Quando não se trata de perdoar.

Já escrevi sobre reconciliação entre pessoas que se desentendem. Defendi o perdão em diversos casos (não em todos, pois ninguém é santo). Volto a esse tema porque tenho observado situações em que, claramente, um atrito não se resolve com perdão. Talvez ele seja até dispensável, pois uma pessoa pode não guardar nenhuma mágoa da outra e, ainda assim, não a desejar mais por perto. O que pode ter havido em um caso assim?

 

Resultado de imagem para perdao

 

 

A resposta, para mim, é simples: o encanto passou. Pode-se substituir encanto por admiração, simpatia, respeito (intelectual ou ético), se quiser. Um desentendimento é capaz de trazer à tona tanto características inesperadas (surpresas desagradáveis) quanto esperadas (confirmação de impressões ou suposições). Em ambos os casos, é como se uma máscara caísse, e o verdadeiro rosto não agradasse.

O que fazer em uma situação assim? Forçar-se a conviver com uma pessoa que deixou de despertar admiração ou simpatia ou respeito ou encanto? Fingir e recebê-la de braços abertos quando o coração para ela se fechou? Não se trata de perdoar. Trata-se de não gostar mais como se gostava antes. Como em certas relações amorosas, o sentimento se desgasta e acaba. Aquela pessoa, que um dia desfrutou de seu convívio, que significou algo para você, torna-se quase uma estranha. Não faz mais diferença.

 

Resultado de imagem para distanciamento

 

Algumas pessoas culpam quem desiste de um amigo, de uma amiga ou mesmo de um parente, depois de um atrito. Cobram perdão. Cobram tolerância. Cobram paciência. Cobram, cobram, cobram. Não compreendem que não se trata de mágoa profunda, rancor, ódio. Nada disso. Insisto: trata-se de desencanto. Não uso o termo “decepção” porque ele pressupõe expectativa. Entendo “desencanto” como algo mágico (não ilusório) que simplesmente desapareceu. Está mais próximo de desilusão, embora não o entenda, neste contexto, como sinônimo.

O encanto de fato existiu. Teve motivos para existir. Uma pessoa encantou outra com características existentes de fato. O desencanto se deu porque outras características  — desabonadoras — pesaram mais, ofuscaram as positivas. Isso é subjetivo porque vai ao encontro da escala de valores de cada um. O que pesa negativamente, a ponto de se tornar uma incompatibilidade, para uns pode não ter importância para outros.

Compreender isso pode não ser fácil, mesmo para quem toma a decisão de se afastar de uma pessoa ou de redimensionar a relação com ela. Afinal, a sociedade (ao menos a brasileira, que conheço melhor) é uma fábrica de culpa. A cultura judaico-cristã contribui para essa produção em massa de gente culpada por gostar, não gostar, desejar, não desejar, aproximar-se, afastar-se, querer, não querer.

 

Resultado de imagem para amizade

 

Uma ressalva, porém: há desencantos e desencantos. Se for corriqueiro, o desencanto pode ser sinal de leviandade. Há gente que se desencanta muito facilmente. Há gente que se recusa a conceder uma segunda chance, aquela a que todo mundo merece. Há também quem se afaste por medo (de se apaixonar, para ficar em um único exemplo). Isso não é desencanto que justifique distanciamento, muito menos definitivo. É covardia mesmo.

Aqui me refiro a um desencanto, por assim dizer, legítimo, fundamentado em fatos seguidos, isto é, testemunhos de repetidas situações de desaprovação e desconforto. Casamentos podem terminar por isso, e ninguém tem o direito de cobrar “amor eterno” de pessoas que deram murro em ponta de faca até desfigurar a mão. Há limite para tudo, e quem cobra geralmente não sabe se colocar no lugar da outra pessoa.

Espero que minhas leitoras e meus leitores me compreendam, não me julguem, nem me lancem pragas porque acredito haver situações em que o perdão não é o melhor remédio, até por não existir algo a se perdoar. Trata-se, repito, de desencanto mesmo.

 

Resultado de imagem para memoria

 

Haveria saída, então, para o desencanto? Penso que sim. “Re-encantar” alguém é possível, mas isso envolve boa vontade de ambos os lados e, claro, memória. Sim, memória. A pessoa que se desencantou precisa lembrar-se de bons momentos, do que a outra pessoa fez de positivo e gratificante, ter certeza de que ainda há afeto sincero da outra parte. Quando se trata de sentimento, existem algumas mágicas. Ainda bem.

