Afeto, respeito, temor.

Se você exerce ou já exerceu cargo de chefia, o que você espera ou esperava despertar nas pessoas sob seu comando: afeto, respeito ou temor?

Aposto que responderá: afeto e respeito. Afinal, quem ousa admitir, inclusive para si mesmo, que gosta de ser temido?

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Ao longo de minha vida profissional, já tive chefes — homens e mulheres — que despertavam em seus subordinados afeto e respeito. Evidentemente, foram os melhores.

Muitas vezes, porém, deparei com chefes que, consciente ou inconscientemente, preferiam despertar temor. Sentiam certo sabor sádico em ver seus empregados comportarem-se como servos, lacaios, súditos até. Apreciavam demasiadamente mesuras, rapapés, cabeça baixa, bajulação. Esses, claro, foram os piores.

Acontece que esse quadro não é tão nítido quanto o estou pintando até aqui. Obviamente, tem muitos matizes, e é justamente por ser nuançado que ele se torna mais complexo.

Há chefes que despertam afeto, mas não respeito. Há os que despertam respeito, mas não afeto. Há ainda os que ora despertam respeito, ora, medo — e nem sempre é possível ter certeza do que é um e outro. Já conheci até chefe que despertava afeto, respeito e medo ao mesmo tempo.

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Claro que combinações são complicadas porque o afeto dificilmente se dá com o medo. Parece-me igualmente difícil respeitar uma pessoa que inspira temor. Quando se trata de seres humanos, porém, tudo é possível. Preciso lembrar o que é Síndrome de Estocolmo?

Para matizar um pouco mais esta abordagem, devo lembrar que nem todos os chefes que inspiram apenas temor são tiranos. Há aqueles — homens e mulheres — que despertam medo por sua postura, mas não fazem questão de reverências, adulações, subserviência. Não humilham, embora sejam capazes de aterrorizar somente com o jeito de olhar ou de fazer perguntas.

Esse último tipo chega a dar a impressão de que apenas impõe respeito quando, na verdade, assusta, sim, pois sua severidade é mais sutil, porém não menos aterrorizante. Chefes assim costumam ter plena consciência de que despertam temor, até porque, via de regra, fazem-no propositadamente. São racionais, calculistas, fleumáticos.

A verdade é que qualquer chefe — homem ou mulher — carrega uma aura de poder, por mínima que seja. Afinal, tem a caneta na mão. Pode demitir. Talvez não possa demitir quem quiser na hora que bem entender. De qualquer forma, essa é sempre uma prerrogativa dele ou dela.

Abro parêntese. Talvez você esteja achando que me esqueci do fator admiração. Não o esqueci. Apenas o incluí no fator respeito, para simplificar. Sei que são conceitos diferentes, mas arrisco a aproximação. Fecho parêntese.

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Enquanto escrevia este texto, pensava: de qual chefe gostei mais? Olho para trás e me recordo de que tive muitas mulheres como chefe. Da primeira lembro-me pouco. Era a dona ou a diretora da escola de inglês onde lecionei por menos de seis meses. Em seguida, tive uma chefe na primeira redação de TV que pisei na vida. Muito simpática! Nada autoritária. Gostei realmente dela. Respeitava-a, mas aquele era meu primeiro estágio, então eu ainda não dominava o ofício suficientemente para avaliar seu desempenho.

Depois da TV, tive duas chefes, uma delas diretamente responsável por supervisionar meu segundo estágio. Mulher fantástica! Despertou em mim afeto e respeito/admiração. A que estava acima dela inspirava respeito e temor, a depender do momento. Era um pouco irascível, notava-se. Foi ela, porém, que me deu a oportunidade do primeiro emprego, onde tive mais duas chefes além dela. Mulheres incríveis! Ambas despertaram em mim, cada uma a sua maneira, afeto e respeito/admiração. Até hoje, tenho contato com elas, ainda que esporádico.

Daí em diante, foi a vez dos homens. O primeiro inspirou um misto de respeito e temor. Quando me esculachou pela primeira vez, restou somente o temor. Jamais poderia imaginar que, anos mais tarde, ele seria um de meus melhores amigos, um verdadeiro mentor profissional, quase um guru para mim. Curiosamente, isso só foi possível porque conquistei seu respeito.

