Coração nas nuvens e pés no chão.

Vivo criticando o romantismo. Vivo dizendo que ele se nutre de ilusões. O romântico sonha, tem os pés fora do chão. É como um sonâmbulo. Vagueia e divaga enquanto dorme. Somente o acaso pode livrá-lo de um desastre. Se a sorte o abandona, o romântico cai das nuvens. Quebra a cara. Descobre que não tem e nunca teve asas.

"A Queda de Ícaro", por Allen Douglas.

“A Queda de Ícaro”, por Allen Douglas.

Quando critico o romantismo, sou abrangente. Incluo o romantismo dos apaixonados por uma pessoa, por uma religião, por uma ideologia, por uma causa, por uma idéia. Enfim, critico a falta de crítica, ou melhor, de senso crítico. Critico a falta de racionalidade. Critico a paixão – e, para evitar ser contraditório, critico-a sem paixão. Faço uma crítica fria, por assim dizer. Não me exalto.

Dito isso, permito-me entrar em contradição. Como mais um reles integrante da espécie humana – talvez a mais defeituosa entre todas – também sou contraditório muitas vezes. Até evito me contradizer, mas me contradigo. Paciência… Daí eu confessar o que tenho para confessar.

De tempos em tempos, apaixono-me. Exatamente: fico perdidamente apaixonado por alguém. Alguns certamente afirmarão: “Grande novidade! Sempre soube!”. Os românticos até aplaudem: “Que bom! A paixão dá sabor à vida!” Só que eles, às vezes, esquecem-se de que a paixão também pode causar dor, muita dor. Se correspondida, pode ser dolorosa quando a relação termina. Se não correspondida, pode machucar tanto quanto ou mais, por gerar profunda e angustiante frustração.

"Sonata para Dois e Unicórnio", de Albena Vatcheva.

“Sonata para Dois e Unicórnio”, da artista búlgara Albena Vatcheva.

Claro que, nesta confissão, estou me limitando a apenas um tipo de paixão: a que se sente por outra pessoa. Até porque é a mais comum em minha vida, a que mais me leva à lamentável contradição de defender a racionalidade e, ao mesmo tempo, cair nas trapaças do coração.

E por que, pergunta-me o leitor ou a leitora, entrego o jogo desta forma? Simplesmente porque sei haver muita gente, muita gente mesmo, que passa por essa situação e preferiria não experimentar a dor da paixão mais de uma vez na vida. Ao ler confissões como esta, gente assim se recorda de que não está só e dá-se conta de que até quem critica o romantismo pode ser alvo dele.

Um amigo, curiosamente bastante jovem, ainda inexperiente no ramo, confessou-me, há poucos dias, que nunca mais quer sofrer por uma mulher. Foram duas decepções consecutivas, que o marcaram profundamente. Eu ousaria até a dizer que o traumatizaram. Eu disse duas. Imagine se fossem seis, dez, quinze…

"Solidão", por Marc Chagall.

“Solidão”, por Marc Chagall.

Não por acaso, os ingleses utilizam a expressão ‘to fall in love’ ao se referirem ao ato de apaixonar-se. Na língua inglesa, diz-se literalmente ‘cair no amor’. Nesse caso, embora contenha a palavra ‘passion’, o vocabulário inglês adota ‘love’ (amor). De qualquer forma, o que conta na expressão é mesmo o verbo ‘to fall (in)’ (cair). O significado dela como um todo remete a uma emoção mais forte, avassaladora, incontrolável, não a um tipo de ternura ou de sentimento de paz e conforto ao lado de uma pessoa querida. Em inglês, como em português, alguém pode amar (to love) o avô, por exemplo, mas dificilmente se apaixonará (to fall in love) ou estará apaixonado (in love) pelo avô, a não ser em sentido figurado, obviamente.

A paixão em inglês é verbalizada, pois, como uma queda. É como se uma pessoa, ao apaixonar-se, tropeçasse e caísse no chão – ou em um buraco. A metáfora me parece bastante adequada. Transmite a idéia de fragilidade, vulnerabilidade, no caso, a um sentimento. Em português, há expressão similar, embora empregada mais em caráter informal: ‘ficar (ou estar) de quatro (por alguém)’, ou seja, ver-se igualmente no chão, frágil, vulnerável.

