Amigos, amigas, namorados, namoradas…

Ganha um doce quem nunca teve um amigo ou amiga que, ao começar a namorar, sumiu do mapa! Ganha dois doces quem nunca ficou incomodado com isso! Eu disse “incomodado”, não “enciumado”.

O enciumado é infantil. Não compreende a situação. Sente-se repentinamente abandonado e até mesmo traído. Não entende que um casal em começo de relação está empolgado, se conhecendo, eventualmente suprindo carências reprimidas. O enciumado é, antes de tudo, egoísta. Só vê o lado dele.

Nature with Lovers III, tela de Braj Mohan Arya.

Nature with Lovers III, de Braj M. Arya.

O incomodado é diferente. Compreende a situação. O que o incomoda está mais no plano do pensamento que no do sentimento, menos ainda no da emoção. Ele interpreta o afastamento paradoxalmente como algo natural e exagerado. Analisa a postura do amigo ou amiga com certa frieza. Vê longe. Suspeita de que o excesso de contato do casal hoje pode ser a causa de atritos (e até de separação) amanhã. No fundo, trata-se de preocupação mesmo, não de ciúme.

Os amigos e amigas em fase de lua-de-mel com seus pares dificilmente entendem tanto os enciumados quanto os incomodados (ou preocupados). Íntima ou explicitamente, exigem compreensão e paciência dos amigos. Não estão nem aí para o futuro. Querem gozar o presente. Querem aproveitar ao máximo o momento. Os amigos que esperem!

"Namorados", de Ismael Nery.

“Namorados”, de Ismael Nery.

Amigos, para muita gente, são como jogo ganho, vitória garantida. Aconteça o que acontecer, lá devem estar eles, sempre prontos e à espera para apoiar, ajudar, compreender. São quase como mães. Devem amar incondicionalmente. Diferentes de plantas, animais e filhos, os amigos, para essas pessoas, não demandam atenção constante. Devem sobreviver à seca, ao frio, à distância, a quase tudo.

Tenho críticas a essa maneira de pensar. Admito que me enquadro entre os incomodados (ou preocupados) quando vejo amigos ou amigas completamente mergulhados em uma relação, sobretudo se ela não é recente. Já me explico!

Em primeiro lugar, acho natural o afastamento de amigos ou amigas em namoros novos, isto é, ainda em suas primeiras semanas. Mas acho exagerado o chamado “grude” após essa fase. Parece haver no casal certo deslumbramento que nada tem que ver com amor, mas com paixão, com “fogo de palha”.

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Em segundo lugar, penso que se afastar demais dos amigos é um erro estratégico. O isolamento do casal pode representar certa alienação. Afinal, o casalzinho apaixonado vive um mundo à parte e certamente fantasioso, que inventou para si. Distancia-se da realidade. Acontece que, em algum momento, a realidade se imporá novamente com toda sua força, e a “ilha da fantasia” desaparecerá. Os resultados disso não costumam ser positivos…

Em terceiro lugar, o afastamento de amigos e amigas gera uma dependência desnecessária entre os dois apaixonados. Afinal, quando se afastam “do mundo”, os amigos e amigas deles tocam suas vidas, estabelecem novas relações, deixam de contar com quem deles se afastou. Se o distanciamento durar muito, a retomada da amizade poderá ser difícil ou mesmo impossível. Ademais, cada um no casal deixa de ter vida própria. Depende um do outro cada vez mais. Isso definitivamente não me parece sadio. Ninguém supre cem por cento as necessidades de ninguém.

"Balé dos Skaskas", de Guto Lacaz.

“Balé dos Skaskas”, de Guto Lacaz.

Em quarto lugar, desconfio de que o tal “grude” alimenta o risco de o casal se cansar um do outro – ou de um dos dois se cansar do parceiro ou da relação entre eles ou de ambos (parceiro e relação). Retomo a analogia do “fogo de palha”: queima depressa, passa logo. É, em um primeiro momento, forte, alto, ruidoso, gera muita luz e fumaça, mas acaba em pouco tempo.

Em quinto e último lugar, parece-me egoísta pensar que os amigos devem estar sempre à espera, prontos a acolher o amigo ou a amiga quando ele ou ela se cansar do parceiro – ou terminar o namoro. Amigo não é pneu estepe. Não é mera falta de opção. Amizade deve ser via de mão dupla. Deve ter valor em si mesma. Não pode ser descartável, como um objeto que só se utiliza quando se precisa dele. Amizade também demanda e merece cultivo.

