O medo de ser feliz no amor.

Meu amigo A sofre de um estranho mal. Ele tem medo de ser feliz no amor. Parece até clichê dizer isso, mas é fato. Não há outro diagnóstico possível no caso dele. A teme a felicidade no amor. Então, ele se esconde atrás de uma barricada de ilusões ou de problemas (inclusive imaginários) e, assim, se autoboicota. Se a felicidade amorosa bate à porta dele, faz de conta que não ouve ou manda dizer que não está.

Já testemunhei a autossabotagem de numerosas vezes. Ele até começa bem. Tudo parece indicar que finalmente terá uma trégua nos contratempos da vida afetiva e experimentará uma longa sequência de dias felizes. Pena que, semanas depois, ele esteja, de novo, mergulhado em algum tipo de aflição. Masoquismo? Não creio. Acredito mais em medo mesmo. prefere o conforto (!!!) do sofrimento na solidão ao risco de ser feliz com alguém e perder essa felicidade mais adiante.

 

 

Na cabeça dele, consciente ou inconscientemente, há lucro onde não há prejuízo. Assim, ele se mantém em sua zona de conforto, que está longe de ser ruim, mas que não o permite experiências mais ousadas e, de certa forma, mais profundas. Nesse espaço existencial seguro, estão amigas, amigos, familiares mais chegados, colegas de trabalho em quem ele aprendeu a confiar, além de bens materiais, como casa confortável, carro novo, viagens, entre outros prazeres que o dinheiro pode comprar.

Paradoxalmente, busca a felicidade no amor. Permite-se isso. Mas a autossabotagem o leva a ver problemas onde não existem ou a maximizar os que existem. Alimenta paranoias. Cultiva neuroses. Dá margem a atritos. Abre, dessa forma, a porta de um cemitério imaginário e acolhe todos os fantasmas que saem dali. Por fim, engolfado em sua perturbação, deixa escapar oportunidades preciosas de viver lindos romances.

 

 

O que o leva a isso? Trauma? Baixa autoestima? Ambos? Não sei. Sou amigo de A, não seu psicoterapeuta. Tenho dificuldade para dizer o que vem antes e depois, isto é, se algum trauma o impede de ter certas experiências ou se ele “sempre” foi assim e, por isso, acabou se traumatizando. Afinal, parece haver aí um círculo vicioso: sofre por não experimentar a felicidade, e essa frustração, por sua vez, o perturba tanto que o impede de ter essa vivência de profunda satisfação com a vida. Onde tudo começa afinal? Por quê?

Conheço o desfecho até aqui. A vive pela metade. Mesmo que essa metade seja uma festa, continua sendo uma metade. Ele não atravessa para o outro lado. Olha para ele. Sente vontade de explorá-lo. Ensaia caminhar naquela direção, mas se detém e acaba retornando à banda onde sempre viveu, a tal zona de conforto. Claro está que não amadurece ou amadurece menos do que poderia, e isso afeta diferentes campos de sua vida. Curiosamente, ele mal se dá conta disso.

 

 

A confunde maturidade com velhice. Sua “Síndrome de Peter Pan” praticamente o congela em uma adolescência interminável. Ele resiste a amadurecer, como se isso fosse retardar seu envelhecimento. Parece nāo se dar conta de que há jovens amadurecidos e idosos infantis. A maturidade não prescinde de certas experiências pessoais. Sem elas, como se sabe, as pessoas ficam numa espécie de limbo, de área de intersecção entre o mundo infanto-juvenil e a vida adulta (mais em termos emocionais que em termos cronológicos). Ora essas pessoas se comportam como adolescentes, ora como vetustos senhores e senhoras de si. Não se encaixam perfeitamente em nenhum dos lados.

Para fazer a travessia e converter-se em homem adulto, precisa vencer o medo, sob o risco de nunca concluir o gozo da vida, caminhando em círculos, em um constante coitus interruptus. Pode sentir, sente e sentirá prazer, porém incompleto. O pior (ou o melhor!) é que tem tudo para atingir o orgasmo da própria existência. Está perdendo tempo.

 

 

 

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De fato e de ficção.

Assisti a toda a primeira temporada de “O Mecanismo”. Tenho acompanhado a polêmica em torno da série em cartaz na Netflix. Li o artigo do diretor José Padilha na Folha de S. Paulo deste domingo 1º de abril e alguns de seus comentários salpicados, aqui e ali, ao longo da semana passada. Que tiro foi esse? Quanta mixórdia!

 

 

Vou começar pelo fato mais recente dessa barafunda: o artigo do diretor José Padilha, intitulado “O mecanismo agradece”. Já sei que alguns vāo me apedrejar pelo que vou dizer agora, mas não me importo. Concordo com quase tudo o que Padilha afirma no texto dele na Folha. A tese que ele defende faz sentido, tem fundamento.

No entanto, apesar de concordar com a essência do que expressa Padilha em seu artigo, penso que ele, surpreendentemente, confunde realidade e ficção nesse caso. No texto, ele defende seu ponto de vista sobre uma realidade, isto é, o que a Lava Jato representa dentro de um contexto de roubalheira generalizada no mundo da política. Só que expressiva parte das críticas — possivelmente as mais relevantes — à série não ataca a realidade que ele descreve, tampouco a tese que ele defende. Elas vão contra a ficção que ele fez a partir dessa realidade e dessa tese. Não precisa ser de esquerda para enxergar, no mínimo, certo desleixo em “O Mecanismo”.

