São tantas emoções!

Muita gente acredita que o sentimentalismo está no DNA do povo brasileiro. Tenho motivos para crer nisso também. Eita povo que chora! Verte lágrimas quando está triste. Verte lágrimas quando está feliz. Facilmente se comove. Ai de quem é diferente! Leva a fama de frio, insensível, antipático. Sensibilidade, no Brasil, é sinônimo de comoção.

Não deve ser por acaso que telenovelas fazem tanto sucesso por aqui. Elas têm origem no melodrama. São, portanto, melodramáticas por natureza. Até aquelas em que predomina o gênero comédia têm os pés fincados no melodrama. Em algum momento, vão levar seu público às lágrimas. Ele gosta disso, quer isso e ouso dizer até que precisa disso. A teledramaturgia, a um só tempo, satisfaz e estimula esse gosto, essa vontade e essa necessidade do público.

 

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Tampouco deve ser casual o fato de jogadores de futebol brasileiros — inclusive os que integram a Seleção — expressarem tantas emoções em campo. Como a maioria dos jogadores latinos, aliás, os brasileiros xingam, gritam, caem em pranto no gramado, abraçam-se e beijam-se com um ardor incomum. Quem os observa em jogo testemunha uma explosão de sentimentos. Se marcam gol, quanta festa! Parece que a partida está ganha ali, naquele exato instante, mesmo que ainda faltem 40 minutos para seu fim. Se levam um gol, quanta desolação! Parece que a partida está definitivamente perdida ali, naquele exato instante, mesmo que ainda faltem 40 minutos para o apito final.

Como em tudo na vida, há também prós e contras em ser assim. Um dos prós é o valor em si mesmo de colocar para fora o que está sentindo. Vejo como positivo não reprimir sentimentos — dentro, evidentemente, dos limites éticos e legais. Um dos contras é deixar-se dominar pelas emoções quando a situação pede fleuma. Assistindo a uma cena comovente na TV, nada há de prejudicial em desabar em lágrimas. Já em uma partida decisiva de Copa do Mundo, tanto melhor se os jogadores agirem com a frieza indispensável para derrotar a seleção adversária.

 

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Esse sentimentalismo brasileiro certamente está por dentro e por trás das escolhas que levam o Brasil a estar onde está — com todas as suas conquistas e mazelas. Afinal, a mesma emoção do grito “goooooollllllll” e do pranto pelo drama da novela leva milhões de pessoas a elegerem um candidato ou uma candidata que lhe toca o coração e fundo na alma, mas se mostra incapaz de administrar um país tão grande quanto seus problemas.

Esse sentimentalismo brasileiro também deve estar por dentro e por trás das manifestações mais calorosas no âmbito da política, com direito a polarizações radicais. Vive-se um constante Fla-Flu. A observação e a participação no intrincado jogo político, que exige raciocínio, análise, reflexão, ponderação, acaba se convertendo em uma inflamada disputa de egos, crenças e opiniões. Não se constrói consenso assim. Não se desenvolve assim. Não se chega à paz assim.

 

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Se o sentimentalismo está realmente no DNA brasileiro, a melhor ou talvez única saída é aprender a administrá-lo, domá-lo, dosá-lo, para que os prós de ser assim não suplantem os contras, e tudo no Brasil não se restrinja ora a um interminável melodrama, ora a uma igualmente interminável partida decisiva de futebol. O Brasil merece e precisa de muito mais que isso.

 

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Julgamento apressado, justiça capenga.

A ânsia por justiça é compreensível. Diante de tanta injustiça, é natural e desejável que pessoas de mente, coração e olhos abertos façam algo por um mundo mais justo — ou menos injusto. É compreensível e natural que façam algo por si mesmas, quando se sentem elas próprias injustiçadas. Isso é um direito e — por que não? — também um dever. Afinal, a inação pode ser cúmplice da injustiça. Até aqui, não vejo por que não aplaudir quem age em prol de mais justiça. O problema aparece quando se observa como algumas dessas pessoas “fazem algo”.

