Ah, essas argentinas e argentinos cativantes!

Quem conhece Buenos Aires sabe o quanto essa cidade pode encantar. A capital argentina, a despeito de certa decadência, após décadas de agudas crises econômicas, preserva seu charme. Muito do passado glorioso resiste e se mescla às novidades do mundo atual. É o caso de numerosos cafés, bares, restaurantes, boutiques e espaços ou estações de trabalho coletivo, mais conhecidas mundo afora como coworkings. São em ambientes assim que as antigas e as novas gerações se cruzam na metrópole, e esse inusitado encontro ajuda a compor o retrato da gente portenha atual.

É justamente essa Buenos Aires contemporânea, com todas as suas atrações e contradições, o cenário da série “Millennials”, disponível na Netflix. Como o próprio título antecipa, ela tem como protagonistas seis jovens adultos, em início de carreira, divididos entre dúvidas, (falsas) certezas e muitas ilusões. Suas vidas se interligam quando passam a conviver em um coworking no que parece ser o charmoso bairro de Palermo. Daí para frente, nada mais será como antes. Não faltarão confusões, reviravoltas, paixões, atritos, descobertas, decepções, experiências as mais variadas, todas bem características de uma geração confusa ante o contraste dos avanços sociais e tecnológicos e os padrões de comportamento tradicionais.

Rodri & Alma; Benja & Ari; e Juanma & Flor: três jovens casais em busca de um rumo na vida.

“Millennials” reúne três casais a princípio: Ariana Beltrán (Laura Laprida) e Benjamín Céspedes (Nicolás Riera); Florencia Argañaraz (Noelia Marzol) e Juan Manuel Losada (Juan Manuel Guilera); e Alma Carrizo (Johanna Francella) e Rodrigo Ruiz (Matías Mayer). Ao longo das duas temporadas de 24 episódios cada uma, elas e eles terão experiências afetivo-sexuais dentro e fora do grupo. (Sim, vira uma zona!)

Tudo começa quando Benjamín (Benja), um típico bon vivant, decide dar um rumo na vida e engana Juan Manuel (Juanma) em um coworking. Benja, um cara-de-pau incorrigível, faz de conta que tem a mesma ideia de Juanma e, assim, para supostamente conciliar e somar interesses, propõe ao jovem desenvolvedor que ambos se tornem sócios no aplicativo de entrega de comida caseira em domicílio (uma ideia exclusiva de Juanma, claro). Pois bem, no primeiro “rolé” que fazem juntos, Benja aborda com extrema ousadia a namorada de Juanma, Florencia (Flor), e a beija na boca, apesar de no bar estarem sua namorada Ariana (Ari) e o próprio Juanma. Ninguém vê nada e, no dia seguinte, Benja e Flor completam o serviço numa tarde de sexo.

Isso faz de Benja o vilão da história? Longe disso! Não há maniqueísmo em “Millennials”. A verdade é que ali ninguém vale nada e, ao mesmo tempo, cada uma e cada um cativa os telespectadores justamente por serem gente “de carne e osso”, com defeitos e qualidades, capazes tanto de atrocidades quanto de atos de generosidade e bravura.

No coworking, eles parecem trabalhar muito, mas vão muito além das obrigações profissionais.

Combinando drama, romance e comédia, “Millennials” prende a atenção. Faz maratonar. Quem não quer saber no que vai dar a traição de Benja e Flor ou de Juanma e Alma? Como não ter curiosidade sobre o destino dos seis personagens, assim como o de seus parentes, amigos e desafetos? Se os três casais são envolventes, quem os rodeia não é menos. O pai de Benja, Octavio (Fabio Aste), surpreende ao longo da trama de maneira tocante. É personagem rico como poucos, psicologicamente, mas isso não aparece de cara. Surpreendente também é o jovem personagem Facundo Ventura (Santiago Talledo), apelidado Facu.

A primeira temporada de “Millennials” gerou críticas positivas e negativas na imprensa argentina. Uma delas concentrou-se na aparente “caretice” dos protagonistas: casais brancos, heterossexuais, em relações monogâmicas (pero no mucho), como se devesse haver hoje a obrigação de se fazer ficção baseada em diversidade, quase como se fosse “arte engajada”. A verdade é que esse é um juízo apressado. “Millennials” tem, sim, espaço para a diversidade, mas a leva à tela de maneira leve, espontânea, despretensiosa, sem a camisa-de-força de um politicamente correto moralizante. A (hetero) sexualidade dos personagens é posta à prova mais de uma vez, sem didatismo porém. Faz parte do jogo da vida. É um elemento indissociável da realidade de jovens metropolitanos de classe média em busca de lugar ao sol e sentido para viver.