O seguinte era do tipo que inspirava afeto à primeira vista. Tinha um carisma impressionante. Sinto saudades dele. Lamento termos nos perdido de vista. Eu também o respeitava, mas, vez ou outra, ele me decepcionava um pouco. Acho que ele tinha consciência disso. Em todo caso, foi um dos melhores chefes que tive. Voltaria a trabalhar com ele se o tempo voltasse. Não pensaria duas vezes porque, depois dele, nunca mais encontrei chefe tão doce e tão dócil.

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O próximo seria um político simpático, bonacheirão, que em mim inspirava mais afeto que admiração, pois notei cedo sua pobreza de ideias inteligentes. No entanto, parecia-me bem-intencionado. Isso garantia-lhe, claro, algum respeito de minha parte. Perdi todo o contato com ele. Hoje não sei nem sequer se ainda vive. De qualquer forma, a imagem que tenho guardada dele é, no geral, bastante positiva. Nunca soube que tenha se envolvido em prática de corrupção.

Em seguida, meu chefe direto era o presidente do órgão onde coordenei uma equipe de seis pessoas. Ele também era do tipo que despertava respeito e afeto. Tratava-me, às vezes, quase como se eu fosse um filho ou um sobrinho dele, afinal eu era bem jovenzinho, embora ocupasse cargo de supervisão. Depois que saí de lá, nunca mais tive contato com ele. Soube que faleceu anos depois, longe do centro do poder do qual fizera parte um dia.

Mais um chefe do sexo masculino viria, e com ele mantenho contato até hoje. Eis um tipo raro: capaz de despertar, ao mesmo tempo, afeto, respeito/admiração e temor. É um camaleão. Com o passar dos anos, tornou-se mais compreensivo e afetuoso. Quando o conheci, despertava verdadeiro pavor em muitas pessoas do escritório. Apesar de eu ser jovem para a função, ganhei sua confiança e seu respeito. Por muitos anos, entretanto, também o temi. Hoje, seu amigo, sinto-me bastante confortável para lhe dizer o que penso e sinto sobre quase tudo.

Como já me alonguei bastante, devo resumir as próximas experiências com chefes em apenas um parágrafo. Não o faço porque foram pessoas menos importantes, mas porque algumas delas mereceriam texto à parte, tão complexas foram e são. De alguns anos para cá, deparei com 1) um chefe amabilíssimo — também amigo, antes e depois de trabalharmos juntos –; 2) um outro simpático, porém inconstante e ligeiramente inseguro; 3) um “trator” (com tudo de bom e de ruim que possa haver nisso); 4) mais um amigo, simpático, confiável, porém crítico corrosivo; 5) um “pavão” inteligentíssimo, agradável, porém desconfiado; 6) um homem discreto, muito educado, mas limitado em vários sentidos e ainda mais desconfiado; 7) um jovem adulto pernóstico, de inteligência mediana e capaz de assédio moral; 8) uma mulher sensível (até demais), medianamente inteligente e rancorosa (a ponto de ser vingativa); e 9) um homem de inteligência de mediana para inferior, comedido, aparentemente falso, mas bastante educado.

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As brevíssimas descrições acima dão uma ideia do que essas e esses ex-patrões despertaram em mim e do quão diferentes podem ser as pessoas em postos de comando. Como se sabe, há rica diversidade no ecossistema da gestão de equipe.

Admito que aprecio essa diversidade, mas lamento profundamente notar que, em numerosas vezes, a simpatia mascara a incompetência, a competência mascara o (mau) caráter, e o (mau) caráter, bem… O (mau) caráter estraga tudo.

O mínimo que se espera de um gestor  de pessoas — homem ou mulher — é algum equilíbrio entre generosidade, competência e capacidade de liderança. Quando falta uma perna nesse tripé, ele, claro, fica manco.

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Enquanto é tempo.

