O guarda belo.

Meu amigo W compartilhou comigo uma dúvida pouco modesta. “Fico aqui pensando o que me faz ser tão desejado pelas mulheres, por que elas ficam loucas (por mim)”, ele me disse por Whatsapp. Não mentia nem exagerava. Sou testemunha de que ele provoca suspiros por onde passa e parte corações onde para. Resolvi, então, entrar no jogo dele e fazer minhas apostas.

Image result for Top CatGuarda Belo, personagem do desenho “O Manda-Chuva”, dos estúdios Hanna Barbera.

Pelos padrões atuais de beleza masculina, W está muito bem classificado e, no fundo, sabe disso. Essa foi, portanto, minha primeira aposta. “Acredito que alguns tipos de mulher não teriam interesse em você, mas é fato que a maioria parece ter. O que mais chama a atenção é a beleza física. É seu cartão de visita”, comecei. Ele se mostrou curioso. Prossegui.

“Além disso, deve pesar também seu jeito sedutor. Você joga charme. Outro aspecto: você é gentil, cavalheiro, simpático. Tudo isso conta”, eu disse, e ele não negou. Realmente, W é o típico Don Juan. Dá para notar o quanto se sente bem nesse papel. A simples conquista parece ter valor em si mesma. Até porque suas vitórias no campo da sedução têm prazo de validade. Em pouco tempo, ele já não dá a mínima importância a elas.

Continuei elaborando… Afinal, em minha opinião, W realmente não tem como trunfos somente o aspecto físico e a postura envolvente. É agente de trânsito. No que isso pesa? “Muitas mulheres têm fantasia com homens de uniforme, como o de policial, de bombeiro, de militar. Essas profissões passam a imagem de virilidade.Você é agente de trânsito. Usa uniforme. Isso atiça a fantasia porque transmite a ideia de força, coragem, masculinidade.”

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Mesmo à distância, deu para perceber que ele estava contente. Provavelmente, recebia de mim a confirmação para suas próprias suposições. Como tendo a desconfiar da modéstia, acredito que ele sempre soube ou pelo menos suspeitou da origem de seu poder de sedução. Gente rica sabe que é rica. Gente bonita sabe que é bonita. Gente inteligente sabe que é inteligente. Assim por diante. Até porque há sempre quem lhe faça elogios e acaricie o ego. Poucos são os verdadeiramente inocentes que não se dão conta de seus atributos, sejam eles quais forem.

Parti, então, para a cartada final: “Deve pesar também o desempenho sexual. Provavelmente você agrada na cama. Mesmo que você não mandasse bem no sexo, o simples fato de reunir as características que citei acima já seria suficiente para excitar muitas mulheres. A mera realização da fantasia que você desperta daria ao sexo um sabor especial.” Mais uma vez, ele não negou. Deduzi que estava de acordo.

“Para algumas mulheres, você é uma espécie de troféu. Elas se sentem mais fortes e poderosas diante de si mesmas e de outras mulheres por terem ‘fisgado’ você. Muitos homens sentem o mesmo quando conseguem ‘pegar’ uma mulher gostosa, principalmente se outros a cobiçarem também”, concluí, sem mencionar o termo “homem-objeto”.

W gostou do que eu disse. Confirmou minhas impressões. Eu só não esperava o toque um tanto melancólico de seu comentário final: “Uma pena. Um dia, todo esse brilho vai acabar”. É… Mudamos de assunto.

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São tantas emoções!

Muita gente acredita que o sentimentalismo está no DNA do povo brasileiro. Tenho motivos para crer nisso também. Eita povo que chora! Verte lágrimas quando está triste. Verte lágrimas quando está feliz. Facilmente se comove. Ai de quem é diferente! Leva a fama de frio, insensível, antipático. Sensibilidade, no Brasil, é sinônimo de comoção.

Não deve ser por acaso que telenovelas fazem tanto sucesso por aqui. Elas têm origem no melodrama. São, portanto, melodramáticas por natureza. Até aquelas em que predomina o gênero comédia têm os pés fincados no melodrama. Em algum momento, vão levar seu público às lágrimas. Ele gosta disso, quer isso e ouso dizer até que precisa disso. A teledramaturgia, a um só tempo, satisfaz e estimula esse gosto, essa vontade e essa necessidade do público.