Conheço casos de pessoas que namoram, casam-se, têm filhos e, ao longo desse percurso, afastam-se totalmente de amigos e amigas, sobretudo dos solteiros, que não seguiram o mesmo caminho e, portanto, não levam a mesma vida. Buscam a presença apenas de outros casais. Passam a conviver somente com grupos semelhantes. Parecem esquecer-se completamente de que relações podem terminar e de que eles podem precisar, de novo, da companhia dos amigos e amigas desimpedidos.

Da série "Pinturas nas Janelas", de Cristiano Piton.

Da série “Pinturas nas Janelas”, de Cristiano Piton.

Parecem esquecer-se também da importância de ter, em suas relações, “válvulas de escape”, “janelas” para respirar outros ares, oportunidades de conversar sobre outros assuntos, continuar desbravando o mundo. Essa abertura aos amigos é útil para a própria sobrevivência e saúde da relação do casal. É uma pena que muitos não enxerguem isso! Enclausuram-se em seus feudos, protegendo-se de sei lá o quê!

Muitos homens e mulheres, especialmente os inseguros, acham que, isolando-se dos amigos e amigas solteiros, garantirão a fidelidade no relacionamento. Ingênuos, esquecem-se de que as chamadas traições podem ocorrer a qualquer momento, em qualquer lugar, quando menos se espera – as oportunidades para isso aparecem até em sinal de trânsito fechado!

Felizmente, tenho casais amigos – sobretudo um muito próximo – que nunca se afastaram de mim e de outros conhecidos mesmo no início da relação. Tiveram e ainda têm numerosos momentos a sós. Usufruíram e usufruem do mínimo de privacidade que a vida atual ainda permite. Mas incluem, amiúde, seus amigos em seus programas e, não raramente, divertem-se separadamente, cada qual com seu respectivo grupo.

"Jogadores de Cartas", de Cézanne.

“Jogadores de Cartas”, de Cézanne.

Esses casais que acabo de mencionar respeitam a individualidade um do outro e não são românticos a ponto de achar que, apenas entre si, suprem todas as suas necessidades. Entendem que cada um precisa de momentos a sós ou na companhia de amigos. Não compartilham entre eles cem por cento de seu tempo nem de suas vivências. Permitem-se ter vida independente. Se, um dia, separarem-se, certamente sofrerão, mas terão melhores condições de seguir adiante. A separação deles será menos traumática, e a recuperação, mais fácil.

Acontece que casais assim não costumam se separar. Ou demoram muito a separar-se, justamente porque não controlam os passos um do outro. Não sufocam um ao outro. Graças às janelas e portas que abrem ao mundo, respiram. Parafraseando o poema de Vinícius, esses casais sabem que, mesmo que se afastem um dia, poderão dizer do amor que tiveram que não foi imortal, posto que era chama, mas que foi infinito enquanto durou.

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Escrever para quê?

Muitas vezes, indago a mim mesmo: para que escrever? Vou além: para que há tantos escritores no mundo atual? Já há livros suficientes no planeta para quem quiser passar o resto da vida lendo, mesmo que seja uma criança que tenha acabado de aprender a ler. Por que dedicar horas a um autor contemporâneo quando há tantos clássicos na estante?

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Se ninguém mais produzisse uma linha de literatura (para me restringir a uma única área da produção de livros), haveria suficientes obras para enriquecer intelectualmente uma pessoa por mais de 100 anos.

Abro uma exceção para as obras de ciências humanas, sociais e exatas/tecnológicas contemporâneas, pois geralmente tratam de temas que interessam à atualidade. Em outras palavras, trazem novidades úteis à melhor compreensão e posicionamento no mundo de hoje, seja mental, seja físico, seja natural etc. São, portanto, indispensáveis.

Numerosas obras de opinião, porém, chegam a ser inúteis, pois simplesmente repetem, sintetizam, simplificam ou reduzem (ou tudo isso simultaneamente!) reflexões que filósofos já fizeram com mais competência e seriedade, às vezes séculos antes. Bastaria ao leitor bem informado ir diretamente às fontes originais.

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Outras tantas obras de ficção atuais também caem no pastiche. São meras variações sobre os mesmos temas, geralmente com muito menos talento literário. E há narrativas que apelam para o excesso de formalismo, para recursos extravagantes, como se eles tivessem valor em si mesmos, e a história não tivesse importância, pois nada tem a dizer.