Perdi a pessoa que eu mais amava neste mundo. Um câncer devastador levou minha mãe no último domingo. Ainda tenho a sensação de que ela está no hospital ou na casa de minha irmã mais nova, à espera de minha chegada, para que eu também cuide dela. Minha mãe dizia que se sentia mais segura quando eu estava por perto. Gostava particularmente de que eu dormisse no hospital ou no quarto ao lado do dela, quando estávamos na minha irmã ou em minha casa. De fato, a doença dela instigou meu lado paternal, e eu era quase um filho superprotetor.

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“Melancholy”, Edvard Munch, 1891/1893.

Na verdade, minha mãe sempre despertou em mim a vontade de protegê-la. Não porque ela fosse frágil, mas por ser ocasionalmente ingênua e, certamente, muito generosa, inclusive com quem eu julgava não merecer sua generosidade. Eu tentava, às vezes com êxito, às vezes não, impedir que pessoas a explorassem ou a enganassem ou mesmo a maltratassem. Com ela já idosa, tornei-me ainda mais rigoroso nessa vigilância. Cheguei a comprar brigas por causa dela e confesso não me arrepender disso porque, em alguns casos, o respeito que tinham por ela se devia, em parte, ao temor que tinham de mim.

Felizmente, mamãe era tão querida que podia, eventualmente, prescindir de minha proteção. O jeito singelo de ser, que despertava o filho cuidadoso em mim, era o que na verdade conquistava simpatia para minha mãe. Estava ali uma pessoa quase completamente despida de poder. Daí a atrair espertalhões, era só um pulinho. Mas lá estava eu para impedir ou pelo menos inibir a ação dessas pessoas. Digo isso não somente porque essa era, de fato, minha postura, mas porque era eu o filho mais próximo fisicamente de minha mãe. Morávamos a menos de 1 quilômetro um do outro. Sem contar que minha irmã mais velha passa mais anos no exterior do que no Brasil. Outra também se mudou do país. A terceira mora em uma cidade vizinha, a aproximadamente 200 quilômetros de Brasília.

“Família Campestre”, Eugenio Zampighi, século 19.

É estranho pensar que sepultei minha mãe. Eu olhava para o corpo dela no féretro, e aquela presença me confundia. Se aquele corpo inerte não era mais ela, quem seria ela? Onde estaria a alma que tanta vida dera àquele corpo? Se ainda vive, por que se mantém invisível? Tenho lembranças remotas e recentes de minha mãe, e elas também se mesclam na minha cabeça, e fico ainda mais confuso. Não sei em qual imagem me apegar. Porque, afinal, quero sempre me lembrar dela de alguma forma, só que não como alguém que deixou de viver.

Parece inacreditável tudo isso. Não! Minha mãe não morreu. Está na casa dela aqui perto da minha. Vou almoçar com ela amanhã. Ela vai preparar um almoço delicioso, temperado com muito amor, e vou comer três pratadas e deixá-la orgulhosa. Não! Ela está na casa de minha irmã mais nova, sob cuidados extremos, numa cama hospitalar, sofrendo pela perda gradual dos movimentos, mas ainda lúcida e disposta a demonstrar seu afeto, e eu lá, repetindo sempre: “Estou aqui, não vou deixar você, vou ficar muitos dias do seu lado”. Não! Ela está no hospital, e sou eu que vou passar a noite na cama ao lado da dela, e ela vai acordar várias vezes à noite, e eu vou pedir ajuda de uma enfermeira para trocá-la, ajeitá-la no leito ou aplicar-lhe morfina para aliviar a dor. Não! Ela está em minha casa em Brasília, no frio de julho, e eu a cubro de edredons, mantas e abraços. Ela, que não gostava de muito “grude”, no fundo sentia-se bem com meus carinhos. Ao longo da madrugada, ela acordava para ir ao banheiro e, antes que se levantasse da cama, lá estava eu à porta do quarto, pronto para acompanhá-la, e ela logo indagava, surpresa: “Você não dorme, não?”. Ficava ao mesmo tempo impressionada e satisfeita com minha rapidez: “Mal toco os chinelos, e você já está aqui!”.

The ill woman, c.1886 - Vasily Polenov

“A Mulher Enferma”, Vasily Polenov, c. 1886.

