No alto do poço.

Mais de um amigo recomendou “O Poço” (“El Hoyo”, no original em espanhol). Fui conferir. Descobri um filme intrigante, que prende a atenção do começo ao fim. Trata-se de uma produção modesta, sobretudo quando comparada à média das realizações em cartaz nas principais plataformas de streaming, e isso tem seu apelo, pois o ambiente clean e a estética minimalista contribuem para o clima de mistério e suspense. Identifiquei problemas também. Mas, se apresenta falhas no varejo, “O Poço” tem qualidades no atacado, e são elas que vêm chamando a atenção, a ponto de tornar o filme um dos mais acessados na Netflix ao longo das últimas semanas.

Uma das principais qualidades de “O Poço” está em manter o clima de tensão e mistério por 1 hora e 34 minutos, duração total da película. Cumpre, portanto, sua proposta enquanto thriller. A curiosidade vai a mil. Afinal de contas, a que realmente serve o tal poço, uma prisão vertical com centenas de andares? Por que o protagonista, Gureng (Iván Massagué), opta por estar ali (em troca de um diploma apenas)? Quem construiu, controla e administra aquele estranho cárcere? Por que se serve ali, diariamente, um banquete aos detentos, se somente os que estão nas celas mais elevadas abocanham o faustoso repasto, enquanto os que estão em níveis inferiores devem se contentar com as sobras ou simplesmente com bandejas vazias? Qual é a lógica desse bizarro sistema alimentar uma vez que invisíveis carcereiros trocam mensalmente presas e presos de cela e, portanto, de andar, aparentemente de maneira aleatória?

CRÍTICA: O Poço, é o novo filme impactante da Netflix - Portal W3

São muitas indagações, e a maioria delas fica sem resposta — inclusive a enigmática sequência final. Em mais de uma entrevista, o diretor Galder Gaztelu-Urrutia admite que optou por deixar o desfecho de “O Poço” aberto a interpretações, embora ele tenha sua preferida (sim, o próprio realizador abre mão de um veredito). Cabe a quem assiste ir decifrando pouco a pouco o que pode estar por trás de uma trama ao mesmo tempo simples e desafiadora.

Logo nas primeiras sequências de “El Hoyo”, deduz-se o óbvio: o filme expressa uma crítica contundente ao egoísmo e ao individualismo em geral e à desigualdade social em particular. Para isso, recorre à alegoria. A prisão vertical representaria, portanto, a desequilibrada estratificação social, onde quem está no alto goza de privilégios, e quem está embaixo vive das migalhas dos mais favorecidos. Esta seria, portanto, a primeira camada de minha modesta interpretação: o presídio vertical equivaleria à sociedade de classes com suas consequências.

Abro parêntese. Claro que a desigualdade social está longe de ser exclusividade de um ou de outro regime.  Em alguns, porém, ela se evidencia mais. Os contrastes entre ricos e pobres são mais acentuados no capitalismo, por exemplo. A distância entre o luxo e o lixão pode até não ser física às vezes (eventualmente luxo e lixo convivem lado a lado), mas é incomensurável do ponto de vista socioeconômico. Fecho parêntese.

Uma segunda camada interpretativa estaria, por assim dizer, em uma alegoria dentro da outra, isto é, a plataforma que transporta comida do nível zero (mais elevado) até o nível mais baixo da prisão. Ela representaria a luta pela sobrevivência dentro de um sistema cruel onde impera o princípio do “cada um por si”. Não deve ser por acaso que a versão do título “O Poço”, em inglês, é “The Platform”, que pode servir tanto para designar a prisão vertical quanto a gigantesca mesa de concreto que transporta comida de andar em andar.

Até aqui, tudo parece óbvio demais — curiosamente, a palavra “óbvio” merece destaque nos diálogos iniciais do filme, entre Goreng e seu primeiro companheiro de cela, o velho Trimagasi (Zorion Eguileor). Mas a proposta de “O Poço” não para por aí. Seria muito fácil mantê-la no nível quase mecânico, para não dizer primário ou simplório, de crítica escancarada à desigualdade social. Eis onde identifiquei outra qualidade do filme: a clara visão de que denunciar a face cruel do capitalismo não significa necessariamente defender sua antítese, o socialismo, ou qualquer outro modelo semelhante.

Assim é que “El Hoyo” mostra-se impiedoso também com propostas na linha do socialismo e do comunismo. Na prática, elas não funcionariam, e isso fica claro por meio das tentativas frustradas de implementar na prisão a “solidariedade espontânea”, ideia romântica da personagem Imoguiri (Antonia San Juan). Mais dura ainda, nesse sentido, é a metamorfose por que passa Goreng, um leitor de Don Quijote de la Mancha que acaba trocando a beleza da célebre novela de cavalaria pela brutalidade de uma faca.

