Orgulho hétero.

Por muito tempo, acreditei não existir “orgulho hétero”. Sempre ouvi falar de “orgulho gay”. Há décadas, em numerosas cidades do mundo, celebra-se o Dia do Orgulho Gay (ou, para ser mais exato e inclusivo, Orgulho LGBTI). As célebres paradas do orgulho gay reúnem milhões de pessoas, inclusive heterossexuais. Daí eu presumir não haver orgulho hétero. Afinal, para ele, não há sequer data festiva, nem parada. Só que eu estava errado. Existe orgulho hétero, sim! E forte!

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Parada do Orgulho Gay na Cidade do México. Foto: REUTERS.

Homens mais intelectualizados e descolados, via de regra, não alimentam orgulho pelo fato de sentirem atração por mulheres. A maioria dos machos, porém, estufa o peito para dizer que seu “negócio” é exclusivamente o sexo oposto. Adolescentes e até alguns adultos gostam de dizer que são “espada”, símbolo fálico que também invoca a ideia de valentia. Dificilmente se veem mulheres gabando-se de sua orientação sexual, mas também há, entre elas, as que fazem questão de exaltar seus atributos “tipicamente femininos”. Não faltam cantoras que louvam a feminilidade em suas canções.

Vejo esse orgulho como legítimo. Respeito-o. Admito, no entanto, que não o compreendo bem. Na minha cabeça, faz sentido a gente se orgulhar de uma conquista, sobretudo se ela foi difícil. Mas por que alguém se orgulharia de algo inato? Se a pessoa nasce hétero ou gay, ela não fez nada para isso. Não tem mérito algum. Nasceu assim e pronto. No caso da população LGBTI, pode-se até argumentar que, embora tenha nascido com essa ou aquela orientação sexual, ela luta para manter essa orientação. Daí o orgulho de viver “a dor e a delícia de ser o que é”, como diz a canção de Caetano Veloso. Mesmo assim, ainda acho estranho uma pessoa sentir orgulho por gostar de homem ou de mulher ou de ambos.

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Dia da Visibilidade Lésbica. Foto: Star Observer.

Orientação sexual é mais uma característica entre muitas em uma pessoa. Por que despertar orgulho? Por que despertar mais orgulho que outros aspectos? Por que esse orgulho precisa ser alardeado ao mundo? Essas são perguntas sinceras que faço. Não são questões retóricas. Não escondem nenhuma crítica. Fazem parte de uma reflexão legítima. Seria o sexo mais relevante que a vocação profissional, por exemplo? Teria mais importância que a orientação religiosa?

Faz realmente sentido um homem sentir orgulho por ter atração afetivo-sexual só por mulher? Parece-me tão estranho quanto se sentir envaidecido por ser católico ou protestante ou umbandista. O que estaria por trás do orgulho hétero? O sentimento de superioridade por não ser gay? De novo, não entendo por que uma pessoa seria melhor ou pior que outra apenas por sua orientação sexual.

Faz sentido para mim um indivíduo sentir certo orgulho por ter conseguido se formar, estabelecer-se em um mercado de trabalho altamente competitivo, ter uma pós-graduação onde a maioria das pessoas mal consegue completar o Ensino Médio. Faz sentido para mim um indivíduo sentir orgulho por ter se tornado um craque esportivo ou um artista respeitado ou uma autoridade em determinado assunto. Tudo isso envolve esforço físico e mental. Mas ser hétero?! Que esforço um homem faz para gostar de mulher ou uma mulher faz para gostar de homem? Chego a ver um paradoxo aí. Se o orgulho está relacionado à vitória sobre dificuldades, a mulher ou o homem heterossexual teria, então, superado algo para sentir atração pelo sexo oposto?

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Parece-me exagerada a identificação das pessoas com sua sexualidade. Digo exagerada, não descabida. Não me sinto, nunca me senti e acho que jamais me sentirei orgulhoso por causa de minhas preferências sexuais. Sinto orgulho daquilo que lutei para conquistar e/ou para manter: meus estudos, minha profissão, meu trabalho, meu modesto patrimônio, meus amigos, meus amores, minhas superações. Ainda assim, não vejo por que eu deveria sair por aí trombeteando para o mundo o quanto sou orgulhoso de minhas conquistas. Compartilho-as com algumas pessoas, dentro de certos contextos, e isso me basta.

Fico me perguntando se não há um pouco de narcisismo nesse tal orgulho hétero ou gay ou LGBTI (e quantas letras mais ainda aparecer). Quer saber? Estou pouco me lixando para a sexualidade das pessoas — a menos que eu esteja interessado em uma delas. Com quem João ou Maria vai para a cama definitivamente não me interessa. Para mim, a orientação sexual é um detalhe, talvez menos importante que a cor dos olhos ou o comprimento dos cabelos. O caráter da pessoa — seja ela hétero, seja gay, seja assexuada — é que faz diferença para mim.

