘fisgado’ você. Muitos homens sentem o mesmo quando conseguem ‘pegar’ uma mulher gostosa, principalmente se outros a cobiçarem também”, concluí, sem mencionar o termo “homem-objeto”.

W gostou do que eu disse. Confirmou minhas impressões. Eu só não esperava o toque um tanto melancólico de seu comentário final: “Uma pena. Um dia, todo esse brilho vai acabar”. É… Mudamos de assunto.

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São tantas emoções!

Muita gente acredita que o sentimentalismo está no DNA do povo brasileiro. Tenho motivos para crer nisso também. Eita povo que chora! Verte lágrimas quando está triste. Verte lágrimas quando está feliz. Facilmente se comove. Ai de quem é diferente! Leva a fama de frio, insensível, antipático. Sensibilidade, no Brasil, é sinônimo de comoção.

Não deve ser por acaso que telenovelas fazem tanto sucesso por aqui. Elas têm origem no melodrama. São, portanto, melodramáticas por natureza. Até aquelas em que predomina o gênero comédia têm os pés fincados no melodrama. Em algum momento, vão levar seu público às lágrimas. Ele gosta disso, quer isso e ouso dizer até que precisa disso. A teledramaturgia, a um só tempo, satisfaz e estimula esse gosto, essa vontade e essa necessidade do público.

 

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Tampouco deve ser casual o fato de jogadores de futebol brasileiros — inclusive os que integram a Seleção — expressarem tantas emoções em campo. Como a maioria dos jogadores latinos, aliás, os brasileiros xingam, gritam, caem em pranto no gramado, abraçam-se e beijam-se com um ardor incomum. Quem os observa em jogo testemunha uma explosão de sentimentos. Se marcam gol, quanta festa! Parece que a partida está ganha ali, naquele exato instante, mesmo que ainda faltem 40 minutos para seu fim. Se levam um gol, quanta desolação! Parece que a partida está definitivamente perdida ali, naquele exato instante, mesmo que ainda faltem 40 minutos para o apito final.

Como em tudo na vida, há também prós e contras em ser assim. Um dos prós é o valor em si mesmo de colocar para fora o que está sentindo. Vejo como positivo não reprimir sentimentos — dentro, evidentemente, dos limites éticos e legais. Um dos contras é deixar-se dominar pelas emoções quando a situação pede fleuma. Assistindo a uma cena comovente na TV, nada há de prejudicial em desabar em lágrimas. Já em uma partida decisiva de Copa do Mundo, tanto melhor se os jogadores agirem com a frieza indispensável para derrotar a seleção adversária.

 

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Esse sentimentalismo brasileiro certamente está por dentro e por trás das escolhas que levam o Brasil a estar onde está — com todas as suas conquistas e mazelas. Afinal, a mesma emoção do grito “goooooollllllll” e do pranto pelo drama da novela leva milhões de pessoas a elegerem um candidato ou uma candidata que lhe toca o coração e fundo na alma, mas se mostra incapaz de administrar um país tão grande quanto seus problemas.

Esse sentimentalismo brasileiro também deve estar por dentro e por trás das manifestações mais calorosas no âmbito da política, com direito a polarizações radicais. Vive-se um constante Fla-Flu. A observação e a participação no intrincado jogo político, que exige raciocínio, análise, reflexão, ponderação, acaba se convertendo em uma inflamada disputa de egos, crenças e opiniões. Não se constrói consenso assim. Não se desenvolve assim. Não se chega à paz assim.

 

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Se o sentimentalismo está realmente no DNA brasileiro, a melhor ou talvez única saída é aprender a administrá-lo, domá-lo, dosá-lo, para que os prós de ser assim não suplantem os contras, e tudo no Brasil não se restrinja ora a um interminável melodrama, ora a uma igualmente interminável partida decisiva de futebol. O Brasil merece e precisa de muito mais que isso.

 

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Julgamento apressado, justiça capenga.

A ânsia por justiça é compreensível. Diante de tanta injustiça, é natural e desejável que pessoas de mente, coração e olhos abertos façam algo por um mundo mais justo — ou menos injusto. É compreensível e natural que façam algo por si mesmas, quando se sentem elas próprias injustiçadas. Isso é um direito e — por que não? — também um dever. Afinal, a inação pode ser cúmplice da injustiça. Até aqui, não vejo por que não aplaudir quem age em prol de mais justiça. O problema aparece quando se observa como algumas dessas pessoas “fazem algo”.