 

omecanismo

 

Para não me alongar muito, vou me deter em apenas duas características, ao comentar a série de Padilha: elenco e roteiro. Vou deixar de fora cenografia e fotografia, que também me incomodam em várias sequências, entre outros aspectos.

Com exceção de Selton Mello (no papel do delegado da Polícia Federal Marco Ruffo), Carol Abbas (como a delegada da PF Verena Cardoni), Enrique Días (na pele de Roberto Ibrahim) e Leonardo Medeiros (interpretando João Pedro Rangel), o elenco de “O Mecanismo” deixa muito, mas muito a desejar.

O Brasil ostenta atores e atrizes de alto nível para encarnar qualquer um dos personagens da trama, mas — sabe-se lá por quê — coube a uma segunda divisão da classe artística brasileira papeis-chave, como o da presidente candidata à reeleição, Janete Ruscov (Sura Berditchevsky), e de seu vice, Samuel Thames (Tonio Carvalho), entre outros tantos. Até o papel do juiz Paulo Rigo (versão ficcional do célebre juiz Sergio Moro), figura central na história, tem como intérprete um robótico Otto Jr.

Não adianta dizer que essas figuras são secundárias no dia-a-dia da trama porque, para isso, existem as chamadas “participações especiais”, que as televisões exploram tão bem quando precisam valorizar um personagem e homenagear um ator ou atriz de primeira grandeza cujo papel, em termos de tempo e espaço, vai ser curto na história. A própria Netflix, que produz a série e a leva ao ar, não costuma fazer economia na seleção do elenco de suas produções, quase sempre multimilionárias.

 

House_of_cards

 

Quanto ao roteiro, gosto de compará-lo ao de outras séries com viés político, como “House of Cards” e “Narcos” (da primeira e da segunda temporadas). Além de ter investido em elenco, figurino e fotografia,”House of Cards” capricha nos diálogos (o cinismo do protagonista Frank Underwood é um de seus pontos fortes) e, sobretudo, na sofisticada costura do golpe que o vice Underwood aplica contra o titular da Casa Branca (foco da primeira temporada).

“Narcos” aposta na ação, eletrizante do começo ao fim. Mesmo que se conteste, aqui e ali, a fidelidade aos fatos, a perseguição ao traficante Pablo Escobar e seu cartel vale por si mesma. Escobar (papel de Wagner Moura) é um protagonista digno desse nome. Conduz toda a trama. É personagem rico. Ainda que nāo tivesse existido, seria interessante. A “caçada” só tem sentido e excita tanto porque é contra um tipo como ele.

“O Mecanismo” não tem a ironia fina de “House of Cards”, nem a tensão dramática e mesmo trágica de “Narcos”, tampouco protagonistas instigantes e cativantes como Frank Underwood e Pablo Escobar. Sem atores e atrizes de primeira linha, sem diálogos de impacto (dá para imaginar algum deles virando “meme”, como os de Frank Underwood?), sem uma mente criminosa brilhante em torno da qual gire a trama, resta uma tese, aquela mesma que Padilha explica em seu artigo. Mas uma tese segura uma narrativa? Na TV? Na fantástica Hollywood contemporânea chamada Netflix?

Eis o problema. A questão ideológica vem depois, bem depois. Se uma série de viés político convence porque ação e reflexão caminham de mãos dadas e puxam as de quem está diante da TV (inclusive a crítica), as supostas intenções de manipular a opinião pública seguem seu caminho para o departamento da Ética e da Política, não da Estética (e me permito aqui separar as três). A obra ficcional tem, antes de tudo, um compromisso estético. As questões moral e política pesam, mas não definem a arte. A qualidade dela passa antes por valores estéticos, que “O Mecanismo” definitivamente fica devendo.

 

Narcos

 

Sei que muita gente está gostando de “O Mecanismo”. Há quem goste porque esteja salivando ao ver expostas as entranhas de um esquema de corrupção que tanto asco provoca país afora, e isso se chama catarse. Há quem goste porque se delicia ao ver ícones do Partido dos Trabalhadores apresentados de maneira desabonadora e vexaminosa, e isso se chama revanche. Há quem goste porque acredita estar finalmente entendendo direito a complexa Operação Lava Jato, e isso vem a ser ilusão (ao menos até certo ponto), pois a série pisoteia os fatos aqui e acolá. Só acho improvável que muita gente goste de “O Mecanismo” por suas qualidades estéticas — e, com isso, não quero dizer que os motivos acima para gostar da série não sejam legítimos, porque o são. No entanto, valem esteticamente tão pouco quanto os argumentos dos incomodados com a trama a ponto de cancelarem a assinatura da Netflix.

Meus motivos para nāo ter morrido de amores por “O Mecanismo”, até agora, espero ter deixado claros neste artigo. Reforço de que se trata, para mim, de uma questão estética e nāo ética ou política. O farto material da Operação Lava Jato, com tanta peripécia envolvida, já levou a própria Netflix a manifestar, em peça de publicidade para “House of Cards”, que a trama ficcional de Frank Underwood não tinha como competir com a trama real da Lava Jato no Brasil. E agora? Como explicar que “House of Cards” supere, em termos de teledramaturgia, “O Mecanismo”? É com esse tipo de indagação que Padilha deveria estar realmente preocupado e não com a reação negativa de quem se baseia mais em ideologia que em qualidade estética.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Humildade ou pretensão?