Sinceramente? Se ainda dou alguma atenção a esse tema é tão somente porque restam trogloditas no mundo que chegam a matar um ser humano por se incomodar com a sexualidade dele. Se tiver orgulho hétero, melhor perdê-lo de vez! Deveria ter, isso sim, vergonha de ser assassino. Próxima página, por favor! Já deu.

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A ditadura dos tuítes.

Quase 4 meses de ausência neste blog… Por que parei? Parei por quê? Falta de tempo? Esse é só um dos motivos. Outro é a impressão de que ninguém quer ler textos com mais de 140 caracteres, ou seja, com extensão superior à de um tuíte. Será que estou exagerando? Talvez. Fato é que este blog já teve mais impacto – ao menos entre as pessoas conhecidas. De uns tempos para cá, o que gera mais reação são frases soltas, comentários curtos, que posto nas redes sociais. Parece que se vive uma ditadura dos tuítes.

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Claro que isso não vale para as celebridades do texto! Escritoras, escritores, articulistas, colunistas, analistas, comentaristas, repórteres da Piauí, essa turma pode redigir à vontade. Tem público cativo. A onda do story telling, aliás, segue firme. Já aos pobres desconhecidos, como eu e milhões de outros, resta a generosidade de quem, por curiosidade ou camaradagem, resolve ler artigos, crônicas, relatos publicados despretensiosamente em um blog ou website sem fama. Tão consciente sou de meu anonimato que dei a este espaço o modesto nome de “O Blog Menos Lido do Mundo”.

Antes que a leitora ou o leitor diga que estou com “mimimi”, preciso deixar claro que a fama nunca foi meu objetivo aqui. O que lamento é a falta de tempo de algumas pessoas e a preguiça de outras tantas diante de um texto que talvez lhes agrade, talvez lhes acrescente algo. Ainda assim, compreendo: sob uma enxurrada de informação, de todos os lados, e a natural falta de tempo para consumir tudo, é preciso selecionar, priorizar. Entre uma reportagem especial de uma estrela da imprensa e um artigo de um blogueiro bissexto, adivinhe por qual a maioria opta.

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Pode ser que a leitora ou o leitor pense com seus botões: “O que falta a esse cara é talento. Se seus textos fossem espetaculares, ele provavelmente já seria sucesso de público e crítica.” Tenho cá minhas dúvidas. Modéstia à parte, quando escrevia para um jornal diário, eu tinha excelente aceitação. Se não tivesse abandonado o lufa-lufa de uma redação, talvez fosse hoje um bem sucedido autor de reportagens especiais em algum periódico do país. Com isso, quero dizer que ao menos parte do êxito de um autor ou de uma autora se deve mais ao veículo onde publica seus textos do que a seu talento para escrever. Não é à toa que, ao deixar o jornal ou a revista onde publicam, jornalistas muitas vezes caem no ostracismo.

Mesmo com talento, é difícil sobreviver como autor sem um mínimo de marketing. Há pessoas que têm o dom adicional de saber “se vender”. Há mesmo quem abra mão de escrúpulos para ganhar a fama. Uma das maneiras mais simples de atropelar a ética é optar pelo sensacionalismo. A cuidadosa (e malandra) escolha de temas e de palavras faz toda a diferença. Atacar uma celebridade ou uma autoridade, criticar um comportamento-padrão, dizer palavrões, entre outros recursos nada nobres, são formas de chamar a atenção independentemente do talento para redigir.

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Seja como for, é preciso que haja leitoras e leitores interessados nesse tipo de conteúdo duvidoso. Curiosamente, sempre há. Na real? Dispenso esse público. A baixar o nível, prefiro o anonimato e a consciência tranquila. Ainda não precisei apelar. Espero que nunca precise. Sigo quietinho por aqui e com meus tuítes nas redes sociais da vida.

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Cabeça erguida ou nariz em pé?

Amina é segura demais ou esconde sua insegurança atrás de uma armadura? Confesso que não sei. A postura é de extrema segurança. O corpo fala: coluna ereta, peito aberto, queixo para cima. Caminha quase como se desfilasse. Diria que olha o mundo por cima. Quando fala, ouve-se a voz da certeza. Quase sempre afirma. Raramente indaga. O olhar, porém, dá a impressão, às vezes, de desconforto íntimo. Seria uma ponta de insegurança? Admito que ainda não sei, mas gostaria de saber se Amina é mesmo tão segura quanto parece ou se criou para si uma personagem superpoderosa.

