Para não dizer que não falei das dores…

Nas ruas, nas praças, no rádio, na televisão, nos sites, nas redes sociais, nos espaços públicos em geral, a dor quase sempre é dos outros. São poucas as pessoas dispostas a expor o próprio sofrimento. Compartilhar o incômodo alheio, seja em forma de denúncia, seja como gesto de compaixão, seja para alertar, seja para sensibilizar, costuma ser bem visto. Raramente gera críticas negativas. Já abrir o próprio coração partido…

"Melancolia", pintura de Edvard Munch.

“Melancolia”, pintura de Edvard Munch.

Há lamentavelmente as inescapáveis situações de luto, quando não se pode esconder a perda de um ente querido. Mas são exceções. Via de regra, expor a própria dor é para poucos, muito poucos.

Não me atrevo a explicar, nem mesmo a discutir, por que a maioria das pessoas evita tornar público seu sofrimento. Os motivos costumam ser vários e válidos. Antes de tudo, guardar a dor para si mesmo é obviamente um direito que todos têm.

Mas não é essa maioria que me interessa. Quem me chama a atenção é a minoria que expõe seus sofrimentos em público, seja de vez em quando, seja com freqüência. Por que o fazem? O que as impede de agir como a maioria e guardar suas dores para si mesmas ou somente para os mais íntimos?

Suponho que, também nesse caso, os motivos sejam vários e válidos.

"Desespero", por Edvard Munch.

“Desespero”, por Edvard Munch.

Baseado em minha experiência pessoal, ouso especular sobre os motivos que me parecem mais evidentes:

1-      Necessidade de desabafar. Exteriorizar a dor alivia, atenua o sofrimento, mesmo que não o afaste de vez.

2-      Esperança de receber ajuda. Expor o sofrimento costuma gerar empatia, solidariedade. Quem sofre está carente de atenção, apoio, auxílio, afeto.

3-      Desejo de identificação. Ameniza a dor lembrar que outros também sofrem. Tem-se a confortante sensação de companhia. A identificação afasta a solidão.

Há motivos menos nobres também:

4-      Narcisismo. Compadecer o outro pode ser uma forma de despertar mais atenção para si.

5-      Imaturidade. Algumas pessoas têm dificuldade para administrar seus problemas e precisam compartilhá-los. Muitas vezes, o sofrimento não se justifica. Falta apenas visão mais objetiva para enfrentar os problemas e superá-los.

"Noite em Karl Johan", por Edvard Munch.

“Noite em Karl Johan”, por Edvard Munch.

Confesso que sou do tipo que prefere se abrir a ocultar as próprias dores. Sou assim pelos três primeiros motivos que apontei acima e, às vezes, pelo quinto motivo também. E cito mais um, muito meu: o respeito à inteligência das pessoas com quem convivo. Penso que elas não se iludem com retratos irretocáveis de felicidade. Elas têm consciência, como eu tenho, de que pouquíssimos neste mundo estão sempre bem. Elas sabem que todos sofrem – uns mais, outros menos, mas nenhum escapa da dor.

Em respeito à inteligência e a essa consciência, exponho minhas dores quando julgo necessário. Quero que as pessoas amigas saibam que eu sei que elas sabem que sofro como todo o mundo, às vezes mais do que muita gente.

O mais curioso é que, ao expor minha dor, descubro ou recordo que: o desabafo a alivia, há pessoas solidárias por perto, outros se identificam comigo (e eu com eles), e o “bicho” não é tão feio quanto parece.

Acima de tudo: as máscaras caem e, por um instante, contemplo o simpático rosto da verdade. Somos todos iguais, só que diferentes; ou diferentes, só que iguais.

"A Dança da Vida", por Edvard Munch.

“A Dança da Vida”, por Edvard Munch.

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Pessoas literais.

Quem não tem um parente, um amigo, um conhecido que interpreta tudo ao pé da letra? É preciso explicar para ele que a “vontade de estrangular alguém” é apenas uma maneira exagerada de manifestar uma irritação momentânea.

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Gosto de refletir sobre comunicação. É minha principal área de formação profissional e dela tiro meu sustento. Independentemente disso, tenho prazer em observar e pensar a respeito da comunicação, sobretudo nos ruídos que há nela. Um deles é justamente a interpretação literal.