 

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Tampouco deve ser casual o fato de jogadores de futebol brasileiros — inclusive os que integram a Seleção — expressarem tantas emoções em campo. Como a maioria dos jogadores latinos, aliás, os brasileiros xingam, gritam, caem em pranto no gramado, abraçam-se e beijam-se com um ardor incomum. Quem os observa em jogo testemunha uma explosão de sentimentos. Se marcam gol, quanta festa! Parece que a partida está ganha ali, naquele exato instante, mesmo que ainda faltem 40 minutos para seu fim. Se levam um gol, quanta desolação! Parece que a partida está definitivamente perdida ali, naquele exato instante, mesmo que ainda faltem 40 minutos para o apito final.

Como em tudo na vida, há também prós e contras em ser assim. Um dos prós é o valor em si mesmo de colocar para fora o que está sentindo. Vejo como positivo não reprimir sentimentos — dentro, evidentemente, dos limites éticos e legais. Um dos contras é deixar-se dominar pelas emoções quando a situação pede fleuma. Assistindo a uma cena comovente na TV, nada há de prejudicial em desabar em lágrimas. Já em uma partida decisiva de Copa do Mundo, tanto melhor se os jogadores agirem com a frieza indispensável para derrotar a seleção adversária.

 

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Esse sentimentalismo brasileiro certamente está por dentro e por trás das escolhas que levam o Brasil a estar onde está — com todas as suas conquistas e mazelas. Afinal, a mesma emoção do grito “goooooollllllll” e do pranto pelo drama da novela leva milhões de pessoas a elegerem um candidato ou uma candidata que lhe toca o coração e fundo na alma, mas se mostra incapaz de administrar um país tão grande quanto seus problemas.

Esse sentimentalismo brasileiro também deve estar por dentro e por trás das manifestações mais calorosas no âmbito da política, com direito a polarizações radicais. Vive-se um constante Fla-Flu. A observação e a participação no intrincado jogo político, que exige raciocínio, análise, reflexão, ponderação, acaba se convertendo em uma inflamada disputa de egos, crenças e opiniões. Não se constrói consenso assim. Não se desenvolve assim. Não se chega à paz assim.

 

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Se o sentimentalismo está realmente no DNA brasileiro, a melhor ou talvez única saída é aprender a administrá-lo, domá-lo, dosá-lo, para que os prós de ser assim não suplantem os contras, e tudo no Brasil não se restrinja ora a um interminável melodrama, ora a uma igualmente interminável partida decisiva de futebol. O Brasil merece e precisa de muito mais que isso.

 

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Julgamento apressado, justiça capenga.

A ânsia por justiça é compreensível. Diante de tanta injustiça, é natural e desejável que pessoas de mente, coração e olhos abertos façam algo por um mundo mais justo — ou menos injusto. É compreensível e natural que façam algo por si mesmas, quando se sentem elas próprias injustiçadas. Isso é um direito e — por que não? — também um dever. Afinal, a inação pode ser cúmplice da injustiça. Até aqui, não vejo por que não aplaudir quem age em prol de mais justiça. O problema aparece quando se observa como algumas dessas pessoas “fazem algo”.

 

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No afã de buscar justiça para si próprias ou para mais gente, certas pessoas correm o risco de ser elas também injustas. Como? O juízo apressado é uma entre as várias maneiras de ser injusto na ânsia de ser justo. Neste artigo, optei por focar exclusivamente esse caso. Futuramente, espero tratar de outros.

O julgamento apressado de um fato, de uma pessoa ou de um grupo de pessoas costuma ser resultado de uma conclusão precipitada. Recorro a uma situação imaginária para explicar melhor o que quero dizer.

Ao observar o semblante de um desconhecido em um bar, concluo precipitadamente que ele está irritado, quando, na verdade, ele tem apenas dor de cabeça (obviamente não sei disso). Vou além e passo a julgá-lo. Atribuo sua suposta irritação ao fato de eu estar ali, ou seja, julgo que minha presença o irrita. Ele olha em minha direção e, novamente, percebo certo nervosismo nele. Após alguns minutos, não tenho mais dúvidas: a causa da irritação dele sou eu. Busco, então, dentro de mim, explicações para eu estar incomodando aquele homem. Concluo que o problema está no fato de eu ser asiático. Ele certamente não gosta de asiáticos. Já ouvi dizer que moradores da redondeza têm preconceito contra asiáticos porque eles têm alterado consideravelmente a rotina do bairro. Pronto. Julgado e condenado: aquele homem que faz cara feia para mim é um xenófobo e merece meu desprezo e até punição. Afinal, ele está me constrangendo em público, perturbando meu direito de ir, vir e estar. Assim, num passe de mágica chamado julgamento sumário, o desconhecido que tinha só dor de cabeça vira xenófobo.