Vi minha mãe gritar e chorar de dor. Vi minha mãe esforçar-se para estender os braços, tocar meu rosto e acariciá-lo com as duas mãos. Vi minha mãe nervosa, angustiada, inquieta porque sentia que não estava melhorando. Vi minha mãe irritada e impaciente quando tomou doses erradas de um medicamento e a vi novamente afável e generosa quando interrompeu o uso dessa medicação. Vi minha mãe sorrir de alegria ao rever os netos. Vi minha mãe comer açaí como uma criança se delicia com um sorvete. Vi minha mãe ter toda a liberdade do mundo para me pedir algo que ela queria, e eu ter a imensa alegria de poder lhe proporcionar tudo o que ela quisesse. Vi minha mãe cair. Vi minha mãe dormir, enquanto eu a cobria para que não sentisse o frio da madrugada. Ouvi minha mãe se despedir de mim com os olhos marejados de afeto.

Se você tem mãe e gosta dela, não poupe carinho, tempo, presença, dinheiro. Dê a ela o máximo de si. Quando ela se for — se ela partir antes… — você ainda sentirá que fez pouco, mas terá a consciência tranquila, como eu tenho, de que fez o que estava a seu alcance para demonstrar seu amor por ela e fazê-la mais feliz. Nos últimos meses, sobretudo, me despi de todos os fúteis acessórios de minha personalidade para me dedicar quase integralmente a minha mãe. Orgulho, vaidade, medo, preconceito, trauma, tudo foi pelos ares. Graças a Deus! Não me arrependo nem um segundo do que fiz e, se o tempo voltasse, mais eu faria, muito mais, muito mais mesmo.

Se você tem mãe, e ela visivelmente gosta de você, como a acachapante maioria das mães, invista em sua relação com ela. Nunca me arrependi de ter em minha mãe minha melhor amiga. Nunca me arrependi de um dia tê-la aceitado como era e valorizado suas qualidades, quase ignorando seus defeitos. Talvez você não tenha tido a sorte que tive de ter uma mulher fantástica como mãe. Isso acontece. Há mães mais e menos generosas, mais e menos dedicadas, mais e menos gentis, mais e menos compreensivas, mais e menos instruídas, e por aí vai. Tudo bem. O importante é que, mesmo diante das limitações de sua mãe, única e insubstituível, você consiga transmitir a ela seu amor, um amor que você já sente e, às vezes, só precisa demostrar — ou demonstrar mais. Não espere que a doença ou a morte lhe dê coragem para expressar seus melhores sentimentos por sua mãe. Confesso, outra vez, que eu teria demonstrado muitíssimo mais meu amor por ela se eu soubesse que a perderia tão cedo — pois eu acreditava firmemente que ela chegaria aos 90, como minha avó, mãe dela, chegara.

Mother And Son, Circa 1910-15 Artwork By Alice Schille Oil ...

“Mãe e Filho”, Alice Schille, c. 1910/15.

Quando se é jovem, pai e mãe parecem eternos. Quando a juventude se vai, acende-se um sinal de alerta, mais relacionado ao receio de que eles fiquem doentes. Quando se avança na fase adulta, e os pais já estão lutando contra as doenças que você temia que eles tivessem poucos anos atrás, a morte os espreita, mas aí você faz de conta que não a percebe. Eis que ela chega, de uma vez ou de mansinho, e carrega quem um dia ninou você. Seu mundo desaba. Pode acreditar.

Sepultei minha mãezinha na última segunda-feira. Ainda me sinto confuso e um pouco atordoado. Pensava que fosse enlouquecer quando isso acontecesse, mas estou aqui, diante deste teclado, firme na medida do possível. Ora me emociono, ora me fecho, ora me distraio. Seja como for, sei que minha mãe está comigo o tempo todo, em minha memória, em minha saudade. Para suportar sua falta pelo resto de minha existência, preciso desesperadamente acreditar que vou reencontrá-la um dia. Caso contrário, sem essa esperança, aí, sim, posso vir a enlouquecer. Por enquanto, sigo firme, na medida do possível. Na medida do possível.

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Afirmo: você nega.

Hoje é dia de maldade. Vim colocar minhoca na sua cabeça, pulga atrás da sua orelha. Banca? Segura a onda? Mesmo? Não venha reclamar depois. Lanço aqui o desafio: pensar no que você tantas vezes evita ou, talvez, desconheça. Vamos lá?