 

 

 

Publicado em Comportamento | Marcado com , , , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

O benefício da dúvida.

Como você se sente quando uma pessoa diz ou dá a entender (de diferentes formas) que você está a fim dela, e você não está? Eu me sinto incomodado. Em primeiro lugar, porque se trata de um erro. Não estou romanticamente interessado na pessoa. De onde ela tirou isso? Em segundo lugar, porque eu me responsabilizo, mesmo que parcialmente, por ter passado uma falsa impressão. Onde foi que errei?

 

Resultado de imagem para misunderstanding

 

Tento, então,  compreender o problema. Há pessoas presunçosas. Há pessoas mal-acostumadas. Há pessoas carentes. Há de tudo. As presunçosas, claro, veem-se mais cativantes do que realmente o são. As mal-acostumadas navegam no piloto automático: habituadas à corte de muita gente, acham sempre que gestos de afeto ou de generosidade têm necessariamente uma segunda intenção, ou seja, conquistá-las romanticamente, sexualmente ou ambos. Na prática, presunção e conclusão apressada caminham de braços dados. Já as pessoas carentes, não habituadas a gestos afetuosos, logo os interpretam como interesse romântico.

 

Apesar de meu incômodo, não condeno ao desterro quem alimenta suspeitas equivocadas. Afinal, quem nunca desconfiou de que uma pessoa de seu círculo estava sentindo algo além de coleguismo ou amizade? Esse tipo de pensamento provavelmente já ocorreu à maioria das pessoas.  O que fazer diante dessa suspeita é a questão.

 

Muita gente faz testes. Muita gente se mantém em guarda, quieta, observando, à espera de um indício mais contundente ou de uma prova cabal. Muita gente prefere guardar a suspeita no fundo do baú, deixar para lá, dar tempo ao tempo. Afinal, quem procura acha. Melhor não “caçar confusão”.

 

Resultado de imagem para suspicion

 

Naturalmente, há quem combine todas ou algumas das reações acima — ou acrescente outras ou opte por bem diferentes dessas. Há mesmo extremistas e covardes que preferem se afastar antes de descobrir a verdade, seja ela qual for. Há até quem desenvolva paranoia e passe a enxergar paixão onde talvez só haja compaixão. Se há uma espécie rica em variedade de comportamento, é a humana!

 

Perguntar à queima-roupa “você está a fim de mim?” costuma ser a última opção. De fato, tal atitude envolve riscos, entre eles o de perder a amizade ou, no mínimo, a confiança de quem só esteja mesmo sendo gentil.

 

Como mensurar excesso ou escassez de gentileza? A tal medida certa é  subjetiva. Vou além. Ainda que o excesso salte aos olhos, sem muito espaço para dúvida nesse sentido, o que o motivaria? Talvez a pessoa seja assim com todo o mundo. Talvez tenha algum problema de autoestima ou de culpa e sinta necessidade de agradar o tempo todo. Talvez tenha recebido formação voltada para o altruísmo. Sabe-se lá!

 

Quando se trata de agrados materiais, por exemplo, não seria o caso de a outra pessoa, alvo da suspeita de sentir mais que amizade, apenas compartilhar e doar tanto simplesmente porque tem de sobra? Cabe lembrar que excesso e escassez são, muitas vezes, conceitos relativos. O que é muito para uma pessoa pode ser pouco para outra e vice-versa. Como saber? Como ter certeza?

 

Resultado de imagem para abundância vs escassez

 

Eu poderia escrever mais sobre esse assunto. Tenho certa experiência no ramo. Por ora, me contento, porém, com balançar o tripé desconfiança-reação-motivação. O tema dá pano para manga. Pode envolver desde os complexos de superioridade e de inferioridade até a sensibilidade aguçada de quem enxerga além da média. Afinal, é sempre possível a suspeita ter respaldo na realidade. Seja como for, minha conclusão é sempre a mesma: o benefício da dúvida é tanto um direito quanto um dever.

Publicado em Amor & sexo, Comportamento | Marcado com , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Roda presa.

