Orgulho hétero.

Por muito tempo, acreditei não existir “orgulho hétero”. Sempre ouvi falar de “orgulho gay”. Há décadas, em numerosas cidades do mundo, celebra-se o Dia do Orgulho Gay (ou, para ser mais exato e inclusivo, Orgulho LGBTI). As célebres paradas do orgulho gay reúnem milhões de pessoas, inclusive heterossexuais. Daí eu presumir não haver orgulho hétero. Afinal, para ele, não há sequer data festiva, nem parada. Só que eu estava errado. Existe orgulho hétero, sim! E forte!

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Parada do Orgulho Gay na Cidade do México. Foto: REUTERS.

Homens mais intelectualizados e descolados, via de regra, não alimentam orgulho pelo fato de sentirem atração por mulheres. A maioria dos machos, porém, estufa o peito para dizer que seu “negócio” é exclusivamente o sexo oposto. Adolescentes e até alguns adultos gostam de dizer que são “espada”, símbolo fálico que também invoca a ideia de valentia. Dificilmente se veem mulheres gabando-se de sua orientação sexual, mas também há, entre elas, as que fazem questão de exaltar seus atributos “tipicamente femininos”. Não faltam cantoras que louvam a feminilidade em suas canções.

Vejo esse orgulho como legítimo. Respeito-o. Admito, no entanto, que não o compreendo bem. Na minha cabeça, faz sentido a gente se orgulhar de uma conquista, sobretudo se ela foi difícil. Mas por que alguém se orgulharia de algo inato? Se a pessoa nasce hétero ou gay, ela não fez nada para isso. Não tem mérito algum. Nasceu assim e pronto. No caso da população LGBTI, pode-se até argumentar que, embora tenha nascido com essa ou aquela orientação sexual, ela luta para manter essa orientação. Daí o orgulho de viver “a dor e a delícia de ser o que é”, como diz a canção de Caetano Veloso. Mesmo assim, ainda acho estranho uma pessoa sentir orgulho por gostar de homem ou de mulher ou de ambos.

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Dia da Visibilidade Lésbica. Foto: Star Observer.

Orientação sexual é mais uma característica entre muitas em uma pessoa. Por que despertar orgulho? Por que despertar mais orgulho que outros aspectos? Por que esse orgulho precisa ser alardeado ao mundo? Essas são perguntas sinceras que faço. Não são questões retóricas. Não escondem nenhuma crítica. Fazem parte de uma reflexão legítima. Seria o sexo mais relevante que a vocação profissional, por exemplo? Teria mais importância que a orientação religiosa?

Faz realmente sentido um homem sentir orgulho por ter atração afetivo-sexual só por mulher? Parece-me tão estranho quanto se sentir envaidecido por ser católico ou protestante ou umbandista. O que estaria por trás do orgulho hétero? O sentimento de superioridade por não ser gay? De novo, não entendo por que uma pessoa seria melhor ou pior que outra apenas por sua orientação sexual.

Faz sentido para mim um indivíduo sentir certo orgulho por ter conseguido se formar, estabelecer-se em um mercado de trabalho altamente competitivo, ter uma pós-graduação onde a maioria das pessoas mal consegue completar o Ensino Médio. Faz sentido para mim um indivíduo sentir orgulho por ter se tornado um craque esportivo ou um artista respeitado ou uma autoridade em determinado assunto. Tudo isso envolve esforço físico e mental. Mas ser hétero?! Que esforço um homem faz para gostar de mulher ou uma mulher faz para gostar de homem? Chego a ver um paradoxo aí. Se o orgulho está relacionado à vitória sobre dificuldades, a mulher ou o homem heterossexual teria, então, superado algo para sentir atração pelo sexo oposto?

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Parece-me exagerada a identificação das pessoas com sua sexualidade. Digo exagerada, não descabida. Não me sinto, nunca me senti e acho que jamais me sentirei orgulhoso por causa de minhas preferência sexuais. Sinto orgulho daquilo que lutei para conquistar e/ou para manter: meus estudos, minha profissão, meu trabalho, meu modesto patrimônio, meus amigos, meus amores, minhas superações. Ainda assim, não vejo por que eu deveria sair por aí trombeteando para o mundo o quanto sou orgulhoso de minhas conquistas. Compartilho-as com algumas pessoas, dentro de certos contextos, e isso me basta.

Fico me perguntando se não há um pouco de narcisismo nesse tal orgulho hétero ou gay ou LGBTI (e quantas letras mais ainda aparecer). Quer saber? Estou pouco me lixando para a sexualidade das pessoas — a menos que eu esteja interessado em uma delas. Com quem João ou Maria vai para a cama definitivamente não me interessa. Para mim, a orientação sexual é um detalhe, talvez menos importante que a cor dos olhos ou o comprimento dos cabelos. O caráter da pessoa — seja ela hétero, seja gay, seja assexuada — é que faz diferença para mim.

Sinceramente? Se ainda dou alguma atenção a esse tema é tão somente porque restam trogloditas no mundo que chegam a matar um ser humano por se incomodar com a sexualidade dele. Se tiver orgulho hétero, melhor perdê-lo de vez! Deveria ter, isso sim, vergonha de ser assassino. Próxima página, por favor! Já deu.

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A ditadura dos tuítes.

Quase 4 meses de ausência neste blog… Por que parei? Parei por quê? Falta de tempo? Esse é só um dos motivos. Outro é a impressão de que ninguém quer ler textos com mais de 140 caracteres, ou seja, com extensão superior à de um tuíte. Será que estou exagerando? Talvez. Fato é que este blog já teve mais impacto – ao menos entre as pessoas conhecidas. De uns tempos para cá, o que gera mais reação são frases soltas, comentários curtos, que posto nas redes sociais. Parece que se vive uma ditadura dos tuítes.