El hoyo filme - Veja onde assistir online

O desenrolar do roteiro de David Desola e Pedro Rivero encarrega-se de ir aniquilando qualquer esperança de redenção para os personagens – e para os humanos que eles representam. [SEGUE SPOILER] Goreng, racional e humanitário no começo do filme, converte-se em um tipo emocional e sanguinolento, como de regra foram os revolucionários históricos. Sua postura equilibrada, que tantas vezes contrastou com o pragmatismo cínico do velho Trigamasi, dá lugar a um vale-tudo em nome da justiça.

Por isso, minha aposta é: a pretensão do filme está mais em evidenciar e denunciar o egoísmo e o individualismo da espécie humana do que em repisar o fracasso da aventura capitalista ou os absurdos da desigualdade social, esteja onde estiver. O preço que Gureng paga por sua solidariedade é demasiadamente elevado e pode até [SEGUE OUTRO SPOILER] significar seu próprio sacrifício. É o que sugere o diretor ao declarar, em mais de uma entrevista, que Gureng morre antes de atingir seu objetivo. O resto, isto é, o desfecho da película, seria alucinação dele (como dele, porém, se ele morreu?).

“O Poço” é manancial de chaves interpretativas. Pode-se analisá-lo sob o ponto de vista psicológico (com ênfase no perfil dos personagens e o que eles representam). Pode-se investigar a simbologia de muitos elementos presentes em cena (o livro de Cervantes, a adaga de Trigamasi, a panna cotta, a menina de traços orientais). Pode-se destrinchá-lo à luz das políticas identitárias (o homem branco europeu, o negro, o idoso, as mulheres, a menina asiática etc.). Pode-se mergulhar mais fundo na abordagem política e discutir a tensão entre dominantes e dominados. Certamente, todas essas chaves de interpretação, entre algumas outras, têm sua relevância e ajudam a compreender melhor “El Hoyo”. Mas está justamente nessa abundância de leituras algumas das falhas que identifiquei no filme.

Não quero ser exaustivo, portanto vou apontar somente os aspectos que me incomodaram mais [SEGUEM ALGUNS SPOILERS].

O Poço Netflix: Resumo e Final Explicado com 3 possibilidades

Se as prisioneiras e prisioneiros estão sob constante monitoramento (prova disso é o uso punitivo de termostatos: a temperatura cai ou se eleva muito quando alguém furta um alimento para comer mais tarde, por exemplo), como podem dois detentos descerem do nível 6 até os mais baixos patamares, causando tremendo alvoroço, com pancadaria e morte, sem qualquer intervenção da administração do presídio?

Essa abundância de indagações, se contribui para o clima de mistério e suspense, passa também a impressão de que roteiristas e diretor “atiraram para todo lado” por incapacidade de seguir uma proposta clara, um norte conceitual bem definido. Fica mais fácil abrir um imenso leque de interpretações do que se arriscar em uma e apostar todas as fichas nela, sujeitando-se às pesadas críticas de quem pensa diferente. O mesmo vale para o desfecho. É comum criadores depararem com uma sinuca de bico na hora de fechar a obra e simplesmente não encontrarem saída à altura do que conceberam até ali. Optam, então, por um desfecho aberto. Talvez tenha sido esse o caso de “El Hoyo”.

De qualquer maneira, o filme acaba dialogando bem com o momento atual: falta de norte. Ninguém sabe exatamente onde está e para onde vai, embora tenha alguma ideia sobre de onde veio. Neste momento de distanciamento social, em que muita gente se vê confinada em casa, “El Hoyo” de certa forma traduz essa sensação de claustrofobia, angústia, impotência, incerteza e injustiça destes tempos de COVID-19. Claro que, tal como na vida, tudo é bem mais difícil para quem está no fundo do poço. Para quem está no alto — ainda que siga em um poço — o desconforto é sempre menor, quase o mesmo de uma gripezinha.

 

 

 

 

 

Publicado em Cinema, Televisão | Marcado com , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Êxito, fracasso, eu e o mundo.

Ultimamente, tenho refletido, mais que o habitual, sobre êxito e fracasso. Em alguns campos, penso que tenho sucesso. Em outros, só derrota. Então, alguém me diz: é assim com todo o mundo. Pode ser, mas e daí? Devo cruzar os braços diante de meus malogros porque a maioria das pessoas também experimenta frustrações? Devo renunciar ao esforço pelo triunfo? Devo desistir de pensar a respeito?

Resultado de imagem para fracasso

Penso que a resposta para essas três perguntas é um retumbante NÃO. Se me sinto mal porque algo não vai bem, devo tentar descobrir a causa disso e fazer o possível para resolver o problema. Essa busca, claro, também representa risco de êxito e de fracasso. Estou, portanto, diante de um círculo vicioso: se não descubro a causa de meu insucesso, esse é mais um insucesso, que só reforçará meu fracasso. Será que fui claro?