Não faltam, aliás, passagens em livros, filmes, novelas românticos em que o apaixonado (ou os apaixonados) literalmente ajoelha-se diante da pessoa amada, prostra-se aos seus pés. Rende-se à paixão. Submete-se a ela. Abre mão do orgulho. Desce. Cai.

"Mulher ao Natural", de Krzysztof_Izdebski-Cruz.

“Mulher ao Natural”, de Krzysztof_Izdebski-Cruz.

Sobejam casos de depressão (a enfermidade) cuja causa principal é decepção amorosa. O que significa, literalmente, a palavra ‘depressão’ senão abaixamento de nível, ou seja, em última instância, queda? Como se sabe, há deprimidos que realmente não conseguem se levantar da cama. Não à toa, o termo paixão vem do grego ‘pathos’, relacionado a sofrimento, emoção. Pathos também deu origem à palavra ‘patologia’, ou seja, doença.

Dá para entender por que, a despeito do belo discurso romântico, presente em numerosas e encantadoras narrativas, há quem fuja da paixão, como meu jovem amigo, ao qual bastaram duas frustrações amorosas para levá-lo a tomar cuidado redobrado ao se envolver com outras garotas. E também dá para compreender por que há quem critique o romantismo, como venho fazendo.

Capa de "Os Sofrimentos do Jovem Werther", ícone do romantismo, por Johann Wolfgang von Goethe.

“Os Sofrimentos do Jovem Werther”, ícone do romantismo literário alemão e mundial, por Johann Wolfgang von Goethe.

No entanto, como diz a linda canção de João Bosco: “Quando o amor acontece, a gente logo esquece que sofreu um dia. Esquece, sim!”. Está certo o compositor. Quando a paixão acontece (prefiro o termo ‘paixão’, para os fins deste artigo), há pouco ou nada a se fazer, especialmente se (como nas enfermidades) não se agir depressa.

É possível, claro, lutar contra a paixão – se ela não for bem-vinda. Há como represá-la, reprimi-la, ocultá-la. Mas, uma vez instalada, não há como expurgá-la de imediato, quando bem se quer. Ela pode durar mais ou menos tempo. Pode, inclusive, permanecer durante toda uma vida – sobretudo se houver reciprocidade. E também pode reinventar-se, quando há uma substituição, por exemplo. Nesse caso, ela apenas se transfere. Troca de “objeto”.

"Além dos Oceanos", por Albena Vatcheva.

“Além dos Oceanos”, pela artista búlgara Albena Vatcheva.

Infelizmente, a paixão parece ter vida própria. Pode até fingir-se de morta e, de súbito, reacender-se, ressurgir, re-emergir. Como também pode desaparecer para sempre, morrer, sem a menor possibilidade de ressurreição. Em paixões recíprocas, pode-se até tentar manter aceso o tal “fogo” inicial. Ainda assim, nada garante que ela, caprichosa, prefira ir embora e abandonar o casal (ou apenas um dos dois), seja aos poucos, seja repentinamente, como tantas vezes ocorre.

Talvez as diversas ciências, isolada ou conjuntamente, consigam, um dia, desvendar os mistérios da paixão e, por conseguinte, do amor (o qual suponho ser mais elevado, posto que mais tranqüilo e confortante). Se isso ocorresse, talvez fosse possível à espécie humana ter algum controle sobre esse sentimento tão forte, tão perturbador (inclusive quando recíproco).

Por enquanto, bilhões de pessoas, como eu e esse meu jovem amigo, têm de aprender a administrar o prazer e a dor para que paixões não nos ceguem, não nos curvem, não nos levem ao rés do chão. O que me parece mais saudável é mesmo a serenidade de um sentimento sem muitos altos e baixos, sobressaltos, temores, intrigas, jogos, insegurança.

"Amor", por Elisha Ben-Yithzak.

“Amor”, por Elisha Ben-Yithzak.

Vejo as emoções fortes, numa relação sadia, como tempero, não como prato principal. É isso o que me dizem sentir os que afirmam amar e experimentam uma relação estável.