Qual seria o resultado de uma pesquisa que perguntasse a milhares de pessoas se elas se acham humildes? Problema! Aquelas que se dissessem humildes poderiam ser consideradas humildes? Afinal, quem é humilde pode afirmar (e afirma) que é?

 

Arrogancia

 

Antes de tentar responder às questões acima, há outra, bem mais importante, que a precede: o que, afinal, é humildade? No Aurélio: “Virtude que nos dá o sentimento de nossa fraqueza”. Também é modéstia, pobreza, respeito, reverência, submissão. No Dicionário de Filosofia, de Nicola Abbagnano: “Atitude de abjeção voluntária, típica da religiosidade medieval, sugerida pela crença na natureza miserável e pecaminosa do homem.” Nesse sentido, diz ele, a humildade era desconhecida do mundo antigo.

Em seu dicionário, Abbagnano resume as diferentes visões sobre a humildade. Os filósofos cristãos — talvez fosse melhor dizer os cristãos filósofos… — veem nela uma virtude. Curiosamente, foi essa visão que prevaleceu, pelo menos no Brasil, posto que é a mais comum, tal como o próprio verbete do Aurélio o comprova. Já os filósofos não-cristãos que Abbagnano cita desconfiam da humildade. Mesmo Espinosa, um religioso, “negava que a humildade fosse uma virtude e julgava-a uma emoção passiva por nascer do fato de ‘o homem contemplar sua própria impotência’.” Para ele, só haveria virtude se esse pensamento de impotência se manifestasse em relação a um ser superior.

 

Kant

Immanuel Kant (1724-1804): humildade moral e humildade espúria.

 

Kant aborda o tema de maneira semelhante, de acordo com o dicionário de Abbagnano. Haveria, para o filósofo alemão, a humildade moral — “sentimento da pequenez do nosso valor, comparado com a lei” — e a humildade espúria — “a pretensão de, por meio da renúncia, adquirir algum valor moral, valor moral oculto”. Nietzsche, por sua vez, via na humildade um aspecto da “moral dos escravos”.

Tudo isso dá pano para manga! Eis por que o assunto me instiga. O senso comum empurra a gente para uma visão limitada de humildade. Humilde é quem se mostra discreto, contido, respeitoso, modesto. Não se exibe. Não se vangloria. Não incomoda.

Uma reflexão mais profunda, porém, permite que venham à luz visões diferentes de humildade, como sintetiza Abbagnano. A humildade pode ser uma máscara, um subterfúgio, um problema de autoestima, um traço de submissão, entre outras possibilidades. Nesses casos, não seria uma virtude. Nada haveria de nobre, de eticamente superior em ser humilde. Então me lembro da máxima do moralista francês François de la Rochefoucauld, para quem “a humildade é a maior das pretensões”.

 

Rochefoucauld

François de la Rochefoucauld (1613-1680): ceticismo quanto à humildade.

 

De volta à hipótese do primeiro parágrafo deste artigo, acredito que a maioria das pessoas entrevistadas na pesquisa responderiam que se julgam humildes. Talvez titubeassem antes de responder, mas acabariam por afirmar que, sim, são humildes. Nesse caso, não estariam sendo humildes e, pior, talvez evidenciassem o estado de negação que leva tanta gente a julgar-se moralmente melhor do que realmente é.

Não sou filósofo. Não passo de um bacharel em Filosofia. No entanto, permito-me ter minha própria visão de humildade. Para mim, trata-se da capacidade de a pessoa ver-se a si mesma com realismo, baseando-se tanto em sua própria autoimagem quanto na imagem que o mundo tem dela. Não sou apenas o que acho que sou, mas também a impressão que transmito àqueles com quem interajo. O espelho não basta. Ele é suspeito. Preciso também dos olhos, ouvidos e bocas a minha volta. O contrário também funciona: o que o mundo acha de mim não basta, pois ele é suspeito. Pode me aplaudir ou me vaiar injustamente. Necessito, portanto, de meu espelho para equilibrar o jogo. Se ambos falharem, caio na vala comum da ilusão, do autoengano.

Humilde é a criatura que, neste mundo agitado e insano, consegue ter autoestima sem se achar o último biscoito do pacote e, ao mesmo tempo, ter autocrítica sem se julgar o pior dos mortais. Equilíbrio e bom senso me parecem juízes bastante confiáveis. Difícil? Irreal? Impossível? Não sei. Não sou. Para fins teóricos, pelo menos, fica aí minha modesta visão.  Críticas e perspectivas diferentes são bem-vindas.

 

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A língua dos jovens.

Quem se relaciona com jovens, seja como for, já deve ter observado que a maioria deles tem hoje a seguinte característica em comum: o uso de poucas palavras. A continuar nesse ritmo, daqui a alguns anos, a comunicação deles será exclusivamente em monossílabos. Os 140 caracteres do Twitter serão equivalentes, para os jovens do futuro, ao que o romance “Guerra e Paz”, de Tolstói, é para os jovens (e até muitos adultos) de hoje (e, sim, esse é um exagero – faz parte do meu estilo).