Nessa reflexão, deparo com várias questões, tais como:

  • O que é ter êxito?
  • O que significa fracassar?
  • Até que ponto minha percepção de êxito e fracasso é razoável, cabível?
  • De que maneira o ambiente em que vivo afeta meu desempenho e a percepção sobre meu desempenho?
  • O ambiente em que vivo é confiável do ponto de vista da avaliação justa de meu desempenho?

Resultado de imagem para exito

Aprendo logo que a questão do sucesso e do insucesso passa tanto pelo aspecto factual quanto pelo aspecto da percepção. Do ponto de vista factual, o êxito ou o fracasso se revela em uma situação ou diversas situações concretas em que uma pessoa se vê em apuros porque tomou uma decisão errada ou deixou de fazer algo necessário, por exemplo. Do ponto de vista da percepção, dar-se bem ou dar-se mal é algo subjetivo. Obviamente, o que é sucesso para mim pode não ser para você e vice-versa. O mesmo vale dizer sobre o malogro.

Daí que preciso descobrir e compreender o que são, para mim, êxito e fracasso. Depois, penso que vale a pena conhecer a visão de outras pessoas (amigas, amigos, colegas, familiares etc.) sobre esses dois conceitos e compará-la com a minha. Talvez isso me ajude a contextualizar e dimensionar melhor o que entendo por sucesso e insucesso. Finalmente, pode ser interessante testar a percepção que tenho de meu desempenho: será que estou sendo excessivamente severo ou demasiadamente indulgente comigo mesmo? Tenho uma percepção realista de minha vida? Há um mínimo de simetria entre minha autoavaliação e a avaliação de outras pessoas sobre mim?

Nesse processo de autoexame, entra a apreciação também de meu ambiente. Ele é favorável ou desfavorável a meu crescimento e, por conseguinte, meu sucesso? Até que ponto é do ambiente a responsabilidade por eu acertar ou errar? Essa é uma ponderação necessária. Afinal, ninguém erra nem acerta sozinho.

Resultado de imagem para ortega y gasset

José Ortega y Gasset (1883-1955), filósofo espanhol.

Lembro, então, a conhecida máxima do filósofo espanhol José Ortega y Gasset, para quem “o homem é o homem e sua circunstância”. É impossível, para Gasset, considerar o ser humano como sujeito ativo sem considerar também seu entorno, desde seu próprio corpo até seu contexto histórico, o que naturalmente envolve sua formação.

Se erro, pesa para isso a circunstância em que estou. Se acerto, idem. Incluo na circunstância de cada pessoa, por minha própria conta e risco, fatores como saúde física e mental, estado psicológico, apoio moral, situação financeira etc. Evidentemente, as circunstâncias não respondem sozinhas por meu desempenho. Minha postura diante delas faz diferença. Em todo caso, concordo com Gasset. Não se pode jogar tudo nas costas das pessoas. O contexto tem seu papel.

Quando me convenço de que estou malogrando em um empreendimento qualquer e busco a causa ou as causas desse insucesso, preciso me lembrar de que sou a soma de mim mesmo e minha circunstância. O que em meu entorno está me prejudicando? Como estou reagindo a essa influência? Há algo que eu possa fazer? Até que ponto?

Esse é, em síntese, o resultado de minhas reflexões recentes, ainda embrionárias, sobre êxito e fracasso. Comecei a pensar nesse tema porque, no momento, me sinto um tanto inseguro sobre o que devo considerar exitoso ou malogrado em minha vida pessoal e profissional. Meu autoexame não tem ajudado muito até agora. O cenário está um tanto difuso. Só tenho uma certeza: quero sair desse processo reflexivo com alguma bússola para meus próximos passos. Leitor, leitora, você sabe como é estar assim?

 

Publicado em Comportamento, Filosofia | Marcado com , , , , , , , | Deixe um comentário

Pressão social.

Tenho para mim que uma das principais causas do estresse é a pressão social. Um amigo mais jovem se sente na obrigação de “pegar mulher” sempre que sai para se divertir. Uma amiga não sossega, em festas e shows, enquanto não beija na boca. Outro amigo se esforça sobremaneira para que ninguém desconfie de sua bissexualidade. Uma conhecida nutriu, durante anos, verdadeira obsessão por se casar. Todas essas pessoas sempre me pareceram tensas, angustiadas, estressadas enfim.

Resultado de imagem para estresse

O que faz com que tantas pessoas sucumbam diante da pressão social para adotar um comportamento que, numa ilha deserta, longe de tudo e de todos, provavelmente não adotariam? Parece-me absurdo e até certo ponto ridículo sair com amigas e amigos para se divertir e entrar na paranoia de “pegar alguém”. O que isso representa? Status? Poder? Satisfação carnal? Por que a companhia de pessoas queridas não basta? Por que todo rolê precisa terminar em sexo?