Há passagens incoerentes, inverossímeis? Várias. Mas quem liga para isso quando os próprios personagens — em consonância com uma discreta metalinguagem — mencionam que parecem estar atuando em uma série de TV para adolescentes? Há mesmo uma sequência em que Benja recomenda a um amigo que assista a uma série chamada… Acertou! Millennials.

Tenho eu mesmo minhas próprias críticas, evidentemente, e elas se concentram principalmente no que penso ser excessivo na trama: o sexo e a fixação entre uns e outros. Não me parece necessário para o êxito da história que haja tanto “chifre” dentro de um mesmo grupo. Embora isso seja possível na vida real, quando se trata de teledramaturgia, parece-me exagerado. O sexo brota do nada às vezes. Gratuitamente. As pessoas perdem o controle com demasiada facilidade. Tenho cá minhas dúvidas se na vida isso se dá tão amiúde, especialmente entre amigos. O mesmo vale para a fixação. Os millennials do mundo real vivem os chamados “amores líquidos”. Não se fixam tanto em suas relações. O caso de Juanma e Flor é contraditório nesse sentido. É preciso que Flor machuque Juanma profundamente e machuque-se a si mesma para que o casal finalmente se dê conta de que deve se separar definitivamente, para o bem dos dois. Alma e Rodri também forçam a barra para manter uma relação morna.

Juanma e Flor: uma relação sem futuro.

Fato é que sexo indiscriminado e fixação em pessoas são elementos dramáticos poderosos. Não se pode esquecer que essas séries têm forte componente comercial e precisam explorar a beleza dos personagens nus e seminus para manter vivo o interesse dos mais fogosos. Paixões mal resolvidas também prendem a atenção de parcela do público, especialmente o mais romântico. Naturalmente, entre as telespectadoras e os telespectadores da série, há muitos millennials, distintos entre si.

Um indiscutível ponto positivo para “Millennials” é o fato de sua direção artística resistir a tomadas turísticas de Buenos Aires. A cidade aparece, é personagem fundamental, mas nunca se vê o Obelisco, nem a Calle Florida, nem mesmo o elegante bairro da Recoleta. Não se mostra show de tango, nem passeios por El Caminito. Não há sequer menção ao futebol, uma paixão nacional, tão forte lá quanto cá. De vez em quando, vêem-se imagens de Puerto Madero, mas tudo devidamente contextualizado. Até mesmo o bairro de Palermo se mostra de maneira discreta, sem que se possa saber exatamente onde as personagens estão (a menos que a telespectadora ou o telespectador seja um/a portenha/o bastante conhecedor de suas ruas e praças). Diferentemente das telenovelas brasileiras, que fazem questão de escancarar os principais e surrados cartões postais do Brasil, “Millennials” é mais sutil e, por isso mesmo, mais envolvente e elegante nesse aspecto. Até as tomadas aéreas de Buenos Aires poderiam ser imagens de qualquer metrópole semelhante. A alma da cidade está mesmo nas pessoas, em seu sotaque e em suas gírias, em seu jeito de ver, pensar e viver.

Esse quase anonimato contribui para que “Millennials” possa alcançar jovens de qualquer parte da América Latina e do mundo. Jovens comuns. Jovens com dramas íntimos. Não jovens que flanam por pontos turísticos preocupados em fazer compras ou tirar fotos ou demasiadamente vinculados a problemas específicos de seu “habitat natural”. Ari, Benja, Alma, Rodri, Flor e Juanma vivem mais dentro que fora. Não por acaso, quase toda a trama se passa no interior do coworking ou nos apartamentos dos protagonistas. O verdadeiro drama deles está na cabeça e no coração: “O que diabos fazer da minha vida? O que realmente quero para mim? O que sinto é amor, paixão ou apenas desejo?”

Em meio aos pontos positivos e negativos da série, algo se destaca: o carisma dos personagens. É preciso ser muito mal-humorado para não se deixar conquistar por Ari, Benja, Alma, Flor, até mesmo pelo complicado Rodri ou pelo surpreendente Octavio. Impagáveis também são o vigilante Alberto (Chang Sung Kim), o jovem Facu e até a perversa Gaby (Luisa Drozdek). Depois de 42 episódios, confesso que eu já estava completamente encantado por essa gente. Que venha uma terceira temporada!

Octavio e Facu: patrão e empregado surpreendentes.
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