 

 

Sempre fui loquaz. Desde a adolescência, falo e escrevo mais que a média e adoto um vocabulário quase novecentista mesclado ao atual. Acho meu português meio vintage. Com o tempo, venho desenvolvendo a capacidade de síntese. De qualquer forma, parece-me improvável que, um dia, eu venha a me comunicar com no máximo três palavras, quase todas gírias, como observo meus amigos mais jovens fazendo – principalmente quando escrevem. Na verdade, não estou sequer convencido de que devo buscar incessantemente um quase-silêncio, muito menos o pauperismo vocabular.

Um típico e fictício diálogo virtual entre mim e qualquer um de meus amigos mais jovens ilustra o que estou dizendo:

 

– Tudo bem?

– Blz

– O que tem feito?

– Nd d+

– Como anda a faculdade? Está gostando do curso?

– Top

– E a turma?

– Topíssima

– Já fez muitos amigos lá?

– Hunhun

– Tem planos de fazer estágio?

– Sim

– Algum em mente?

– Ñ

– Se precisar de alguma dica, fique à vontade.

– Vlw

– Como faz para conciliar estudo e rolê (essa é a nova gíria para “balada”)?

– D boa

– Anda saindo muito? Aonde tem ido?

– Barzim. Rolês. Vc?

– Ah, tenho saído pouco. Chego cansado do trabalho durante a semana. Nos fins de semana, vou ao cinema, saio para almoçar ou jantar fora com amigos. Às vezes, vou a alguma festa, mas só quando parece que vai ser muito boa. Muitas vezes, aproveito o sábado e o domingo para dormir, descansar mesmo. Tenho visto muito filme e seriado na Netflix também.

– To lgd

– Tem planos para as férias de julho?

– + ou –

– Como assim?

– Tem q ver c a galera ae

– Entendo…  Combinar viagem em grupo é difícil, né? Cada um quer uma coisa. Fica difícil conciliar os interesses de todo mundo.

– D boa

– Foi bom conversar com você.

– Daora! Tmj!

 

 

O diálogo acima ainda é do tipo desenvolvido (!), embora eu tenha usado muitas abreviações, que alguns leitores, posso apostar, não entenderam. A maioria das conversas sofre longas pausas ou mesmo se interrompe (por parte do jovem) sem explicação, sem despedida. A impressão que se tem é a de que, do outro lado, o sujeito está teclando com mais cinco pessoas, instalando novo aplicativo no smartphone, devorando um sanduíche e sabe-se lá mais o quê. A juventude de hoje é provavelmente a mais multitarefa da história.

No afã de executar “n” funções ao mesmo tempo, os jovens só completam aquelas que, no momento, lhes parecem mais importantes (e sedutoras). Portanto, um download no Spotfy pode ter muito mais relevância que meu interesse na vida deles.

Claro que, nessa onda do diálogo minimalista, o vocabulário também se reduz ao mínimo. Propositadamente, inseri neste texto palavras que praticamente nenhum jovem utiliza hoje em dia, tais como: loquaz, incessantemente, pauperismo, afã. São termos raros tanto na fala quanto na escrita dos mais moços (outro substantivo em desuso).

 

 

Existem, claro, adultos que falam e escrevem pouco, mas raramente usam menos palavras que os jovens, sobretudo os adolescentes.

Eis onde entra minha dúvida: os “teens” de hoje expressam-se quase exclusivamente em duas, três palavrinhas, e reduzem ao mínimo o próprio vocabulário porque as escolas que frequentam não os têm estimulado a explorar mais os potenciais da língua ou são as novas tecnologias da informação e da comunicação que os têm afastado dos padrões linguísticos adotados nas escolas? Talvez os dois motivos combinados? Nenhum desses? Outros? Por ora, não arrisco uma resposta definitiva.

Sinto profunda satisfação em conviver com pessoas mais jovens que eu. Uso gírias também. Esse excesso de síntese e essa redução vocabular (sim, discordo de quem considera essa espécie de “novilíngua” da internet enriquecimento lexical) só me incomodam um pouco porque, como afirmei acima, sempre me expressei com mais palavras e com vocabulário menos vulgar que a média, mesmo quando eu era adolescente. Idade nunca foi motivo para eu ler, falar ou escrever pouco – nem para limitar meu vocabulário.

 

 

Lamento que certos termos estejam desaparecendo, especialmente porque não observo outros que os substituam à altura. Ademais, nessa contabilidade, vejo uma conta de resultado negativo: saem palavras de cena e entram novas que raramente vêm somar ou enriquecer as antigas. Por que não as conciliar? Por que não manter amplo o leque de opções lexicais? Por que restringir o vocabulário? Por que ser sintético demais (ainda que a síntese seja uma qualidade), sobretudo quando é necessário usar mais palavras para se desenvolver, elaborar adequadamente uma ideia? Será que o futuro está na telepatia? Mesmo a telepatia poderia, em tese, empregar mais ou menos sinais comunicativos mentais.

Gosto mais da ideia de uma comunicação farta, como um banquete de letras. Viva o luxo do idioma! Guarda-roupa para cada estação, cada situação. Não é frescura. É manter rica e sofisticada a língua-mãe e, assim, representar melhor o povo que a utiliza. Ser simples não é ser pobre. Xô populismo! Xô demagogia! Português sem miséria! Dicionário para todos!