Causam-me estranheza também homens e mulheres que, ao contrário das obcecadas e dos obcecados com “pegar gente”, sacrificam sua sexualidade ou parte dela apenas para supostamente agradar à maioria heterossexual ou heteronormativa. Levam uma vida pela metade porque temem a reprovação e a rejeição de familiares, amigas, amigos. Ora! Não lhes ocorre que essas pessoas certamente têm seus segredos também? Será que elas fazem tudo o tempo todo como manda o figurino de seu meio social?

É razoável supor que reprimidas e reprimidos tenham de lidar com dose mais elevada de estresse. Além da pressão do trabalho, têm de administrar também a pressão do habitat. Acontece que a primeira é praticamente inevitável. Trata-se, afinal de contas, da sobrevivência material. Já a segunda é, em certa medida, opcional, pois ninguém deveria se sentir forçado a fazer isso ou aquilo em seus momentos de lazer, onde supostamente pode gozar de mais liberdade.

Imagem relacionada

É preciso reconhecer, porém, que a pressão social tem, como toda pressão, sua força. Não é muito fácil enfrentá-la e vencê-la. Família — sobretudo mãe e pai –, círculo de amigas e amigos, colegas de escola ou faculdade ou trabalho, conhecidas e conhecidos da academia ou do curso de idiomas, toda essa galera tem um poder dos diabos. Influenciam escolhas — da roupa ao vocabulário, do restaurante à namorada ou namorado, da série de TV à viagem de férias, da religião à carreira. É um poder imenso que a gente confere a outras pessoas, e elas, por sua vez, conferem à gente. A troco de quê?

A troco da poderosa sensação de pertencimento. As pessoas querem se sentir parte de um grupo. Temem a solidão involuntária, o abandono, o isolamento. Se o preço para pertencer a uma determinada comunidade é abrir mão de expressiva parcela da própria liberdade, que assim seja! Para muita gente, esse preço nem chega a ser alto. Há mesmo quem nem se dê conta de que está abrindo mão de algo valioso para poder se misturar à multidão ou integrar um “clube”. Individualidade, para algumas pessoas, importa bem menos que aceitação social. A identidade delas se confunde com a do meio em que vivem. São um grupo, uma comunidade, uma irmandade, uma comunhão. Não por acaso os jovens gostam tanto de usar a palavra inglesa “brother”. Ela parece mais abrangente que “irmão”, pois transcende o laço sanguíneo para incluir amigos em geral.

Resultado de imagem para group of people

O grupo retribui o sacrifício individual com afetividade, diversão, apoio (material, moral, psicológico, espiritual). Quanto mais coeso o grupo, mais ele favorece a dissolução da individualidade. Mesmo que ele preserve os traços individuais de seus integrantes, o “bando” acaba por padronizar, em menor ou maior extensão, o comportamento de todos. Claro que pessoas também se aproximam porque observam afinidades entre si. Essas afinidades, portanto, precedem a formação do grupo. De qualquer maneira, quando o círculo se forma, ele reforça os traços comuns de seus membros. Fica ainda mais difícil preservar a individualidade em um ambiente de adesão espontânea.

Alguém pode estar se perguntando: que mal há em pertencer a uma comunidade? Os benefícios não superariam os custos? Bem… Cabe a cada um e a cada uma determinar até que ponto a coletividade pode restringir a individualidade. É sempre possível ter vida social e resguardar o próprio “eu”. No entanto, há casos em que a dose de estresse a que algumas pessoas se submetem não compensa a carteirinha de sócio de um clube. O preço de pertencer a um círculo social torna-se alto demais.

Tenho observado que essa necessidade de pertencimento é mais forte na adolescência e na juventude — ou em pessoas adultas que não amadureceram o bastante. No mundo verdadeiramente adulto, ela me parece mais controlada ou dosada. Parece-me pueril a ansiedade de um sujeito que, quando sai para se divertir, precisa “pegar mulher” a todo custo. Classifico de imaturo também o comportamento da balzaquiana que impõe a si mesma a meta de beijar alguém numa festa ou num show custe o que custar. Chega a ser triste ver um rapaz renunciar a uma parte importante de sua sexualidade porque teme a rejeição da família e dos amigos. Desperta compaixão a jovem que aproveita pouco o presente porque não para de sonhar com o futuro de véu e grinalda. São vidas parcialmente desperdiçadas. Quanta perda de tempo e de energia!