Há poucos dias, tomado de ceticismo, perguntei a outro amigo, que mantém um relacionamento fixo e satisfatório há 13 anos: “Vocês nunca brigam?” Ele me respondeu: “Sim, brigamos de vez em quando.” Insisti: “Mas não chegam a ficar sem se falar por pelo menos uma semana?”.  A resposta foi mais ou menos esta: “Se um casal chega a passar uma semana sem se falar, como pode ter uma relação sadia? Não faz sentido!”.

Acredite quem quiser. Eu tendo a acreditar nele porque conheço o casal há muito tempo, e a intimidade que tenho com eles é suficiente para me revelarem caso eles se desentendessem seriamente. Nunca soube nem desconfiei de um atrito grave ou rompimento entre eles ao longo de todos estes anos.

"Namorados", de Ismael Nery.

“Namorados”, de Ismael Nery.

Tendo a confiar, igualmente, no depoimento daqueles que já experimentaram paixões avassaladoras e relações tranqüilas, pois sabem avaliar melhor umas e outras. Todos eles garantem que foi nas segundas que experimentaram amor de verdade. Devem estar certos. Ao menos, parecem saber o que dizem. Já é algum sinal…

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Intolerância e solidão via satélite.

O ódio me assusta, me incomoda, mas não me surpreende. Ele está em todo lugar desde que o mundo é mundo. Parece fazer parte da natureza humana. Talvez nunca desapareça de vez. De algumas décadas para cá, no entanto, tenho a clara impressão de que o ódio está mais explícito, mais visível. Por que será? Arrisco alguns palpites.

Acertou quem apostou no óbvio: as novas tecnologias de comunicação. O “megafone” agora alcança bilhões de pessoas. Graças a equipamentos ultramodernos, como os satélites, o intercâmbio entre indivíduos e comunidades está mais fácil, rápido, abrangente e indiscreto. As mensagens circulam como nunca na história da humanidade.

Satelite

Eu disse “humanidade”? Pois é… Essa humanidade, que inventou os satélites, os smart phones, os tablets, entre outros gadgets sofisticados, os quais vieram relativamente pouco tempo depois de seus “avós” — jornal, revista, rádio, cinema e televisão –, essa mesma humanidade, que tanto avançou tecnologicamente, permanece na Idade da Pedra quando se trata de administrar emoções e sentimentos. Eis onde entra o ódio.

Outro dia, um amigo fez um sóbrio alerta em uma rede social: as pessoas estão freqüentemente em contenda. Brigam por dá cá uma palha! De repente, um debate converte-se em expressão de raiva e, às vezes, de ódio profundo. Vêm à tona ameaças, xingamentos. Nessa seara, sobram calúnias, infâmias, difamações. É uma guerra virtual.

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Se meu primeiro palpite para essa explicitação do ódio está nas novas e mais poderosas plataformas de comunicação de que a intolerância dispõe para se expor, um segundo palpite está na maior distância física que os novos media favorecem entre os interlocutores. De longe, as pessoas parecem sentir-se mais seguras e confortáveis para ofender. Afinal, estão fora do alcance imediato de mãos que esbofeteiam, braços que desferem socos e de pés que distribuem chutes. Pode-se imaginar pior: nos meios contemporâneos, os adversários (muitas vezes desconhecidos uns dos outros ou recém-conhecidos) estão fisicamente distantes do risco de morte.

Essa condição dá coragem, que, em alguns casos, também pode receber o nome de irreverência. É mais fácil ter ousadia de longe. Cara-a-cara, tudo muda. Parte do que se diz por escrito jamais sairia da boca de duas ou mais pessoas diante umas das outras. Com isso, obviamente, não estou me esquecendo de que há e sempre houve atritos face-a-face — aliás, o índice crescente de homicídios no Brasil é prova de que a presença física tampouco evita atos de ódio.

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Meus palpites — aliás, nada originais, pois certamente estão em numerosos artigos e livros sobre o tema — apenas endossam e reforçam a opinião de que as novas tecnologias de comunicação amplificam o que seus usuários transmitem — para o bem e para o mal. Não se trata de responsabilizá-las pelo ódio no mundo. Está nas pessoas a capacidade ou a incapacidade de utilizar as ferramentas mais avançadas para disseminar idéias comprometidas com a construção de consensos e não com o estímulo ao “bate-boca” ou atos mais graves de intolerância.