Antes de prosseguir, quero deixar claro que acho legítima qualquer forma de expressão, desde que não tenha intenções opressoras, dominadoras, constrangedoras. Longe de mim desdenhar quem publica opinião ou romance hoje em dia! Não estou eu mesmo opinando aqui neste blog?

Há uma realidade presente que merece retratos, análises, interpretações, seja em prosa, seja em verso, seja em canto, seja em dança, seja como for. No caso do texto, ele tem o poder (e até o dever) de contribuir para formar opinião sobre o que se passa na contemporaneidade. Ainda assim…

Dante Alighieri: "A Divina Comédia".

Dante Alighieri: “A Divina Comédia”.

Ainda assim, fico me perguntando se não há excesso de produção textual no mundo. Exceto pelo aspecto da segmentação (publicações voltadas para públicos e áreas específicos), questiono, por exemplo: por que devo ler a última obra de, sei lá, Cristóvão Tezza, se ainda não li “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri? Não deveria dedicar meu escasso tempo a ler os clássicos ao invés dos contemporâneos, que, não fossem os clássicos, talvez não chegassem a ser escritores?

Realmente, não sei… Essas são dúvidas que lanço aqui na esperança de gente mais inteligente e letrada que eu possa me ajudar a tirar da cabeça. Afinal, admito, desconfio de minhas próprias dúvidas.

Algo me diz que estou enganado. Intuo que as reflexões contemporâneas contribuem para o entendimento do mundo de hoje assim como as narrativas atuais refletem o presente (como sempre foi ao longo da história da literatura, com a exceção relativa dos romances históricos). Não posso nem devo me prender apenas ao passado, aos ancestrais, aos fundadores da cultura (essa palavra tão complexa…).

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Eis onde entra o fator tempo. Se trabalho em média 8 horas por dia de segunda a sexta-feira e folgo aos sábados e domingos, quando também preciso descansar a mente e desejo assistir a filmes, reunir-me com amigos, jogar conversa fora, enfim, divertir-me, distrair-me, quanto tempo me sobra para ler? Nas férias? Ainda que consiga tirar 30 dias seguidos, vale para elas o mesmo raciocínio dos fins de semana (sem mencionas as viagens…).

Nesse pequeno tempo restante — ainda que no trabalho seja possível, por exemplo, parar alguns minutos para ler as notícias ou consultar o Twitter e o Facebook — por que devo optar por José Saramago em vez de Oscar Wilde? Por que devo escolher Frank Wallace e não Aristóteles ou Kant ou Hegel?

Quando cursava Filosofia, e algum professor dos primeiros semestres pedia a leitura de um filósofo contemporâneo, aquilo me inquietava porque o texto geralmente remetia a clássicos que eu ainda não havia lido. Portanto, era como se eu começasse a ver um filme depois da metade. Sem as bases, os fundamentos dos clássicos, como eu poderia compreender realmente a reflexão dos contemporâneos?

Immanuel Kant (1724-1804).

Immanuel Kant (1724-1804).

Daí, às vezes, vir-me à cabeça a idéia maluca de ninguém publicar mais nada. Já há excesso de informação no mundo. Os escritores de hoje, que por certo não tiveram tempo de ler todos os clássicos, de todas as línguas, parariam imediatamente de publicar. Leriam somente. A humanidade só voltaria a ter novos livros (físicos ou virtuais) quando tivesse esgotado a leitura do estoque hoje disponível.

Claro que digo isso de maneira caricata, mas expresso, de fato, uma angústia diante da quantidade incomensurável de obras que me parecem indispensáveis, as quais jamais terei tempo de ler. Sinto-me sufocado — e frustrado, claro — diante de tantas opções.

Um dia, fiz o exercício de contar quantos livros tenho em minha casa (na conta, não entraram os virtuais, disponíveis no iPad). A conclusão foi dura: mesmo que eu viva 100 anos, não conseguirei tempo para lê-los todos. Muitos ficarão para sempre na estante — ou só sairão de lá para ocupar outra prateleira, seja de outra casa, seja de uma biblioteca.

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Admiro quem está em dia com a literatura, mas pago um doce para quem trabalha full time e leu tudo o que a maioria dos especialistas considera indispensável para uma formação intelectual respeitável. É preciso escolher, e escolher é renunciar.