Sabe quando você tem a sensação de que o tempo não está avançando? Às vezes, suspeito de que ou progredimos em espiral ou damos sempre um passo para frente e dois para trás. Pior: admito também a possibilidade de andarmos em círculo. São tantas questões que já deveriam estar superadas! São tantos problemas que já deveriam estar resolvidos! Realmente, temo que a humanidade não esteja evoluindo.

Reconheço que se trata de uma abordagem teleológica. Pode ser que não haja nem precise haver um destino para os seres humanos, um futuro melhor para o qual todos caminhem, mesmo que a passos de tartaruga. De qualquer forma, muita gente vive em função dessa esperança. Muita gente crê em uma evolução para o homo sapiens sapiens. Muita gente deseja e busca esse progresso. Seriam uma crença, uma expectativa, um desejo e uma procura vãs?

 

 

Minha sensação pessimista de que a humanidade não está avançando baseia-se, sobretudo, como já antecipei acima, na observação de questões que já deveriam estar superadas e problemas que já deveriam estar resolvidos há muito tempo. Cito dois exemplos apenas: racismo e homofobia. Não quero sequer resgatar a história para não me alongar demais. Portanto, nada de tentar expor aqui as origens do preconceito e da discriminação baseados na cor da pele ou na orientação sexual das pessoas.

Detenho-me no absurdo de ainda haver a necessidade de convencer seres humanos do fato, o qual deveria ser intuitivo e óbvio, de um indivíduo não ser pior que outro porque tem a pele negra ou vermelha ou amarela ou porque sente mais ou menos atração por quem é de seu mesmo sexo biológico. O que isso afeta o caráter e a inteligência de uma pessoa? Ainda que afetasse, por que afetaria negativamente?

 

 

O mais curioso é que, muitas vezes, essa postura preconceituosa e discriminatória parte de gente religiosa, ou seja, supostamente fiel a um deus misericordioso, amoroso, generoso e, ainda por cima, onipotente, onisciente e onipresente. Um deus que pode tudo, sabe tudo e está simultaneamente em todos os lugares deve conhecer tudo sobre todas as pessoas e, mesmo assim, amá-las indistintamente. Seus fiéis, porém, sentem-se no direito de agir de maneira oposta. Não deveriam ser à imagem e semelhança de seu deus?

Claro está que não são apenas religiosos que alimentam em si mesmos e em outras pessoas a repulsa — e não raramente o ódio — baseada em cor de pele e orientação sexual. Numerosos ateus e agnósticos também compartilham de racismo e homofobia. Esses não têm sequer um livro sagrado no qual se apoiar para estabelecer o certo e o errado.  Adotam teorias pseudocientíficas ou argumentos falaciosos. Nada disso resiste a uma reflexão sóbria e profunda. Só que reflexões lúcidas e bem fundamentadas  não são sempre a bússola da humanidade. Muitíssimas vezes, são as crenças — por mais absurdas que pareçam — a ditar as normas sociais.

 

Para muita gente, primeiramente vem aquilo em que se acredita e, só depois, a reflexão, o raciocínio, a fundamentação para justificar a própria crença. “Creio, logo existe” seria o bordão mais adequado para quem se sente confortável com as próprias ideias preconcebidas, supostas, não testadas. Se não gosto de índios ou de negros ou de asiáticos ou de albinos, trato logo de encontrar uma justificativa para minha repulsa. Não ponho à prova minhas crenças. Não as submeto ao escrutínio da razão. Se faço isso e concluo que estou equivocado, meu orgulho me impede de admitir isso até para mim mesmo e sigo me comportando como antes. Como é possível uma atitude assim?

Não só é possível como, provavelmente, predomina. Daí meu pessimismo. Em pleno século 21, ainda existe a necessidade de enfrentar o racismo e a homofobia (repito: para citar apenas dois exemplos, pois há muitos outros), de conscientizar pessoas para algo que deveria ser – reitero – intuitivo, óbvio. Não lhe causa preguiça? Em mim, muita preguiça! Não que ela me paralise, mas admito senti-la mais amiúde do que gostaria. Haja paciência! Pé no acelerador, humanidade! Se não, outra espécie menos autopredatória acabará deixando o homo sapiens sapiens para trás — o que, pensando bem, talvez não seja uma má ideia…

 

Publicado em Comportamento | Marcado com , , , , , , , , , | 2 Comentários

Ser conciso é preciso. Sem exagerar…

Preciso ser conciso. Quero ser conciso. Mais conciso. Ainda uso muitas palavras — para falar, escrever, expressar-me enfim. Gosto das palavras. Admito que elas exercem sobre mim fascínio e poder. Talvez por isso mesmo, tantas vezes eu me deixe por elas dominar. Só que assumo o risco de cansar ouvidos, olhos e mentes. Ninguém merece ouvir ou ler o que digo se for à exaustão.