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Uma desvantagem em ser literal é perder o tempero do discurso. E é raro um discurso sem condimento. Daí o ruído na comunicação. Os palavrões são apenas a parte mais visível desse fenômeno. O literal pode perder a cabeça se ouvir “filho da p…” mesmo fora do contexto de uma briga, por exemplo.

A situação contrária também é comum. “Amor da minha vida” ou “estou apaixonado” podem ser meras demonstrações de aprovação na boca (ou no teclado) de um tipo escandaloso. Não precisam gerar constrangimento nem preocupação. Mas nos literais…

Brasileiros têm o hábito de dizer “estou chegando” quando estão apenas no meio do caminho. Muitos estrangeiros não entendem a elasticidade dessa afirmação. “Daqui a pouco, estou aí” pode significar, no Brasil, uma espera de até uma hora. Um alemão perderia a paciência.

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“Prefiro a morte a fazer isso” é o tipo de comentário que escandaliza uma pessoa literal. As generalizações também assustam quem interpreta tudo ao pé da letra: “Esses americanos são uns sacanas”. Na maioria das vezes, quem diz isso adora os EUA. Faz um comentário solto, despretensioso, apenas para não ficar calado.

As pessoas literais correm o risco de perder, além do tempero, o próprio alcance do discurso. Ter a noção do que o outro realmente quer dizer exige presença de espírito, flexibilidade, humor e até certa sagacidade, para identificar ironias, sutilezas, entrelinhas e mesmo a simplicidade de um comentário protocolar. Com isso, evitam-se ruídos, inclusive os mais insólitos.

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Minha professora de português na universidade relatou à turma, uma vez, que esteve na casa de uma pessoa que criava gatos. Ao chegar, o anfitrião perguntou-lhe se ela gostava desses bichos, e ela respondeu que sim. Mais que depressa, ele colocou um de seus felinos no colo dela. Difícil…

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Conservar ou retardar?

Acabo de ver um documentário sobre a história do rock. Reúne depoimentos muito interessantes de gente que faz parte dessa história, como Little Richard, Mick Jagger, Bruce Springsteen, Bono, entre dezenas de outros. O que mais me marcou, no entanto, foi a informação de que as primeiras estrelas do rock foram alvo de censura e perseguição.

Little-Richard

Vale lembrar que a maioria dessas estrelas era negra, e os Estados Unidos da década de 1950 ainda nutriam um racismo profundo, causa de posturas segregacionistas que jamais poderiam antecipar a eleição, meio século depois, de um presidente negro. Portanto, o rock dos primeiros anos era “black music” e incomodava a elite branca.

Elvis Presley e Buddy Holly vieram embaralhar as cartas. Os remelexos sensuais de Elvis confundiram o establishment, que não tinha mais como responsabilizar apenas os negros por aquela espécie de transgressão musical, que incluía a dança. O mundinho bem-comportado e insosso dos brancos estadunidenses balançava ao som dos primeiros acordes do rock’n roll.

Elvis, the pelvis: rebolado de negro.

Elvis, the pelvis: rebolado de negro.

Pais e filhos não mais ouviam a mesma música, e o rock acabou por instalar um conflito de gerações. Os roqueiros de então tinham consciência do que estavam provocando. Era uma revolução cultural: negros como protagonistas, verdadeiros rock stars; brancos os reverenciando e imitando; jovens dançando e cantando ritmos alucinantes; a moda abrindo espaço para a irreverência.

Os adeptos da tradição chiaram. Depois, agiram. Seus representantes políticos deram um jeito de dificultar a carreira e a vida dos pioneiros do rock. Em certa medida, tiveram êxito. Muitos roqueiros afastaram-se dos palcos. Mas, se os “caretas” venceram batalhas na época, perderam a guerra (e o bonde) da história.

Chuck-Berry

Chuck Berry, um dos pioneiros do rock.

É curioso olhar para trás e pensar que as manifestações de preconceito foram em vão. O rock não apenas sobreviveu como se tornou um dos gêneros musicais mais poderosos da história tanto da música quanto da humanidade.

Vale a pena olhar para o presente também e perguntar-se até quando os conservadores perderão seu tempo protestando contra certas mudanças e novidades. Será que não se dão conta de que são impotentes diante da História? Será que não conseguem enxergar a diferença entre conservar e retardar? Podem até atrasar as mudanças, mas é impossível conservar para sempre o que quer que seja.

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