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Claro que isso não vale para as celebridades do texto! Escritoras, escritores, articulistas, colunistas, analistas, comentaristas, repórteres da Piauí, essa turma pode redigir à vontade. Tem público cativo. A onda do story telling, aliás, segue firme. Já aos pobres desconhecidos, como eu e milhões de outros, resta a generosidade de quem, por curiosidade ou camaradagem, resolve ler artigos, crônicas, relatos publicados despretensiosamente em um blog ou website sem fama. Tão consciente sou de meu anonimato que dei a este espaço o modesto nome de “O Blog Menos Lido do Mundo”.

Antes que a leitora ou o leitor diga que estou com “mimimi”, preciso deixar claro que a fama nunca foi meu objetivo aqui. O que lamento é a falta de tempo de algumas pessoas e a preguiça de outras tantas diante de um texto que talvez lhes agrade, talvez lhes acrescente algo. Ainda assim, compreendo: sob uma enxurrada de informação, de todos os lados, e a natural falta de tempo para consumir tudo, é preciso selecionar, priorizar. Entre uma reportagem especial de uma estrela da imprensa e um artigo de um blogueiro bissexto, adivinhe por qual a maioria opta.

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Pode ser que a leitora ou o leitor pense com seus botões: “O que falta a esse cara é talento. Se seus textos fossem espetaculares, ele provavelmente já seria sucesso de público e crítica.” Tenho cá minhas dúvidas. Modéstia à parte, quando escrevia para um jornal diário, eu tinha excelente aceitação. Se não tivesse abandonado o lufa-lufa de uma redação, talvez fosse hoje um bem sucedido autor de reportagens especiais em algum periódico do país. Com isso, quero dizer que ao menos parte do êxito de um autor ou de uma autora se deve mais ao veículo onde publica seus textos do que a seu talento para escrever. Não é à toa que, ao deixar o jornal ou a revista onde publicam, jornalistas muitas vezes caem no ostracismo.

Mesmo com talento, é difícil sobreviver como autor sem um mínimo de marketing. Há pessoas que têm o dom adicional de saber “se vender”. Há mesmo quem abra mão de escrúpulos para ganhar a fama. Uma das maneiras mais simples de atropelar a ética é optar pelo sensacionalismo. A cuidadosa (e malandra) escolha de temas e de palavras faz toda a diferença. Atacar uma celebridade ou uma autoridade, criticar um comportamento-padrão, dizer palavrões, entre outros recursos nada nobres, são formas de chamar a atenção independentemente do talento para redigir.

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Seja como for, é preciso que haja leitoras e leitores interessados nesse tipo de conteúdo duvidoso. Curiosamente, sempre há. Na real? Dispenso esse público. A baixar o nível, prefiro o anonimato e a consciência tranquila. Ainda não precisei apelar. Espero que nunca precise. Sigo quietinho por aqui e com meus tuítes nas redes sociais da vida.

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Cabeça erguida ou nariz em pé?

Amina é segura demais ou esconde sua insegurança atrás de uma armadura? Confesso que não sei. A postura é de extrema segurança. O corpo fala: coluna ereta, peito aberto, queixo para cima. Caminha quase como se desfilasse. Diria que olha o mundo por cima. Quando fala, ouve-se a voz da certeza. Quase sempre afirma. Raramente indaga. O olhar, porém, dá a impressão, às vezes, de desconforto íntimo. Seria uma ponta de insegurança? Admito que ainda não sei, mas gostaria de saber se Amina é mesmo tão segura quanto parece ou se criou para si uma personagem superpoderosa.

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Seja como for, Amina é um tipo que cansa – pelo menos me cansa. Sabe aquela pessoa que tem opinião formada sobre quase tudo e conversa com você como se concordar com ela fosse algo óbvio? Afinal, o que ela diz só pode estar certo, não é verdade? O problema é que, para mim, não. Não é verdade tudo o que ela diz. Diria até que só concordo com ela ali na faixa dos 50%, 60%. Dificilmente, mais do que isso. Não que ela seja uma estúpida. De forma alguma. É que seu discurso vem pronto, sem espaço para contestação, nem mesmo para ponderação. Lembra um sanduíche do Mac Donald’s. Não há como fazer alterações. Segue um padrão rígido, idêntico em todas as lojas.

Amina, na verdade, não dialoga. Estabelece um monólogo em que ela sempre tem a primeira e a última palavra. Ai de você se a enfrentar, como caí na besteira de fazer um dia! Erro meu ter engolido tanto “sanduíche verbal” e regurgitado tudo de uma vez! Claro que, dessa forma, parecia ser eu o autoritário! É a velha história: quem atira sempre é suspeito, mesmo que tenha agido em legítima defesa. A propósito, cabe lembrar que ela está sempre na defensiva. Diria até que na ofensiva também – não dizem, afinal, que a melhor defesa é o ataque? Então ela policia, patrulha, quer corrigir o mundo a seu redor. Em português grosseiro: gosta de cagar regra.

Justiça seja feita. Essa postura rígida e altiva se dilui em meio a gestos de cordialidade, brincadeiras, demonstrações de simpatia. Daí não ser visível a olho nu. É preciso ter certo grau de perspicácia para identificar suas tendências autoritárias e sua soberba. É preciso também enfrentar Amina para vê-la colocar, mais claramente, suas afiadas garras de fora. Paradoxalmente, quando expõe sua força, deixa escapar uma aparente fragilidade. É como se, dentro daquela armadura de guerreira, sempre pronta a enfrentar o inimigo (real ou imaginário), houvesse uma pessoa hipersensível. Não me espantaria se, nela, corpo e armadura se confundissem e se retroalimentassem.