 

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No afã de buscar justiça para si próprias ou para mais gente, certas pessoas correm o risco de ser elas também injustas. Como? O juízo apressado é uma entre as várias maneiras de ser injusto na ânsia de ser justo. Neste artigo, optei por focar exclusivamente esse caso. Futuramente, espero tratar de outros.

O julgamento apressado de um fato, de uma pessoa ou de um grupo de pessoas costuma ser resultado de uma conclusão precipitada. Recorro a uma situação imaginária para explicar melhor o que quero dizer.

Ao observar o semblante de um desconhecido em um bar, concluo precipitadamente que ele está irritado, quando, na verdade, ele tem apenas dor de cabeça (obviamente não sei disso). Vou além e passo a julgá-lo. Atribuo sua suposta irritação ao fato de eu estar ali, ou seja, julgo que minha presença o irrita. Ele olha em minha direção e, novamente, percebo certo nervosismo nele. Após alguns minutos, não tenho mais dúvidas: a causa da irritação dele sou eu. Busco, então, dentro de mim, explicações para eu estar incomodando aquele homem. Concluo que o problema está no fato de eu ser asiático. Ele certamente não gosta de asiáticos. Já ouvi dizer que moradores da redondeza têm preconceito contra asiáticos porque eles têm alterado consideravelmente a rotina do bairro. Pronto. Julgado e condenado: aquele homem que faz cara feia para mim é um xenófobo e merece meu desprezo e até punição. Afinal, ele está me constrangendo em público, perturbando meu direito de ir, vir e estar. Assim, num passe de mágica chamado julgamento sumário, o desconhecido que tinha só dor de cabeça vira xenófobo.

 

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Há fatos que comprovam teorias. Há dados, números, fartura de depoimentos que reforçam suspeitas. Lançar mão deles é tão necessário quanto legítimo. Abrir mão deles, porém, representa um desserviço para quem busca honestamente soluções para problemas graves, como preconceito e discriminação. No exemplo acima, ainda que um tanto caricatural (mas possível), atribuí xenofobia a um homem porque me baseei somente no semblante desagradável dele e em comentários (“ouvi dizer”) sobre preconceito contra asiáticos naquele bairro. Fui precipitado, leviano, desonesto, injusto. Eu estava errado. Er-ra-do! Exatamente como muita gente que se apressa em julgar  baseada apenas em suas crenças e em suas “melhores intenções”.

O que vejo amiúde é gente adepta (conscientemente ou não) da chamada pós-verdade. É gente que coloca a carroça (suas crenças, princípios e convicções) diante dos bois (fatos). “Creio, logo existe”, parecem dizer a si mesmas e aos outros, parodiando Descartes.

 

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Até aqui, limitei-me aos equívocos. Há erros resultantes de boas intenções. Infelizmente, há também erros resultantes de má fé. No exemplo fictício acima, eu poderia saber que o homem no bar tinha dor de cabeça e, mesmo assim, acusá-lo de xenofobia caso eu o tivesse abordado, e ele me tivesse tratado mal. Magoado (tenho o direto a ser sensível…), eu lançaria mão desse subterfúgio para revidar o maltrato. Acusaria um homem mal educado e com dor de cabeça de ser xenófobo.

Se acha que exagero, pergunto: em que mundo a leitora ou o leitor vive? Recentemente, ouvi dois relatos semelhantes. Em ambos, pessoas acusaram garçons de preconceito racial sem nenhuma segurança desse comportamento. Eles foram ríspidos como poderiam ter sido com qualquer cliente. Não usaram termos racistas, não expressaram nada que pudesse comprovar a alegação de quem depois viria a acusá-los de racismo.

Experimente falar para essas pessoas que elas foram injustas! Experimente dizer que elas se precipitaram em seu julgamento! Experimente levantar a suspeita de que usaram a defesa de uma causa nobilíssima para revidar a grosseria de um garçom! Experimente dizer que os garçons desses episódios poderiam reclamar de preconceito de classe! Você ouvirá tantos desaforos que sairá se perguntando: onde está a coerência dessas pessoas?

