O limite de cada um.

O relatório mais recente da Organização Mundial da Saúde me tocou, mas não me causou surpresa. O fato de, no mundo, uma pessoa suicidar-se a cada 40 segundos (isto mesmo: 40 segundos), por mais impressionante que seja, veio apenas confirmar o que eu já suspeitava: há muita gente infeliz neste planeta, muita gente mesmo. Por quê?

 

 

"Às Portas da Eternidade", Van Gogh.

“Às Portas da Eternidade”, Vincent van Gogh.

 

Parece lógico que cada um tenha seus motivos para dar cabo da própria vida – desde o acúmulo de dívidas até distúrbios mentais. Também se sabe que, por outro lado, alguns desses motivos estão presentes em centenas de milhares de casos de suicídio, ou seja, há padrões de comportamento coletivo ao mesmo tempo em que há situações específicas, particulares, únicas.

Quem já estudou o tema reconhece tanto a dimensão individual quanto a coletiva do suicídio. Psicólogos, sociólogos, antropólogos, neurocientistas – sem contar filósofos – costumam aceitar o fato de que o ato de matar-se a si mesmo transcende fronteiras do conhecimento. Cada caso é um caso, e a soma de casos pode ajudar a entender o fenômeno como social também.

 

 

"O Triunfo da Morte", Peter Bruegel.

“O Triunfo da Morte”, Peter Bruegel.

 

Seja como for, acredito que a maioria dos suicídios tem, via de regra, uma causa básica anterior a todas as outras: o desencanto. Quem perde a esperança estaria mais propenso a desistir da vida. Óbvio, não? Mas, segundo a OMS, a maioria dos governos do planeta lida mal com o suicídio: joga o problema para debaixo do tapete, evita compreendê-lo profundamente e, por conseguinte, a desenvolver antídotos contra ele.

Ao comentar a notícia do relatório da OMS com uma amiga, ela observou: “Fico impressionada com a coragem de quem se mata.” Tendo a concordar com ela. De fato, é preciso coragem para suicidar-se. Discordo de quem julga o suicídio um ato covarde. Embora tenha desistido de lutar, se rendido ao desencanto, o suicida foi resoluto e deu fim a seu incômodo. Tomou uma decisão difícil e corajosamente a executou.

 

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“O Suicida”, Eduard Manet.

 

 

Por outro lado…

Sempre que a questão do suicídio vem à tona, lembro-me de pergunta que fiz, certa vez, a um de meus professores de Filosofia, uma autoridade em existencialismo, aliás: “Se o senhor questiona tanto o sentido da existência, por que o senhor não defende abertamente o suicídio?” Ele, então, me respondeu o que eu jamais esperava ouvir: “Porque o suicida chega atrasado.” Como assim?!

Segundo meu ex-professor, o suicida chega tarde demais porque não conseguiu impedir seu próprio nascimento. Já provou o sabor amargo de viver. O que esse professor questiona é a existência em si, o fato de haver mundo, haver pessoas, haver vida. Em tom exaltado, ele indagava em sala de aula: “Se há um deus, para que ele criou o mundo? Para quê?!!!” Ateu, doutor em Filosofia, ele afirmava: “Para que tudo isso existe?”

Em outras palavras, ele questionava a própria História. Qual seria o sentido dela? Para que tantas guerras, tantos sacrifícios, tantos prazeres seguidos de dor e dores seguidas de prazer? Por que a existência ao invés da não-existência? O nada não seria mais fácil, mais simples? Esse era o enigma que ele desnudava a todos.

 

"Universo", Lidia Stef.

“Universo”, Lidia Stef.

 

 

Confesso que, muitas vezes, penso como ele. Há, porém, certa leviandade em mim: quando minha vida vai bem, vejo sentido nela e aprecio sinceramente a oportunidade da existência (imagine perder tudo isso!); quando ela vai mal, faço as mesmas indagações do professor (para que passar por isso?).

Os religiosos apegam-se à fé e encontram nela consolo para os momentos difíceis. Depositam suas esperanças em um futuro melhor – mesmo que seja após a morte física. Os não-religiosos, como eu, ora se revoltam, ora se distraem com os prazeres mundanos de forma a esquecer a dor, ainda que momentaneamente.

 

Pintura de Pedro Caetano expressa o prazer de viver.

Pintura de Pedro Caetano expressa o prazer de viver.

 

Para quem não tem fé em forças superiores, sejam quais forem, levem o nome que levarem, o hedonismo é uma das opções de sobrevivência: desfrutar o máximo de prazer para que o fardo da vida se torne menos pesado.

Ocorre que alguns não se permitem distrações. Nada os faz esquecer o vazio da existência. Sentem-no o tempo todo. Se acaso tentam preenchê-lo, deparam com o desencanto. Diante do desencanto, a tristeza, a melancolia, a depressão ocupam cada vez mais espaço. Eis quando alguns, para pôr fim a essa desagradável sensação, cometem suicídio.