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Dou-me ao trabalho de descrever Amina porque acredito haver muita gente parecida com ela por aí. Posso apostar que minhas leitoras e meus leitores se lembrarão de alguém assim. Em ambientes onde se defendem causas, por exemplo, é fácil localizar pessoas desse tipo. Nas universidades públicas, igualmente. É gente aguerrida, sempre pronta para debater ou mesmo brigar. Não raramente, subestima quem pensa de outra maneira. Menospreza ou até despreza quem não está do seu lado da trincheira, mais ou menos na linha do “quem não está comigo, está contra mim”. Ai de quem ousa lembrar a palavra “radical”! Apanha. Pois é…

Essa é uma gente que se sente revolucionária. Sua causa (ou suas causas) justifica tudo. É comum identificar, em pessoas como Amina, o autoritarismo daqueles que julgam saber o que é melhor para todo mundo. É gente que debocha de quem não leu determinadas obras ou não se interessou por determinados temas. Presunçosa, pretensiosa essa turminha! Convicta está de seu heroísmo e, portanto, de sua superioridade moral e intelectual.

Ainda assim, indago-me se, de fato, por trás dessa armadura, não existe fragilidade. Suspeito disso por dois motivos principais: 1- deve haver casos – não poucos – em que a real motivação para o engajamento em uma causa esteja em algum tipo de trauma psicológico (portanto, algo bastante pessoal, individual, subjetivo) e 2- certas lutas pressupõem uma visão mais ou menos romântica do mundo, o que não raramente redunda em alguma dose de ingenuidade. Eis onde entra a fragilidade e, por conseguinte, uma possível insegurança.

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Reconheço que especulo. Não estou aqui para psicoanalisar Amina e seus semelhantes. Minha ideia é compartilhar seu perfil no afã de que outras pessoas se identifiquem comigo e – quem sabe? – ajudem-me a entender e a lidar melhor com pessoas que me parecem tão difíceis às vezes, por melhores que sejam ou que pareçam ser. Gosto sinceramente de Amina. Só não consigo é seguir sua cartilha e, muito menos, ouvir sempre calado seu discurso carregado de supostas verdades, convicções pessoais, indicações rigorosas sobre como agir. Se eu quisesse ouvir pregação, frequentaria uma igreja. Definitivamente, não é o caso.

Amina e todas e todos aqueles que se parecem com ela têm seu lugar na sociedade, seu papel, sua relevância, quando evidenciam injustiças sociais ou crimes socioambientais. Só precisam entender que esse lugar, esse papel, essa relevância não são necessariamente superiores aos de todas as outras pessoas. Se Amina realmente se acha superior ou se, na verdade, usa uma armadura para esconder sua fragilidade é menos importante do que sua postura no mundo, cujo impacto se sente de maneira direta. O dedo em riste incomoda, independentemente de quem o esteja levantando e do porquê de tê-lo levantado. Convém ter em mente a sutil diferença entre cabeça erguida e nariz em pé.

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Ou ela ou eu!

Quem me vê malhando forte três vezes por semana não deve sequer imaginar o quanto sinto preguiça. Sério! Muita mesmo. Só que preguiça é assim: ou você vence a infeliz ou ela detona você. O que é melhor? Descobri a resposta a duras penas…

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Desde a infância, praticar exercícios físicos representa esforço extra para mim. Na escola, as aulas de educação física só não eram mais destestáveis que as de matemática. Esportes como futebol, vôlei e handball? Fugia deles como o Diabo da cruz! Na faculdade, graças a um problema de saúde que, bem administrado, não me impediria de malhar, dei um jeito de obter dispensa dos dois semestres de prática desportiva.

Resultado de anos de preguiça: sobrepeso. Seguisse aquele ritmo, chegaria à obesidade.

Vivi uma fase excepcional quando, já gorducho, decidi encarar uma longa temporada de academia. Fiquei empolgado com os resultados, tomei gosto pelos treinos (sobretudo os coletivos), mas curiosamente, uns dois anos depois, acabei retomando minha vida sedentária. Passei a fazer inócuas caminhadas ao ar livre, uma vez por semana, sem compromisso, aproveitando o momento para conversar.

Um belo (?) dia, passeando no Parque da Cidade, em Brasília, senti uma pontada na região lombar. Era o prenúncio de uma crise que, dias depois, teria como diagnóstico hérnia de disco. Pois foi ela a responsável por me fazer, na marra, vencer outra vez  a preguiça de malhar, afinal o ortopedista fôra claríssimo: eu nunca me livraria dela (sem cirurgia) se não emagrecesse e me exercitasse regularmente para fortalecer a musculatura de apoio à coluna. Lá fui eu encarar uma academia outra vez!

Salto no tempo: doze anos e muita malhação depois, sob o acompanhamento rigoroso de um personal trainer, venço três vezes por semana a preguiça de praticar exercícios físicos. Afinal, sempre me lembro da dor de uma hérnia e do que ela me impediria de fazer se eu não controlasse meu peso e reforçasse minha musculatura, além de me alongar.

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Foto por Bruce Mars em Pexels.com

Entre sofrer um pouco durante 40 minutos de treino, em média, e parar de dançar, correr, saltar e fazer sexo selvagem (esse último é brincadeira), adivinha qual prefiro?