 

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No afã de buscar justiça para si próprias ou para mais gente, certas pessoas correm o risco de ser elas também injustas. Como? O juízo apressado é uma entre as várias maneiras de ser injusto na ânsia de ser justo. Neste artigo, optei por focar exclusivamente esse caso. Futuramente, espero tratar de outros.

O julgamento apressado de um fato, de uma pessoa ou de um grupo de pessoas costuma ser resultado de uma conclusão precipitada. Recorro a uma situação imaginária para explicar melhor o que quero dizer.

Ao observar o semblante de um desconhecido em um bar, concluo precipitadamente que ele está irritado, quando, na verdade, ele tem apenas dor de cabeça (obviamente não sei disso). Vou além e passo a julgá-lo. Atribuo sua suposta irritação ao fato de eu estar ali, ou seja, julgo que minha presença o irrita. Ele olha em minha direção e, novamente, percebo certo nervosismo nele. Após alguns minutos, não tenho mais dúvidas: a causa da irritação dele sou eu. Busco, então, dentro de mim, explicações para eu estar incomodando aquele homem. Concluo que o problema está no fato de eu ser asiático. Ele certamente não gosta de asiáticos. Já ouvi dizer que moradores da redondeza têm preconceito contra asiáticos porque eles têm alterado consideravelmente a rotina do bairro. Pronto. Julgado e condenado: aquele homem que faz cara feia para mim é um xenófobo e merece meu desprezo e até punição. Afinal, ele está me constrangendo em público, perturbando meu direito de ir, vir e estar. Assim, num passe de mágica chamado julgamento sumário, o desconhecido que tinha só dor de cabeça vira xenófobo.

 

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Há fatos que comprovam teorias. Há dados, números, fartura de depoimentos que reforçam suspeitas. Lançar mão deles é tão necessário quanto legítimo. Abrir mão deles, porém, representa um desserviço para quem busca honestamente soluções para problemas graves, como preconceito e discriminação. No exemplo acima, ainda que um tanto caricatural (mas possível), atribuí xenofobia a um homem porque me baseei somente no semblante desagradável dele e em comentários (“ouvi dizer”) sobre preconceito contra asiáticos naquele bairro. Fui precipitado, leviano, desonesto, injusto. Eu estava errado. Er-ra-do! Exatamente como muita gente que se apressa em julgar  baseada apenas em suas crenças e em suas “melhores intenções”.

O que vejo amiúde é gente adepta (conscientemente ou não) da chamada pós-verdade. É gente que coloca a carroça (suas crenças, princípios e convicções) diante dos bois (fatos). “Creio, logo existe”, parecem dizer a si mesmas e aos outros, parodiando Descartes.

 

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Até aqui, limitei-me aos equívocos. Há erros resultantes de boas intenções. Infelizmente, há também erros resultantes de má fé. No exemplo fictício acima, eu poderia saber que o homem no bar tinha dor de cabeça e, mesmo assim, acusá-lo de xenofobia caso eu o tivesse abordado, e ele me tivesse tratado mal. Magoado (tenho o direto a ser sensível…), eu lançaria mão desse subterfúgio para revidar o maltrato. Acusaria um homem mal educado e com dor de cabeça de ser xenófobo.

Se acha que exagero, pergunto: em que mundo a leitora ou o leitor vive? Recentemente, ouvi dois relatos semelhantes. Em ambos, pessoas acusaram garçons de preconceito racial sem nenhuma segurança desse comportamento. Eles foram ríspidos como poderiam ter sido com qualquer cliente. Não usaram termos racistas, não expressaram nada que pudesse comprovar a alegação de quem depois viria a acusá-los de racismo.

Experimente falar para essas pessoas que elas foram injustas! Experimente dizer que elas se precipitaram em seu julgamento! Experimente levantar a suspeita de que usaram a defesa de uma causa nobilíssima para revidar a grosseria de um garçom! Experimente dizer que os garçons desses episódios poderiam reclamar de preconceito de classe! Você ouvirá tantos desaforos que sairá se perguntando: onde está a coerência dessas pessoas?