Imagem relacionada

Gosto da ideia de relaxamento, de liberdade, de paz, só possível quando há despreocupação com o que as outras pessoas pensam. Libertas e libertos da pressão social, jovens, homens, mulheres podem levar uma vida mais autêntica, mais alinhada com quem são intimamente. O engraçado é que, ao menos na minha experiência, quanto mais verdadeiro você é consigo mesmo e com os outros, mais satisfeito você fica. Além de se livrar de uma poderosa fonte de estresse, você reforça a autoestima. Curiosamente, faz e mantém mais amigas e amigos. Fica sozinho se quiser, e é claro que muitas vezes você quer. Afinal, nenhum círculo social substitui o prazer da própria companhia.

Publicado em Comportamento | Marcado com , , , , , , , , | Deixe um comentário

Orgulho hétero.

Por muito tempo, acreditei não existir “orgulho hétero”. Sempre ouvi falar de “orgulho gay”. Há décadas, em numerosas cidades do mundo, celebra-se o Dia do Orgulho Gay (ou, para ser mais exato e inclusivo, Orgulho LGBTI). As célebres paradas do orgulho gay reúnem milhões de pessoas, inclusive heterossexuais. Daí eu presumir não haver orgulho hétero. Afinal, para ele, não há sequer data festiva, nem parada. Só que eu estava errado. Existe orgulho hétero, sim! E forte!

Resultado de imagem para gay pride
Parada do Orgulho Gay na Cidade do México. Foto: REUTERS.

Homens mais intelectualizados e descolados, via de regra, não alimentam orgulho pelo fato de sentirem atração por mulheres. A maioria dos machos, porém, estufa o peito para dizer que seu “negócio” é exclusivamente o sexo oposto. Adolescentes e até alguns adultos gostam de dizer que são “espada”, símbolo fálico que também invoca a ideia de valentia. Dificilmente se veem mulheres gabando-se de sua orientação sexual, mas também há, entre elas, as que fazem questão de exaltar seus atributos “tipicamente femininos”. Não faltam cantoras que louvam a feminilidade em suas canções.

Vejo esse orgulho como legítimo. Respeito-o. Admito, no entanto, que não o compreendo bem. Na minha cabeça, faz sentido a gente se orgulhar de uma conquista, sobretudo se ela foi difícil. Mas por que alguém se orgulharia de algo inato? Se a pessoa nasce hétero ou gay, ela não fez nada para isso. Não tem mérito algum. Nasceu assim e pronto. No caso da população LGBTI, pode-se até argumentar que, embora tenha nascido com essa ou aquela orientação sexual, ela luta para manter essa orientação. Daí o orgulho de viver “a dor e a delícia de ser o que é”, como diz a canção de Caetano Veloso. Mesmo assim, ainda acho estranho uma pessoa sentir orgulho por gostar de homem ou de mulher ou de ambos.

Resultado de imagem para lesbians
Dia da Visibilidade Lésbica. Foto: Star Observer.

Orientação sexual é mais uma característica entre muitas em uma pessoa. Por que despertar orgulho? Por que despertar mais orgulho que outros aspectos? Por que esse orgulho precisa ser alardeado ao mundo? Essas são perguntas sinceras que faço. Não são questões retóricas. Não escondem nenhuma crítica. Fazem parte de uma reflexão legítima. Seria o sexo mais relevante que a vocação profissional, por exemplo? Teria mais importância que a orientação religiosa?

Faz realmente sentido um homem sentir orgulho por ter atração afetivo-sexual só por mulher? Parece-me tão estranho quanto se sentir envaidecido por ser católico ou protestante ou umbandista. O que estaria por trás do orgulho hétero? O sentimento de superioridade por não ser gay? De novo, não entendo por que uma pessoa seria melhor ou pior que outra apenas por sua orientação sexual.

Faz sentido para mim um indivíduo sentir certo orgulho por ter conseguido se formar, estabelecer-se em um mercado de trabalho altamente competitivo, ter uma pós-graduação onde a maioria das pessoas mal consegue completar o Ensino Médio. Faz sentido para mim um indivíduo sentir orgulho por ter se tornado um craque esportivo ou um artista respeitado ou uma autoridade em determinado assunto. Tudo isso envolve esforço físico e mental. Mas ser hétero?! Que esforço um homem faz para gostar de mulher ou uma mulher faz para gostar de homem? Chego a ver um paradoxo aí. Se o orgulho está relacionado à vitória sobre dificuldades, a mulher ou o homem heterossexual teria, então, superado algo para sentir atração pelo sexo oposto?

Resultado de imagem para macho alfa

Parece-me exagerada a identificação das pessoas com sua sexualidade. Digo exagerada, não descabida. Não me sinto, nunca me senti e acho que jamais me sentirei orgulhoso por causa de minhas preferências sexuais. Sinto orgulho daquilo que lutei para conquistar e/ou para manter: meus estudos, minha profissão, meu trabalho, meu modesto patrimônio, meus amigos, meus amores, minhas superações. Ainda assim, não vejo por que eu deveria sair por aí trombeteando para o mundo o quanto sou orgulhoso de minhas conquistas. Compartilho-as com algumas pessoas, dentro de certos contextos, e isso me basta.