 

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Há fatos que comprovam teorias. Há dados, números, fartura de depoimentos que reforçam suspeitas. Lançar mão deles é tão necessário quanto legítimo. Abrir mão deles, porém, representa um desserviço para quem busca honestamente soluções para problemas graves, como preconceito e discriminação. No exemplo acima, ainda que um tanto caricatural (mas possível), atribuí xenofobia a um homem porque me baseei somente no semblante desagradável dele e em comentários (“ouvi dizer”) sobre preconceito contra asiáticos naquele bairro. Fui precipitado, leviano, desonesto, injusto. Eu estava errado. Er-ra-do! Exatamente como muita gente que se apressa em julgar  baseada apenas em suas crenças e em suas “melhores intenções”.

O que vejo amiúde é gente adepta (conscientemente ou não) da chamada pós-verdade. É gente que coloca a carroça (suas crenças, princípios e convicções) diante dos bois (fatos). “Creio, logo existe”, parecem dizer a si mesmas e aos outros, parodiando Descartes.

 

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Até aqui, limitei-me aos equívocos. Há erros resultantes de boas intenções. Infelizmente, há também erros resultantes de má fé. No exemplo fictício acima, eu poderia saber que o homem no bar tinha dor de cabeça e, mesmo assim, acusá-lo de xenofobia caso eu o tivesse abordado, e ele me tivesse tratado mal. Magoado (tenho o direito a ser sensível…), eu lançaria mão desse subterfúgio para revidar o maltrato. Acusaria um homem mal educado e com dor de cabeça de ser xenófobo.

Se acha que exagero, pergunto: em que mundo a leitora ou o leitor vive? Recentemente, ouvi dois relatos semelhantes. Em ambos, pessoas acusaram garçons de preconceito racial sem nenhuma segurança desse comportamento. Eles foram ríspidos como poderiam ter sido com qualquer cliente. Não usaram termos racistas, não expressaram nada que pudesse comprovar a alegação de quem depois viria a acusá-los de racismo.

Experimente falar para essas pessoas que elas foram injustas! Experimente dizer que elas se precipitaram em seu julgamento! Experimente levantar a suspeita de que usaram a defesa de uma causa nobilíssima para revidar a grosseria de um garçom! Experimente dizer que os garçons desses episódios poderiam reclamar de preconceito de classe! Você ouvirá tantos desaforos que sairá se perguntando: onde está a coerência dessas pessoas?

Desista. Elas descobriram um poço sem fundo de argumentos (muitos deles falaciosos) para explicar e justificar tudo. Lançarão você na fogueira do desdém, de forma análoga à que a Igreja Católica da Idade Média fazia, só que concretamente, na “Santa” Inquisição. Os inquisidores também tinham argumento para tudo. Sabiam muito bem justificar seus atos, inclusive os desonestos.

 

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Gosto muito quando os falantes de língua inglesa dizem: “You don’t know that!”. Realmente, como você pode saber? Pode haver numerosas explicações para uma atitude ou um comportamento. Por que a sua tem de ser a certa ou a melhor? Se você não tem certeza, pior ainda. Não pode sair por aí julgando e condenando as pessoas — muito menos de maneira apressada, precipitada. Ah, existe discriminação velada e até invisível? Eu sei. Mas essas situações requerem cuidados redobrados. A subjetividade não pode ser pretexto para acusações infundadas. Porque há casos de acusações infundadas, e negá-los pode ser tão grave (e injusto) quanto ignorar as várias formas de discriminação. Alguém se lembra de que calúnia, injúria e difamação também são crimes previstos em lei? Pois é… Terreno minado esse…

Calma. Em nenhum nanossegundo me passa pela cabeça que não existam homofobia, racismo, sexismo, xenofobia e toda uma vasta gama de posturas preconceituosas, cruéis e criminosas mundo afora e que elas não exijam reparo e punição. Ao contrário. Estou seguro de que existem, são perversas, prejudicam muito e, curiosamente, todas e todos são alvos delas, de uma ou de outra forma, direta ou indiretamente.

Se você tirou a conclusão de que nego essas posturas ou as desculpo, lamento informar que foi uma conclusão precipitada ou, pior, um julgamento apressado. Não quis dizer nem disse isso. O que me incomoda são a incoerência, a inconsequência, a irresponsabilidade, a leviandade e, em alguns casos, a desonestidade de pessoas que lutam por justiça com as mesmas armas daqueles que elas julgam ser causadores de injustiça. Afinal, buscam justiça ou vingança? Movem-se por consciência político-social ou por desforra? Trata-se de reparação ou de retaliação? Todo cuidado é pouco.

 

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