Desista. Elas descobriram um poço sem fundo de argumentos (muitos deles falaciosos) para explicar e justificar tudo. Lançarão você na fogueira do desdém, de forma análoga à que a Igreja Católica da Idade Média fazia, só que concretamente, na “Santa” Inquisição. Os inquisidores também tinham argumento para tudo. Sabiam muito bem justificar seus atos, inclusive os desonestos.

 

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Gosto muito quando os falantes de língua inglesa dizem: “You don’t know that!”. Realmente, como você pode saber? Pode haver numerosas explicações para uma atitude ou um comportamento. Por que a sua tem de ser a certa ou a melhor? Se você não tem certeza, pior ainda. Não pode sair por aí julgando e condenando as pessoas — muito menos de maneira apressada, precipitada. Ah, existe discriminação velada e até invisível? Eu sei. Mas essas situações requerem cuidados redobrados. A subjetividade não pode ser pretexto para acusações infundadas. Porque há casos de acusações infundadas, e negá-los pode ser tão grave (e injusto) quanto ignorar as várias formas de discriminação. Alguém se lembra de que calúnia, injúria e difamação também são crimes previstos em lei? Pois é… Terreno minado esse…

Calma. Em nenhum nanossegundo me passa pela cabeça que não existam homofobia, racismo, sexismo, xenofobia e toda uma vasta gama de posturas preconceituosas, cruéis e criminosas mundo afora e que elas não exijam reparo e punição. Ao contrário. Estou seguro de que existem, são perversas, prejudicam muito e, curiosamente, todas e todos são alvos delas, de uma ou de outra forma, direta ou indiretamente.

Se você tirou a conclusão de que nego essas posturas ou as desculpo, lamento informar que foi uma conclusão precipitada ou, pior, um julgamento apressado. Não quis dizer nem disse isso. O que me incomoda são a incoerência, a inconsequência, a irresponsabilidade, a leviandade e, em alguns casos, a desonestidade de pessoas que lutam por justiça com as mesmas armas daqueles que elas julgam ser causadores de injustiça. Afinal, buscam justiça ou vingança? Movem-se por consciência político-social ou por desforra? Trata-se de reparação ou de retaliação? Todo cuidado é pouco.

 

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Discretos indiscretos.

Já afirmei neste blog que Privacidade é um mito. As pessoas só não sabem sobre você aquilo que elas não querem saber. Discorda de mim? Tudo bem. Mas em um ponto você há de concordar: está cada vez mais difícil se manter discreto. Para alguns, talvez seja impossível, por uma característica muito especial, que descrevo a seguir.

 

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Você está careca de saber que a internet é uma espécie de praça pública. Entrou ali, todo mundo vê. Quando entra, está ciente da movimentação de pessoas, dos ruídos, das intrigas, do comércio, dos blablablás e por aí vai. Então, se entrou na chuva, é para se molhar. De novo, talvez você discorde. Afinal, sites e redes sociais — sobretudo essas últimas — devem garantir um mínimo de privacidade às pessoas. Há leis para isso, inclusive. Seria antiético, injusto e ilegal expor quem as utiliza.

Está certo. Aceite, então, a provocação abaixo. Nada pessoal! Só quero aprofundar um pouquinho a discussão sobre esse tema. Algumas perguntinhas:

1- Se você valoriza tanto privacidade, por que cria perfis nas redes sociais? Elas existem para mostrar, não para esconder.

2- Já que prefere manter certo grau de discrição, por que ilustra seus perfis com fotos de seu rosto e/ou de seu corpo? Por que assina esses perfis com seu nome completo? Por que deixa sua timeline aberta?

3- Não faz nada disso? Está bem. Nesse caso, você optou por uma exposição seletiva. Só quem você autoriza é que pode ver seus posts. Nada impede, porém, que um amigo ou uma amiga mostre seu perfil a uma pessoa desconhecida. Pode, inclusive, copiar suas fotos e compartilhá-las via Whatsapp.