 

Image result for fala

 

Por que diabos trago isso à tona agora? Por que uso palavras para dizer que devo usar menos palavras? Seria porque, para qualquer pessoa, é impossível não se manifestar? Seria porque, no fundo, todos os seres humanos gostam de se exprimir (embora alguns optem, na maior parte do tempo, por manter a boca fechada e os dedos longe de um teclado)? Seria porque, diante dessas hipóteses, pretendo justificar o fato de ser prolixo?

Mas seria eu tão prolixo assim? O que tenho observado com frequência é gente que se expressa muito, sobretudo falando, mas não se dá conta do quanto fala, às vezes mais do que as pessoas que elas criticam por falar em demais. Vale lembrar ainda quem fala e escreve menos, porém não para de publicar imagens nas redes sociais. Promove um bombardeio audiovisual – comendo, dormindo, trabalhando, navegando, dançando, viajando, viajando, viajando…

 

Image result for fala

 

Quer saber? No fundo, vim aqui dizer que somos um bando de narcisistas que adora se expressar, seja como for. Os caladinhos talvez me chamem de tagarela que só quer se justificar. Chute errado. Não marcou. Só quero dizer: apesar de ser loquaz, mas me esforçar para usar cada vez menos palavras, sou um entre os milhões (talvez bilhões) de pessoas que gostam tanto quanto ou mais do que eu de exprimir-se. O silêncio é paz, harmonia, delicadeza, mas as palavras – sobretudo se as usarmos com moderação e elegância – são inevitáveis e necessárias.

Será que fui claro? Talvez devesse ter dito tudo isso em um tweet…

Image result for twitter

Publicado em Comportamento, Relatos & depoimentos | Marcado com , , , , , , , , , | Deixe um comentário

A importância do miolo.

Entre duas pessoas, é preciso haver miolo. Como assim? Ele me explicou: em um relacionamento a dois, não basta que um e outro estejam juntos e se curtam. É preciso haver algo no meio que permita essa ligação (dá até para usar a palavra “liga” também). Mais: esse “miolo” acaba sendo o que sustenta a relação. São afinidades, referências e valores comuns a ambos. Assim compreendi o que ele me disse.

 

Pão Sem Miolo

 

A gente estava conversando, claro, sobre relacionamentos. Era a primeira vez em que eu relatava a ele minhas vivências nesse campo. Ele já havia me contado sobre sua atual relação com a namorada. Naquele momento, não entrei em detalhes desnecessários. Ele tampouco. Na verdade, a prosa seguia um rumo que muito me agrada: uma espécie de teorização (no melhor sentido possível desse termo) sobre relacionamentos a dois. Nada de exposição indiscriminada de intimidades, com direito a narrativas picantes. Afinal, a gente se conhece há pouco tempo. Esse tipo de diálogo mais escancarado, penso eu, só cabe entre amigos de longa data.

Foi nesse contexto que ele trouxe à luz a ideia de “miolo”. Gostei da analogia, não porque seja extremamente original ou criativa, mas simplesmente porque funciona. Pensei logo em um sanduíche sem recheio. Realmente, não faz sentido; assim como um pão sem miolo. Quem quer comer só a casca? É… Há gente que só aprecia a casca – tanto no sentido literal quanto no figurado. No literal, está bem. Compreendo. Já no figurado…  Quem só quer a casca me parece, no mínimo, superficial.

 

Cimento

 

Depois que ele me disse isso, não resisti a repassar mentalmente várias de minhas relações. Concluí que ele está certo – pelo menos, no meu caso. Muitos relacionamentos que tive não vingaram porque faltou o tal miolo. Havia duas pessoas que se sentiam atraídas uma pela outra, queriam estar juntas, gostavam-se mutuamente, mas isso foi insuficiente para sustentar a relação, pois as afinidades, referências e valores (entre outros fatores importantes) ou não eram os mesmos ou não se encaixavam o bastante para manter a “liga”. O relacionamento assemelhava-se a dois tijolos unidos, porém sem qualquer camada de cimento. Estavam soltos. Não poderiam mesmo se manter colados por muito tempo. A separação era inevitável.