Para começar, proponho que você reflita um pouco sobre a ideia de negação. “A negação é um mecanismo de defesa inconsciente em que o conflito emocional e a ansiedade são evitados por recusa em reconhecer pensamentos, sentimentos, desejos, impulsos ou fatos conscientemente intoleráveis”, afirma o psicólogo clínico e psicoterapeuta português Pedro Martins.

See Not, Hear Not, Speak Not: Three Faces of Denial

Acredito que todas as pessoas vivem ou já viveram o estado de negação. Você, portanto, está entre elas. Aposto que você já deu uma de avestruz, enfiou a cabeça na areia e fez de conta que algo considerado ruim não existia (sim, eu sei que essa história de avestruz enterrar a cabeça é lenda, mas gosto da analogia porque a imagem funciona).

Agora que você já admitiu (espero!) ter feito de conta, ao menos uma vez, que um problema não existia, que tal resgatar essa situação? Qual problema (ou quais problemas) foi esse que levou você a negá-lo? Por que fingiu que ele não existia? O que paralisou você a ponto de evitar buscar uma solução? A separação de seu pai e sua mãe? A atração pela namorada ou pelo namorado de sua melhor amiga ou de seu melhor amigo? Uma situação financeira ruim?

Recordou-se? Como se sentiu? Essa lembrança fez mal, fez bem ou foi indiferente para você? Podemos seguir em frente?

The high price of denial: the cost to China of sweeping the ...

O próximo passo é descobrir se você está negando a existência de algo hoje. Provavelmente, está. O que seria? O que você finge não existir? Do que você está fugindo? De uma doença? De uma perda? De uma separação? De uma paixão? De uma atração sexual que você considera errada ou pecaminosa? Da conta em vermelho no banco? Pense! Ignore o medo.

Lembrou? Descobriu? Não? Tente de novo. Enfrente o espelho. Coragem!

Agora que você corajosamente enfrentou negação ou negações do passado e do presente, que tal refletir sobre o que está levando você ao estado de negação hoje? O que impede você de encarar a situação e tentar resolvê-la? Mais: no que você está se apegando para sustentar essa negação? Família? Igreja? Trabalho? Uma pessoa? Sexo? Drogas? Rock’n’roll? Tudo isso junto? O que foi? Pense!

Helping A Person That Is In Denial : South Africa's Best Rehab Centre

Estou sendo muito atrevido? Talvez sim. No entanto, estamos longe agora. Não vejo você. Não sei se é amiga, amigo, parente, conhecida, conhecido, fã, desafeto. Tenho apenas ideia de quem segue este blog. Presumo que sejam pessoas suficientemente esclarecidas para saber que encarar o próprio espelho é tarefa difícil. Exige bravura e, na maioria das vezes, psicoterapia também. Que tal ir atrás de um ou de uma psicoterapeuta?

Sabe por que digo tudo isso? Não sou psicólogo, nem trabalho para profissionais de psicologia, portanto, nada tenho a ganhar, materialmente, ao defender que você busque um ou uma psicoterapeuta – ou psicanalista, se preferir alguém dessa linha. Digo isso porque, se você chegou até aqui, algo tocou você neste texto. Se não, tê-lo-ia abandonado logo no início ou no meio. Apenas curiosidade? Será mesmo? Não haveria algo mais nessa curiosidade? Ou será que o estado de negação ataca outra vez, e você não admite que estou certo, embora precise, sim, de terapia para mergulhar fundo em si mesma (o), entender melhor aquilo que nega, admiti-lo e superar mais esse desafio na vida?

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No alto do poço.

Mais de um amigo recomendou “O Poço” (“El Hoyo”, no original em espanhol). Fui conferir. Descobri um filme intrigante, que prende a atenção do começo ao fim. Trata-se de uma produção modesta, sobretudo quando comparada à média das realizações em cartaz nas principais plataformas de streaming, e isso tem seu apelo, pois o ambiente clean e a estética minimalista contribuem para o clima de mistério e suspense. Identifiquei problemas também. Mas, se apresenta falhas no varejo, “O Poço” tem qualidades no atacado, e são elas que vêm chamando a atenção, a ponto de tornar o filme um dos mais acessados na Netflix ao longo das últimas semanas.