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4- Fora da web, você também está sob constante observação. As câmeras de vigilância estão por todos os lados. Acha que porteiros de edifício não bisbilhotam quando estão com tempo livre?Alguns bisbilhotam e comentam…

5- Quer combinar privacidade e popularidade? Difícil… Aonde você for, poderá encontrar amigas, amigos, ex, amigas de amigas, amigos de amigos, amigas de amigos, amigos de amigas, conhecidos, parentes, fãs, desafetos. Por que essas pessoas deixariam de comentar com outras que viram você? Não há lei contra isso.

Gosto sempre de lembrar análises que já li sobre a morte de Lady Diana, a célebre Lady Di. Ela sofreu acidente de carro em Paris quando fugia de paparazzi.

Alguns analistas apontaram Lady Di como exemplo de pessoa que mantinha relação ambígua — para não dizer contraditória — com os meios de comunicação. Por um lado, gostava de chamar a atenção. Apreciava os holofotes. Por outro, fugia dos curiosos quando desejava estar “em paz”.

Acontece que uma atitude compromete a outra, especialmente quando se trata de gente famosa. Afinal, uma vez que a pessoa se expõe voluntariamente, está investindo na própria visibilidade. Como controlar essa visibilidade depois? Paparazzi e outros tipos de gente curiosa podem estar errados ao bancar “stalkers”, mas, em algum momento, essa turma recebeu convite para a “festa”. Se ficou bêbada e fez bagunça, é outra história.

Não defendo quem invade privacidade alheia. Cultivo a discrição sempre que me cabe e respeito o direito das pessoas ao mesmo. No entanto, penso que, se você realmente valoriza privacidade, deve ter a coerência de não promover muito sua visibilidade, seja onde for, seja como for. Simples assim.

 

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Seu jeito, seu filtro.

Um de meus melhores amigos queixa-se de que tem tido azar com as mulheres. De uns tempos para cá, só tem deparado com autoritárias pretensiosas que, mal o conhecem, já querem mudar o jeito dele. Uma delas, na primeira vez em que saíram juntos (repito: primeira vez), expressou a vontade de fazer meu amigo parar de fumar e implicou com a maneira como ele dança. Outra, também no primeiro “rolê”, insistiu para que ele trocasse a camiseta antes de sair (não, ele não estava vestindo uma peça suja nem rasgada nem fora de moda).

Ele se sente incomodado. Não é para menos. O que leva uma pessoa a aproximar-se de outra se não a aprecia como é? O que a faz tomar a liberdade de exigir mudança — mesmo que seja de roupa — de  quem acabou de conhecer? De onde vem essa ousadia? De onde vem essa prepotência? Meu amigo tem autoestima, então se recusa a ceder aos caprichos de seus “contatinhos”. Afasta-se das “minas” que se comportam como se fossem patroas. Mas lamenta a reincidência de tipos assim em sua vida, pois quer encontrar quem lhe valorize como é.

 

Homem-Capacho

 

 

Ouvi atentamente seu desabafo. Em seguida, fiz a ele perguntas simples apenas para confirmar minhas impressões.

— Você gosta de ser como é?

— Sim.

— Gostaria de mudar para agradar a alguém?

— Não.

— Prefere não namorar a adotar outro jeito de ser?

— Até agora, tem sido assim, mas não sei se eu estou certo.

É a hora em que ele me pergunta:

— Será que eu não deveria aceitar certas imposições em troca de um relacionamento? Afinal, algumas dessas minas são interessantes.

 

Liberdade

 

Ele me deixou numa sinuca de bico. Por um lado, talvez exista uma mulher incrível por trás de um tipo mandão. Sabe-se lá! Por outro, cabe a desconfiança: se ela se mostra autoritária no primeiro encontro, será que não se converterá em uma tirana dentro de um mês? Meu amigo tem optado por não correr esse risco, e concordo com ele.

O que fazer?

Minha sugestão é ter paciência. Vou além e esboço o seguinte discurso.