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Diego.

Diego parou. Ficou ali, estático, por alguns segundos. Segurou com força a maçaneta e respirou profundamente antes de girá-la devagar. Deu um modesto passo adiante.

– Com licença. Bom dia.

– Bom dia. Sente-se, por favor.

— Obrigado.

– Como você está se sentindo, Diego?

– Um pouco tenso.

– Por quê?

– Não sei. Deve ser porque nunca estive em um consultório como este.

– Talvez, mas saiba que você não tem motivo para ficar tenso.

– Sim. Sim. É verdade.

Edvard_Munch_-_Melancholy_(1894)

Melancolia (1894), de Edvard Munch (1863-1944).

Ele falava lentamente e não olhava para mim. Seus olhos procuravam um ponto para se fixar. Vasculharam a sala e descobriram minha poltrona, os quadros abstratos nas paredes, o tapete no centro, o abajur à minha esquerda, a cortina fechada. Pararam na pintura atrás da minha cabeça.

– Aprecia o Cubismo?

– Acho que sim. Depende.

– De quê?

– Da pintura.

– Desta, atrás de mim, você gosta?

– Sim. Acho que sim.

Arlequin-1918

Arlequim (1918), de Pablo Picasso (1881-1973).

As mãos dele apertavam os braços da poltrona. Ele não olhava para mim. Evitava meu olhar. De repente, cruzou uma perna sobre a outra. Descruzou-a segundos depois.

– Não sei por que estou aqui.

– Você veio espontaneamente?

– Sim.

– Por que eu?

– Como assim?

– Por que você me escolheu entre tantos profissionais na cidade?

– Uma amiga indicou você. Ela me disse que um tio dela já veio aqui e gostou muito.

– Por que sua amiga achou que você poderia gostar de mim também?

– Ela me disse que o tio é uma pessoa exigente. Se ele gostou de você, do seu trabalho, eu também poderia gostar.

– E você é exigente?

– Não sei. Acho que sou.

– O que você disse a sua amiga para ela sugerir que você viesse até aqui?

– Bem…  É muito íntimo.

– Imagino que sim. Mas aqui é um espaço para você se abrir quando quiser, o quanto quiser, como quiser. Dentro de certa medida, é claro.

– Entendo…

– Então…

– É que tenho um pouco de vergonha de falar sobre isso. Essa minha amiga é a única pessoa com quem tive coragem de me abrir, quer dizer, ela não ficou sabendo de tudo, só de um pouco. Confio nela, mas…

– Mas?

– Já disse. É algo muito íntimo.

– Íntimo e incômodo. Correto?

– Correto.

– Incômodo por quê?

– Porque…

– …

– Porque me perturba.

– De que forma isso perturba você?

– Penso nisso e acabo ficando deprimido.

– Pensar nisso é inevitável?

– Às vezes, é.

– Quando é evitável? Quando você consegue ficar sem pensar nisso?

– Sei lá! Quando saio e me divirto. Quando vou ao cinema e gosto do filme, por exemplo.

– E quando você não consegue evitar?

– Geralmente, quando vou me deitar.

– Você perde o sono?

– Na maioria das vezes, sim.

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Melancolia (1892), de Edvard Munch.

Diego estava de novo à procura de um ponto fixo para mirar. Escolheu o frigobar próximo à janela. Por segundos, mostrou-se distante, ausente.

– Você se incomoda de me dizer em que você pensa antes de dormir a ponto de fazer você perder o sono? Deve ser algo importante. Talvez eu possa ajudá-lo a se livrar desse pesadelo acordado.

– Perdão. Eu sei que você só quer me ajudar. Fui eu que procurei você. Mas eu tenho vergonha, entende? É algo muito íntimo. Nunca revelei isso antes.

– Nem mesmo para essa amiga que me indicou para você?

– Não. Ela apenas desconfia. Só me abri com ela um pouco.

– O que você disse a ela? Pode me revelar ou falar sobre isso realmente perturba você? Não quero forçá-lo a nada. Meu objetivo é só ajudá-lo. Você me procurou. Gostaria de poder fazer algo por você.

– Eu sei. Eu sei.

– Tudo bem. Sobre o que você quer conversar?

– Eu acho que…

– …

– Acho que tenho um problema.

– Problema?

– Sim. Tenho um problema.

– Um deles eu já conheço: você tem dificuldade para dormir às vezes…

– Você tem bom humor.

– É preciso.

– Eu gostaria de ter mais humor, mas não consigo. Sou muito fechado.

– Por quê?

– Acho que tenho medo de as outras pessoas me conhecerem melhor.

– Entendo…

– Tenho vergonha, sabe?

– De que exatamente?

– Da minha diferença.

– Qual diferença? Ninguém é igual a ninguém, Diego. Todos nós temos diferenças. Qual é o problema em ser diferente? Diferente de quem?

– Eu sou diferente. Sou diferente da maioria de meus amigos.

– Como você pode ter tanta certeza disso? Da mesma forma que você não se abre com seus amigos, talvez eles também não se abram com você.

– Acho pouco provável.

– O que você acha pouco provável?

– Que meus amigos…. Deixa pra lá!