 

Maos-dadas

 

Decidi que, de agora em diante, vou procurar observar se, em minhas relações, sobretudo em seu início, há “miolo”. Para muita gente, isso deve ser óbvio. Curiosamente, porém, nunca o foi para mim. Claro que sempre levei em consideração as afinidades. Sem embargo, elas jamais foram determinantes. Não pesaram o quanto deveriam pesar. Aqui, aliás, cabem parênteses.

Por que nunca valorizei muito o tal “miolo”? Pela simples razão de que procuro evitar preconceitos. Prefiro apostar nas descobertas pouco a pouco. Isso vale para afinidades, referências, valores etc. Gosto de pensar que, entre duas pessoas, pode haver semelhanças inesperadas, gratas surpresas. Isso é fato, aliás.

De qualquer forma, tenho de dar razão a meu amigo, pois, com o passar do tempo, se não houver “miolo” ou se ele for insuficiente, a relação não tem futuro. Para quem busca um relacionamento duradouro (mesmo que não seja “até que a morte os separe”), parece-me que o miolo, o cimento, a liga ou o nome que se prefira dar à substância que une duas pessoas (além do sentimento) faz toda a diferença. Cascas viram migalhas. Como se sabe, elas não matam a fome.

Publicado em Amor & sexo, Comportamento | Marcado com , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Voltei.

Uma das alegrias que tenho ao manter este blog é a de não me sentir obrigado a publicar com periodicidade definida. Se a vontade de escrever aqui simplesmente desaparece, fico sem postar. Nada de cobrança — nem mesmo de minhas leitoras e leitores. Tanto é que faz mais de dois meses que publiquei um texto neste espaço. Mas cá estou. Voltei. Para dizer o quê? Pouco e muito ao mesmo tempo. Como assim? Lá vou eu!

Esporte_radical

Saudade – Esse é um assunto no qual preciso tocar. A saudade tem me corroído nas últimas semanas. Tantas pessoas se afastaram! Não. Nada de briga. Foi o vaivém desta nossa existência imprevisível mesmo. De uma pessoa em especial tenho sentido mais falta. O pior é que acho (apenas acho) que ela sente o mesmo. Por que não a procuro? Quem disse que não fiz isso outro dia? Só que ela está numa fase em que aparentemente não há espaço para mim. Triste, não? É a tal assimetria de expectativas e desejos…

Férias – Não foi só deste blog que tirei férias. Do trabalho também. Foram duas semanas longe da rotina e do estresse. Onde estive? Depois de muito hesitar — pois prefiro gastar meus trocados para conhecer lugares novos –, acabei retornando a Buenos Aires e a Santiago. Encontrei a capital argentina praticamente do mesmo jeito que estava quando a visitei dez anos atrás. Se houve mudanças, não as notei, embora ache isso muito improvável. Quanto à capital do Chile, bem… Essa merece um artigo à parte. Meu retorno àquela cidade foi algo quase mágico. Ainda não sei explicar bem por quê. Fato é que Santiago me encantou do primeiro ao último dia — tanto que eu não conseguia parar de fotografar quase tudo o que via na minha frente. Foram dias de… Isto mesmo: felicidade. Parece que me reencontrei. Havia me esquecido de que posso ser excelente companhia para mim mesmo.

A imagem pode conter: céu e atividades ao ar livre

 

Carreira – Voltei das férias com uma ideia: está passando da hora de eu redirecionar minha carreira. Venho adiando essa mudança há anos. Não posso mais esperar. Tenho de buscar realizar algo – seja onde for – mais parecido comigo. Para mim, é importante essa identificação entre quem sou e o que faço (profissionalmente). Mesmo que eu não troque de emprego, estou decidido a reformular meu papel nele. Se isso não for possível, o jeito será mesmo procurar outro tipo de ganha-pão. Espero conseguir operar essa mudança, especialmente porque, de alguns anos para cá, mudei em diversos aspectos. Não me identifico mais com o projeto de vida que adotei na adolescência.