A bem da verdade, estou longe de ser um daqueles magníficos exemplos de superação, que a gente admira nas reportagens de TV. Afinal, a preguiça de malhar nunca passou e provavelmente nunca vai passar. Por outro lado, gosto de lembrar que, mesmo sem cirurgia, levo uma vida absolutamente normal ou talvez até acima média. Danço, salto, corro, faço caminhadas sem sentir dor e, quando sinto alguma, ela logo passa.

Não venci minha preguiça, mas ela tampouco me venceu. A gente vive uma espécie de cabo-de-guerra. Ela puxa de um lado. Eu, de outro. Não devo negar que ela me vence às vezes, mas eu acabo por superá-la em nome justamente da vontade de aproveitar a vida sem dores. Facilita muito o privilégio de poder pagar um personal trainer. É dele expressiva parte do mérito de eu vencer a preguiça e ter a hérnia de disco sob controle. Em todo caso, eu poderia gastar o dinheiro com outras atividades. Pagar um profissional para me ajudar a malhar direito significa algo, não?

Meu caso é literalmente de no pain, no gain. Não fosse a dor da hérnia, provavelmente não teria conquistado os benefícios da atividade física regular. Era a preguiça ou eu. Ainda é. Sigo vencendo.

 

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Galera da hora, é hora!

Esta é uma carta de revelações, endereçada apenas a meus amigos jovens — ou pelo menos mais jovens que eu.

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“Centro da Juventude Bacchus dt.”, William Adolphe Bouguereau (1825-1905).

Antes de tudo, quero agradecer a vocês pelo carinho e pela atenção com que me tratam. Vocês me acolhem espontaneamente como se eu tivesse a mesma idade de vocês. Alguns fazem questão de minha companhia. Chegam a insistir para ter minha presença, e essa é uma demonstração inegável de afeto e ausência de preconceito etário.

Por isso mesmo, acho importante revelar a vocês o que vem a seguir. Espero ajudá-los a me entender melhor e, se houver algum “generation gap” entre a gente, que ele se reduza (ou se acabe de vez). Bora?

Linguagem

Li muita literatura clássica na adolescência, muita mesmo. Essa leitura teve forte influência sobre minha maneira de falar e escrever. Desde os 13, 14 anos, portanto, tenho um vocabulário meio rebuscado. Uso “lhe” e “deveras”, por exemplo, não por ser de outra geração, mas porque sempre me expressei assim, devido à influência dos clássicos.

Nunca dei importância às críticas a meu estilo e vocabulário, até porque a maioria de meus colegas do Ensino Médio admirava a maneira de eu me expressar. Jamais pretendi ser um novo Machado de Assis, até porque eu não conseguiria, mas ele, de fato, influenciou um pouco meu estilo. Sou fascinado pelo século 19 e por seus escritores e demais artistas. Isso não quer dizer que eu despreze o vocabulário e as tendências atuais. Ao contrário, mesclo tudo e me divirto sinceramente com isso (como, aliás, poderão verificar neste texto).

Edição encadernada de “Dom Casmurro”, de Machado de Assis.

Adoto as gírias desta geração sem resistência, mesmo porque, mais cedo ou mais tarde, todo mundo acabará por adotá-las. Observem. Poucos anos atrás, era raro ouvir um adulto dizer “galera”. “Top“? Nem pensar! De uns tempos para cá, ouço amiúde senhores e senhoras usarem esses e outros termos, comuns entre jovens há anos. Por isso, não se incomodem com quem zoar — ou, como se dizia antigamente, “fazer troça” — da maneira como vocês se expressam. Vocês é que ditam as tendências, como gerações anteriores de jovens o fizeram e lançaram “legal”, “trampo”, “rango”, “balada”, “massa” etc.

Uma dica apenas: tentem conhecer também o vocabulário de seus tios, pais e avós. Pode ser útil e enriquecedor, além de divertido. Não limitem o léxico apenas por preconceito. Sei que a maioria de vocês tem interesse no palavreado formal e se expressa bem quando precisa, mas a dica vale, sobretudo, para quem só tem ouvidos para a fala do século 21. Usar o dicionário hoje está bem mais fácil. Basta um clique no Google ou num app.

Comunicação online 

Galera, confesso que um dos “generation gaps” entre mim e vocês está na comunicação a distância. Não me refiro, claro, ao telefone celular (muito menos ao fixo), mas a meios como WhatsApp e messengers do Facebook e do Instagram. A maneira como vocês trocam mensagens é bizarra!

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Telefone da Lata, por Joaz Silva.

Vocês não têm ideia do quanto me causa estranheza o fato de vocês ignorarem o princípio básico de qualquer comunicação humana: troca de mensagens com início, meio e fim. A maioria de vocês começa um diálogo e o abandona no meio. O mais bizarro: às vezes, vocês largam a conversa depois de vocês mesmos terem feito uma pergunta. Não esperam pela resposta! Podem ficar offline horas. Somem sem explicação, sem dar tchau. Oloko!

Comunicação offline

Tenho observado que vocês desconhecem ou conhecem pouco os movimentos estéticos de vanguarda do fim do século 19, os quais tanto influenciaram as artes dos séculos 20 e 21. Essa é outra questão geracional, suponho. Devo me limitar a poucos exemplos.

Quais de vocês têm ideia do que é Surrealismo? Posso apostar que muitos. Mas vocês já leram obras surrealistas? Viram filmes surrealistas? Saberiam mencionar de cabeça um ou dois nomes de expoentes do Surrealismo? Conhecem os princípios desse movimento?

E do Dadaísmo vocês já ouviram falar? Já leram poemas dadaístas? Têm em mente alguma obra ou autor ou autora dadaísta?

