Cabeça erguida ou nariz em pé?

Amina é segura demais ou esconde sua insegurança atrás de uma armadura? Confesso que não sei. A postura é de extrema segurança. O corpo fala: coluna ereta, peito aberto, queixo para cima. Caminha quase como se desfilasse. Diria que olha o mundo por cima. Quando fala, ouve-se a voz da certeza. Quase sempre afirma. Raramente indaga. O olhar, porém, dá a impressão, às vezes, de desconforto íntimo. Seria uma ponta de insegurança? Admito que ainda não sei, mas gostaria de saber se Amina é mesmo tão segura quanto parece ou se criou para si uma personagem superpoderosa.

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Seja como for, Amina é um tipo que cansa – pelo menos me cansa. Sabe aquela pessoa que tem opinião formada sobre quase tudo e conversa com você como se concordar com ela fosse algo óbvio? Afinal, o que ela diz só pode estar certo, não é verdade? O problema é que, para mim, não. Não é verdade tudo o que ela diz. Diria até que só concordo com ela ali na faixa dos 50%, 60%. Dificilmente, mais do que isso. Não que ela seja uma estúpida. De forma alguma. É que seu discurso vem pronto, sem espaço para contestação, nem mesmo para ponderação. Lembra um sanduíche do Mac Donald’s. Não há como fazer alterações. Segue um padrão rígido, idêntico em todas as lojas.

Amina, na verdade, não dialoga. Estabelece um monólogo em que ela sempre tem a primeira e a última palavra. Ai de você se a enfrentar, como caí na besteira de fazer um dia! Erro meu ter engolido tanto “sanduíche verbal” e regurgitado tudo de uma vez! Claro que, dessa forma, parecia ser eu o autoritário! É a velha história: quem atira sempre é suspeito, mesmo que tenha agido em legítima defesa. A propósito, cabe lembrar que ela está sempre na defensiva. Diria até que na ofensiva também – não dizem, afinal, que a melhor defesa é o ataque? Então ela policia, patrulha, quer corrigir o mundo a seu redor. Em português grosseiro: gosta de cagar regra.

Justiça seja feita. Essa postura rígida e altiva se dilui em meio a gestos de cordialidade, brincadeiras, demonstrações de simpatia. Daí não ser visível a olho nu. É preciso ter certo grau de perspicácia para identificar suas tendências autoritárias e sua soberba. É preciso também enfrentar Amina para vê-la colocar, mais claramente, suas afiadas garras de fora. Paradoxalmente, quando expõe sua força, deixa escapar uma aparente fragilidade. É como se, dentro daquela armadura de guerreira, sempre pronta a enfrentar o inimigo (real ou imaginário), houvesse uma pessoa hipersensível. Não me espantaria se, nela, corpo e armadura se confundissem e se retroalimentassem.

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Dou-me ao trabalho de descrever Amina porque acredito haver muita gente parecida com ela por aí. Posso apostar que minhas leitoras e meus leitores se lembrarão de alguém assim. Em ambientes onde se defendem causas, por exemplo, é fácil localizar pessoas desse tipo. Nas universidades públicas, igualmente. É gente aguerrida, sempre pronta para debater ou mesmo brigar. Não raramente, subestima quem pensa de outra maneira. Menospreza ou até despreza quem não está do seu lado da trincheira, mais ou menos na linha do “quem não está comigo, está contra mim”. Ai de quem ousa lembrar a palavra “radical”! Apanha. Pois é…

Essa é uma gente que se sente revolucionária. Sua causa (ou suas causas) justifica tudo. É comum identificar, em pessoas como Amina, o autoritarismo daqueles que julgam saber o que é melhor para todo mundo. É gente que debocha de quem não leu determinadas obras ou não se interessou por determinados temas. Presunçosa, pretensiosa essa turminha! Convicta está de seu heroísmo e, portanto, de sua superioridade moral e intelectual.

Ainda assim, indago-me se, de fato, por trás dessa armadura, não existe fragilidade. Suspeito disso por dois motivos principais: 1- deve haver casos – não poucos – em que a real motivação para o engajamento em uma causa esteja em algum tipo de trauma psicológico (portanto, algo bastante pessoal, individual, subjetivo) e 2- certas lutas pressupõem uma visão mais ou menos romântica do mundo, o que não raramente redunda em alguma dose de ingenuidade. Eis onde entram a fragilidade e, por conseguinte, uma possível insegurança.

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Reconheço que especulo. Não estou aqui para psicoanalisar Amina e seus semelhantes. Minha ideia é compartilhar seu perfil no afã de que outras pessoas se identifiquem comigo e – quem sabe? – ajudem-me a entender e a lidar melhor com pessoas que me parecem tão difíceis às vezes, por melhores que sejam ou que pareçam ser. Gosto sinceramente de Amina. Só não consigo é seguir sua cartilha e, muito menos, ouvir sempre calado seu discurso carregado de supostas verdades, convicções pessoais, indicações rigorosas sobre como agir. Se eu quisesse ouvir pregação, frequentaria uma igreja. Definitivamente, não é o caso.

Amina e todas e todos aqueles que se parecem com ela têm seu lugar na sociedade, seu papel, sua relevância, quando evidenciam injustiças sociais ou crimes socioambientais. Só precisam entender que esse lugar, esse papel, essa relevância não são necessariamente superiores aos de todas as outras pessoas. Se Amina realmente se acha superior ou se, na verdade, usa uma armadura para esconder sua fragilidade é menos importante do que sua postura no mundo, cujo impacto se sente de maneira direta. O dedo em riste incomoda, independentemente de quem o esteja levantando e do porquê de tê-lo levantado. Convém ter em mente a sutil diferença entre cabeça erguida e nariz em pé.

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Uma resposta para Cabeça erguida ou nariz em pé?

  1. DILZA MILHOMEM disse:

    Eu sempre prefiro as pessoas simples…as arrogantes eu dou passagem.

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