Fico me perguntando se não há um pouco de narcisismo nesse tal orgulho hétero ou gay ou LGBTI (e quantas letras mais ainda aparecer). Quer saber? Estou pouco me lixando para a sexualidade das pessoas — a menos que eu esteja interessado em uma delas. Com quem João ou Maria vai para a cama definitivamente não me interessa. Para mim, a orientação sexual é um detalhe, talvez menos importante que a cor dos olhos ou o comprimento dos cabelos. O caráter da pessoa — seja ela hétero, seja gay, seja assexuada — é que faz diferença para mim.

Sinceramente? Se ainda dou alguma atenção a esse tema é tão somente porque restam trogloditas no mundo que chegam a matar um ser humano por se incomodar com a sexualidade dele. Se tiver orgulho hétero, melhor perdê-lo de vez! Deveria ter, isso sim, vergonha de ser assassino. Próxima página, por favor! Já deu.

Resultado de imagem para homofobia mata

 

Publicado em Comportamento | Marcado com , , , , , , | 3 Comentários

A ditadura dos tuítes.

Quase 4 meses de ausência neste blog… Por que parei? Parei por quê? Falta de tempo? Esse é só um dos motivos. Outro é a impressão de que ninguém quer ler textos com mais de 140 caracteres, ou seja, com extensão superior à de um tuíte. Será que estou exagerando? Talvez. Fato é que este blog já teve mais impacto – ao menos entre as pessoas conhecidas. De uns tempos para cá, o que gera mais reação são frases soltas, comentários curtos, que posto nas redes sociais. Parece que se vive uma ditadura dos tuítes.

Resultado de imagem para twitter

Claro que isso não vale para as celebridades do texto! Escritoras, escritores, articulistas, colunistas, analistas, comentaristas, repórteres da Piauí, essa turma pode redigir à vontade. Tem público cativo. A onda do story telling, aliás, segue firme. Já aos pobres desconhecidos, como eu e milhões de outros, resta a generosidade de quem, por curiosidade ou camaradagem, resolve ler artigos, crônicas, relatos publicados despretensiosamente em um blog ou website sem fama. Tão consciente sou de meu anonimato que dei a este espaço o modesto nome de “O Blog Menos Lido do Mundo”.

Antes que a leitora ou o leitor diga que estou com “mimimi”, preciso deixar claro que a fama nunca foi meu objetivo aqui. O que lamento é a falta de tempo de algumas pessoas e a preguiça de outras tantas diante de um texto que talvez lhes agrade, talvez lhes acrescente algo. Ainda assim, compreendo: sob uma enxurrada de informação, de todos os lados, e a natural falta de tempo para consumir tudo, é preciso selecionar, priorizar. Entre uma reportagem especial de uma estrela da imprensa e um artigo de um blogueiro bissexto, adivinhe por qual a maioria opta.

Resultado de imagem para revista piaui

Pode ser que a leitora ou o leitor pense com seus botões: “O que falta a esse cara é talento. Se seus textos fossem espetaculares, ele provavelmente já seria sucesso de público e crítica.” Tenho cá minhas dúvidas. Modéstia à parte, quando escrevia para um jornal diário, eu tinha excelente aceitação. Se não tivesse abandonado o lufa-lufa de uma redação, talvez fosse hoje um bem sucedido autor de reportagens especiais em algum periódico do país. Com isso, quero dizer que ao menos parte do êxito de um autor ou de uma autora se deve mais ao veículo onde publica seus textos do que a seu talento para escrever. Não é à toa que, ao deixar o jornal ou a revista onde publicam, jornalistas muitas vezes caem no ostracismo.

Mesmo com talento, é difícil sobreviver como autor sem um mínimo de marketing. Há pessoas que têm o dom adicional de saber “se vender”. Há mesmo quem abra mão de escrúpulos para ganhar a fama. Uma das maneiras mais simples de atropelar a ética é optar pelo sensacionalismo. A cuidadosa (e malandra) escolha de temas e de palavras faz toda a diferença. Atacar uma celebridade ou uma autoridade, criticar um comportamento-padrão, dizer palavrões, entre outros recursos nada nobres, são formas de chamar a atenção independentemente do talento para redigir.

Resultado de imagem para marketing

Seja como for, é preciso que haja leitoras e leitores interessados nesse tipo de conteúdo duvidoso. Curiosamente, sempre há. Na real? Dispenso esse público. A baixar o nível, prefiro o anonimato e a consciência tranquila. Ainda não precisei apelar. Espero que nunca precise. Sigo quietinho por aqui e com meus tuítes nas redes sociais da vida.

Publicado em Relatos & depoimentos | Marcado com , , , , , , , , | 5 Comentários

Cabeça erguida ou nariz em pé?