Calma. Não estou tretando nem pagando de fodástico das artes. Não mesmo! Só levanto esses pontos porque eles são relevantes para a geração de vocês superar ou, pelo menos, amenizar a tendência à literalidade. Vocês, por mais zoadores que sejam, costumam levar tudo ao pé da letra. Quando interpretam discursos em geral (falas, notícias, posts), vocês (não todas nem todos, evidentemente) esquecem que existem figuras de linguagem (metáforas, metonímias, hipérboles) e, principalmente, posturas surrealistas, dadaístas, futuristas, entre outras.

Quando exagero (hipérbole), vocês se assustam. Quando faço analogias malucas (metáforas surrealistas), vocês se assustam. Quando meto o loko e apelo ao nonsense (dadaísmo), vocês se assustam. Esse espanto, noto, tem diminuído com o passar do tempo, mas volta e meia reaparece. Eu não chocaria ninguém que tivesse familiaridade com os movimentos estéticos de vanguarda ou, no mínimo, com as múltiplas figuras de linguagem — cada dia menos comuns no meio hiperliteral do ativismo social predominante nas universidades e alhures.

The Elephant Celebes, 1921

The Elephant Celebes, por Max Ernst (1891-1976).

Minha geração parecia mais simpática ao universo alegórico. A de vocês — sob a batuta do politicamente correto — tende ao rigor das palavras, à rigidez do discurso, ao controle dos gestos. Adere, às vezes sem resistência, à patrulha política.

Naturalmente, muitos de vocês odeiam o politicamente correto e preferem a liberdade de dizer o que quiserem e quando quiserem sem se preocuparem se estão ferindo almas sensíveis. De qualquer forma, acabam se contagiando com a literalidade destes tempos, graças especialmente aos meios de comunicação.

Sexualidade

Observo uma adorável diversidade entre vocês. Há, porém, pontos em comum. Alguns exemplos: confusão sentimental, liberalidade (às vezes, libertinagem) sexual em público, projetos de vida tradicionais.

A confusão sentimental aparece principalmente quando as relações caminham para algo mais sério. Muita gente sai correndo apavorada, às vezes sem dar qualquer explicação. Feio isso! Por outro lado, parece-me natural alguém se espantar diante de caras ou minas que partem para cobranças logo na primeira semana de contato. Isto mesmo: primeira semana! Muitas minas, principalmente, têm demonstrado interesse em “prender” os  caras mal engatam a primeira. Claro que isso geralmente queima a largada. Dá ruim.

Muitos caras, por seu turno (e isso me parece incoerente), tendem a tratar as minas como se ainda vivessem nos tempos da cavalaria. Carregam as bolsas de suas donzelas, pagam a conta do bar, gastam fortunas com os tais combos nas festas, abrem para elas a porta do carrão e, em troca, esperam docilidade, fidelidade (que eles geralmente não oferecem) e, em alguns casos, até subserviência — fora sexo, naturalmente. Pagam de macho-alfa e, ao mesmo tempo, usam toneladas de cosméticos ou ajeitam os cabelos de cinco em cinco minutos, sem contar o “culto ao corpo”, que praticam nas academias, para depois exibirem a “shape” nos rolês e nas redes sociais.

Na minha geração, também havia tudo isso evidentemente, excetuando-se o frenesi nos social media. Só que eu esperava um mundo mais bem resolvido hoje. A atual geração parece ter potencializado as características da anterior. O tal “contatinho”, por exemplo, é uma versão mais banalizada do “pinto amigo”, da “gaveta”, do “gadinho”, da “amizade colorida”, do “amigo ou amiga com benefícios” etc. O vazio desse “amor líquido”, porém, continua, talvez mais forte e profundo ainda.

Da série de pinturas eróticas de Tania Maria Helena.

As pessoas se pegam em público como se fizessem as preliminares do sexo privado. São beijos afoitos, mãos atrevidas, libido regada a muito álcool e outras drogas, trajes sumários, confiança apressada. Sim, isso também vivi. No entanto, revelo que esperava postura mais comedida diante da avalanche atual de informações sobre epidemias de IST (infecções sexualmente transmissíveis), casos de gravidez precoce, estupros e outras formas de abuso sexual.

Moralista eu? Talvez. Fato é que minha geração parecia mais preocupada com as consequências de sua avidez carnal. O uso do preservativo era regra junto à maioria das pessoas que conheço. Digo isso baseado, por exemplo, no crescimento recente da aids junto a pessoas na faixa etária dos 20 aos 30 anos e nos depoimentos de muitos amigos (nenhuma amiga), que confessaram abrir mão da camisinha na maioria de suas relações sexuais, inclusive as casuais. Fogosos, não raramente bêbados, metem-se sob os lençóis de mulheres que mal conhecem. Elas, pelo jeito, são cúmplices. Poderiam exigir o uso do preservativo ou usarem-no elas próprias ou simplesmente não levarem para suas casas ou não irem para as casas de homens desconhecidos (ou quase). A via costuma ser de mão dupla: os dois querem brincar de roleta russa. Pois é…

Em meio a isso tudo, a eterna cobrança social pela constituição de uma família o mais tradicional possível: casal heterossexual, da mesma etnia, de preferência da mesma classe social, fértil (ainda que seja para ter um filho apenas), disposto a seguir o modelo familiar dos pais. Nada contra. A permanência de certos valores, todavia, me parece mais contraditória agora, quando o vale-tudo dos rolês aposta na “putaria”.

Ouço um funk a distância. Opa! Leiam isso em sentido figurado.