– Em que exatamente você se sente diferente dos seus amigos?

– Eles…. Eu…. Bem, eles…

– …

– Eles gostam de mulher, só de mulher. Pronto! Consegui dizer isso! Meu Deus!

– Está se sentindo melhor agora?

– Mais ou menos.

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Desespero (1892), de Edvard Munch.

A expressão no rosto dele era de alívio, mas seu olhar continuava a fugir do meu. Diego ainda via em mim uma ameaça, como se ele fosse uma criatura indefesa diante de um animal selvagem. Eu era a fera.

– Você está me dizendo que seus amigos gostam só de mulher. E você é diferente deles por quê? Você não gosta só de mulher?

– Não. Eu sinto atração por homens também. Mas eu não sou gay, entende? Eu não sou gay! Eu sou diferente dos meus amigos em pensamento, só em pensamento.

– Certo…. Você sente atração por homens, atração sexual…

– Acho que é sexual. Não sei.

– Que tipo de atração você sente pelos homens?

– Bem…. Eu sinto vontade de… tocar o corpo deles…

– Você já fez isso?

– Claro que não! Eu já disse: eu não sou gay.

– Diego, você se sente perturbado porque sente atração por homens. É isso?

– Sim. Isso me incomoda muito.

– Por quê?

– Porque acho isso errado. Eu não deveria sentir atração por homens, só por mulheres. O normal é um homem se sentir atraído por mulheres, não por homens. Deus fez o homem e a mulher para que um complete o outro, para um ser parceiro do outro. A natureza fez o homem e a mulher sob medida um para o outro. É contra a lei divina e contra a lei da natureza um homem sentir atração por outro homem, e uma mulher, por outra mulher.

– Quem disse isso?

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Adão e Eva (Slovenian Beehive Paintings).

– É assim. Faz parte da nossa natureza.

– Então, Diego, por que é que tantas pessoas, milhares, milhões, sentem atração sexual por outras do mesmo sexo? Todas elas são anormais?

– Sim. Todas elas são anormais. São doentes.

– E você se considera doente?

– Mais ou menos.

– Como assim?

– Vou dar um exemplo. Uma pessoa descobre um tumor. Faz exames. O tumor é benigno. Ela extrai o tumor. Está curada.

– Com isso, você quer dizer que a atração homossexual é uma espécie de tumor?

– Exatamente.

– Então, se uma pessoa descobre em tempo que tem esse… tumor, ela pode se curar?

– Isso mesmo.

– Você acha, então, que a atração sexual é algo do qual você pode se livrar se quiser?

– Sim. Se eu tiver ajuda médica. Por isso, estou aqui.

– Parabéns.

– Parabéns por quê?

– Você acaba de me dizer, finalmente, por que você me procurou.

– É verdade. Eu disse. Nem tinha percebido.

– Muito bem, mas há um probleminha.

– Qual?

– Eu não acredito em cura para a homossexualidade.

– Mas aí é que está! Eu não sou homossexual. Ainda não. Portanto, dá tempo de você me curar, quer dizer, de evitar que esse tumor cresça dentro de mim.

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Pity the Blind, de Klaas Koster (1952).

– Diego, preciso deixar claro o seguinte: meu papel não é curar as pessoas de males que elas acham que têm. Meu papel é ajudar pessoas a se autoconhecerem e, assim, encontrar caminhos novos, soluções novas, para situações que as incomodam. Muitas vezes, meu trabalho é ajudar as pessoas a simplesmente se aceitarem como são.

– E quando as pessoas querem mudar?

– Elas precisam, antes, ter certeza disso.

– Eu tenho certeza.

– Elas também precisam ter certeza de que têm um problema.

– Eu tenho essa certeza.

– OK. O que leva você a estar tão convicto de que sua atração por outros homens é um mal e que esse mal pode ser eliminado?

– Eu já disse: Deus e a natureza.

– Certo. Você acredita que Deus fez a natureza?

– Sim. Deus é o criador de tudo. A natureza é obra de Deus.

– Se Deus criou tudo, ele criou todos os seres humanos. Correto?

– Exato.

– Todos, sem exceção?

– Todos. Sem exceção.

– Deus é perfeito?

– Sim. Claro!

– Por que, então, Deus teria criado homens que só sentem atração sexual por mulheres e homens que também sentem atração por outros homens?

– Esse é um erro do homem, não de Deus. Deus fez o homem a sua imagem e semelhança. Mas Deus concedeu ao homem o livre arbítrio. Por isso, o homem pode ser mau. Da mesma forma, o homem pode sentir atração por outro homem. Mas isso vai contra a lei de Deus, a lei do Criador.

– Compreendo. Então, na sua opinião, a homossexualidade é uma infração, pois contraria a lei divina? Para você, ser homossexual é tão grave quanto fazer o mal?

God Judging Adam 1795 by William Blake 1757-1827

Deus Julgando Adão (1795), de William Blake (1757-1827).

– Acho que sim.

– Acha?

– Posso me explicar melhor. Há infrações mais graves que outras. A homossexualidade é uma infração bem menos grave, por exemplo, que o assassinato. Mas, ainda assim, é uma contravenção, um desrespeito à lei de Deus, que criou o homem para a mulher, e a mulher para o homem.