Amina é segura demais ou esconde sua insegurança atrás de uma armadura? Confesso que não sei. A postura é de extrema segurança. O corpo fala: coluna ereta, peito aberto, queixo para cima. Caminha quase como se desfilasse. Diria que olha o mundo por cima. Quando fala, ouve-se a voz da certeza. Quase sempre afirma. Raramente indaga. O olhar, porém, dá a impressão, às vezes, de desconforto íntimo. Seria uma ponta de insegurança? Admito que ainda não sei, mas gostaria de saber se Amina é mesmo tão segura quanto parece ou se criou para si uma personagem superpoderosa.

Imagem relacionada

Seja como for, Amina é um tipo que cansa – pelo menos me cansa. Sabe aquela pessoa que tem opinião formada sobre quase tudo e conversa com você como se concordar com ela fosse algo óbvio? Afinal, o que ela diz só pode estar certo, não é verdade? O problema é que, para mim, não. Não é verdade tudo o que ela diz. Diria até que só concordo com ela ali na faixa dos 50%, 60%. Dificilmente, mais do que isso. Não que ela seja uma estúpida. De forma alguma. É que seu discurso vem pronto, sem espaço para contestação, nem mesmo para ponderação. Lembra um sanduíche do Mac Donald’s. Não há como fazer alterações. Segue um padrão rígido, idêntico em todas as lojas.

Amina, na verdade, não dialoga. Estabelece um monólogo em que ela sempre tem a primeira e a última palavra. Ai de você se a enfrentar, como caí na besteira de fazer um dia! Erro meu ter engolido tanto “sanduíche verbal” e regurgitado tudo de uma vez! Claro que, dessa forma, parecia ser eu o autoritário! É a velha história: quem atira sempre é suspeito, mesmo que tenha agido em legítima defesa. A propósito, cabe lembrar que ela está sempre na defensiva. Diria até que na ofensiva também – não dizem, afinal, que a melhor defesa é o ataque? Então ela policia, patrulha, quer corrigir o mundo a seu redor. Em português grosseiro: gosta de cagar regra.

Justiça seja feita. Essa postura rígida e altiva se dilui em meio a gestos de cordialidade, brincadeiras, demonstrações de simpatia. Daí não ser visível a olho nu. É preciso ter certo grau de perspicácia para identificar suas tendências autoritárias e sua soberba. É preciso também enfrentar Amina para vê-la colocar, mais claramente, suas afiadas garras de fora. Paradoxalmente, quando expõe sua força, deixa escapar uma aparente fragilidade. É como se, dentro daquela armadura de guerreira, sempre pronta a enfrentar o inimigo (real ou imaginário), houvesse uma pessoa hipersensível. Não me espantaria se, nela, corpo e armadura se confundissem e se retroalimentassem.

Resultado de imagem para armadura feminina

Dou-me ao trabalho de descrever Amina porque acredito haver muita gente parecida com ela por aí. Posso apostar que minhas leitoras e meus leitores se lembrarão de alguém assim. Em ambientes onde se defendem causas, por exemplo, é fácil localizar pessoas desse tipo. Nas universidades públicas, igualmente. É gente aguerrida, sempre pronta para debater ou mesmo brigar. Não raramente, subestima quem pensa de outra maneira. Menospreza ou até despreza quem não está do seu lado da trincheira, mais ou menos na linha do “quem não está comigo, está contra mim”. Ai de quem ousa lembrar a palavra “radical”! Apanha. Pois é…

Essa é uma gente que se sente revolucionária. Sua causa (ou suas causas) justifica tudo. É comum identificar, em pessoas como Amina, o autoritarismo daqueles que julgam saber o que é melhor para todo mundo. É gente que debocha de quem não leu determinadas obras ou não se interessou por determinados temas. Presunçosa, pretensiosa essa turminha! Convicta está de seu heroísmo e, portanto, de sua superioridade moral e intelectual.

Ainda assim, indago-me se, de fato, por trás dessa armadura, não existe fragilidade. Suspeito disso por dois motivos principais: 1- deve haver casos – não poucos – em que a real motivação para o engajamento em uma causa esteja em algum tipo de trauma psicológico (portanto, algo bastante pessoal, individual, subjetivo) e 2- certas lutas pressupõem uma visão mais ou menos romântica do mundo, o que não raramente redunda em alguma dose de ingenuidade. Eis onde entram a fragilidade e, por conseguinte, uma possível insegurança.

Resultado de imagem para soberba

Reconheço que especulo. Não estou aqui para psicoanalisar Amina e seus semelhantes. Minha ideia é compartilhar seu perfil no afã de que outras pessoas se identifiquem comigo e – quem sabe? – ajudem-me a entender e a lidar melhor com pessoas que me parecem tão difíceis às vezes, por melhores que sejam ou que pareçam ser. Gosto sinceramente de Amina. Só não consigo é seguir sua cartilha e, muito menos, ouvir sempre calado seu discurso carregado de supostas verdades, convicções pessoais, indicações rigorosas sobre como agir. Se eu quisesse ouvir pregação, frequentaria uma igreja. Definitivamente, não é o caso.