Trabalho

No que diz respeito à vida profissional, sinto orgulho de vocês. Não brincam em serviço, literalmente. Todos cursaram uma faculdade, ou seja, aproveitaram a oportunidade de fazer isso. Hoje perseguem a realização profissional com determinação admirável. Quem vê a maioria de vocês nos bares e nas festas jamais pode imaginar o quanto vocês se dedicam ao trabalho — ou aos estudos ou a ambos simultaneamente.

Alguns de vocês cagam para a política. Ao mesmo tempo, estão por dentro das principais notícias e votaram em quem votaram porque acreditaram no discurso de seu candidato, ou seja, acompanharam as campanhas eleitorais. Tenho, entre vocês, amigas e amigos de esquerda, de direita e de centro no espectro político. Desconfio dessa divisão assim, rígida, mas a emprego para simplificar. Todas e todos, porém, trabalham com afinco porque acreditam no próprio futuro e no do país — uma fé que morre em mim a cada dia.

Amizade

Sou uma pessoa de sorte porque, no âmbito da amizade, não tive decepções e frustrações traumáticas. Na infância e na adolescência, sofri bullying “de raiz”. Não foi esse bullying Nutella que faz um moleque chorar porque o coleguinha riu de seu par de meias furadas. Passei por situações que me fizeram acreditar ser impossível ter amigas e amigos de verdade um dia. Foi foda! Pior do que podem imaginar. Ainda assim, superei essa fase.

Há muitos anos, cultivo amizades que quase só me dão alegrias. Digo “quase” porque somos todos falíveis. Rolam tretas de vez em quando. Erro com as pessoas. Elas erram comigo. Só que, em meio a tantas amigas e tantos amigos, nunca me faltam ombro, colo, abraço, cafuné, palavras de conforto. Vocês me acolhem, e eu acolho vocês.

Nem todos sabem que, como em alguns romances e em todas as telenovelas, minha vida social se divide em núcleos. Os que sabem estranham isso. Quando se trata de amizade, vocês costumam ter um grupo só, no máximo dois. Eu tenho diversos. Uso até apelidos para cada núcleo: os twenties, os coxinhas, as meninas, os meninos, os onusianos.

Vocês são muito mais sussa que eu! Tenho essa parada meio cartesiana que me faz parecer sistemático, rígido, rigoroso, linha dura. Às vezes, sou mesmo. Levo certas situações a ferro e fogo. Nāo deveria. Melhor ser suave. Vocês se espantam com meus “surtos” de indignação, raiva, ressentimento. Costumam compreender e me dar razão no que diz respeito a minhas motivações, mas sei que nāo aprovam o radicalismo de certas atitudes. Bem… Estou me esforçando para mudar, inclusive por meio de psicoterapia.

Amor

Galera, cada um de vocês tem lá sua dose de romantismo. Contudo, duvido de que tenham bebido tanto na fonte dos românticos quanto bebi. Aliás, foram diversas fontes: música, literatura, cinema, televisão. Que influência negativa, eu diria! Vocês vivem a era do “amor líquido”, como teoriza Zygmunt Bauman. Eu ainda inalo o aroma de uma esperança cada vez mais distante.

Acredito – estupidamente, talvez – que as relações amorosas tenham de durar para sempre. Não faço amigos para descartá-los em alguns meses, quando não me servirem mais. Faço amigos na esperança de que a relação dure uma vida inteira. O mesmo vale para as relações afetivo-sexuais.

Precisamos de muito tempo para conhecer alguém de verdade. Semanas e meses são pouco. Por isso, quando amo, quando me envolvo afetivamente com alguém, desejo que essa relação dure. Não desisto facilmente das pessoas. A paixão sempre acaba, então é preciso cultivar o amor que ficou, se ficou. Isso demanda um empenho que vocês nāo parecem ter — salvo algumas exceções.

O amor líquido evapora-se ou congela-se. Oscila conforme a temperatura do momento. Prefiro o amor sólido, menos vulnerável, ainda que demande mais esforço. Para mim, relação = ralação. Pena que essa minha forma de ver assuste muitas pessoas, que ficam logo temerosas de que eu esteja a fim de dominá-las, controlá-las, prendê-las em um castelo de sonhos. Falha minha também por não conseguir traduzir meu real modo de ver. Envio a mensagem errada. Lost in translation, we lose ourselves.

Um aparte muito importante, sobre o qual poderemos conversar um dia se quiserem: minha intuição. Ela é uma característica que nem todo mundo entende e aceita. Parece mediunidade. Sacam? É forte, impactante, incontrolável às vezes. Simplesmente enxergo e sei. Antecipo comportamentos. Como? Já li a respeito em revistas de psicologia. Encontrei explicações interessantes e convincentes, mas ninguém deve ser obrigado a aceitá-las.

Encontro uma pessoa pela primeira vez. Posso não “ver” nela absolutamente nada, mas também posso ver muito: caráter, personalidade, traumas, intenções. Quando cometo o erro de expor o que vi, geralmente me dou mal. As pessoas acham estranho, suspeitam de mim, ficam com um ou dois pés atrás. “O que diabos esse cara quer com isso?”, alguns de vocês devem pensar. Perdoem-me. Estou me empenhando para guardar só para mim mesmo as “visões” que tenho sobre as pessoas. Desistir de ser assim não posso nem devo, pois o tempo prova que estou certo – pelo menos na esmagadora maioria das vezes, e tenho várias testemunhas disso. Acreditem se quiserem.

Sigo…

Prometi revelações, não fofocas ou confissões embaraçosas. Por isso, encerro esta carta-artigo com uma revelação final. Preparem-se para ficar um pouco tristes, talvez.