Tolerância – O tempo vai passando, e vou me perguntando até quando terei paciência com a vida como ela é. Tenho de pedir desculpas a vocês pelo tom meio deprimente deste comentário, porém me predispus a escrever a verdade sobre meus pensamentos e sentimentos de agora. Realmente, estou farto da (des) humanidade — inclusive, muitas vezes, da minha própria. No topo de tudo, enxergo um egoísmo atroz em praticamente todas as pessoas. Somos cerca de 7,5 bilhões de apaixonados pelo próprio umbigo. Sinto-me mais e mais desencantado, desiludido.

Egoista

 

Brasil – Voltei das férias com menos paciência para o atraso do Brasil. Está cada vez mais difícil suportar a mediocridade brasileira (para pegar leve!) na educação, no atendimento em saúde, nos sistemas de mobilidade urbana, na segurança pública, no cuidado com a própria cultura, entre muitas outras áreas indispensáveis para uma vida minimamente digna. Argentina e Chile, países vizinhos com o passado comum da colonização e da ditadura militar, com muito menos território e recursos naturais, estão em situação melhor que a do Brasil em quase tudo. Por que o voo deste país é sempre o de uma galinha? Será que não vai decolar nunca?!

Relacionamento a dois – Eis um assunto que também tem consumido parcela significativa do meu tempo. Minha vida, nesse campo, é uma montanha russa. Como eu gostaria de dar um tempo desse turbilhão! Por um lado, eu me divirto com a riqueza das emoções que vivo. Por outro, estou convencido de que já passou da hora de eu viver uma relação minimamente estável. Acontece que, no amor, não adianta fazer planos. A vida é soberana. O máximo que as pessoas podem fazer é estar receptivas, abertas, mas nem isso garante o encontro de um relacionamento saudável, prazeroso, duradouro.

Em resumo, isso é o que tem ocupado minha mente nas últimas semanas. Se não me engano, trata-se da primeira vez em que fui tão explícito sobre mim mesmo com minhas leitoras e meus leitores deste blog. A verdade é que, até certo ponto, não tenho medo de me expor. Eu me banco. Não tenho vergonha do que penso, sinto e sou. Por que teria? Quando me abro, descubro logo quanta gente há parecida comigo ou atravessa situação semelhante. Por um momento, volto a me sensibilizar com a humanidade. Já vale!

Publicado em Relatos & depoimentos | Marcado com , , , , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Ocupados, egocêntricos, ambos ou NDA?

Sabe aqueles amigos que raramente procuram você? Alguns não se dão ao trabalho nem sequer de lhe dar retorno quando você os procura – ou fazem isso muito tempo depois. Nas redes sociais, gostam de receber “likes”, mas dificilmente curtem seus posts. Por que são assim? Excesso de ocupação? Egocentrismo? Indiferença? Tudo isso? Nenhuma das alternativas anteriores?Amizade3Não meço amizade pela quantidade de vezes que alguém me procura ou que procuro alguém. Tenho amigas e amigos com quem me encontro pouco, mas sei que posso contar com elas e com eles – e sabem que podem contar comigo também. São relações que considero sólidas. Nesses casos, a distância costuma ter como principal motivo o fato de serem pessoas muito ocupadas ou levarem vida muito diferente da minha. Se as procuro e não tenho resposta logo em seguida, deduzo que estão lidando com alguma prioridade de momento – família, estudo, trabalho, doença etc. – ou simplesmente administrando um cotidiano no qual, por ora, há pouco ou nenhum espaço para mim.

O histórico da amizade costuma ser o fiel da balança. É o caso de Ângela (nome fictício). Ela some do mapa. Não a vejo durante meses, às vezes anos. Mas, de repente, preciso dela e a procuro. Ângela me recebe de braços abertos e me socorre com sincera boa vontade. Age sempre assim. Não posso cobrar dela presença em meu cotidiano. Casou-se. Tem filhos. Leva vida muito diferente da minha. No entanto, sei que está lá para o que der e vier. A distância, nesse caso, pode até ser lamentável, mas é compreensível. A amizade tem raízes profundas. A importância da presença física é apenas relativa. Quando possível, a gente mata a saudade. Está tudo bem.