Olho para meus livros — tanto os de ficção quanto os de não-ficção — e me bate aquela vontade de ganhar na Megasena e passar o resto de meus dias de “licença sabática”, lendo o máximo que eu puder, até ficar idoso! Ainda assim, lamento, terá sido pouco, muito pouco tempo, perto do que há neste mundo, vasto mundo, para ler. Parem as máquinas!

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Carta a um amigo angustiado com o mal na humanidade.

Caro amigo, mais de uma vez, você compartilhou comigo suas dúvidas sobre a existência de Deus e a competência d’Ele ao criar a humanidade. Afinal, você admira a natureza, mas não consegue ter a mesma admiração pelos seres humanos.

Certa vez, em uma de nossas conversas, você afirmou o seguinte: “Se Deus foi o criador da raça humana, ele fez a pior burrada da vida dele. Como pôde colocar pessoas loucas para tomar conta do mundo? Como ele pôde deixar ‘crianças’ tomarem conta do planeta?” Na ocasião, não tivemos condições de prosseguir o diálogo. Seguem agora as considerações que eu gostaria de ter feito naquele dia.

Planeta_em_perigo

Compreendo sua dúvida. Mais que isso: compartilho da mesma dúvida, embora eu admita a hipótese de Deus não existir e nunca ter existido. Numerosos filósofos também abordam essa questão. Há séculos, pensadores de todas as partes vêm se debruçando sobre o que muitos chamam de “o mistério da iniqüidade”.

Em outras palavras, trata-se do mistério do mal no mundo. Se existe um Deus, criador de tudo e de todos, e Ele é soberanamente justo e bom, onipresente, onisciente e onipotente, como pode permitir que haja o mal?

Deus na pintura de Michelangelo. Deus na pintura de Michelangelo.

Para os teólogos, ou seja, os estudiosos das escrituras que eles consideram sagradas, não há incompatibilidade nenhuma entre a ideia de um Deus perfeito e um mundo imperfeito. Cada igreja explica à sua maneira essa contradição.

A maioria das explicações religiosas para a existência do mal recorre ao livre arbítrio, isto é, à liberdade dos seres humanos para escolher entre o certo e o errado, o bem e o mal. Para os religiosos, a responsabilidade pelo mal está na humanidade, não em Deus. Há mesmo quem acredite que Adão e Eva deram início ao “estrago”.

Algumas religiões apontam o nome do maior culpado: Diabo (ou Demônio, Satanás, Lúcifer, entre outros). Mesmo assim, as pessoas têm responsabilidade (ou culpa) porque cedem às tentações desse supremo malfeitor.

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Imagino que você tenha dificuldade para aceitar essas explicações. Se as aceitasse, não teria tantas dúvidas, não proferiria “blasfêmias”. Pois saiba que também rejeito essas explicações, juntamente com centenas de pensadores de diferentes épocas.

Possivelmente, para a maioria das pessoas leigas (no sentido de não religiosas), o mal é um fato da vida, que se explica por meio de diferentes áreas de conhecimento. Para os agnósticos (aqueles que não se consideram ateus, nem crentes, pois não dão muita importância à religião), faz pouca ou nenhuma diferença se o mal é resultado das ações humanas ou de um ser maligno. O fato é que o mal está aí, e Deus, se existe, permite que ele ocorra. Melhor não contar com Ele, então.

O que você questiona está na mente de numerosos pensadores, assim como na de muita gente iletrada. Se Deus é todo-poderoso, por que Ele não controla a humanidade nem esse suposto Demônio? Mais: por que permitiu que o mal surgisse um dia? Pior ainda: se Deus criou tudo e todos, Ele também criou o tal Demônio, Ele também criou o mal. Como um ser de suprema bondade, perfeito, pode ter criado o Diabo ou a maldade ou ambos?

Explosão da bomba atômica sobre Hiroshima. Explosão atômica sobre Hiroshima.

São muitas e variadas as dúvidas. Todas fazem sentido para quem não se contenta com as explicações religiosas (seu caso). Os ateus resolvem o problema simplesmente eliminando a ideia de um deus. Não há Deus nem deuses. A ciência e a filosofia lhes servem de apoio.

Sociologia, antropologia, psicologia, neurobiologia, psiquiatria, entre outros ramos de estudo e pesquisa, esforçam-se para compreender e explicar por que há maldade nas pessoas e no mundo. Nem sempre conseguem, mas apontam para interessantes reflexões.