Desista. Elas descobriram um poço sem fundo de argumentos (muitos deles falaciosos) para explicar e justificar tudo. Lançarão você na fogueira do desdém, de forma análoga à que a Igreja Católica da Idade Média fazia, só que concretamente, na “Santa” Inquisição. Os inquisidores também tinham argumento para tudo. Sabiam muito bem justificar seus atos, inclusive os desonestos.

 

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Gosto muito quando os falantes de língua inglesa dizem: “You don’t know that!”. Realmente, como você pode saber? Pode haver numerosas explicações para uma atitude ou um comportamento. Por que a sua tem de ser a certa ou a melhor? Se você não tem certeza, pior ainda. Não pode sair por aí julgando e condenando as pessoas — muito menos de maneira apressada, precipitada. Ah, existe discriminação velada e até invisível? Eu sei. Mas essas situações requerem cuidados redobrados. A subjetividade não pode ser pretexto para acusações infundadas. Porque há casos de acusações infundadas, e negá-los pode ser tão grave (e injusto) quanto ignorar as várias formas de discriminação. Alguém se lembra de que calúnia, injúria e difamação também são crimes previstos em lei? Pois é… Terreno minado esse…

Calma. Em nenhum nanossegundo me passa pela cabeça que não existam homofobia, racismo, sexismo, xenofobia e toda uma vasta gama de posturas preconceituosas, cruéis e criminosas mundo afora e que elas não exijam reparo e punição. Ao contrário. Estou seguro de que existem, são perversas, prejudicam muito e, curiosamente, todas e todos são alvos delas, de uma ou de outra forma, direta ou indiretamente.

Se você tirou a conclusão de que nego essas posturas ou as desculpo, lamento informar que foi uma conclusão precipitada ou, pior, um julgamento apressado. Não quis dizer nem disse isso. O que me incomoda são a incoerência, a inconsequência, a irresponsabilidade, a leviandade e, em alguns casos, a desonestidade de pessoas que lutam por justiça com as mesmas armas daqueles que elas julgam ser causadores de injustiça. Afinal, buscam justiça ou vingança? Movem-se por consciência político-social ou por desforra? Trata-se de reparação ou de retaliação? Todo cuidado é pouco.

 

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Discretos indiscretos.

Já afirmei neste blog que Privacidade é um mito. As pessoas só não sabem sobre você aquilo que elas não querem saber. Discorda de mim? Tudo bem. Mas em um ponto você há de concordar: está cada vez mais difícil se manter discreto. Para alguns, talvez seja impossível, por uma característica muito especial, que descrevo a seguir.

 

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Você está careca de saber que a internet é uma espécie de praça pública. Entrou ali, todo mundo vê. Quando entra, está ciente da movimentação de pessoas, dos ruídos, das intrigas, do comércio, dos blablablás e por aí vai. Então, se entrou na chuva, é para se molhar. De novo, talvez você discorde. Afinal, sites e redes sociais — sobretudo essas últimas — devem garantir um mínimo de privacidade às pessoas. Há leis para isso, inclusive. Seria antiético, injusto e ilegal expor quem as utiliza.

Está certo. Aceite, então, a provocação abaixo. Nada pessoal! Só quero aprofundar um pouquinho a discussão sobre esse tema. Algumas perguntinhas:

1- Se você valoriza tanto privacidade, por que cria perfis nas redes sociais? Elas existem para mostrar, não para esconder.

2- Já que prefere manter certo grau de discrição, por que ilustra seus perfis com fotos de seu rosto e/ou de seu corpo? Por que assina esses perfis com seu nome completo? Por que deixa sua timeline aberta?

3- Não faz nada disso? Está bem. Nesse caso, você optou por uma exposição seletiva. Só quem você autoriza é que pode ver seus posts. Nada impede, porém, que um amigo ou uma amiga mostre seu perfil a uma pessoa desconhecida. Pode, inclusive, copiar suas fotos e compartilhá-las via Whatsapp.

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4- Fora da web, você também está sob constante observação. As câmeras de vigilância estão por todos os lados. Acha que porteiros de edifício não bisbilhotam quando estão com tempo livre?Alguns bisbilhotam e comentam…

5- Quer combinar privacidade e popularidade? Difícil… Aonde você for, poderá encontrar amigas, amigos, ex, amigas de amigas, amigos de amigos, amigas de amigos, amigos de amigas, conhecidos, parentes, fãs, desafetos. Por que essas pessoas deixariam de comentar com outras que viram você? Não há lei contra isso.

