O vício em séries de TV.

Quem nunca? Quem nunca passou um fim de semana inteiro maratonando séries de televisão? Eu, você, ela, ele, nós, vocês, elas, eles. Todo o mundo. É difícil resistir ao gigantesco leque de opções de narrativas cativantes – ainda mais nestes tempos de distanciamento social, quando o lazer está restrito.

Se você tem um gosto eclético, como eu, aí mesmo é que a tentação se torna irresistível. Ação, comédia, drama, documentário, suspense, o que me importa é a capacidade da série de prender minha atenção. Confesso que engulo até algumas porcarias. Afinal, para me distrair, vale (quase) tudo.

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Ao longo dos anos, a variedade e a qualidade vêm melhorando. Deve ser a experiência com esse formato, um dia preso às limitações da TV aberta. Os serviços de streaming abriram as portas para um mundo de alternativas. Uma das vantagens, além da multiplicação de títulos, é que ninguém precisa mais esperar uma semana para ver o capítulo seguinte das séries favoritas – ainda que hoje seja necessário aguardar a próxima temporada. Para isso, há a saída de optar por aquelas que já tenham ao menos 3 temporadas disponíveis.

Eis onde entra o vício. Você não se segura. Quer ver mais um episódio e mais um e mais um… Passa horas diante da TV e não sente o tempo correr. Às vezes, fico um domingo inteiro grudado na televisão. Só paro quando vou ao banheiro ou desço ao térreo para buscar a comida que pedi via iFood ou Uber Eats. Sinal dos tempos.

Quem vive essa experiência sabe também que um dos desafios do “vício” em séries de TV é escolher qual delas assistir naquele dia, naquele momento. Pois isso envolve clima. Você pode estar deprimido e querer se alegrar – ou o contrário: ver algo condizente com sua tristeza. Daí que você pode estar adorando uma série de ação, como “Vikings”, mas preferir assistir a “13 Reasons Why”. Quando a “bad” passa, você pode estar no clima de algo mais divertido e inverossímil, como “Dynasty”, que aliena você de tudo e, conforme seu tipo de humor, faz você rachar o bico.

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Agora, há dias em que estou realmente propenso à reflexão. Quero algo que desafie o raciocínio. Sinto que, se eu vir uma série só por distração, estarei perdendo tempo. É quando escolho documentários, como “The Social Dilemma”, sobre o impacto negativo das redes sociais em nossas vidas, ou “Behind the Curve”, a respeito das absurdas teorias terraplanistas, entre outros tantos títulos disponíveis na Netflix, na Amazon Prime ou na Globoplay, para me limitar aos serviços de streaming a que tenho acesso.

Se estou no clima realista, mas não a ponto de ver um documentário, opto por narrativas pouco ou nada fantasiosas. É o caso de “Fauda”, uma de minhas séries favoritas. Retrata o conflito entre árabes e israelenses de maneira crua e ao mesmo tempo cativante. Há muita violência, mas não gratuita. “Bloodline” também se encaixa nesse perfil, só que sem o viés político. Relata a tragédia da fictícia família Rayburn.

Algo que sempre me atraiu nessas séries de TV do século 21 é a possibilidade de viajar pelo mundo inteiro sem sair de casa. Durante a infância e a adolescência, sempre questionava por que diabos só havia seriados americanos na televisão. Cresci vendo exclusivamente o que, à época, chamavam-se enlatados. Explicava-se que levavam essa denominação em sentido pejorativo porque as emissoras de TV brasileiras, quando adquiriam um programa norte-americano de elevada audiência, eram obrigadas a comprar junto um pacote de filmes e séries de qualidade inferior. Daí que consumíamos aqueles “enlatados” sem saber que nos eram impostos pela indústria de entretenimento do Tio Sam. Hoje, felizmente, temos acesso a filmes e séries da Islândia à Coreia do Sul, da Argentina à Turquia.

Fauda - Caos no Oriente Médio - Conexão Israel

Na adolescência, também fiquei fã de várias séries televisivas. Só que, naqueles tempos, não havia a mesma quantidade de opções. Então, o jeito era se contentar com aquelas doses semanais de duas ou três delas – sem contar que as telenovelas sempre fizeram sombra aos “enlatados”. Eles eram divertidos, mas não tão sedutores quanto o produto nacional, exibido todos os dias.

É interessante notar que muitas das séries que a gente ama poderiam perfeitamente render um único filme. Não precisariam de três, quatro, cinco temporadas. Mas curiosamente a gente se prende nessa enrolação, aceita morder a isca e, de gancho em gancho, ir consumindo episódios e mais episódios, alguns absolutamente desnecessários. Eis onde entra o “vício”. A gente simplesmente não consegue parar. Quer conhecer o desfecho de cada personagem e, por fim, da trama inteira.