– Você acredita, então, que a homossexualidade é uma opção? Assim como um homem pode escolher ser um assassino, ele pode escolher ser homossexual?

– Exatamente.

– Você acha que a vida de um homossexual é fácil? Ela é mais fácil, por exemplo, que a de um heterossexual?

– De jeito nenhum!

– Então, por que um homem ou uma mulher escolheria levar uma vida mais difícil?

– Compulsão. Descontrole. Algo assim.

– Se o desejo é tão forte que a pessoa não consegue controlá-lo, você acha que, ainda assim, essa pessoa tem opção?

– Acho. Muitas vezes, uma pessoa sente tanta raiva que tem vontade de matar. Mas, se ela souber se controlar, ela não vai matar. O mesmo vale para o sexo. É preciso ter controle.

– Controle ou repressão?

– Controle.

– O que faz você pensar que a homossexualidade é algo ruim? Quem o homossexual está prejudicando? A quem ele está fazendo mal?

– A si mesmo.

– Por quê? Você não acredita que haja homossexuais felizes?

– Não. Não acredito. Muitos deles até se suicidam.

– Pois eu conheço muitos homossexuais felizes. Posso garantir isso a você.

– Se você está dizendo…

– Sim. É verdade. Conheço homossexuais felizes. Assim como há heterossexuais infelizes, que chegam a se suicidar.

– Pelo jeito, você é a favor da homossexualidade.

– Não sou contra nem a favor. Sou, sim, a favor de as pessoas viverem sua sexualidade livremente, sem medo, sem culpa, sem repressão, desde, claro, que não prejudiquem as outras nem a si mesmas.

– Mesmo sabendo que elas estão contrariando uma lei divina?

– Lei divina? Onde está essa lei?

– Nas Sagradas Escrituras.

– Como você pode ter certeza de que as escrituras sagradas são totalmente fiéis à palavra dos chamados profetas? Ao longo de séculos, elas receberam diferentes traduções, assim como alterações, intervenções, até adulterações mesmo.

– Isso é heresia.

– Não. Isso é História, Diego. As sagradas escrituras são um documento histórico. Como todo documento histórico, elas merecem uma análise cuidadosa. Com todo o respeito que eu tenho por todos os escritos religiosos de todos os tempos e crenças, acredito que qualquer documento está sujeito a modificações ao longo da História. Nenhuma narração é totalmente fiel aos fatos. Bem, isso é outra discussão, bastante longa por sinal.

– De fato. Eu teria diversos argumentos para apresentar a esse respeito, mas acho que seria desviar do assunto.

– Tem razão. Na verdade, já nos desviamos um pouco. Não faz mal. Esses desvios fazem parte do nosso trabalho aqui. Podem até ser úteis na terapia às vezes.

– O problema é que você dificilmente vai me convencer de que o homossexualismo não é um erro, um desvio, uma aberração, sei lá.

– Meu papel não é convencer você, nem ninguém, Diego. Meu papel é ajudar você a expor suas ideias, seus sentimentos e enxergá-los mais de perto. É você quem decide o caminho que pretende tomar.

– Mas eu já decidi meu caminho. Eu quero extrair esse tumor de dentro de mim enquanto é tempo. Não sou gay, não quero ser gay.

Caracommedo110

Diego consumiu vários minutos detalhando e reforçando os mesmos argumentos. Dava a impressão de querer se convencer de todos eles.

– OK. Nossa sessão termina agora. Mas na próxima – espero que haja a próxima – gostaria de retomar nossa conversa deste ponto: a possível origem da homossexualidade.

– Está bem. Vou pensar no que conversamos hoje. Talvez eu volte.

– Combinado.

– Tchau. Obrigado!

– De nada. Tchau.

Diego não voltou.

 

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Uma imensa Shangri-lá.

Se dependesse de mim, ninguém envelheceria. Eu disse “envelheceria”, não “amadureceria”. Gosto muito da ideia de amadurecer, mas a decrepitude me apavora, por uma longa série de motivos, que não vêm ao caso neste instante.

Se dependesse de mim,  a Terra seria uma imensa Shagri-lá. Pouco me importa se me disserem que tenho retardamento mental e vivo preso a uma eterna “adultescência”. Cumpro minhas obrigações, pago minhas contas e não dou prejuízo a ninguém.

 

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Romance deu origem à lenda de Shangri-lá.

 

Se dependesse de mim, jovens não morreriam. Morrer na juventude (assim como na infância) é uma covardia, um aborto espontâneo da vida. Esse, sim, deveria ser proibido. Melhor: deveria ser impossível.

Há quem diga que os jovens podem ser e geralmente são mais irresponsáveis, imaturos, ingênuos, confusos e por aí vai. Sei não… Conheço tantos adultos espancando o planeta, suas nações e suas populações, que me indago por que diabos “cresceram”.

 

Liberdade

 

Há, sim, muito de estúpido na juventude. No entanto, observo também viço, espontaneidade, coragem, ousadia, energia, criatividade, brilho no olhar — via de regra pelo menos, pois em qualquer faixa etária existe diversidade.

Se dependesse de mim, eu teria entre 20 e 30 anos para sempre. É como me sinto. É como se sente a maioria das pessoas que passam mais tempo perto de mim. Como na canção da Legião Urbana, “temos nosso próprio tempo”. Afinal, “somos tão jovens!”.