— Cara, penso assim: seu jeito é seu filtro. Só se aproxima e fica com você quem gosta do seu estilo, valoriza você exatamente como é. Quem quer mudar você não quer alguém como você. Quer um corpo que sirva de marionete. Quer um fantoche. Quer uma massa de modelar. Se você demonstra gostar de si mesmo tal como é, você automaticamente afasta quem não combina com você.

Simples assim. Óbvio assim. E ele concordou comigo. Lamenta o que ele chama informalmente de azar, mas segue de cabeça erguida. Menos mal. É inteligente, instruído, generoso, confiável, jovem e bonito. Por que não encontraria sua “cara-metade”? Questão de tempo. Estou seguro disso. Não precisa se sujeitar a mandos e desmandos de quem mal o conhece.

 

 

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O medo de ser feliz no amor.

Meu amigo A sofre de um estranho mal. Ele tem medo de ser feliz no amor. Parece até clichê dizer isso, mas é fato. Não há outro diagnóstico possível no caso dele. A teme a felicidade no amor. Então, ele se esconde atrás de uma barricada de ilusões ou de problemas (inclusive imaginários) e, assim, se autoboicota. Se a felicidade amorosa bate à porta dele, faz de conta que não ouve ou manda dizer que não está.

Já testemunhei a autossabotagem de numerosas vezes. Ele até começa bem. Tudo parece indicar que finalmente terá uma trégua nos contratempos da vida afetiva e experimentará uma longa sequência de dias felizes. Pena que, semanas depois, ele esteja, de novo, mergulhado em algum tipo de aflição. Masoquismo? Não creio. Acredito mais em medo mesmo. prefere o conforto (!!!) do sofrimento na solidão ao risco de ser feliz com alguém e perder essa felicidade mais adiante.

 

 

Na cabeça dele, consciente ou inconscientemente, há lucro onde não há prejuízo. Assim, ele se mantém em sua zona de conforto, que está longe de ser ruim, mas que não o permite experiências mais ousadas e, de certa forma, mais profundas. Nesse espaço existencial seguro, estão amigas, amigos, familiares mais chegados, colegas de trabalho em quem ele aprendeu a confiar, além de bens materiais, como casa confortável, carro novo, viagens, entre outros prazeres que o dinheiro pode comprar.

Paradoxalmente, busca a felicidade no amor. Permite-se isso. Mas a autossabotagem o leva a ver problemas onde não existem ou a maximizar os que existem. Alimenta paranoias. Cultiva neuroses. Dá margem a atritos. Abre, dessa forma, a porta de um cemitério imaginário e acolhe todos os fantasmas que saem dali. Por fim, engolfado em sua perturbação, deixa escapar oportunidades preciosas de viver lindos romances.

 

 

O que o leva a isso? Trauma? Baixa autoestima? Ambos? Não sei. Sou amigo de A, não seu psicoterapeuta. Tenho dificuldade para dizer o que vem antes e depois, isto é, se algum trauma o impede de ter certas experiências ou se ele “sempre” foi assim e, por isso, acabou se traumatizando. Afinal, parece haver aí um círculo vicioso: sofre por não experimentar a felicidade, e essa frustração, por sua vez, o perturba tanto que o impede de ter essa vivência de profunda satisfação com a vida. Onde tudo começa afinal? Por quê?

Conheço o desfecho até aqui. A vive pela metade. Mesmo que essa metade seja uma festa, continua sendo uma metade. Ele não atravessa para o outro lado. Olha para ele. Sente vontade de explorá-lo. Ensaia caminhar naquela direção, mas se detém e acaba retornando à banda onde sempre viveu, a tal zona de conforto. Claro está que não amadurece ou amadurece menos do que poderia, e isso afeta diferentes campos de sua vida. Curiosamente, ele mal se dá conta disso.