Uma das principais qualidades de “O Poço” está em manter o clima de tensão e mistério por 1 hora e 34 minutos, duração total da película. Cumpre, portanto, sua proposta enquanto thriller. A curiosidade vai a mil. Afinal de contas, a que realmente serve o tal poço, uma prisão vertical com centenas de andares? Por que o protagonista, Gureng (Iván Massagué), opta por estar ali (em troca de um diploma apenas)? Quem construiu, controla e administra aquele estranho cárcere? Por que se serve ali, diariamente, um banquete aos detentos, se somente os que estão nas celas mais elevadas abocanham o faustoso repasto, enquanto os que estão em níveis inferiores devem se contentar com as sobras ou simplesmente com bandejas vazias? Qual é a lógica desse bizarro sistema alimentar uma vez que invisíveis carcereiros trocam mensalmente presas e presos de cela e, portanto, de andar, aparentemente de maneira aleatória?

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São muitas indagações, e a maioria delas fica sem resposta — inclusive a enigmática sequência final. Em mais de uma entrevista, o diretor Galder Gaztelu-Urrutia admite que optou por deixar o desfecho de “O Poço” aberto a interpretações, embora ele tenha sua preferida (sim, o próprio realizador abre mão de um veredito). Cabe a quem assiste ir decifrando pouco a pouco o que pode estar por trás de uma trama ao mesmo tempo simples e desafiadora.

Logo nas primeiras sequências de “El Hoyo”, deduz-se o óbvio: o filme expressa uma crítica contundente ao egoísmo e ao individualismo em geral e à desigualdade social em particular. Para isso, recorre à alegoria. A prisão vertical representaria, portanto, a desequilibrada estratificação social, onde quem está no alto goza de privilégios, e quem está embaixo vive das migalhas dos mais favorecidos. Esta seria, portanto, a primeira camada de minha modesta interpretação: o presídio vertical equivaleria à sociedade de classes com suas consequências.

Abro parêntese. Claro que a desigualdade social está longe de ser exclusividade de um ou de outro regime.  Em alguns, porém, ela se evidencia mais. Os contrastes entre ricos e pobres são mais acentuados no capitalismo, por exemplo. A distância entre o luxo e o lixão pode até não ser física às vezes (eventualmente luxo e lixo convivem lado a lado), mas é incomensurável do ponto de vista socioeconômico. Fecho parêntese.

Uma segunda camada interpretativa estaria, por assim dizer, em uma alegoria dentro da outra, isto é, a plataforma que transporta comida do nível zero (mais elevado) até o nível mais baixo da prisão. Ela representaria a luta pela sobrevivência dentro de um sistema cruel onde impera o princípio do “cada um por si”. Não deve ser por acaso que a versão do título “O Poço”, em inglês, é “The Platform”, que pode servir tanto para designar a prisão vertical quanto a gigantesca mesa de concreto que transporta comida de andar em andar.

Até aqui, tudo parece óbvio demais — curiosamente, a palavra “óbvio” merece destaque nos diálogos iniciais do filme, entre Goreng e seu primeiro companheiro de cela, o velho Trimagasi (Zorion Eguileor). Mas a proposta de “O Poço” não para por aí. Seria muito fácil mantê-la no nível quase mecânico, para não dizer primário ou simplório, de crítica escancarada à desigualdade social. Eis onde identifiquei outra qualidade do filme: a clara visão de que denunciar a face cruel do capitalismo não significa necessariamente defender sua antítese, o socialismo, ou qualquer outro modelo semelhante.

Assim é que “El Hoyo” mostra-se impiedoso também com propostas na linha do socialismo e do comunismo. Na prática, elas não funcionariam, e isso fica claro por meio das tentativas frustradas de implementar na prisão a “solidariedade espontânea”, ideia romântica da personagem Imoguiri (Antonia San Juan). Mais dura ainda, nesse sentido, é a metamorfose por que passa Goreng, um leitor de Don Quijote de la Mancha que acaba trocando a beleza da célebre novela de cavalaria pela brutalidade de uma faca.