 

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Se dependesse de mim, uma jovem doce, alegre, divertida, inteligente, viva resistiria a qualquer acidente e estaria hoje a distribuir sorrisos, como sempre fez, às amigas e aos amigos que, como eu, tiveram a satisfação de conhecê-la.

M…, você deveria ter me pedido, e eu teria cedido meu sopro de vida a você. Já vivi tanto! Não me importaria de doar-lhe os anos que me restam. Estou certo de que você os aproveitaria tão bem quanto os tenho aproveitado. Quiçá melhor! Nunca se sabe.

O que posso fazer agora se não tentar resistir, evidentemente sem êxito, à força inexorável do tempo? Afinal, a Terra não é uma imensa Shangri-lá. Perecerei como toda a gente a minha volta.

Posso também alimentar a ilusão (esperança?) de que haja vida além da vida e, seja onde for, nossa juventude seja infinita como as melhores lembranças que guardamos na alma.

 

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Quando não se trata de perdoar.

Já escrevi sobre reconciliação entre pessoas que se desentendem. Defendi o perdão em diversos casos (não em todos, pois ninguém é santo). Volto a esse tema porque tenho observado situações em que, claramente, um atrito não se resolve com perdão. Talvez ele seja até dispensável, pois uma pessoa pode não guardar nenhuma mágoa da outra e, ainda assim, não a desejar mais por perto. O que pode ter havido em um caso assim?

 

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A resposta, para mim, é simples: o encanto passou. Pode-se substituir encanto por admiração, simpatia, respeito (intelectual ou ético), se quiser. Um desentendimento é capaz de trazer à tona tanto características inesperadas (surpresas desagradáveis) quanto esperadas (confirmação de impressões ou suposições). Em ambos os casos, é como se uma máscara caísse, e o verdadeiro rosto não agradasse.

O que fazer em uma situação assim? Forçar-se a conviver com uma pessoa que deixou de despertar admiração ou simpatia ou respeito ou encanto? Fingir e recebê-la de braços abertos quando o coração para ela se fechou? Não se trata de perdoar. Trata-se de não gostar mais como se gostava antes. Como em certas relações amorosas, o sentimento se desgasta e acaba. Aquela pessoa, que um dia desfrutou de seu convívio, que significou algo para você, torna-se quase uma estranha. Não faz mais diferença.

 

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Algumas pessoas culpam quem desiste de um amigo, de uma amiga ou mesmo de um parente, depois de um atrito. Cobram perdão. Cobram tolerância. Cobram paciência. Cobram, cobram, cobram. Não compreendem que não se trata de mágoa profunda, rancor, ódio. Nada disso. Insisto: trata-se de desencanto. Não uso o termo “decepção” porque ele pressupõe expectativa. Entendo “desencanto” como algo mágico (não ilusório) que simplesmente desapareceu. Está mais próximo de desilusão, embora não o entenda, neste contexto, como sinônimo.

O encanto de fato existiu. Teve motivos para existir. Uma pessoa encantou outra com características existentes de fato. O desencanto se deu porque outras características  — desabonadoras — pesaram mais, ofuscaram as positivas. Isso é subjetivo porque vai ao encontro da escala de valores de cada um. O que pesa negativamente, a ponto de se tornar uma incompatibilidade, para uns pode não ter importância para outros.

Compreender isso pode não ser fácil, mesmo para quem toma a decisão de se afastar de uma pessoa ou de redimensionar a relação com ela. Afinal, a sociedade (ao menos a brasileira, que conheço melhor) é uma fábrica de culpa. A cultura judaico-cristã contribui para essa produção em massa de gente culpada por gostar, não gostar, desejar, não desejar, aproximar-se, afastar-se, querer, não querer.

 

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Uma ressalva, porém: há desencantos e desencantos. Se for corriqueiro, o desencanto pode ser sinal de leviandade. Há gente que se desencanta muito facilmente. Há gente que se recusa a conceder uma segunda chance, aquela a que todo mundo merece. Há também quem se afaste por medo (de se apaixonar, para ficar em um único exemplo). Isso não é desencanto que justifique distanciamento, muito menos definitivo. É covardia mesmo.

Aqui me refiro a um desencanto, por assim dizer, legítimo, fundamentado em fatos seguidos, isto é, testemunhos de repetidas situações de desaprovação e desconforto. Casamentos podem terminar por isso, e ninguém tem o direito de cobrar “amor eterno” de pessoas que deram murro em ponta de faca até desfigurar a mão. Há limite para tudo, e quem cobra geralmente não sabe se colocar no lugar da outra pessoa.

Espero que minhas leitoras e meus leitores me compreendam, não me julguem, nem me lancem pragas porque acredito haver situações em que o perdão não é o melhor remédio, até por não existir algo a se perdoar. Trata-se, repito, de desencanto mesmo.

 

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Haveria saída, então, para o desencanto? Penso que sim. “Re-encantar” alguém é possível, mas isso envolve boa vontade de ambos os lados e, claro, memória. Sim, memória. A pessoa que se desencantou precisa lembrar-se de bons momentos, do que a outra pessoa fez de positivo e gratificante, ter certeza de que ainda há afeto sincero da outra parte. Quando se trata de sentimento, existem algumas mágicas. Ainda bem.

 

 

 

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