 

 

A confunde maturidade com velhice. Sua “Síndrome de Peter Pan” praticamente o congela em uma adolescência interminável. Ele resiste a amadurecer, como se isso fosse retardar seu envelhecimento. Parece nāo se dar conta de que há jovens amadurecidos e idosos infantis. A maturidade não prescinde de certas experiências pessoais. Sem elas, como se sabe, as pessoas ficam numa espécie de limbo, de área de intersecção entre o mundo infanto-juvenil e a vida adulta (mais em termos emocionais que em termos cronológicos). Ora essas pessoas se comportam como adolescentes, ora como vetustos senhores e senhoras de si. Não se encaixam perfeitamente em nenhum dos lados.

Para fazer a travessia e converter-se em homem adulto, precisa vencer o medo, sob o risco de nunca concluir o gozo da vida, caminhando em círculos, em um constante coitus interruptus. Pode sentir, sente e sentirá prazer, porém incompleto. O pior (ou o melhor!) é que tem tudo para atingir o orgasmo da própria existência. Está perdendo tempo.

 

 

 

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De fato e de ficção.

Assisti a toda a primeira temporada de “O Mecanismo”. Tenho acompanhado a polêmica em torno da série em cartaz na Netflix. Li o artigo do diretor José Padilha na Folha de S. Paulo deste domingo 1º de abril e alguns de seus comentários salpicados, aqui e ali, ao longo da semana passada. Que tiro foi esse? Quanta mixórdia!

 

 

Vou começar pelo fato mais recente dessa barafunda: o artigo do diretor José Padilha, intitulado “O mecanismo agradece”. Já sei que alguns vāo me apedrejar pelo que vou dizer agora, mas não me importo. Concordo com quase tudo o que Padilha afirma no texto dele na Folha. A tese que ele defende faz sentido, tem fundamento.

No entanto, apesar de concordar com a essência do que expressa Padilha em seu artigo, penso que ele, surpreendentemente, confunde realidade e ficção nesse caso. No texto, ele defende seu ponto de vista sobre uma realidade, isto é, o que a Lava Jato representa dentro de um contexto de roubalheira generalizada no mundo da política. Só que expressiva parte das críticas — possivelmente as mais relevantes — à série não ataca a realidade que ele descreve, tampouco a tese que ele defende. Elas vão contra a ficção que ele fez a partir dessa realidade e dessa tese. Não precisa ser de esquerda para enxergar, no mínimo, certo desleixo em “O Mecanismo”.

 

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Para não me alongar muito, vou me deter em apenas duas características, ao comentar a série de Padilha: elenco e roteiro. Vou deixar de fora cenografia e fotografia, que também me incomodam em várias sequências, entre outros aspectos.

Com exceção de Selton Mello (no papel do delegado da Polícia Federal Marco Ruffo), Carol Abbas (como a delegada da PF Verena Cardoni), Enrique Días (na pele de Roberto Ibrahim) e Leonardo Medeiros (interpretando João Pedro Rangel), o elenco de “O Mecanismo” deixa muito, mas muito a desejar.

O Brasil ostenta atores e atrizes de alto nível para encarnar qualquer um dos personagens da trama, mas — sabe-se lá por quê — coube a uma segunda divisão da classe artística brasileira papeis-chave, como o da presidente candidata à reeleição, Janete Ruscov (Sura Berditchevsky), e de seu vice, Samuel Thames (Tonio Carvalho), entre outros tantos. Até o papel do juiz Paulo Rigo (versão ficcional do célebre juiz Sergio Moro), figura central na história, tem como intérprete um robótico Otto Jr.

Não adianta dizer que essas figuras são secundárias no dia-a-dia da trama porque, para isso, existem as chamadas “participações especiais”, que as televisões exploram tão bem quando precisam valorizar um personagem e homenagear um ator ou atriz de primeira grandeza cujo papel, em termos de tempo e espaço, vai ser curto na história. A própria Netflix, que produz a série e a leva ao ar, não costuma fazer economia na seleção do elenco de suas produções, quase sempre multimilionárias.

 

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Quanto ao roteiro, gosto de compará-lo ao de outras séries com viés político, como “House of Cards” e “Narcos” (da primeira e da segunda temporadas). Além de ter investido em elenco, figurino e fotografia, “House of Cards” capricha nos diálogos (o cinismo do protagonista Frank Underwood é um de seus pontos fortes) e, sobretudo, na sofisticada costura do golpe que o vice Underwood aplica contra o titular da Casa Branca (foco da primeira temporada).

