Faxina de Natal.

Falta menos de duas semanas para o Natal, e o clima que sinto é de faxina. Parece que toda a sujeira do meu edifício mental veio à tona. Saiu de debaixo dos tapetes, desceu do alto dos armários, subiu de debaixo da cama, despencou do teto. Está tudo empoeirado, tudo revirado. O ano chega ao final e pede, com urgência, uma senhora limpeza!

Fico pensando se há mais gente na mesma situação. Provavelmente há. Embora eu não dê a mínima para astrologia, fico me perguntando se, de fato, não há algum tipo de conjunção astral que provoque turbulências justamente em finais de ciclo. Talvez Freud explique melhor. Seja no plano consciente, seja no inconsciente, pode ser que brote uma cobrança íntima: o que consegui realizar nesta etapa e o que conseguirei na próxima?

O Pensador, obra de Rodin.

O Pensador, obra de Rodin.

Não sei… O fato é que me pego recordando, revendo, repensando quase tudo. É como se eu estivesse fechado para balanço. Só depois de concluída a contabilidade, terei como decidir um rumo a tomar. Por enquanto, vejo apenas poeira a minha volta – e aqui poeira é sinônimo de dúvida.

Por causa desse clima de limpeza geral, ando sem jeito até para sair por aí desejando boas festas. Faltam-me humor e disposição para isso. Claro que desejo a todos os familiares, amigos, colegas e conhecidos um ótimo Natal e um ano novo muito melhor. Só não consigo é abrir um sorriso de orelha a orelha quando meu coração anda apertado, e minha cabeça, agitada. De novo, me socorre a analogia da faxina: todo sujo de poeira, como posso querer abraçar alguém?

Solitude, obra de Marc Chagall.

Solitude, obra de Marc Chagall.

Suponho e desejo que, até a noite de Natal propriamente dita, eu esteja limpo e límpido. Em viagem, longe do cenário cotidiano e da rotina estressante, essa possibilidade é real. Antes disso, porém, estou imerso no pó. Os que de mim se aproximam correm o risco de sair espirrando. E há os poucos que não ligam de me ver assim de cara suja. Geralmente, são os amigos mais sinceros.

Conheço gente que se deprime no Natal. Eu mesmo já me senti deprimido nessa época do ano. Desta vez, porém, o que me toma não é exatamente tristeza. É a sensação de bagunça, de casa desarrumada, como se o mundo e meu mundo estivessem ambos de pernas para o ar. Quem sente ou já sentiu isso pode me compreender.

Noite estrelada, obra de Van Gogh.

Noite estrelada, obra de Van Gogh.

Enquanto isso, lá fora, luzinhas brilham, papais noéis vendem sorrisos e brinquedos, bares e restaurantes faturam alto com as tradicionais confraternizações, amigos secretos revelam seu bom ou mau gosto para dar presentes, os mais corajosos enfrentam filas longuíssimas para entrar e sair dos shopping centers, os religiosos clamam (quase sempre em vão) por mais paz e amor no mundo, muitos lembram o nascimento de Jesus para que outros também lembrem que isso não ocorreu realmente em 25 de dezembro, as emissoras de TV repisam e reprisam reportagens e histórias natalinas, a chuva de verão cai impiedosa sobre morros e mortos, as redes sociais enchem-se de cores e palavras doces…

E o mundo gira, gira, gira, até que alguns, como eu, fiquem tontos, cambaleiem, parem e pensem: de onde vim, onde estou, para onde vou?

“And so this is Christmas…”

Coração de Jesus, obra de Tarsila do Amaral.

Coração de Jesus, de Tarsila do Amaral.

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Bichos de 7 cabeças (parte 2).

Outro dia, em uma revista que considero de qualidade, li reportagem especial sobre preconceito. Havia nela reflexões e depoimentos interessantes. Só lamentei o fato de o autor ter ignorado a diferença entre preconceito e discriminação. Alguns entrevistados fizeram o mesmo. Observei que até especialistas tratam um e outra quase como sinônimos e, definitivamente, não o são.

 

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Acho essa distinção imprescindível tanto para entender quanto para enfrentar essas duas posturas. Evidentemente, os estudiosos conhecem a diferença entre os dois conceitos, mas possivelmente preferem optar, nas entrevistas, por uma forma mais popular de expressão. Afinal, à mesa de bar, a maioria das pessoas usa indistintamente os termos “preconceito” e “discriminação”. Há mesmo quem os repita sem, de fato, já ter parado para pensar neles, no que eles realmente significam. Vale a pena, portanto, tentar desfazer essa confusão.

 

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Gosto de dizer, para quem não tem o costume de refletir sobre o tema, que o significado de preconceito já está embutido na própria palavra: pré-conceito, ou seja, conceito antecipado, prévio, anterior à ponderação, ao conhecimento. Sei que milhares de pessoas, Brasil afora, conhecem e oferecem exatamente a mesma explicação. Não me julgo original. No entanto, o uso indiscriminado (sem trocadilho) da palavra “preconceito” aponta para o contrário: poucos enxergam o sentido dentro do termo.

Mesmo quem sabe parece esquecer-se de que o preconceito está mais próximo do pensamento, da teoria, da crença. Tanto é assim que alguém pode guardar um preconceito para si, nunca o demonstrar. Ele independe de manifestações explícitas. Pode ser velado e até mesmo inconsciente.

A discriminação, por sua vez, está mais próxima da ação, do ato, da prática. Não há como guardar só para si um gesto de discriminação (a menos que seja contra si próprio, e olhe lá…). Ela é demonstração, manifestação, expressão por excelência. Nada tem de velado e dificilmente será inconsciente. Pode-se até forçar a barra um pouquinho e encontrar no próprio termo uma pista para seu significado: discrimin-ação.