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Seja como for, Amina é um tipo que cansa – pelo menos me cansa. Sabe aquela pessoa que tem opinião formada sobre quase tudo e conversa com você como se concordar com ela fosse algo óbvio? Afinal, o que ela diz só pode estar certo, não é verdade? O problema é que, para mim, não. Não é verdade tudo o que ela diz. Diria até que só concordo com ela ali na faixa dos 50%, 60%. Dificilmente, mais do que isso. Não que ela seja uma estúpida. De forma alguma. É que seu discurso vem pronto, sem espaço para contestação, nem mesmo para ponderação. Lembra um sanduíche do Mac Donald’s. Não há como fazer alterações. Segue um padrão rígido, idêntico em todas as lojas.

Amina, na verdade, não dialoga. Estabelece um monólogo em que ela sempre tem a primeira e a última palavra. Ai de você se a enfrentar, como caí na besteira de fazer um dia! Erro meu ter engolido tanto “sanduíche verbal” e regurgitado tudo de uma vez! Claro que, dessa forma, parecia ser eu o autoritário! É a velha história: quem atira sempre é suspeito, mesmo que tenha agido em legítima defesa. A propósito, cabe lembrar que ela está sempre na defensiva. Diria até que na ofensiva também – não dizem, afinal, que a melhor defesa é o ataque? Então ela policia, patrulha, quer corrigir o mundo a seu redor. Em português grosseiro: gosta de cagar regra.

Justiça seja feita. Essa postura rígida e altiva se dilui em meio a gestos de cordialidade, brincadeiras, demonstrações de simpatia. Daí não ser visível a olho nu. É preciso ter certo grau de perspicácia para identificar suas tendências autoritárias e sua soberba. É preciso também enfrentar Amina para vê-la colocar, mais claramente, suas afiadas garras de fora. Paradoxalmente, quando expõe sua força, deixa escapar uma aparente fragilidade. É como se, dentro daquela armadura de guerreira, sempre pronta a enfrentar o inimigo (real ou imaginário), houvesse uma pessoa hipersensível. Não me espantaria se, nela, corpo e armadura se confundissem e se retroalimentassem.

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Dou-me ao trabalho de descrever Amina porque acredito haver muita gente parecida com ela por aí. Posso apostar que minhas leitoras e meus leitores se lembrarão de alguém assim. Em ambientes onde se defendem causas, por exemplo, é fácil localizar pessoas desse tipo. Nas universidades públicas, igualmente. É gente aguerrida, sempre pronta para debater ou mesmo brigar. Não raramente, subestima quem pensa de outra maneira. Menospreza ou até despreza quem não está do seu lado da trincheira, mais ou menos na linha do “quem não está comigo, está contra mim”. Ai de quem ousa lembrar a palavra “radical”! Apanha. Pois é…

Essa é uma gente que se sente revolucionária. Sua causa (ou suas causas) justifica tudo. É comum identificar, em pessoas como Amina, o autoritarismo daqueles que julgam saber o que é melhor para todo mundo. É gente que debocha de quem não leu determinadas obras ou não se interessou por determinados temas. Presunçosa, pretensiosa essa turminha! Convicta está de seu heroísmo e, portanto, de sua superioridade moral e intelectual.

Ainda assim, indago-me se, de fato, por trás dessa armadura, não existe fragilidade. Suspeito disso por dois motivos principais: 1- deve haver casos – não poucos – em que a real motivação para o engajamento em uma causa esteja em algum tipo de trauma psicológico (portanto, algo bastante pessoal, individual, subjetivo) e 2- certas lutas pressupõem uma visão mais ou menos romântica do mundo, o que não raramente redunda em alguma dose de ingenuidade. Eis onde entram a fragilidade e, por conseguinte, uma possível insegurança.

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Reconheço que especulo. Não estou aqui para psicoanalisar Amina e seus semelhantes. Minha ideia é compartilhar seu perfil no afã de que outras pessoas se identifiquem comigo e – quem sabe? – ajudem-me a entender e a lidar melhor com pessoas que me parecem tão difíceis às vezes, por melhores que sejam ou que pareçam ser. Gosto sinceramente de Amina. Só não consigo é seguir sua cartilha e, muito menos, ouvir sempre calado seu discurso carregado de supostas verdades, convicções pessoais, indicações rigorosas sobre como agir. Se eu quisesse ouvir pregação, frequentaria uma igreja. Definitivamente, não é o caso.

Amina e todas e todos aqueles que se parecem com ela têm seu lugar na sociedade, seu papel, sua relevância, quando evidenciam injustiças sociais ou crimes socioambientais. Só precisam entender que esse lugar, esse papel, essa relevância não são necessariamente superiores aos de todas as outras pessoas. Se Amina realmente se acha superior ou se, na verdade, usa uma armadura para esconder sua fragilidade é menos importante do que sua postura no mundo, cujo impacto se sente de maneira direta. O dedo em riste incomoda, independentemente de quem o esteja levantando e do porquê de tê-lo levantado. Convém ter em mente a sutil diferença entre cabeça erguida e nariz em pé.

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