“Narcos” aposta na ação, eletrizante do começo ao fim. Mesmo que se conteste, aqui e ali, a fidelidade aos fatos, a perseguição ao traficante Pablo Escobar e seu cartel vale por si mesma. Escobar (papel de Wagner Moura) é um protagonista digno desse nome. Conduz toda a trama. É personagem rico. Ainda que nāo tivesse existido, seria interessante. A “caçada” só tem sentido e excita tanto porque é contra um tipo como ele.

“O Mecanismo” não tem a ironia fina de “House of Cards”, nem a tensão dramática e mesmo trágica de “Narcos”, tampouco protagonistas instigantes e cativantes como Frank Underwood e Pablo Escobar. Sem atores e atrizes de primeira linha, sem diálogos de impacto (dá para imaginar algum deles virando “meme”, como os de Frank Underwood?), sem uma mente criminosa brilhante em torno da qual gire a trama, resta uma tese, aquela mesma que Padilha explica em seu artigo. Mas uma tese segura uma narrativa? Na TV? Na fantástica Hollywood contemporânea chamada Netflix?

Eis o problema. A questão ideológica vem depois, bem depois. Se uma série de viés político convence porque ação e reflexão caminham de mãos dadas e puxam as de quem está diante da TV (inclusive a crítica), as supostas intenções de manipular a opinião pública seguem seu caminho para o departamento da Ética e da Política, não da Estética (e me permito aqui separar as três). A obra ficcional tem, antes de tudo, um compromisso estético. As questões moral e política pesam, mas não definem a arte. A qualidade dela passa antes por valores estéticos, que “O Mecanismo” definitivamente fica devendo.

 

Narcos

 

Sei que muita gente está gostando de “O Mecanismo”. Há quem goste porque esteja salivando ao ver expostas as entranhas de um esquema de corrupção que tanto asco provoca país afora, e isso se chama catarse. Há quem goste porque se delicia ao ver ícones do Partido dos Trabalhadores apresentados de maneira desabonadora e vexaminosa, e isso se chama revanche. Há quem goste porque acredita estar finalmente entendendo direito a complexa Operação Lava Jato, e isso vem a ser ilusão (ao menos até certo ponto), pois a série pisoteia os fatos aqui e acolá. Só acho improvável que muita gente goste de “O Mecanismo” por suas qualidades estéticas — e, com isso, não quero dizer que os motivos acima para gostar da série não sejam legítimos, porque o são. No entanto, valem esteticamente tão pouco quanto os argumentos dos incomodados com a trama a ponto de cancelarem a assinatura da Netflix.

Meus motivos para nāo ter morrido de amores por “O Mecanismo”, até agora, espero ter deixado claros neste artigo. Reforço de que se trata, para mim, de uma questão estética e nāo ética ou política. O farto material da Operação Lava Jato, com tanta peripécia envolvida, já levou a própria Netflix a manifestar, em peça de publicidade para “House of Cards”, que a trama ficcional de Frank Underwood não tinha como competir com a trama real da Lava Jato no Brasil. E agora? Como explicar que “House of Cards” supere, em termos de teledramaturgia, “O Mecanismo”? É com esse tipo de indagação que Padilha deveria estar realmente preocupado e não com a reação negativa de quem se baseia mais em ideologia que em qualidade estética.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Humildade ou pretensão?

Qual seria o resultado de uma pesquisa que perguntasse a milhares de pessoas se elas se acham humildes? Problema! Aquelas que se dissessem humildes poderiam ser consideradas humildes? Afinal, quem é humilde pode afirmar (e afirma) que é?