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O desenrolar do roteiro de David Desola e Pedro Rivero encarrega-se de ir aniquilando qualquer esperança de redenção para os personagens – e para os humanos que eles representam. [SEGUE SPOILER] Goreng, racional e humanitário no começo do filme, converte-se em um tipo emocional e sanguinolento, como de regra foram os revolucionários históricos. Sua postura equilibrada, que tantas vezes contrastou com o pragmatismo cínico do velho Trigamasi, dá lugar a um vale-tudo em nome da justiça.

Por isso, minha aposta é: a pretensão do filme está mais em evidenciar e denunciar o egoísmo e o individualismo da espécie humana do que em repisar o fracasso da aventura capitalista ou os absurdos da desigualdade social, esteja onde estiver. O preço que Gureng paga por sua solidariedade é demasiadamente elevado e pode até [SEGUE OUTRO SPOILER] significar seu próprio sacrifício. É o que sugere o diretor ao declarar, em mais de uma entrevista, que Gureng morre antes de atingir seu objetivo. O resto, isto é, o desfecho da película, seria alucinação dele (como dele, porém, se ele morreu?).

“O Poço” é manancial de chaves interpretativas. Pode-se analisá-lo sob o ponto de vista psicológico (com ênfase no perfil dos personagens e o que eles representam). Pode-se investigar a simbologia de muitos elementos presentes em cena (o livro de Cervantes, a adaga de Trigamasi, a panna cotta, a menina de traços orientais). Pode-se destrinchá-lo à luz das políticas identitárias (o homem branco europeu, o negro, o idoso, as mulheres, a menina asiática etc.). Pode-se mergulhar mais fundo na abordagem política e discutir a tensão entre dominantes e dominados. Certamente, todas essas chaves de interpretação, entre algumas outras, têm sua relevância e ajudam a compreender melhor “El Hoyo”. Mas está justamente nessa abundância de leituras algumas das falhas que identifiquei no filme.

Não quero ser exaustivo, portanto vou apontar somente os aspectos que me incomodaram mais [SEGUEM ALGUNS SPOILERS].

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Se as prisioneiras e prisioneiros estão sob constante monitoramento (prova disso é o uso punitivo de termostatos: a temperatura cai ou se eleva muito quando alguém furta um alimento para comer mais tarde, por exemplo), como podem dois detentos descerem do nível 6 até os mais baixos patamares, causando tremendo alvoroço, com pancadaria e morte, sem qualquer intervenção da administração do presídio?

Essa abundância de indagações, se contribui para o clima de mistério e suspense, passa também a impressão de que roteiristas e diretor “atiraram para todo lado” por incapacidade de seguir uma proposta clara, um norte conceitual bem definido. Fica mais fácil abrir um imenso leque de interpretações do que se arriscar em uma e apostar todas as fichas nela, sujeitando-se às pesadas críticas de quem pensa diferente. O mesmo vale para o desfecho. É comum criadores depararem com uma sinuca de bico na hora de fechar a obra e simplesmente não encontrarem saída à altura do que conceberam até ali. Optam, então, por um desfecho aberto. Talvez tenha sido esse o caso de “El Hoyo”.

De qualquer maneira, o filme acaba dialogando bem com o momento atual: falta de norte. Ninguém sabe exatamente onde está e para onde vai, embora tenha alguma ideia sobre de onde veio. Neste momento de distanciamento social, em que muita gente se vê confinada em casa, “El Hoyo” de certa forma traduz essa sensação de claustrofobia, angústia, impotência, incerteza e injustiça destes tempos de COVID-19. Claro que, tal como na vida, tudo é bem mais difícil para quem está no fundo do poço. Para quem está no alto — ainda que siga em um poço — o desconforto é sempre menor, quase o mesmo de uma gripezinha.

 

 

 

 

 

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Êxito, fracasso, eu e o mundo.

Ultimamente, tenho refletido, mais que o habitual, sobre êxito e fracasso. Em alguns campos, penso que tenho sucesso. Em outros, só derrota. Então, alguém me diz: é assim com todo o mundo. Pode ser, mas e daí? Devo cruzar os braços diante de meus malogros porque a maioria das pessoas também experimenta frustrações? Devo renunciar ao esforço pelo triunfo? Devo desistir de pensar a respeito?