Amizade5

Bernardo (nome fictício) é diferente. Nunca dá as caras. Ficamos muito tempo sem nos encontrar. Quando casualmente esbarramos um no outro, ele é extremamente simpático. Chega a fazer festa. No entanto, se o procuro, dificilmente me dá retorno. Ele, por sua vez, nunca me procura. A vida dele não é muito diferente da minha. Temos amigas e amigos em comum, e sei que ele mantém contato frequente com eles. Por que me ignora? Não saberia dizer. Talvez, um dia, em momento oportuno, eu lhe pergunte o motivo. Se ainda não fiz isso foi por medo de parecer que o estou cobrando.

No caso de Ângela, sei que se trata de concentração na imensa quantidade de afazeres que ela tem e no estilo de vida muito distinto do meu. No caso de Bernardo, suspeito de que falte solidez na amizade. Na verdade, ela é superficial. Não tem raízes profundas. Sobrevive da lembrança de momentos agradáveis que compartilhamos um dia. Infelizmente, perdeu substância. Suspeito mesmo de que o afeto tenha esfriado. Parei de procurá-lo, embora o trate muito bem se me encontro com ele.

Nas redes sociais, tanto Ângela quanto Bernardo praticamente ignoram minhas postagens. Acredito que os motivos de cada um para isso sejam diferentes. Como tendo a adotar o princípio da reciprocidade, raramente curto os posts deles – Ângela ainda recebe mais “likes” que Bernardo, dado o caráter da amizade, como já descrevi.

Egoismo

Carlos (nome fictício) me parece ser um caso diferente dos dois anteriores. Dificilmente me procura. Se o procuro, dá retorno, mas não move uma palha para me encontrar. Tem sempre uma desculpa na ponta da língua para não marcar compromisso comigo ou para adiar eternamente um reencontro. Nas redes sociais, raramente demonstra interesse em minhas publicações.

Se o conheço minimamente, arrisco dizer que Carlos é um tipo egocêntrico. Só faz o que quer e quando quer. Vive para si mesmo. Sua prioridade chama-se Carlos. Dá online ampla divulgação de sua vida. Recebe dezenas, às vezes centenas, de “likes” e elogios. Não meus. Afinal, se quisesse, Carlos teria numerosas oportunidades de me procurar e me rever.  Temos vidas compatíveis – e já provei a ele ser flexível. Isso não basta para que ele me queira por perto. O jeito foi aprender a não esperar nada dele. Como não tivemos um atrito, mantemos o sentimento de amizade, baseados em um passado de companheirismo. Sinto muito que seja assim, mas já me acostumei.

Diferente de todos os anteriores é o caso de Daniela (nome fictício). Temos hoje estilos de vida muito distintos, quase incompatíveis. No entanto, sempre encontramos uma maneira de nos reencontrar. Nas redes, ela curte quase tudo o que posto – portanto, acompanha meu dia-a-dia com interesse. O mesmo faço eu. Podemos passar até meses sem nos ver um ao outro, mas o contato à distância é bastante frequente. Noto que se trata também de uma relação enraizada, sólida.

Busy_woman

Evidentemente, nessa panaceia de tipos, há aqueles que combinam excesso de ocupação com egocentrismo e indiferença. Desses sou eu que busco distância. Quando tento me reaproximar deles, acabo sempre me arrependendo. Sinto-me um tolo. Acho que perdi tempo e até dignidade. Afinal, o mais adequado seria ignorá-los tal qual me ignoram. Seriam realmente amigos?

Em um mundo com automóveis (ônibus, metrô, carro próprio, táxi, transporte por aplicativo), motos, bicicletas, telefones (fixo e celular), e-mail, mensageiros eletrônicos gratuitos, redes sociais, Skype, não há desculpa para ignorar pessoas queridas. Mesmo que esporadicamente, é sempre possível pedir e dar notícia.

Means_of_communication

Defendo o cultivo das relações pessoais. Elas acabam sendo, no fim das contas, o que realmente vale a pena nesta vida atribulada e às vezes frustrante. Se puderem ser cara a cara, melhor ainda! É preciso admitir: um abraço apertado, em carne e osso, não é muito mais gostoso que fotos, vídeos, GIFs, emojis?

Publicado em Comportamento, Relatos & depoimentos | Marcado com , , , , , , , , , , , , , , , | 1 Comentário