Julgamento apressado, justiça capenga.

A ânsia por justiça é compreensível. Diante de tanta injustiça, é natural e desejável que pessoas de mente, coração e olhos abertos façam algo por um mundo mais justo — ou menos injusto. É compreensível e natural que façam algo por si mesmas, quando se sentem elas próprias injustiçadas. Isso é um direito e — por que não? — também um dever. Afinal, a inação pode ser cúmplice da injustiça. Até aqui, não vejo por que não aplaudir quem age em prol de mais justiça. O problema aparece quando se observa como algumas dessas pessoas “fazem algo”.

 

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No afã de buscar justiça para si próprias ou para mais gente, certas pessoas correm o risco de ser elas também injustas. Como? O juízo apressado é uma entre as várias maneiras de ser injusto na ânsia de ser justo. Neste artigo, optei por focar exclusivamente esse caso. Futuramente, espero tratar de outros.

O julgamento apressado de um fato, de uma pessoa ou de um grupo de pessoas costuma ser resultado de uma conclusão precipitada. Recorro a uma situação imaginária para explicar melhor o que quero dizer.

Ao observar o semblante de um desconhecido em um bar, concluo precipitadamente que ele está irritado, quando, na verdade, ele tem apenas dor de cabeça (obviamente não sei disso). Vou além e passo a julgá-lo. Atribuo sua suposta irritação ao fato de eu estar ali, ou seja, julgo que minha presença o irrita. Ele olha em minha direção e, novamente, percebo certo nervosismo nele. Após alguns minutos, não tenho mais dúvidas: a causa da irritação dele sou eu. Busco, então, dentro de mim, explicações para eu estar incomodando aquele homem. Concluo que o problema está no fato de eu ser asiático. Ele certamente não gosta de asiáticos. Já ouvi dizer que moradores da redondeza têm preconceito contra asiáticos porque eles têm alterado consideravelmente a rotina do bairro. Pronto. Julgado e condenado: aquele homem que faz cara feia para mim é um xenófobo e merece meu desprezo e até punição. Afinal, ele está me constrangendo em público, perturbando meu direito de ir, vir e estar. Assim, num passe de mágica chamado julgamento sumário, o desconhecido que tinha só dor de cabeça vira xenófobo.

 

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Há fatos que comprovam teorias. Há dados, números, fartura de depoimentos que reforçam suspeitas. Lançar mão deles é tão necessário quanto legítimo. Abrir mão deles, porém, representa um desserviço para quem busca honestamente soluções para problemas graves, como preconceito e discriminação. No exemplo acima, ainda que um tanto caricatural (mas possível), atribuí xenofobia a um homem porque me baseei somente no semblante desagradável dele e em comentários (“ouvi dizer”) sobre preconceito contra asiáticos naquele bairro. Fui precipitado, leviano, desonesto, injusto. Eu estava errado. Er-ra-do! Exatamente como muita gente que se apressa em julgar  baseada apenas em suas crenças e em suas “melhores intenções”.

O que vejo amiúde é gente adepta (conscientemente ou não) da chamada pós-verdade. É gente que coloca a carroça (suas crenças, princípios e convicções) diante dos bois (fatos). “Creio, logo existe”, parecem dizer a si mesmas e aos outros, parodiando Descartes.

 

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Até aqui, limitei-me aos equívocos. Há erros resultantes de boas intenções. Infelizmente, há também erros resultantes de má fé. No exemplo fictício acima, eu poderia saber que o homem no bar tinha dor de cabeça e, mesmo assim, acusá-lo de xenofobia caso eu o tivesse abordado, e ele me tivesse tratado mal. Magoado (tenho o direto a ser sensível…), eu lançaria mão desse subterfúgio para revidar o maltrato. Acusaria um homem mal educado e com dor de cabeça de ser xenófobo.

Se acha que exagero, pergunto: em que mundo a leitora ou o leitor vive? Recentemente, ouvi dois relatos semelhantes. Em ambos, pessoas acusaram garçons de preconceito racial sem nenhuma segurança desse comportamento. Eles foram ríspidos como poderiam ter sido com qualquer cliente. Não usaram termos racistas, não expressaram nada que pudesse comprovar a alegação de quem depois viria a acusá-los de racismo.

Experimente falar para essas pessoas que elas foram injustas! Experimente dizer que elas se precipitaram em seu julgamento! Experimente levantar a suspeita de que usaram a defesa de uma causa nobilíssima para revidar a grosseria de um garçom! Experimente dizer que os garçons desses episódios poderiam reclamar de preconceito de classe! Você ouvirá tantos desaforos que sairá se perguntando: onde está a coerência dessas pessoas?

Desista. Elas descobriram um poço sem fundo de argumentos (muitos deles falaciosos) para explicar e justificar tudo. Lançarão você na fogueira do desdém, de forma análoga à que a Igreja Católica da Idade Média fazia, só que concretamente, na “Santa” Inquisição. Os inquisidores também tinham argumento para tudo. Sabiam muito bem justificar seus atos, inclusive os desonestos.

 

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Gosto muito quando os falantes de língua inglesa dizem: “You don’t know that!”. Realmente, como você pode saber? Pode haver numerosas explicações para uma atitude ou um comportamento. Por que a sua tem de ser a certa ou a melhor? Se você não tem certeza, pior ainda. Não pode sair por aí julgando e condenando as pessoas — muito menos de maneira apressada, precipitada. Ah, existe discriminação velada e até invisível? Eu sei. Mas essas situações requerem cuidados redobrados. A subjetividade não pode ser pretexto para acusações infundadas. Porque há casos de acusações infundadas, e negá-los pode ser tão grave (e injusto) quanto ignorar as várias formas de discriminação. Alguém se lembra de que calúnia, injúria e difamação também são crimes previstos em lei? Pois é… Terreno minado esse…

Calma. Em nenhum nanossegundo me passa pela cabeça que não existam homofobia, racismo, sexismo, xenofobia e toda uma vasta gama de posturas preconceituosas, cruéis e criminosas mundo afora e que elas não exijam reparo e punição. Ao contrário. Estou seguro de que existem, são perversas, prejudicam muito e, curiosamente, todas e todos são alvos delas, de uma ou de outra forma, direta ou indiretamente.

Se você tirou a conclusão de que nego essas posturas ou as desculpo, lamento informar que foi uma conclusão precipitada ou, pior, um julgamento apressado. Não quis dizer nem disse isso. O que me incomoda são a incoerência, a inconsequência, a irresponsabilidade, a leviandade e, em alguns casos, a desonestidade de pessoas que lutam por justiça com as mesmas armas daqueles que elas julgam ser causadores de injustiça. Afinal, buscam justiça ou vingança? Movem-se por consciência político-social ou por desforra? Trata-se de reparação ou de retaliação? Todo cuidado é pouco.

 

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