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Penso que a resposta para essas três perguntas é um retumbante NÃO. Se me sinto mal porque algo não vai bem, devo tentar descobrir a causa disso e fazer o possível para resolver o problema. Essa busca, claro, também representa risco de êxito e de fracasso. Estou, portanto, diante de um círculo vicioso: se não descubro a causa de meu insucesso, esse é mais um insucesso, que só reforçará meu fracasso. Será que fui claro?

Nessa reflexão, deparo com várias questões, tais como:

  • O que é ter êxito?
  • O que significa fracassar?
  • Até que ponto minha percepção de êxito e fracasso é razoável, cabível?
  • De que maneira o ambiente em que vivo afeta meu desempenho e a percepção sobre meu desempenho?
  • O ambiente em que vivo é confiável do ponto de vista da avaliação justa de meu desempenho?

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Aprendo logo que a questão do sucesso e do insucesso passa tanto pelo aspecto factual quanto pelo aspecto da percepção. Do ponto de vista factual, o êxito ou o fracasso se revela em uma situação ou diversas situações concretas em que uma pessoa se vê em apuros porque tomou uma decisão errada ou deixou de fazer algo necessário, por exemplo. Do ponto de vista da percepção, dar-se bem ou dar-se mal é algo subjetivo. Obviamente, o que é sucesso para mim pode não ser para você e vice-versa. O mesmo vale dizer sobre o malogro.

Daí que preciso descobrir e compreender o que são, para mim, êxito e fracasso. Depois, penso que vale a pena conhecer a visão de outras pessoas (amigas, amigos, colegas, familiares etc.) sobre esses dois conceitos e compará-la com a minha. Talvez isso me ajude a contextualizar e dimensionar melhor o que entendo por sucesso e insucesso. Finalmente, pode ser interessante testar a percepção que tenho de meu desempenho: será que estou sendo excessivamente severo ou demasiadamente indulgente comigo mesmo? Tenho uma percepção realista de minha vida? Há um mínimo de simetria entre minha autoavaliação e a avaliação de outras pessoas sobre mim?

Nesse processo de autoexame, entra a apreciação também de meu ambiente. Ele é favorável ou desfavorável a meu crescimento e, por conseguinte, meu sucesso? Até que ponto é do ambiente a responsabilidade por eu acertar ou errar? Essa é uma ponderação necessária. Afinal, ninguém erra nem acerta sozinho.

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José Ortega y Gasset (1883-1955), filósofo espanhol.

Lembro, então, a conhecida máxima do filósofo espanhol José Ortega y Gasset, para quem “o homem é o homem e sua circunstância”. É impossível, para Gasset, considerar o ser humano como sujeito ativo sem considerar também seu entorno, desde seu próprio corpo até seu contexto histórico, o que naturalmente envolve sua formação.

Se erro, pesa para isso a circunstância em que estou. Se acerto, idem. Incluo na circunstância de cada pessoa, por minha própria conta e risco, fatores como saúde física e mental, estado psicológico, apoio moral, situação financeira etc. Evidentemente, as circunstâncias não respondem sozinhas por meu desempenho. Minha postura diante delas faz diferença. Em todo caso, concordo com Gasset. Não se pode jogar tudo nas costas das pessoas. O contexto tem seu papel.

Quando me convenço de que estou malogrando em um empreendimento qualquer e busco a causa ou as causas desse insucesso, preciso me lembrar de que sou a soma de mim mesmo e minha circunstância. O que em meu entorno está me prejudicando? Como estou reagindo a essa influência? Há algo que eu possa fazer? Até que ponto?

Esse é, em síntese, o resultado de minhas reflexões recentes, ainda embrionárias, sobre êxito e fracasso. Comecei a pensar nesse tema porque, no momento, me sinto um tanto inseguro sobre o que devo considerar exitoso ou malogrado em minha vida pessoal e profissional. Meu autoexame não tem ajudado muito até agora. O cenário está um tanto difuso. Só tenho uma certeza: quero sair desse processo reflexivo com alguma bússola para meus próximos passos. Leitor, leitora, você sabe como é estar assim?

 

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