Wando, o autêntico.

O cantor Wando jamais precisaria de minha defesa ou de meus elogios, é claro. Wando dispensa apresentações, menos ainda agora que os meios de comunicação noticiam sua morte e as homenagens que lhe prestam os numerosos fãs. Já eu… Bem, pouco importa.

O fato é que Wando, de quem nunca comprei um disco (ele era da época do vinil), um CD ou um DVD, merece meu respeito. E, quando me refiro ao Wando, tenho a intenção de generalizar o caso dele para o de tantos outros artistas populares que fizeram fama igual ou superior à dele graças a uma característica especial: autenticidade.

Sim, acredito que mesmo quem lança mão de artifícios para sobreviver na selva do showbizz pode ser autêntico em certa medida. Wando, ao que tudo indica, o foi. E é isso que o torna quase uma unanimidade. Por que críticos torceriam o nariz para um cantor e compositor que assumia a própria cafonice?

Wando não queria ser o que não era. Não fingia elegância. Não emulava outras estrelas do pop, como o imbatível Roberto Carlos ou, para citar um estrangeiro, Julio Iglesias. Não me lembro de ter visto Wando de paletó. Ele nunca alisou os cabelos. Nunca escondeu a prática, à primeira vista grosseira, de colecionar as calcinhas que as fãs lançavam para ele durante os shows.

Wando teve carreira linear, no sentido de que sempre manteve o mesmo padrão musical. Não parecia chegado a modismos. Tinha seu enorme fã-clube, que se mantinha fiel a ele por anos e anos e atravessava gerações. Não sei se Wando cortejou grandes emissoras, se teve empresários para negociar a participação dele em programas de auditório. Não sei quase nada da vida dele além do que as tevês vêm alardeando nas últimas 48 horas. Mas, como homem de comunicação que sou, não consigo ignorar esse fenômeno da música brasileira.

Ele é de um tempo em que ser “figuraça” não era um truque de marketing apenas. Era um estilo de vida. Não era maquiagem que se desmanchava às primeiras gotas de chuva. O sujeito era aquilo e vivia do que era. Capitalizava a própria esquisitice ou exotismo. Tanto que, mesmo depois de vender milhões de cópias e consagrar-se como cantor, Wando (e seus semelhantes) não adotou outro visual, tampouco investiu em outro estilo de música. Manteve-se fiel a si mesmo e, por conseguinte, às (e aos) fãs que o consagraram.

Nada contra quem acompanha a mudança dos ventos. Nada contra quem alisa os cabelos, troca a bata pelo paletó, canta e compõe canções que pouco lembram os primeiros anos da carreira. Todos têm seu lugar ao sol e geralmente o merecem. Mas admito que figuras como Wando tornaram-se raras e, apesar de eu não ser um de seus fãs (ainda que nada tivesse contra ele), acho perfeitamente natural que tanta gente, inclusive gente “culta”, “refinada”, faça-lhe homenagens na imprensa e na web, sobretudo nas redes sociais.

Vai aqui, então, neste modesto artigo, minha homenagem também. Talvez valha justamente porque parte (até) de quem não parava para ouvir sua música. Wando tinha muito a ensinar aos que chegam ao mundo do showbizz, a essas celebridades instantâneas que, sem qualquer autenticidade ou talento, precisam exibir o peito, a bunda, os bíceps, os tríceps em rede nacional de televisão.

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