Muito mais que um jovem e seu cão

Zeus era filho de Cronos. Traiu o pai, um tirano, e converteu-se, ele também, em tirano. Mas Zeus era um deus. Para os gregos, durante séculos, Zeus foi o rei dos deuses.

Zeus: o senhor dos deuses para os gregos antigos.

Zeus: o senhor dos deuses para os gregos antigos.

Dar o nome de Zeus a um cão é, simbolicamente, dar-lhe poder, força, superioridade. Significa enxergá-lo como um ser maior. É depositar nele confiança. O curioso disso é que, na verdade, um animal doméstico é que vê em seu dono o poder, a força, a superioridade, um ser maior no qual ele pode confiar, com o qual ele pode contar.

Mal sabe ele que seu dono pode vir a depender dele tanto quanto ele de seu dono! Ou mais… Afinal, quando o dono tem sensibilidade aguçada, ele se relaciona com seu cão como se estivesse diante de um menino. Cães de estimação se parecem com crianças. Mesmo quando bravos, são inocentes. Não têm crueldade, como gente.

Um cão envelhece, mas não amadurece. Portanto, não muda. É sempre o mesmo. Fica mais fácil confiar em um ser que não muda ou só muda um pouquinho, diante de determinadas circunstâncias passageiras.

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É até estranho usar um termo como “dono” porque, psicologicamente, a relação de propriedade entre o bicho e o homem que cuida dele é outra. Zeus, o cão, também mandava, também conduzia, também impunha suas vontades — à maneira dele, do jeito que ele sabia que convenceria seu cuidador — ou assim me pareceu, até onde pude acompanhar essa relação.

O dono, por sua vez, ficou psicologicamente dependente do bichinho. Afinal, aquela criatura só lhe dava alegrias. Tristeza mesmo, só quando morreu. Lá se foi aquele ser que não falava, não escrevia, não compunha, não cantava, mas encantava, distraía, divertia, manifestava-se com o rabo, o olhar, as patinhas. A alguns, claro, ele podia irritar. Ao dono, jamais. Do dono sensível, ele preenchia vazios existenciais.

Era Zeus, o senhor absoluto. Era melhor que o Zeus da mitologia grega porque não maltratava seu súdito. Não o perturbava com palavras agressivas. Só latia quando precisava, quando sentia que algo ia mal. Não mordia seu dono-súdito. Quando recebia carinho, estava dando carinho. Nada pedia em troca. Doava-se.

Mesmo quem não tem cão, gato ou qualquer outro animal de estimação (como eu) é capaz de entender, se tiver oportunidade, a relação de amor entre um homem e seu bicho preferido. São dois amigos, dois cúmplices, dois irmãos. Para quem é crítico da humanidade — cheia de gente mesquinha — seu cão nada tem que ver com o mundo-cão. É o contrário disso. É a porta de saída, a válvula de escape de um planeta difícil de tolerar. O homem sensível vê o bicho e pensa: “Ele é melhor que tanta gente que conheço!”

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Quem ama de verdade não esquece nunca,  não substitui um ente querido por outro como quem troca um carro velho por um novo. Relações de afeto, quando sinceras, sobrevivem. Mesmo quando uma das partes é um cão — e este falece.

Zeus está vivo. Dentro daquele que foi seu dono, ele está vivo. Sempre estará vivo. Além das lembranças, há tudo aquilo que ele, Zeus, construiu sem saber, sem interesse: exercício de amor incondicional, silêncio na hora certa, capacidade de doação e confiança, respeito ao mundo animal, elevação espiritual por meio do afeto descompromissado. A tristeza pela perda pode passar. A memória física e afetiva jamais. Seu dono é uma pessoa melhor hoje porque Zeus foi seu amigo um dia.

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A vida segue, com alegria, tristeza, beleza, fealdade, inteligência, estupidez. O mundo continua a girar, com sua generosidade, sua ganância, sua grandeza, sua pequenez, seus momentos de compaixão e suas guerras sangrentas. Zeus livrou-se dessa gangorra. Seu dono não. Mas há um consolo: se todos os homens decepcionarem, um cão com nome de um deus provou a seu dono que amor de verdade existe.

Nota: Redigi este texto em homenagem a um grande amigo que perdeu seu cão  há pouco tempo e sofre com essa perda como se fosse a de uma pessoa da família. Finalmente, compreendi o quanto um animal de estimação pode fazer diferença na vida de alguém. Eu mesmo, confesso, nunca experimentei esse sentimento – bonito de se ver.

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2 respostas para Muito mais que um jovem e seu cão

  1. ROSELI SILVEIRA disse:

    Gostei de conhecer seu blog. Você deve saber como é cada vez mais rara a escrita correta e estimulante. Que bom que seu texto produz a leitura prazerosa que tenho tido ao zanzar pelos seus posts! Muito legal mesmo. Parabéns!

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