Os agnósticos, como já disse, também preferem excluir Deus da equação. A maioria desiste de fazer perguntas desse tipo. Para eles, tanto faz se Deus existe ou não. Há as duas possibilidades. Não se atrevem a eleger uma.

Hannah Arendt: reflexões sobre a banalidade do mal. Hannah Arendt: reflexões polêmicas sobre a banalidade do mal.

Você parece ser um tipo especial de agnóstico. Afinal, não descarta a possibilidade de Deus existir, tanto que o menciona, mesmo para criticá-lo. Se fosse ateu ou um agnóstico “desligado”, provavelmente não teria conflito algum, nem lembraria Deus em uma conversa sobre a maldade humana (ou a incapacidade da humanidade de cuidar do próprio planeta em que vive).

O que parece incomodar você é justamente a dúvida: se Deus existe, como o ser humano pode ser mau? Aliás, nesse ponto, você chega a afirmar que a maldade faz parte da criatura humana. Para você, todos os seres humanos são maus por natureza. Nesse ponto, finalmente divergimos.

Estou com você quando levanta dúvidas sobre a origem do mal (ou do que julgamos ser mau). Para mim, as religiões não oferecem respostas satisfatórias para a existência da maldade. Essa questão permanece um mistério mesmo. Mas não compartilho sua ideia de que o ser humano é mau por natureza. Já discutimos isso, e eu lhe disse que acho sua posição determinista, maniqueísta e generalizante. Vou tentar lhe explicar melhor minha visão por etapas. Espero conseguir ser claro.

Maniqueu (c. 216-276): profeta de origem iraniana. Maniqueu (século III a.C): bem x mal.

Por que considero sua posição determinista (ou fatalista)? Porque tenho dúvidas – e a própria ciência parece tê-las também – se indivíduos estão destinados a isso ou àquilo, se existe bondade ou maldade inata. O determinismo biológico, por exemplo, faz sentido quando se trata de fatores genéticos. Sou propenso a ser baixo se, em minha família, nenhum antecessor meu é ou foi alto. Porém, não há provas definitivas de que esse tipo de determinismo valha para explicar, sozinho, certos comportamentos.

Para mim, os primeiros seres da espécie humana não eram bons nem ruins. Assemelhavam-se aos bichos. Agiam mais por instinto. Eram simples e ignorantes. Em contato com o ambiente, ao longo de séculos, foram desenvolvendo a razão, o raciocínio, e aprendendo novas formas de solucionar problemas. Nesse processo, experimentaram muito. Não tinham noção clara de certo e errado, bom e mau. Como animais – mesmo que racionais – carregavam instintos de sobrevivência (luta pela autopreservação).

Homem_primitivo

Talvez o primeiro assassinato da história da humanidade tenha ocorrido por causa de comida. Ao se darem conta de que a morte do outro poderia ser uma solução, os primeiros hominídeos podem tê-la adotado em diversas situações – além de matar por alimento, também passaram a matar para obter sexo, espaço físico, objetos etc. Até hoje, quando uma pessoa é violenta, nós, brasileiros, a chamamos de “animal”.

Os primeiros humanos talvez se parecessem mentalmente com crianças (evidentemente, sem qualquer tipo de formação, instrução). Não possuíam ainda valores morais. Não se pode considerá-los bons ou maus por natureza. A natureza não parece ter valores morais.

Em vista disso, discordo de sua visão determinista. O ser humano não é mau por natureza, da mesma forma que não é bom por natureza. Ele simplesmente é. Existe. Age e reage. O que ele será e como será dependerão do ambiente, de sua formação geral, das experiências ao longo da vida e de como aprenderá a administrar os instintos prejudiciais ao convívio social saudável.

Homem_Meio

Por que considero sua posição maniqueísta? Porque você (mesmo inconscientemente) estipula valores morais do tipo “bom e ruim”, “certo e errado”. Como ter certeza sempre de que algo é bom ou ruim? A experiência pode até ensinar: isso funciona, isso não funciona, isso dá certo, isso não dá certo, isso faz bem, isso faz mal (para mim, para os outros, para todos). Mesmo assim, há casos de  supostos “males que vêm para bem” ou de supostos “bens que vêm para mal”. Como sabê-lo? Difícil…

El-pensador

Lembro ainda as situações em que não se pode afirmar que algo é bom ou ruim. Algo pode não ser nem um nem outro. Pode ser neutro. Ou pode ser bom e ruim ao mesmo tempo – dependendo das circunstâncias ou da perspectiva ou de outros fatores quaisquer.