A verdade é que a maioria dos truques para prender nossa atenção, que a esmagadora maioria das séries de TV utiliza, já existe há séculos. Eles vêm do teatro, da literatura. A narrativa entregue pouco a pouco já está presente em “As Mil e Uma Noites” (compiladas em árabe a partir do século 9), e o romance-folhetim do século 19 grudava em suas páginas, durante meses a fio, os olhos das moças alfabetizadas. As telenovelas são herdeiras desse modelo narrativo, que antes passou pelo rádio.

Livro das Mil e Uma Noites – Volume 2

O suspense que um capítulo (ou episódio) deixa no ar, as peripécias envolvendo os personagens, as surpresas, as coincidências, as reviravoltas, tudo isso está presente no teatro e na literatura mais antigos. Hoje em dia, porém, temos imagens coloridas em movimento, atores e atrizes “estelares”, efeitos especiais, sonoplastia, enfim recursos dramáticos e tecnológicos impossíveis no papel.

Fato é que a narrativa nos fascina desde a infância da humanidade e desde que, pequeninos, ouvimos nossas mães ou pais ou avós relatarem histórias para dormirmos. O que me preocupa hoje é esse mesmo fascínio pelas séries de TV estar nos afastando dos livros. Afinal, a televisão nos oferece tudo “mastigado”. Não precisamos usar muito a imaginação, menos ainda recorrer ao dicionário. Vem tudo pronto. Não se aprende tanto assim. Os livros ainda guardam o segredo do conhecimento mais profundo.

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Amizade e angústia.

Quando a gente pensa em amizade, costuma vir à cabeça a ideia de companheirismo, parceria, cumplicidade, apoio. Raramente ocorrem imagens de dor, abandono, frustração, angústia. A verdade é que numa amizade tudo se mistura. Assim como a maus momentos podem suceder alegrias, expectativas podem trazer decepções. Da mesma forma, aquela agradável sensação de bem-estar pode, de repente, virar profunda angústia. Enfim, amigos podem se tornar meros conhecidos ou mesmo inimigos. O que transforma o vinho em vinagre? Depende. De quê? Eis a questão de que pretendo tratar brevemente aqui, com uma abordagem bem pessoal: a aflição que certos amigos me causaram.

Foto por Brett Sayles em Pexels.com

Considero-me sortudo no campo da amizade. Não me faltam amigas e amigos. Digo que tenho sorte, mas, na verdade, ninguém caiu ou cai do céu nos meus braços. Faço minha parte. Invisto nas relações que julgo valer a pena. Talvez a sorte esteja no fato de meu investimento quase sempre dar retorno. No mais, haja suór, haja construção! Relações humanas dão trabalho. Todo o mundo sabe disso.

No que me diz respeito, vejo como mais desgastante numa amizade a tentativa frustrada de abrir os olhos de um amigo. É duro você enxergar o que ele não consegue ou não quer ver. É mais difícil ainda passar pela experiência de ver o amigo se magoar e até se afastar de você justamente porque você está tentando abrir os olhos dele. Às vezes, nada do que você diz ou faz adianta. O amigo quer seguir aquele caminho, e tentar impedi-lo pode ser pior. Muitas vezes, seu alerta até o incentiva a tomar determinado rumo, seja por teimosia, seja pela vontade de provar independência.

Já passei por várias situações assim, mas relatarei apenas duas:

  • O amigo se apaixonou por uma pessoa não confiável. Ficou tão cego que preferiu duvidar de minha amizade a acreditar no risco de estar metido em uma roubada. No caso, a cegueira da paixão combinou-se com o amor próprio. Dar o braço a torcer? Jamais! Observar melhor a “pessoa amada”? Nem pensar! E o medo de se decepcionar e cair das nuvens?
  • O “brother” descobriu o álcool. Sóbrio, tinha vida admirável. Sob efeito de bebida, convertia-se em um louco. Depois, encantou-se por outras drogas. Ficou pior. Nesse caso, nunca se voltou contra mim (a não ser quando estava à base de “aditivos”, e eu tentava contê-lo), mas simplesmente ignorava meus constantes pedidos para que moderasse. Lúcido, dava-me sempre razão e prometia interromper suas perigosas aventuras, mas, uma vez embriagado, esquecia tudo o que havia prometido. Virava um bicho. Algumas vezes, com muito esforço, eu o contive. Outras, agi em vão. Na mais frustrante delas, voltei sozinho para casa e, apenas muitas horas depois, tive notícias dele. Passei a madrugada em claro, sem saber em que estado ele se encontrava.
Foto por Harrison Haines em Pexels.com

É preciso ter muita paciência para suportar situações como essas e outras, que não relatei aqui. Sinto profunda angústia nessas ocasiões. Sinto também frustração, impotência. O que fazer quando um amigo está cego? Desistir de abrir seus olhos? Com o tempo, sim, desisto, mas confesso que essa desistência tem um preço: minha decepção com o amigo e comigo mesmo. Afinal, gostaria de ter sido mais persuasivo, convincente. Bate aquela sensação de fracasso. Tudo isso é realmente angustiante.