Gosto sempre de lembrar análises que já li sobre a morte de Lady Diana, a célebre Lady Di. Ela sofreu acidente de carro em Paris quando fugia de paparazzi.

Alguns analistas apontaram Lady Di como exemplo de pessoa que mantinha relação ambígua — para não dizer contraditória — com os meios de comunicação. Por um lado, gostava de chamar a atenção. Apreciava os holofotes. Por outro, fugia dos curiosos quando desejava estar “em paz”.

Acontece que uma atitude compromete a outra, especialmente quando se trata de gente famosa. Afinal, uma vez que a pessoa se expõe voluntariamente, está investindo na própria visibilidade. Como controlar essa visibilidade depois? Paparazzi e outros tipos de gente curiosa podem estar errados ao bancar “stalkers”, mas, em algum momento, essa turma recebeu convite para a “festa”. Se ficou bêbada e fez bagunça, é outra história.

Não defendo quem invade privacidade alheia. Cultivo a discrição sempre que me cabe e respeito o direito das pessoas ao mesmo. No entanto, penso que, se você realmente valoriza privacidade, deve ter a coerência de não promover muito sua visibilidade, seja onde for, seja como for. Simples assim.

 

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Seu jeito, seu filtro.

Um de meus melhores amigos queixa-se de que tem tido azar com as mulheres. De uns tempos para cá, só tem deparado com autoritárias pretensiosas que, mal o conhecem, já querem mudar o jeito dele. Uma delas, na primeira vez em que saíram juntos (repito: primeira vez), expressou a vontade de fazer meu amigo parar de fumar e implicou com a maneira como ele dança. Outra, também no primeiro “rolê”, insistiu para que ele trocasse a camiseta antes de sair (não, ele não estava vestindo uma peça suja nem rasgada nem fora de moda).

Ele se sente incomodado. Não é para menos. O que leva uma pessoa a aproximar-se de outra se não a aprecia como é? O que a faz tomar a liberdade de exigir mudança — mesmo que seja de roupa — de  quem acabou de conhecer? De onde vem essa ousadia? De onde vem essa prepotência? Meu amigo tem autoestima, então se recusa a ceder aos caprichos de seus “contatinhos”. Afasta-se das “minas” que se comportam como se fossem patroas. Mas lamenta a reincidência de tipos assim em sua vida, pois quer encontrar quem lhe valorize como é.

 

Homem-Capacho

 

 

Ouvi atentamente seu desabafo. Em seguida, fiz a ele perguntas simples apenas para confirmar minhas impressões.

— Você gosta de ser como é?

— Sim.

— Gostaria de mudar para agradar a alguém?

— Não.

— Prefere não namorar a adotar outro jeito de ser?

— Até agora, tem sido assim, mas não sei se eu estou certo.

É a hora em que ele me pergunta:

— Será que eu não deveria aceitar certas imposições em troca de um relacionamento? Afinal, algumas dessas minas são interessantes.

 

Liberdade

 

Ele me deixou numa sinuca de bico. Por um lado, talvez exista uma mulher incrível por trás de um tipo mandão. Sabe-se lá! Por outro, cabe a desconfiança: se ela se mostra autoritária no primeiro encontro, será que não se converterá em uma tirana dentro de um mês? Meu amigo tem optado por não correr esse risco, e concordo com ele.

O que fazer?

Minha sugestão é ter paciência. Vou além e esboço o seguinte discurso.

— Cara, penso assim: seu jeito é seu filtro. Só se aproxima e fica com você quem gosta do seu estilo, valoriza você exatamente como é. Quem quer mudar você não quer alguém como você. Quer um corpo que sirva de marionete. Quer um fantoche. Quer uma massa de modelar. Se você demonstra gostar de si mesmo tal como é, você automaticamente afasta quem não combina com você.

Simples assim. Óbvio assim. E ele concordou comigo. Lamenta o que ele chama informalmente de azar, mas segue de cabeça erguida. Menos mal. É inteligente, instruído, generoso, confiável, jovem e bonito. Por que não encontraria sua “cara-metade”? Questão de tempo. Estou seguro disso. Não precisa se sujeitar a mandos e desmandos de quem mal o conhece.

 

 

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