Brasília, Rio, conceitos e preconceitos.

Conheci, outro dia, uma carioca que odeia Brasília. Mais uma! Desconfio de que, de todos os brasileiros, os cariocas sejam os que mais desprezam a capital do país. Por que será?… O debate entre mim e ela foi quente!

Perguntei à carioca se esse incômodo em relação a Brasília não seria despeito pelo fato de a mudança da capital federal para o Planalto Central ter empobrecido o Rio (se for verdade, já são 52 anos de dor-de-cotovelo…). Com um muxoxo, ela descartou de imediato essa explicação. Tudo bem.

Poderia ter levantado outra hipótese: carioca gosta de praia, e Brasília não tem praia. De nada adiantaria. Ela também rechaçaria essa explicação – e estaria certa. Afinal, não creio que os cariocas desdenhem todas as cidades que não fiquem à beira de um rio ou do mar.

A carioca, então, partiu para o ataque. Começou pelo sistema de transporte. Disse que não dá para caminhar pelas ruas de Brasília, o metrô não resolve, e os ônibus são ruins. Alegou também que encontra dificuldade para pegar um táxi na rua. Precisa recorrer a rádio-táxis. Fui obrigado a lhe dar razão. Em parte!

De fato, caminhar por Brasília pode ser complicado. Não há vias que facilitem a vida do pedestre. O metrô ainda circula por área muito limitada. Os ônibus deixam a desejar – embora haja notícia de novos carros, mas não os conheço ainda. Sobre os táxis, vejo muitos circulando pela cidade, e não faltam pontos em toda parte. Talvez ela não tenha tido muita sorte nesse aspecto.

Poderia ter-lhe dito que andar de táxi nas ruas do Rio pode ser difícil naquele trânsito enlouquecedor, sem contar os riscos que os turistas correm de pagar o triplo do preço real de uma corrida quando dão o azar (não tão raro assim) de entrar no carro de um motorista “ichperrto”. Fica para a próxima. Sobre o metrô, lembrei à visitante que Brasília só tem 52 anos. Não deu tempo ainda de ter uma rede de metrô como a de cidades mais antigas, como é o caso do Rio.

Metro_DF

Esgotado o tema transporte, ela partiu para o comportamento dos brasilienses. Para ela, o povo daqui é fechado. Ela acha difícil fazer amigos na cidade. Reclama também da falta de espaços públicos onde se possa conhecer gente e interagir. De novo, só concordei com ela em parte. Realmente, os brasilienses não costumam puxar conversa com desconhecidos. São mais reservados mesmo. Também tive de concordar que a disposição geográfica da cidade não favorece muitos encontros. No entanto…

Precisei lembrar à moça que ninguém faz amizade – amizade mesmo – com quem quer que seja, onde quer que seja, em minutos. Amizades se constroem com o tempo. Se os cariocas puxam papo na praia, no meio da rua, na fila do pão, tudo bem, mas não queira me convencer de que isso é amizade. Conheço o Rio o suficiente para saber que, lá também, uma cidade grande, poucos confiam em poucos, e as relações de rua têm a profundidade de um pires.

Já estive no Rio numerosas vezes e nunca fiz um amigo lá (tenho amigos cariocas que conheci fora do Rio). O povo é falante, geralmente simpático, mais informal que o daqui, mas não necessariamente amigo.

A essa altura da conversa, eu já estava convencido de que a moça tinha mesmo era implicância com Brasília. Ousei dizer-lhe que ela parecia ter preconceito contra a cidade. Ela negou e preferiu seguir argumentando. Aceitei o desafio. Por que não? Se ela queria esculhambar minha cidade enquanto se encontra aqui, que eu ao menos fizesse a defesa! Deselegância por deselegância, eu já não tinha mais nada a perder.

Estava demorando, mas chegou o momento de a carioca mencionar a corrupção em Brasília. De novo, foi necessário que eu recordasse à jovem que corrupção existe em todo o Brasil, inclusive no Estado e na cidade dela. Citei alguns políticos cariocas de quem ela certamente não tem orgulho, e isso se confirmou no embaraço estampado no rosto dela. Também lembrei-lhe algo ainda mais óbvio: a maioria dos políticos que habitam esta capital vem de fora, inclusive do Estado e da cidade dela. Que bom que ela não se atreveu a argumentar contra isso! Teria se enrolado bastante.

Empolgado, aludi à corrupção no Rio que não está exclusivamente no meio político. Não é lá, na Cidade Maravilhosa, que se consolidou uma das maiores redes mundiais de crime organizado? Não foi lá que traficantes abateram um helicóptero em pleno ar, tal e qual uma operação de guerra? Foi só uma vez, ela argumentou. Só uma?! Em quantas cidades do Brasil (e do mundo!), a bandidagem teve a ousadia de abater um helicóptero da polícia em pleno ar? Não fosse o piloto altamente qualificado, teria ocorrido mais uma tragédia carioca.

No afã de demonstrar um mínimo de imparcialidade, eu disse a ela que a violência no Rio vem diminuindo, e o crime tem se esparramado pelo interior do país – inclusive no Distrito Federal. Ela fez questão de lembrar o famoso e velho Caso Galdino, quando adolescentes de classe média alta de Brasília atearam fogo em um índio em uma parada de ônibus. Como tenho o bom hábito de ler vários jornais por dia, estou careca de saber que episódios semelhantes ocorrem Brasil afora com mais freqüência do que ela imagina. O fato de a vítima ter sido um índio e os algozes, filhos de gente importante, atiçou mais o fogo da imprensa.