Se o amigo quer pagar o preço de namorar ou se casar com uma pilantra, problema dele! Chegará o dia em que a vida lhe abrirá os olhos. Não é assim que a maioria pensa? Levo tempo até chegar a essa conclusão, mas acabo chegando, mais cedo ou mais tarde. Foi assim com um “brother” que não quis acreditar em mim quando o alertei para o fato de a namorada estar, claramente, pronta a aplicar nele o velho “golpe da barriga”. Não me ouviu uma, duas, dez vezes. Desisti. Só depois de, muito a contragosto, ele virar pai, despertou do sono. Por fim, “caiu da cama” quando se deu conta de que a jovem por quem havia se apaixonado queria lhe arrancar todos os centavos do bolso. Paga pensão alimentícia até hoje, embora os dois pombinhos não dividam o mesmo teto.

Sabe o que é pior? Quando o amigo é teimoso, mesmo que você o desculpe, a decepção fica. Até porque o desapontamento vai além do fato de o amigo não ter ouvido você. É também com a inteligência dele que você se decepciona. Afinal, no fundo, no fundo, você esperava que seu amigo fosse mais esperto.

Foto por cottonbro em Pexels.com

No caso do amigo dupla face (sóbrio/alucinado), a questão é um pouco mais complexa. Você não quer que o sujeito se dê mal. Desistir dele pode significar vê-lo viciado, ferido, abusado, acidentado, preso, trapaceado, roubado ou – bate na madeira! – morto. Tudo pode acontecer com uma pessoa inconsciente. Como virar as costas para um amigo assim? Admito que tenho dificuldade. Prefiro insistir. Se, a despeito de todo o meu esforço, ele preferir continuar fraquejando diante da bebida e de outras substâncias e acabar se dando mal, ele saberá (e eu também) que não foi por falta de boa vontade de minha parte. De toda forma, bate em mim a sensação de estar solitário na amizade, ou seja, remando sozinho, enquanto o outro se deixa levar.

Talvez a leitora ou o leitor esteja se perguntando: “E você? Nunca frustrou amigas ou amigos? Nunca decepcionou? Nunca foi causa de angústia para uma ou mais pessoas de seu círculo?” Para ser sincero, sim. Conheço os dois lados do balcão. Já dei dor de cabeça e já tive dor de cabeça. Por isso mesmo, uso termos como angústia, frustração, decepção. Não cito ódio, raiva, mágoa. Sou do tipo que perdoa com certa facilidade, pois reconheço que, muitas vezes, também precisei de perdão e talvez venha a precisar outras tantas. Em todo caso, tenho me esforçado comigo mesmo também. Acho que dou bem menos trabalho para meus amigos hoje do que dei um dia.

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Esses moços. Pobres moços.

Jovens deste Brasil varonil e de outros lugares do globo têm sido responsabilizados pela segunda onda da pandemia de COVID-19. Não me surpreende. Um rápido passeio de carro pela porta de bares da cidade onde moro basta para convencer qualquer pessoa de que a juventude em geral está se lixando para a disseminação do novo coronavírus.

Há também as festas clandestinas e as casas noturnas que abrem suas portas às escondidas. Estão todas cheias — de vastíssima maioria de jovens. Nesses lugares, ninguém quer saber de máscara, de álcool em gel e muito menos de distanciamento social. Afinal, está todo mundo ali para interagir. Dali, muita gente sai para casa ou para o motel, onde geralmente faz sexo com uma pessoa que acabou de conhecer ou que, no mínimo, também está pouco se importando com a pandemia.

Quando o dia amanhece, essas e esses jovens animados normalmente retornam para casa, ou melhor, para a casa da mãe e do pai, que não raramente pertencem ao grupo de risco. Mesmo que tomem banho e troquem de roupa, essas moças e rapazes podem ter contraído o “coronga” e, assintomáticos, o transmitirem aos demais membros da família. Até porque, em casa, ninguém usa máscara. Essa é a verdade.

