Nas ruas, nas praças, no rádio, na televisão, nos sites, nas redes sociais, nos espaços públicos em geral, a dor quase sempre é dos outros. São poucas as pessoas dispostas a expor o próprio sofrimento. Compartilhar o incômodo alheio, seja em forma de denúncia, seja como gesto de compaixão, seja para alertar, seja para sensibilizar, costuma ser bem visto. Raramente gera críticas negativas. Já abrir o próprio coração partido…
Há lamentavelmente as inescapáveis situações de luto, quando não se pode esconder a perda de um ente querido. Mas são exceções. Via de regra, expor a própria dor é para poucos, muito poucos.
Não me atrevo a explicar, nem mesmo a discutir, por que a maioria das pessoas evita tornar público seu sofrimento. Os motivos costumam ser vários e válidos. Antes de tudo, guardar a dor para si mesmo é obviamente um direito que todos têm.
Mas não é essa maioria que me interessa. Quem me chama a atenção é a minoria que expõe seus sofrimentos em público, seja de vez em quando, seja com freqüência. Por que o fazem? O que as impede de agir como a maioria e guardar suas dores para si mesmas ou somente para os mais íntimos?
Suponho que, também nesse caso, os motivos sejam vários e válidos.
Baseado em minha experiência pessoal, ouso especular sobre os motivos que me parecem mais evidentes:
1- Necessidade de desabafar. Exteriorizar a dor alivia, atenua o sofrimento, mesmo que não o afaste de vez.
2- Esperança de receber ajuda. Expor o sofrimento costuma gerar empatia, solidariedade. Quem sofre está carente de atenção, apoio, auxílio, afeto.
3- Desejo de identificação. Ameniza a dor lembrar que outros também sofrem. Tem-se a confortante sensação de companhia. A identificação afasta a solidão.
Há motivos menos nobres também:
4- Narcisismo. Compadecer o outro pode ser uma forma de despertar mais atenção para si.
5- Imaturidade. Algumas pessoas têm dificuldade para administrar seus problemas e precisam compartilhá-los. Muitas vezes, o sofrimento não se justifica. Falta apenas visão mais objetiva para enfrentar os problemas e superá-los.
Confesso que sou do tipo que prefere se abrir a ocultar as próprias dores. Sou assim pelos três primeiros motivos que apontei acima e, às vezes, pelo quinto motivo também. E cito mais um, muito meu: o respeito à inteligência das pessoas com quem convivo. Penso que elas não se iludem com retratos irretocáveis de felicidade. Elas têm consciência, como eu tenho, de que pouquíssimos neste mundo estão sempre bem. Elas sabem que todos sofrem – uns mais, outros menos, mas nenhum escapa da dor.
Em respeito à inteligência e a essa consciência, exponho minhas dores quando julgo necessário. Quero que as pessoas amigas saibam que eu sei que elas sabem que sofro como todo o mundo, às vezes mais do que muita gente.
O mais curioso é que, ao expor minha dor, descubro ou recordo que: o desabafo a alivia, há pessoas solidárias por perto, outros se identificam comigo (e eu com eles), e o “bicho” não é tão feio quanto parece.
Acima de tudo: as máscaras caem e, por um instante, contemplo o simpático rosto da verdade. Somos todos iguais, só que diferentes; ou diferentes, só que iguais.