Valorizo tanto o amor entre duas pessoas que, como já disse, acabo enviando a falsa mensagem de que estou ansioso e pronto a sufocar quem se envolver comigo. Curiosamente, nas poucas vezes em que senti alguma segurança ao lado de alguém, relaxei, pois me entrego com certa facilidade a quem me inspira confiança e também se entrega para mim. Inseguro, porém, comporto-me mais ou menos como uma fera ferida: rosno, avanço, mordo e, lamentavelmente, chego até a ferir de vez em quando. Nunca matei ninguém, felizmente, nem pretendo matar. Quer dizer…

Eis a parte um tanto dramática desta história. Espero que a compreendam, especialmente à luz de tudo o que escrevi aqui. Abomino a ideia de tirar a vida de qualquer pessoa, exceto a minha própria. Ao afirmar isso, não estou alertando vocês para um ato fatal contra mim mesmo. Estou tentando dizer que prefiro morrer a matar. Como vivo um tempo que me corrói internamente com sua arrogância e superficialidade extremadas, confesso que não raramente desejo partir deste mundo o quanto antes.

Sei que vocês já estiveram em rolês errados. Então… De vez em quando, sinto como se minha vida, este mundo, a sociedade atual fossem um imenso rolê errado. Ai que vontade de vazar! Partiu Marte! Partiu Vênus! Partiu Sol! Partiu Céu! Ou será que eu partiria para o Inferno? Lembrem-se, por favor, de não ser literais… Lembrem-se de tudo o que revelei antes de chegar até aqui.

“Namorados”, de Ismael Nery.

É a frustração amorosa, galera, que pega. Tão ligados? Um amigo me disse outro dia: você superestima essa parte. A vida é mais que isso. Outro falou algo semelhante: Love’s overestimated. Ambos namoram sempre que podem. Será que pensam mesmo assim? Ou será que se aproveitam destes tempos de amor líquido e se refestelam num rolê errado, porém viável, suportável, conveniente, do tipo “é o que temos para hoje”?

Ah, esse pragmatismo que flerta com a frieza, com a leviandade, com o cinismo! É justamente isso que me deixa infeliz. O pior é que pouca gente realmente entende aonde quero chegar e o que estou de fato afirmando. Beleza!

Vocês, que chegaram até aqui (tenho certeza de que foi mais de um), merecem um agradecimento especial: em breve, receberāo algo meu. Como? Copiem este parágrafo (o antepenúltimo) e colem-no em uma mensagem que vocês podem enviar para mim por e-mail ou WhatsApp. Depois, é só aguardar.

Grato, mil vezes grato,  por estarem em minha vida, perto ou longe. Esteja eu em Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Sol, outro sistema solar ou esteja eu no Sétimo Céu, saibam que vocês fazem toda a diferença em minha vida. Meu tempo é curto. Aguarda-me, como sabem, o lendário cemitério de elefantes. Vocês ficarão e, mansos, herdarão a Terra. Transformem-na em um mundo de amor sólido, por favor.

Entendedores entenderão. Abraço bem apertado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Crédito com o mundo.

Já observei que algumas pessoas se comportam como se o mundo lhes devesse algo. Têm uma postura que combina revolta, cinismo, inveja e arrogância. A dose de cada uma dessas atitudes varia de pessoa para pessoa e até de momento para momento.

Gente assim se sente lesada, injustiçada. Acha que merece muito mais do que tem. Acredita que seu prejuízo é superior ao de todas a outras pessoas e que as demais prejudicadas são covardes ou ingênuas por não cobrarem do mundo o que lhes é devido.

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Não me refiro, claro, às pessoas que reivindicam seus direitos éticos e legais. Refiro-me àquelas que projetam suas frustrações e insatisfações no mundo a sua volta. Não vão à luta para conquistar o que lhes falta. Preferem cobrar isso de quem está perto, sobretudo se essa pessoa próxima lhe parecer mais afortunada. Gratidão passa longe. Gente assim não enxerga favor, só obrigação. Afinal, repito, acredita que o mundo lhe deve algo.

A revolta íntima por não possuir tudo o que julga merecer mescla-se, então, à inveja. “Se ele tem, por que eu não posso ter também?”, pensa aquela ou aquele que vê no mundo seu eterno devedor. “Se ela faz isso, por que eu não posso fazer?”, raciocina.

Esse espírito competitivo, que poderia, em certa medida, até ser saudável, torna-se pernicioso. A autocrítica, evidentemente, inexiste. Se não consegue realizar algo, o sujeito sempre atribui a responsabilidade pelo fracasso às outras pessoas ou ao mundo ou à vida, nunca a si próprio. Ele é sempre vítima.

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Gente assim costuma ser cínica. O mais provável é que esse cinismo seja um subproduto da revolta, a qual tem por hábito endurecer o indivíduo por dentro. A arrogância vem completar o pacote. Afinal, o “credor do mundo”, julgando-se cheio de direitos e quase sem deveres, costuma fazer suas cobranças com o nariz empinado. “Grato”, “obrigado”, “por favor” são palavras raras na boca dessa gente.

Devo dizer que a postura de “credor do mundo” não se manifesta somente em pessoas menos afortunadas. É mais comum em quem enfrenta dificuldades, sejam de que ordem forem. Todavia, acomete também quem ocupa posição social confortável.