Foto por Vishnu R Nair em Pexels.com

Compreendo que as pessoas, sobretudo mais jovens, estejam cansadas de ficar em casa. Muita gente não aguenta mais ver TV, ler, participar de lives, webinars e cursos a distância. A carência de diversão e, claro, de sexo está nas alturas. Chega um momento -mais cedo para uns que para outros – em que essas pessoas chutam o balde. Já ouvi tantos “dane-se”, “foda-se”, “e daí?”! A rebeldia está a mil, e não adianta ponderar. Não há espaço para a razão. O impulso assumiu o controle.

Diante desse quadro, venho refletindo sobre a questão das privações. Fico pensando no que as bisavós e bisavôs de muita gente enfrentaram durante a Segunda Guerra Mundial. O confinamento era radical, e não havia, naquela época, atenuantes como os confortáveis serviços de streaming para vídeos, séries, filmes, música; de entrega de comida em domicílio via aplicativo; de jogos online, enfim todos os benefícios que a tecnologia oferece hoje em dia. Mesmo os segmentos economicamente vulneráveis da população têm mais conforto, atualmente, que a classe média alta das cidades bombardeadas na Segunda Grande Guerra.

Peço atenção a estes depoimentos de sobreviventes da segunda conflagração mundial:

“Esta manhã, pela primeira vez, vi um avião abatido. Ele caiu lentamente das nuvens, embicado, como um alvo que tivesse sido baleado lá no alto. Uma euforia incrível entre as pessoas que assistiam a ele, intrigadas com a pergunta: ‘Tem certeza de que é alemão?’. Tão enigmáticas são as instruções dadas, e tantos os tipos de avião, que ninguém sequer sabe quais são os aviões alemães e quais são os nossos. Meu único palpite é que, se um bombardeiro é visto sobre Londres, deve ser alemão, enquanto um avião de combate é mais provável que seja nosso.” (George Orwell, escritor, autor de 1984 e Revolução dos Bichos, residente de Londres, 15 de setembro de 1940)

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Já pensou ver um avião cair do céu após um bombardeio? Nada mal, não é mesmo?

“Vimos um grupo de soldados vindo dos quartéis correndo a toda em nossa direção e, logo em seguida, uma fileira de bombas caiu atrás deles, derrubando-os todos no chão. Ficamos imersos em uma nuvem de poeira e tivemos que correr que nem loucos para fechar todas as janelas. No meio tempo, um grupo de soldados havia entrado em nossa garagem para se esconder. Eles foram totalmente pegos de surpresa, e a maioria deles não tinha sequer uma arma ou qualquer coisa parecida.” (“Ginger,” moradora de Pearl Harbor, 7 de dezembro de 1941)

Soldados, bombas, nuvem de poeira. Não havia máscaras coloridas para proteger as pessoas da fumaça e do pó.

Só mais um depoimento:

Estamos morrendo que nem moscas aqui por causa da fome, mas ontem Stalin deu mais um jantar em Moscou, em homenagem a (embaixador britânico, Anthony) Eden. Isso é ultrajante. Eles enchem a barriga lá, enquanto nós não temos sequer um pedaço de pão para comer. Eles brincam de anfitriões, fazendo recepções pomposas, enquanto nós vivemos como homens das cavernas, como toupeiras cegas.” (Lena Mukhina, moradora de Leningrado, atual São Petersburgo, 3 de janeiro de 1942)

Quem tiver interesse em ler mais testemunhos como esses, pode encontrá-los na reportagem “Uma era de extremos: 10 relatos chocantes de quem encarou a Segunda Guerra Mundial“, publicada pelo UOL.

Foto por cottonbro em Pexels.com

A brava gente jovem brasileira destes tempos é Nutella. Faltam heróis e heroínas de raiz. Ninguém suporta nada. A mínima privação é causa de chilique. Fora os miseráveis de sempre, que com alguma sorte (sim, ter trabalho virou sorte) acabam atuando como garçons e garçonetes da turma sem máscara, ninguém hoje sabe o que é fome, sede, dor sem remédio, abstinência sexual. Privação é palavra desconhecida no dicionário da jeunesse dorée deste imaturo século 21.

O que hoje se chama sacrifício seria “café pequeno” para as bisavós e bisavôs de quem, na atualidade, só ouve falar de guerra na televisão. Na verdade, muita gente não chegou a fazer sacrifícios ao longo destes meses de pandemia. Simplesmente abriu mão da própria segurança e da de outras pessoas para aproveitar a vida. Justificativa? Saúde mental. Às vezes, nem justificativa há, mas tão-somente a ousadia de quem brinca de roleta russa. Enquanto isso, a pandemia segue tirando vidas, lotando hospitais, derrubando a economia. Haja vacina!

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