 

Arrogancia

 

Antes de tentar responder às questões acima, há outra, bem mais importante, que a precede: o que, afinal, é humildade? No Aurélio: “Virtude que nos dá o sentimento de nossa fraqueza”. Também é modéstia, pobreza, respeito, reverência, submissão. No Dicionário de Filosofia, de Nicola Abbagnano: “Atitude de abjeção voluntária, típica da religiosidade medieval, sugerida pela crença na natureza miserável e pecaminosa do homem.” Nesse sentido, diz ele, a humildade era desconhecida do mundo antigo.

Em seu dicionário, Abbagnano resume as diferentes visões sobre a humildade. Os filósofos cristãos — talvez fosse melhor dizer os cristãos filósofos… — veem nela uma virtude. Curiosamente, foi essa visão que prevaleceu, pelo menos no Brasil, posto que é a mais comum, tal como o próprio verbete do Aurélio o comprova. Já os filósofos não-cristãos que Abbagnano cita desconfiam da humildade. Mesmo Espinosa, um religioso, “negava que a humildade fosse uma virtude e julgava-a uma emoção passiva por nascer do fato de ‘o homem contemplar sua própria impotência’.” Para ele, só haveria virtude se esse pensamento de impotência se manifestasse em relação a um ser superior.

 

Kant

Immanuel Kant (1724-1804): humildade moral e humildade espúria.

 

Kant aborda o tema de maneira semelhante, de acordo com o dicionário de Abbagnano. Haveria, para o filósofo alemão, a humildade moral — “sentimento da pequenez do nosso valor, comparado com a lei” — e a humildade espúria — “a pretensão de, por meio da renúncia, adquirir algum valor moral, valor moral oculto”. Nietzsche, por sua vez, via na humildade um aspecto da “moral dos escravos”.

Tudo isso dá pano para manga! Eis por que o assunto me instiga. O senso comum empurra a gente para uma visão limitada de humildade. Humilde é quem se mostra discreto, contido, respeitoso, modesto. Não se exibe. Não se vangloria. Não incomoda.

Uma reflexão mais profunda, porém, permite que venham à luz visões diferentes de humildade, como sintetiza Abbagnano. A humildade pode ser uma máscara, um subterfúgio, um problema de autoestima, um traço de submissão, entre outras possibilidades. Nesses casos, não seria uma virtude. Nada haveria de nobre, de eticamente superior em ser humilde. Então me lembro da máxima do moralista francês François de la Rochefoucauld, para quem “a humildade é a maior das pretensões”.

 

Rochefoucauld

François de la Rochefoucauld (1613-1680): ceticismo quanto à humildade.

 

De volta à hipótese do primeiro parágrafo deste artigo, acredito que a maioria das pessoas entrevistadas na pesquisa responderiam que se julgam humildes. Talvez titubeassem antes de responder, mas acabariam por afirmar que, sim, são humildes. Nesse caso, não estariam sendo humildes e, pior, talvez evidenciassem o estado de negação que leva tanta gente a julgar-se moralmente melhor do que realmente é.

Não sou filósofo. Não passo de um bacharel em Filosofia. No entanto, permito-me ter minha própria visão de humildade. Para mim, trata-se da capacidade de a pessoa ver-se a si mesma com realismo, baseando-se tanto em sua própria autoimagem quanto na imagem que o mundo tem dela. Não sou apenas o que acho que sou, mas também a impressão que transmito àqueles com quem interajo. O espelho não basta. Ele é suspeito. Preciso também dos olhos, ouvidos e bocas a minha volta. O contrário também funciona: o que o mundo acha de mim não basta, pois ele é suspeito. Pode me aplaudir ou me vaiar injustamente. Necessito, portanto, de meu espelho para equilibrar o jogo. Se ambos falharem, caio na vala comum da ilusão, do autoengano.

Humilde é a criatura que, neste mundo agitado e insano, consegue ter autoestima sem se achar o último biscoito do pacote e, ao mesmo tempo, ter autocrítica sem se julgar o pior dos mortais. Equilíbrio e bom senso me parecem juízes bastante confiáveis. Difícil? Irreal? Impossível? Não sei. Não sou. Para fins teóricos, pelo menos, fica aí minha modesta visão.  Críticas e perspectivas diferentes são bem-vindas.

 

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