Mesmo sem-graça, ela não se deu por vencida. Criticou a falta de lugares animados durante a semana. Quando eu lhe disse que em Brasília há bares cheios de segunda a segunda, ela não deu o braço a torcer e criticou as únicas duas amigas que mantém na cidade. Segundo ela, as amigas (?) são pessoas que mergulham no trabalho e, depois, transformam-se em adolescentes em um bar. Para ela, os brasilienses bebem demais. Não sei como, pois, segundo ela, eles não saem, não têm onde se divertir, e a cidade é um tédio!

Contradições à parte, perguntei à moça se ela não estava generalizando muito. Ela nunca me dava uma resposta consistente. Afinal, talvez, no íntimo, ela soubesse que eu poderia dizer absurdos semelhantes, como o de que os cariocas cheiram cocaína demais e, talvez por isso, bebam menos. Não se pode levar argumentos (?) como esses muito a sério!

A carioca que tanto critica Brasília me disse que só esteve no Parque da Cidade uma vez e à noite. Entendi. Não conheceu o verdadeiro parque, onde tanta gente circula com a mesma leveza que se vê nas praias do litoral brasileiro.

Parque Sarah Kubitscheck, o "Parque da Cidade".

Parque Sarah Kubitscheck, o “Parque da Cidade”.

Aposto que ela não foi caminhar pela orla, especialmente no Pontão. Tampouco deve ter ido a uma das festas abertas ou fechadas no Lago Sul, no Lago Norte, no Park Way. Na defensiva, embriagada de preconceito, não poderia mesmo fazer amigos aqui. Mal sabe que adoro levar visitantes aos melhores pontos da cidade! Não será, evidentemente, o caso dela.

O que mais me desanima nesse tipo de comportamento, nesse bairrismo, nessa arrogância, é que nada disso se justifica. Desde quando geografia faz alguém necessariamente melhor? O preconceito cega tanto que, até mesmo para debater, a carioca deixou de lançar mão dos melhores argumentos para enaltecer sua própria cidade (sem menosprezar a minha). Antes de encerrar este texto, cito apenas alguns:

Beleza natural. O Rio é unanimidade nesse quesito. Não há no país – e talvez mesmo fora dele – espaço urbano assentado sobre relevo e vegetação tão lindos.

Mundo artístico. O Rio é produtor e receptor de grandes talentos em todas as áreas das artes. Os cariocas, em geral, parecem ter as artes no DNA.

Mundo esportivo. O Rio também produz e recebe grandes talentos dos esportes, especialmente do futebol. Os times do Rio são os mais tradicionais, e o célebre Flamengo reúne a maior torcida do país.

Gastronomia. Ainda que São Paulo já tenha superado o Rio nessa área, a capital fluminense possui bares, restaurantes, cafés e confeitarias encantadores. Há lugares lindos por dentro e, graças à beleza natural da cidade, por fora também.

Teatro. Há profusão de peças teatrais na cidade, muitas delas a preços convidativos. Isso não existe na maioria das capitais brasileiras (exceto São Paulo) e menos ainda em Brasília, onde não há temporadas longas, e o preço dos ingressos, via de regra, é quase impagável.

Praia. Apesar do trânsito e do barulho, as praias do Rio são belas e movimentadas, onde há oportunidades de paquera e outros tipos de diversão.

Sexo livre. O Rio favorece os encontros casuais. Carência sexual é mais difícil lá. Há certa tradição de liberalidade na capital fluminense. Para quem não tem preconceito contra sexo sem compromisso (com ou sem chance de virar relacionamento), o Rio é sempre uma boa pedida. E como há gente bonita lá!

Gosto do Rio. Só não tenho pelo Rio uma paixão cega e surda. Não sei se espontaneamente moraria lá, mas recomendo o Rio a qualquer turista. Acho que vale a pena conhecer a cidade e desfrutar o que há de melhor nela. Pena que nem todos tenham essa capacidade de isenção, de racionalidade.

O Rio não é o umbigo do mundo, nem a melhor cidade do planeta. Lamentavelmente, alguns cariocas, como essa moça que conheci outro dia, insistem em fazer do Rio um paradigma para o resto da Terra e se fecham para o completamente diferente. Ela se defende e vai longe. Diz que gostou da Polônia. Claro! A capital polonesa, por mais distinta que seja, certamente se parece mais com o Rio do que Brasília. Para quem reclama de a capital federal não ter ruas com nomes, o que se há de fazer?

Parabéns aos cariocas que se deixam conquistar por tudo aquilo que não é espelho! Ao invés de ouvirem críticas negativas a sua cidade, ouvirão elogios pelo que ela tem de bom e farão amigos na capital federal, cicerones cheios de boa vontade, prontos a mostrar que Brasília tem mais que o céu límpido, o horizonte infinito, o cerrado verdejante, e uma qualidade de vida que só se descobre com o coração verdadeiramente aberto.

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Uma resposta para Brasília, Rio, conceitos e preconceitos.

  1. Cláudio disse:

    Amigo, o grande problema do carioca, como eu, não é com Brasília, mas sim, com o quê o ególatra do JK, que queria o seu nome eternizado, fez: proporcionou como consequência do seu devaneio o gigantismo de São Paulo, ou seja, alçou a primeira linha, não Brasília, que não tem papel maior do que a soma da ambição do seu criador, mas uma capital provinciana! Hoje em dia somos obrigados na maior parte do dia, nós e vocês, a nos submeter econômica, política e midiaticamente aos ditames de uma província que cresceu demais. Para terminar vale registrar o quê disse um grande escritor: depois de 1960 o Brasi ficou acéfalo de uma verdadeira capital, e no vácuo dessa o provincianismo barato atrelado ao poderio exclusivamente econômico tomou as rédeas, subjugando fatos históricos, culturais, sendo que estes últimos é que são os verdadeiros artífices da integração nacional.

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