 

"Suicida", David Byrd.

“Suicida”, David Byrd.

 

Há quem diga que privações – materiais e imateriais – também entram no rol das causas da autodestruição. O mesmo vale para as decepções com pessoas próximas ou distantes, com grupos ou com sociedades inteiras, com nações ou com a espécie humana em geral, com lugares específicos, com países ou com o planeta.

O esperançoso e o resiliente, porém, administram essas privações e decepções e, muitas vezes, superam-nas. Daí minhas suspeitas recaírem no culpado de sempre: o desencanto. Mas não qualquer desencanto passageiro. Refiro-me ao desencanto definitivo, a completa ausência de qualquer esperança, seja do tipo que for.

 

"O Suicídio de Lucrécia", Albert Durer.

“O Suicídio de Lucrécia”, Albert Durer.

 

É o fim da linha. O desencantado completo não vê uma saída. Curiosamente, escorrega em um paradoxo: a opção pela morte não seria uma espécie de última esperança – consciente ou inconscientemente? Como acredita minha amiga, o suicida, no fundo, é um corajoso. Eu ousaria complementar: é também um esperançoso, pois acredita que a morte representa o alívio definitivo para o desencanto.

Para encerrar, lembro aqueles para os quais existe vida eterna. Morre o corpo, mas a alma sobrevive. Como agnóstico, não descarto praticamente nenhuma hipótese (somente as que me parecem delirantes). Portanto, nutro a dúvida: “E se há mesmo vida pós-túmulo? Não estarei lá, de novo, com a mesma angústia de sempre a me perseguir? Não haveria como escapar de mim mesmo? Como em uma viagem, levo meus pensamentos comigo, levo meu ‘eu’ comigo! Não posso escapar de mim!”.

Essa pode ser uma perturbadora definição de inferno…

 

"Juízo Final: Inferno", Coppo di Marcovaldo.

“Juízo Final: Inferno”, Coppo di Marcovaldo.

 

Pode ser estendida a mensagem da placa de estrada na qual se lê: “Na dúvida, não ultrapasse.” Talvez essa incerteza seja um antídoto mais poderoso contra o suicídio que medicamentos “tarja preta”, sessões de terapia, políticas públicas baseadas em análises sociológicas e antropológicas – embora todo esse aparato científico tenha seu valor.

 

Nos momentos em que toco o fundo do poço, o que me reergue não é a fé dos religiosos, a certeza dos perseverantes, nem a força dos resilientes, mas a incerteza do porvir: a vida pode melhorar ou piorar, não sei; a hipótese de uma continuação da vida após a morte de meu corpo pode trazer soluções ou mais conflitos, não sei. Na dúvida, não ultrapasso.

 

"Pintor na Estrada a Tarascon", Vincent van Gogh.

“Pintor na Estrada a Tarascon”, Vincent van Gogh.

 

 

Fico, portanto, onde estou – ora alegre, ora triste, mas relativamente confortável com a dúvida. Enquanto isso, busco prazeres que me distraem e aliviam o mal-estar. Seria essa uma receita? Jamais! Tem servido para mim até hoje, mas não posso garantir por quanto tempo servirá nem se caberá a outros. Nada é certo. Disso estou certo.

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Seleções de emprego, caixinhas e outras bizarrices.

Por muito tempo, ao longo de minha carreira, obtive empregos sem precisar passar por entrevistas formais. Claro que, um dia, acabaria por viver essa experiência. Aliás, mais de uma vez. Na maioria, creio que me saí mal. Mesmo aprovado nas etapas de avaliação de currículo e de teste escrito, na hora de enfrentar a banca examinadora, fiquei para trás. Hoje, suspeito do porquê.

 

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A maioria das entrevistas de emprego das quais participei obedecia a um modelo de avaliação. Os entrevistadores esperavam a resposta X para a pergunta Y, ou seja, tinham expectativas pré-estabelecidas bem fechadas, às vezes rígidas. Quem as satisfizesse teria mais chances de ficar com a vaga. Muitas vezes, simplesmente não satisfiz essas expectativas. Em breve, explico por quê.

Antes, preciso abrir um parêntese. Com este depoimento, não quero dizer que me considero sempre a melhor opção para os postos aos quais me candidato e que desconsidero a hipótese de outros terem melhores qualificações, postura, discernimento, capacidade de expressão etc. Respeito a concorrência. Fecho parêntese.

Houve, de fato, casos em que ficou claro para mim: a entrevista me excluiu do processo seletivo. Uma vez, cheguei a ficar de fora da primeira entrevista e, dias depois, receber convite para participar da segunda (a definitiva). Acabei eliminado. Será que a banca ficou indecisa diante do aparente paradoxo: currículo perfeitamente adequado à função, recomendações profissionais de peso, experiência respeitável na área, mas desempenho duvidoso na entrevista?