Amina e todas e todos aqueles que se parecem com ela têm seu lugar na sociedade, seu papel, sua relevância, quando evidenciam injustiças sociais ou crimes socioambientais. Só precisam entender que esse lugar, esse papel, essa relevância não são necessariamente superiores aos de todas as outras pessoas. Se Amina realmente se acha superior ou se, na verdade, usa uma armadura para esconder sua fragilidade é menos importante do que sua postura no mundo, cujo impacto se sente de maneira direta. O dedo em riste incomoda, independentemente de quem o esteja levantando e do porquê de tê-lo levantado. Convém ter em mente a sutil diferença entre cabeça erguida e nariz em pé.

Publicado em Comportamento, Relatos & depoimentos | Marcado com , , , , , | 1 Comentário

Ou ela ou eu!

Quem me vê malhando forte três vezes por semana não deve sequer imaginar o quanto sinto preguiça. Sério! Muita mesmo. Só que preguiça é assim: ou você vence a infeliz ou ela detona você. O que é melhor? Descobri a resposta a duras penas…

Resultado de imagem para bicho preguica

Desde a infância, praticar exercícios físicos representa esforço extra para mim. Na escola, as aulas de educação física só não eram mais destestáveis que as de matemática. Esportes como futebol, vôlei e handball? Fugia deles como o Diabo da cruz! Na faculdade, graças a um problema de saúde que, bem administrado, não me impediria de malhar, dei um jeito de obter dispensa dos dois semestres de prática desportiva.

Resultado de anos de preguiça: sobrepeso. Seguisse aquele ritmo, chegaria à obesidade.

Vivi uma fase excepcional quando, já gorducho, decidi encarar uma longa temporada de academia. Fiquei empolgado com os resultados, tomei gosto pelos treinos (sobretudo os coletivos), mas curiosamente, uns dois anos depois, acabei retomando minha vida sedentária. Passei a fazer inócuas caminhadas ao ar livre, uma vez por semana, sem compromisso, aproveitando o momento para conversar.

Um belo (?) dia, passeando no Parque da Cidade, em Brasília, senti uma pontada na região lombar. Era o prenúncio de uma crise que, dias depois, teria como diagnóstico hérnia de disco. Pois foi ela a responsável por me fazer, na marra, vencer outra vez  a preguiça de malhar, afinal o ortopedista fôra claríssimo: eu nunca me livraria dela (sem cirurgia) se não emagrecesse e me exercitasse regularmente para fortalecer a musculatura de apoio à coluna. Lá fui eu encarar uma academia outra vez!

Salto no tempo: doze anos e muita malhação depois, sob o acompanhamento rigoroso de um personal trainer, venço três vezes por semana a preguiça de praticar exercícios físicos. Afinal, sempre me lembro da dor de uma hérnia e do que ela me impediria de fazer se eu não controlasse meu peso e reforçasse minha musculatura, além de me alongar.

man doing bench press

Foto por Bruce Mars em Pexels.com

Entre sofrer um pouco durante 40 minutos de treino, em média, e parar de dançar, correr, saltar e fazer sexo selvagem (esse último é brincadeira), adivinha qual prefiro?

A bem da verdade, estou longe de ser um daqueles magníficos exemplos de superação, que a gente admira nas reportagens de TV. Afinal, a preguiça de malhar nunca passou e provavelmente nunca vai passar. Por outro lado, gosto de lembrar que, mesmo sem cirurgia, levo uma vida absolutamente normal ou talvez até acima da média. Danço, salto, corro, faço caminhadas sem sentir dor e, quando sinto alguma, ela logo passa.

Não venci minha preguiça, mas ela tampouco me venceu. A gente vive uma espécie de cabo-de-guerra. Ela puxa de um lado. Eu, de outro. Não devo negar que ela me vence às vezes, mas eu acabo por superá-la em nome justamente da vontade de aproveitar a vida sem dores. Facilita muito o privilégio de poder pagar um personal trainer. É dele expressiva parte do mérito de eu vencer a preguiça e ter a hérnia de disco sob controle. Em todo caso, eu poderia gastar o dinheiro com outras atividades. Pagar um profissional para me ajudar a malhar direito significa algo, não?

Meu caso é literalmente de no pain, no gain. Não fosse a dor da hérnia, provavelmente não teria conquistado os benefícios da atividade física regular. Era a preguiça ou eu. Ainda é. Sigo vencendo.

 

Publicado em Comportamento, Esportes, Relatos & depoimentos | Marcado com , , , , , , , , | Deixe um comentário