Enfim, dizer que o ser humano é mau por natureza equivale a defender a ideia de que existe um mal. Como seria isso? O que mais vemos por aí são pessoas agirem de maneira ora construtiva, ora destrutiva (ou de ambas as formas).

Admito a existência de padrões predominantes. Pode haver pessoas que agem de maneira mais destrutiva do que construtiva. Um assassino serial pode ser um exemplo de pessoa má. Todavia, até um criminoso desse tipo pode agir construtivamente em alguns momentos da vida. Seria muito difícil, talvez impossível, apontar uma pessoa totalmente má ou totalmente boa. E repito: o que é bom e o que é mau?

Dexter: serial killer Personagem da série de TV “Dexter”: serial killer “do bem”?

Para admitir o mal de forma absoluta, como você faz de vez em quando, seria preciso admitir também seu oposto, ou seja, o bem absoluto. Nesse caso, se o bem absoluto existe, por que você não pode acreditar, então, que todo ser humano é bom por natureza, e o mundo eventualmente o corrompe? É possível medir a quantidade de bondade e de maldade no planeta?

Assim, o maniqueísmo confunde-se, perde-se. Há mal absoluto? Há bem absoluto? Ou bem e mal misturam-se dentro de cada ser humano? Talvez, então, não haja seres humanos completamente maus, mas apenas seres humanos nos quais o mal predomina. Da mesma forma, haveria outros nos quais o bem predomina. Mais uma vez, é preciso crer em bem e mal… Caímos na armadilha do maniqueísmo.

Em outras palavras, quero dizer: se existe oposição clara entre bem e mal, por que somente o mal seria natural no ser humano? Por que o bem também não poderia sê-lo? Meu ponto de vista é o de que essa divisão entre bem e mal é relativa, se não em todas, pelo menos na maioria das vezes. Lembra-se do filme “Crash – No limite”? Ele é um típico exemplo de rejeição à visão maniqueísta.

Crash_filme

Por último, considero sua posição generalizante. Por quê? Porque não temos elementos suficientes para universalizar e dizer: todos os seres humanos são maus por natureza. Como podemos provar isso? Podemos dizer que há muitos seres humanos destrutivos, mas não podemos dizer, com segurança, que todos o são.

Mesmo quando lemos sobre guerras ou vemos imagens delas, não podemos generalizar e dizer que todos ali são responsáveis pelo conflito. Há vítimas entre eles. Nem todos são favoráveis à luta armada. Muitas batalhas se travam sem apoio popular. Normalmente, é o poder (e o interesse) de uma minoria que empreende a guerra.

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A maldade – ainda que não seja absoluta – parece ser o resultado de instintos animalescos somados a uma mente possivelmente doentia, a uma formação eticamente frágil e a circunstâncias específicas, ou seja, ela pode ter origem tanto no interior quanto no exterior do indivíduo ou em ambos.

Contribuem para ela a personalidade e o caráter, que se moldam pela educação (ambiente), mas também pesam as inclinações individuais (fatores biológicos explicam a agressividade em alguns casos, e até certo ponto). O mesmo se pode dizer da bondade. Mas reitero: não há como ser maniqueísta puro, pois o bem e o mal absolutos talvez não existam. E aqui me rendo quando utilizo a palavra “talvez”…

Esse é um tema realmente complexo, traiçoeiro. De qualquer forma, será que consegui ser claro? Podemos discutir esse assunto horas e horas. Por isso, preferi escrever-lhe esta carta. Por mensageiro eletrônico, seria quase impossível expor todas estas idéias. Por telefone, caríssimo. À distância, enfim, não me parece a melhor forma. Mas, pessoalmente, só se você e eu tivéssemos realmente muito tempo juntos, e ambos estivéssemos com muito boa-vontade para debater a questão, mesmo sem ter a leitura dos milhares de livros que esse tema já gerou ao longo de séculos.

Em todo caso, estou aberto ao debate e à mudança de ideias. Sempre.

Abraço,

Luciano.

P.S.: Em respeito ao fato de você não ser versado academicamente em filosofia, poupei-lhe de citações. Ademais, eu próprio não me considero um expert no assunto.

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