 

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Eis minha explicação para o fato (ou deveria chamá-la de teoria?): sou franco, sincero, não costumo representar. Ademais, gosto de pensar “fora da caixinha”, como se diz. Exceto pelos tradicionais paletó e gravata, não me porto comme il faut nas entrevistas, isto é, digo o que penso, expresso minhas idéias, sem me preocupar se as respostas às perguntas encaixam-se ou não em um padrão ou expectativa.

Há até vezes em que, mentalmente, avalio quem me avalia. Fico pasmado por responder questões redundantes para quem supostamente leu com a devida atenção meu CV e minha carta de apresentação. Mesmo que haja a intenção de me testar psicologicamente mediante perguntas aparentemente dispensáveis, ainda assim vejo ir para o beleléu o mínimo de objetividade possível e desejável nessas ocasiões.

Estão ali, diante de mim, pessoas que mal percebem o quanto seus olhares e gestos denunciam a subjetividade daquela avaliação. Há mesmo algumas que me fazem perguntas que elas próprias, no meu lugar, teriam dificuldade em responder.

 

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Ora, se meu CV não é fictício — e isso, nos casos em que relatei, seria impossível, até porque já me candidatei a postos em lugares onde já havia trabalhado! — claro está que tenho as habilidades exigidas para a função. Mas noto que os examinadores parecem ter preferência por quem “se vende” bem, faz autopromoção. Eis onde perco mais pontos, pois acho patético ficar se gabando das próprias qualidades ou tentando provar segurança quando o simples fato de ter me candidatado e me apresentado ali comprova que me julgo digno da vaga.

Suspeito também de que minha franqueza assusta. O raciocínio baseado no óbvio é fatal: “Ora, se esse sujeito se expõe dessa maneira agora, poderá fazer o mesmo quando trabalhar aqui. É um indiscreto, um boquirroto, um imaturo ou, no mínimo, não se preparou bem para esta entrevista”.

Será mesmo? Será que o candidato não está simplesmente respeitando a inteligência do entrevistador e evitando perder tempo com uma óbvia encenação? Será que ele não prefere responder perguntas que fujam do que já está mais do que provado em seu currículo? Será que ele não está apenas em um mau momento?

 

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Também desconfio de que minha objetividade espanta muita gente. Gosto de respostas diretas. Com isso, às vezes, cometo o sacrilégio de me comportar como se estivesse transmitindo a seguinte mensagem: “Tenho pouco a dizer além do que está no meu CV e em minha carta de apresentação. Se a questão é psicológica, quem tem mau caráter sabe disfarçá-lo. Um desequilibrado emocional também pode ser capaz de representar. Ninguém é perfeito — apenas nas entrevistas de emprego. Portanto, contrate quem tem a hombridade de mostrar-se como realmente é. Ao menos, você, entrevistador, não terá surpresas desagradáveis no futuro por ter contribuído para a contratação do melhor ator do mercado, não necessariamente do melhor profissional para sua organização.”

Só que os atores, sobretudo se possuem qualificações suficientes, sempre se saem melhor e ficam com a vaga. Como eu mesmo, nas vezes em que, por acaso ou por esforço, entrei no jogo e interpretei o papel do profissional ideal — ou nas ocasiões em que tive, diante de mim, dirigentes sagazes que enxergaram além das aparências e pensaram “fora da caixinha”. Esses sabem que lhes retribuí a confiança com extrema dedicação, lealdade, empenho, comprometimento.

 

 

pensar-fora-da-caixa

 

 

Justamente por ser “exótico” ou diferente ou estranho — cada caso é um caso… — pude empregar essa singularidade de maneira a ser criativo no trabalho, buscar soluções alternativas, abrir novas frentes.

Felizmente, graças aos postos que ocupei porque alguém confiou no próprio instinto ou em minha produção anterior, nunca me faltou trabalho. Só lamento verificar que, tal como ocorreu comigo algumas vezes, também ocorre amiúde, com tantos outros profissionais, a desagradável experiência de ver-se excluído porque não rezou pela cartilha nem seguiu à risca a etiqueta dos processos seletivos, os quais, via de regra, só podem avaliar um momento da pessoa, não quem ela realmente é (até porque, em cerca de 40 minutos, ninguém conhece ninguém de verdade).

Na mesma sintonia estão alguns concursos públicos dos mais respeitados, que acabam por aprovar parcela considerável de pessoas despreparadas porque elas tiveram tempo e dinheiro (geralmente dos pais) para aprender os macetes que se ensinam nos cursinhos e passar nas provas — como nos velhos e antiquados vestibulares.

Encerro este artigo com uma lembrança que acaba de me ocorrer (cômica, por sinal). Conta-se que o ator Charlie Chaplin disputou concurso que elegeria quem mais se parecesse com Carlitos (justamente o personagem dele no cinema). Para sua surpresa, outro sagrou-se vencedor. É…

 

Chaplin como Carlitos.

Charlie Chaplin como Carlitos.

 

 

 

 

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