A frustração diante do insucesso só complica esse quadro psicológico. Quando a cobrança é inviável ou infrutífera, cresce a revolta no cobrador, que a exterioriza de formas diversas. Pode ser atravessando uma rua em movimento e obrigando, assim, os carros a frearem só para ele passar (soberba). Pode ser infringindo uma regra apenas para mostrar-se acima dela (infantilidade). Pode ser reagindo com desdém a uma queixa ou cobrança de alguém hierarquicamente superior, de maneira a demonstrar que não se sente por baixo ou que o outro não tem tanto poder quanto pensa (orgulho).

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Reitero que não se pode confundir o tipo que descrevo neste artigo com uma pessoa que conhece seus direitos de cidadã e procura exercê-los. Trata-se, nesse último caso, de uma questão de justiça, não de desforra. Não se percebe ressentimento, mas conciliação. O espírito competitivo dá lugar ao espírito colaborador. Há, enfim, muito mais cérebro que fígado. Geralmente, quem busca justiça para si também pensa no benefício direto ou indireto dos demais. O “credor do mundo”, ao contrário, costuma ser egoísta.

Conheci algumas pessoas assim e, de quando em vez, deparo com mais outras tantas. São bastante comuns na verdade. Nem sempre se pode identificá-las “a olho nu”. Uma observação mais atenta, porém, logo revela os sinais. Lá está mais um espécime da curiosa fauna dos “credores do mundo”. Segue garboso, autoconfiante, sorriso cínico. Ao menor sinal de ameaça, mostra as garras. Como o Rei da Selva, o “credor do mundo” é uma fera.

 

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Tempo, trampo e desencanto.

Uma hora, a gente se cansa. É muita luta. O mundo não para. A gente não para. Não sobra tempo nem sequer para pensar no que a gente tanto faz e por que faz tanto. Se ao menos esse trabalho todo mostrasse resultados que nos entusiasmassem, não seria tão mal. Só que, muitas vezes, a luta pela sobrevivência tem fim em si mesma. Não traz nada de mágico, sobrenatural, fantástico. Isso gera um desencanto!

 

“The Sower with Setting Sun”, 1888, Vincent van Gogh.

 

Pessimismo? Um pouco. Evidentemente, enxergo as cores da vida. Nem tudo é cinza. Reconheço que há momentos de prazer. A questão é: por que eles são tão pouco frequentes? Ou, dito de outra forma, por que não são muito mais frequentes? Arrisco um palpite. O ser humano organizou-se em função da própria sobrevivência. Comer, beber, vestir-se, além de alimentar e criar a prole, obrigaram a humanidade, em algum momento, a “ir atrás”, a ganhar o pāo com o suor do próprio rosto. Ao lazer restou o tempo que sobrou da luta pela subsistência.

Sim, estou ciente de que há gente que sente prazer no esforço diário pelo próprio sustento e o sustento daqueles que mantém. Em outras palavras, há quem encontre prazer no trabalho. Nesse caso, o lazer vem somente complementar a satisfação da labuta. Felizes esses! Estou certo, porém, de que não são a maioria. Quem, por exemplo, precisa madrugar, assear-se, vestir-se, comer algo e caminhar ou correr até um ponto de ônibus para deslocar-se ao trabalho onde um chefe severo passa o dia fazendo cobranças, tem sentimento bem diferente.

 

“Harvest in Provence”, 1888, Vincent van Gogh.

 

Claro está que associo lazer e prazer ao mesmo tempo em que admito a existência de muitas pessoas que encontram prazer no trabalho, embora elas não sejam maioria. Esse é o resumo do que afirmei até aqui. Agora, retomo ideias do primeiro parágrafo deste texto para explorá-las melhor.

Afirmo que a gente se cansa. Mesmo os que gostam do próprio trabalho se cansam física e mentalmente. Amam as férias. Há, porém, um cansaço mais profundo, por assim dizer. É o cansaço da luta diária pela sobrevivência em um mundo injusto. É o cansaço diante de um estilo e de um ritmo de vida estressantes. Independentemente de se gostar ou não do próprio ofício, esse tipo de fadiga aparece mais cedo ou mais tarde.

O fato de trabalhar muito — como a maioria das pessoas que conheço — também pode gerar desencanto se quem se esforça não vir resultados práticos de seu empenho, se não sentir que o fruto de seu suor faz alguma diferença. Outro fator de desencanto que tenho observado é a falta de tempo para se refletir sobre o próprio trabalho: o que faço vale a pena, a forma como executo minhas funções é a melhor, por que tomo sempre esse tipo de decisão e não ouso mais? Há numerosas indagações possíveis.

 

“Vincent’s Chair with his Pipe”, 1888, Vincent van Gogh.

 

Acredito que, com este artigo, desagradarei àqueles que amam sua profissão e a exercem com êxito e alegria (não necessariamente nessa ordem). Poderão argumentar que nunca sentem esse desencanto a que me refiro porque gostam do que fazem e sentem tanto prazer no trabalho quanto no lazer. Cansam-se, realmente, mas acham que o cansaço compensa. Está bem. Acredito nisso. De qualquer forma, desafio qualquer uma dessas pessoas a fazer uma autoanálise profunda e a se indagar se continuariam trabalhando tanto se ganhassem muito dinheiro em uma loteria. Alguns diriam que jamais deixariam de trabalhar, e eu responderia com mais perguntas: do mesmo jeito, a mesma quantidade de dias e horas? Duvido! Poderia até haver exceções, mas essas confirmariam a regra. Essa, pelo menos, é minha aposta.

Aceito contribuições a esta breve reflexão, concordantes ou discordantes. Meu objetivo com este blog nunca foi lançar ideias feitas, imutáveis. Gosto de ouvir contrapontos, críticas e, claro, elogios também, sobretudo se bem fundamentados. Até breve!

 

 

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