Fico pensando no resultado desse uso inadequado dos meios contemporâneos de comunicação. Também acertou em cheio quem já leu a respeito ou deduziu o óbvio: uma paradoxal solidão. Afinal, com tantos aparatos disponíveis para aproximar as pessoas, a solidão parece aumentar. A comunicação interpessoal continua pobre, limitada, precária.

Às vezes, as novas tecnologias chegam a contribuir para que as pessoas se isolem umas das outras por um viés curiosamente positivo: a oportunidade de ouvir, ler e ver uma quantidade incalculável de sons, letras, imagens. Há fatura de informação em todos os meios de comunicação de massa. Quem quiser pode passar um final de semana inteiro trancado dentro de casa e não lhe faltarão atrações: música, literatura, filosofia, noticiário, balé, teatro, cinema etc. Mas, de novo, essa é uma escolha do indivíduo.

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Muita gente aprendeu a conciliar a dependência das novas tecnologias (sobretudo do smartphone, o “queridinho” do momento) com o saudável convívio presencial. Os restaurantes, bares, cinemas, teatros, museus atraem bilhões de pessoas mundo afora. Mas é preciso reconhecer, igualmente, que, mesmo em público, a maioria não desgruda de seu smartphone ou de seu tablet — e não faltam bares e restaurantes com imensos aparelhos de televisão.

Eu mesmo já escrevi neste blog sobre os casos, não raros, de pessoas reunidas a uma mesa, e cada uma, simultaneamente ou em momentos separados, isola-se durante minutos para teclar ou conversar ao celular. A maioria de meus conhecidos faz isso, com maior ou menor freqüencia — eu próprio, inclusive. É como se o ser humano almejasse o dom da ubiqüidade, até há pouco tempo atribuído somente a Deus (para quem n’Ele acredita). Somente Ele teria o poder da onipresença. Hoje em dia, o homem parece ter a pretensão de querer estar presente em lugares diferentes ao mesmo tempo.

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Reitero meu ponto de vista: esse excesso de contatos leva, paradoxalmente, à solidão. Afinal, quem quer dar e receber atenção de todos acaba por não conseguir dar e receber a atenção de ninguém em especial. Quem é de todos não é de ninguém. É como a solidão dos pop stars: eles têm uma multidão cantando, gritando, aplaudindo-os, mas, ali no palco, eles, na verdade, estão sozinhos (no máximo, com o apoio de sua banda). Nos camarins, provavelmente não se lembram de nenhum rosto da platéia.

É curioso notar a quantidade de astros e estrelas que cometem suicídio. Se a admiração e a presença dos milhares de fãs lhes bastassem, tantos pop stars não dependeriam de elevada quantidade de álcool e drogas, não sofreriam de depressão, não se sentiriam tão sós e não poriam fim à própria vida — direta ou indiretamente (quando utilizam substâncias que, em excesso, eles sabem, podem levar à morte).

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Está em poder de cada um utilizar as novas tecnologias da comunicação para disseminar idéias construtivas, debater mantendo o respeito à divergência de opiniões, distribuir humor (portanto, alegria), informar, divulgar produtos saudáveis, entre outras ações que gerem bem-estar social, e não mais ódio.

Todavia, minha impressão é a de que os pacíficos (mesmo se forem maioria) têm pouca força diante de uma minoria tão raivosa quanto ruidosa. Aparentemente, o ruído da guerra tem vencido o sussuro da paz. As novas tecnologias, claro, não têm culpa disso. É como responsabilizar o carteiro pela má notícia contida na carta. O ódio que cada um carrega dentro de si é o responsável pelo mau uso dos novos media e não o contrário.

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A esperança é que, uma vez explícito esse ódio, quem o nutre e dissemina aproveite a oportunidade para observá-lo, analisá-lo, compreendê-lo e, finalmente, tratá-lo. Quem sabe assim debates não mais degenerem em inimizades, e a diversidade em geral se torne motivo de orgulho e não de preconceito e discriminação? Nada custa sonhar…

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