 

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Discriminar é, antes de tudo, diferençar, discernir, distinguir. O sentido amplia-se, então, para separar, especificar, delimitar. Finalmente, adquire a conotação pejorativa de segregar. Trata-se de atos objetivos. A discriminação é, sobretudo, uma atitude.

Quando discuto o assunto com amigos, gosto de lembrar que uma pessoa pode ter preconceito e não chegar a discriminar, mas dificilmente ela poderá discriminar sem ter preconceito. Eis onde a distinção entre um e outro termo faz a diferença.

Muita gente, porque não discrimina, acha que não tem preconceito. Daí o sujeito se achar “cabeça aberta” porque não maltrata, por exemplo, negros nem homossexuais. No íntimo, ele nutre profundo preconceito. Distraído, pode demonstrar isso espontaneamente. Na hora da raiva, também.

 

Homofobia

 

Tenho um amigo que sente orgulho ao afirmar não ter preconceito contra gay. Alega ter amigos homossexuais, sair com eles, abraçá-los em público, gostar deles enfim. No entanto, quando discute o tema “homossexualidade”, suas idéias são extremamente preconceituosas. Posso apostar que, uma vez à espera de um filho, ele terá medo de a criança ser gay. Imaginar-se a si próprio homossexual, então, nem de brincadeira!

Uma pessoa assim pode até não discriminar um gay em seu cotidiano, mas o preconceito guardado dentro dela poderá vir à tona se a emoção dominar a razão. Claro está que o preconceito não impede uma pessoa de gostar de outra contra a qual ela guarda restrições. Daí nascerem amizades entre indivíduos bem diferentes. Mas, para isso, é indispensável que o preconceito não se manifeste, pois logo se converteria em discriminação, e a amizade sofreria abalo ou mesmo teria fim.

As leis brasileiras que pretendem conter as diferentes formas de discriminação até obtêm algum êxito, mas nada podem fazer contra o preconceito guardado no íntimo das pessoas. Contra esse, a educação e o convívio respeitoso podem cumprir valoroso papel.

 

Racismo

 

Portanto, compreender e aplicar no discurso corrente a distinção entre preconceito e discriminação podem contribuir para que bilhões de preconceituosos não se julguem com mente aberta e, inconscientemente, perpetuem sua visão equivocada de pessoas, lugares, condições e situações.

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Bichos de 7 cabeças.

Sinto dificuldade para entender certos preconceitos. Admito que tenho e até entendo alguns (mesmo sendo contra a existência deles). Há, porém, posições preconceituosas que me parecem mais absurdas que outras.

Como pode alguém ter prevenção contra uma pessoa com base na cor da pele, por exemplo? Não há racionalidade que sustente isso. Não há humanismo que sustente isso. Trata-se de preconceito puro e simples, ou seja, sentimento ou opinião desfavorável sem ponderação, sem conhecimento (daí, claro, ser pré-conceito).

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É, portanto, estreita a relação entre preconceito e ignorância, como se sabe. Mas dá para ir além: alguns preconceituosos chegam a ter apego às próprias posições. Mesmo depois de esclarecidos, cientes da inconsistência de suas opiniões ou sentimentos (ou de ambos), não abrem mão de sua prevenção contra isso ou aquilo, esse ou aquele. Desenvolvem algo semelhante a pet hates, feliz expressão inglesa para aquilo que algumas pessoas amam odiar, como se fossem “ódios de estimação”.

Outro exemplo de prejulgamento absurdo é o preconceito contra nordestinos. Causa-me espanto uma pessoa desdenhar outra porque nasceu numa determinada região do Brasil, por acaso onde a maioria dos brasileiros gosta de passar suas ensolaradas férias e recebe tratamento extremamente afetuoso.

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Alguns podem dizer que o preconceito contra os nordestinos não tem origem na geografia, mas na economia, pelo fato de a região apresentar índices socioeconômicos inferiores aos do Sul, Sudeste e Centro-Oeste (em alguns casos, do Norte também). E daí? Situação socioeconômica — algo de incrível complexidade — não pode servir como desculpa para se rebaixar toda uma população.

Aliás, outro problema do preconceito está justamente na generalização. Universalizar um conceito é operação das mais complicadas — às vezes, simplesmente inviável. Um preconceito, então!

Antes de encerrar este artigo, cito um último exemplo de manifestação de preconceito especialmente absurda: a homofobia. Nesse caso, vale indagar que diferença faz a orientação sexual de alguém. Exceto nos casos em que uma pessoa tem interesse afetivo-sexual em outra, o que muda na vida de alguém o fato de João gostar de namorar rapazes ou Maria gostar de namorar garotas?

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Como expressa muito bem uma amiga, “orientação sexual é mero detalhe”. Uma evidência disso é que um homossexual (masculino ou feminino), quando não possui as características que normalmente se atribuem a um gay (o tal “jeito” ou “pinta”), costuma receber tratamento de heterossexual. Via de regra, sofre bem menos ou não sofre preconceito, nem sua conseqüência direta, a discriminação. Aparentemente, incomoda mais à sociedade parecer do que ser gay.

A sexualidade é preocupação quase obsessiva de algumas pessoas. Talvez por isso, elas se importem com quem vai para a cama com quem e, por motivos ainda insuficientemente claros, sentem-se incomodadas com a homossexualidade a ponto de desprezar homossexuais.

Preconceito

Reitero que preconceitos como esses me parecem especialmente absurdos porque não encontram nenhuma sustentação no bom senso.  Não se explicam nem se justificam. São como implicâncias gratuitas. Enfim, deveriam incitar as perguntas: para que servem e qual benefício trazem para uma vida harmoniosa em sociedade?

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