Preconceitos fora do comum.

É fácil hoje em dia encontrar tanto quem tem quanto quem critica preconceitos contra classe social, cor da pele, orientação sexual, grau de instrução, padrão de beleza, crença religiosa. Há campanhas de massa e ações afirmativas para mitigar esses tipos de preconceito. Por outro lado, destaca-se a reação de quem se incomoda com essas campanhas e ações afirmativas. O embate entre uns e outros é visível, sobretudo nos meios de comunicação, com ainda maior visibilidade nas redes sociais.

No entanto, há outros tipos de preconceito que, talvez por parecerem menos danosos, passam despercebidos. Ninguém se importa muito com eles, principalmente quem deles não é alvo. Aqui vão alguns exemplos:

paul-mccartney-peta-advertising-campaign

  • Comportamento alimentar. O caso mais emblemático é o de vegetarianos e veganos. Por incrível que pareça, existem pessoas que vêem com desconfiança quem não come carnes (vegetarianos) ou não consome nenhum tipo de produto animal (veganos). Assumir-se vegetariano ou vegano pode até causar constrangimento em certos ambientes. Há mesmo atrevidinhos que zombam de quem não aprecia bichos no prato. Acham que se trata de gente sempre e necessariamente neo-hippie ou censora da alimentação dos outros (embora até haja mesmo vegetarianos e veganos assim). Só que isso não é sempre verdade.
  • Erudição. Uma pessoa erudita, ou seja, com conhecimento enciclopédico, muitas vezes desperta preconceito. Ocorre até de causar incômodo. Por mais absurdo que possa parecer, existe quem (por inveja, ignorância ou ambos) trate o erudito como uma espécie de indivíduo culto ultrapassado, démodé, e veja  nele sempre e necessariamente um esnobe (o que não é sempre e necessariamente verdade, ainda que existam numerosos eruditos arrogantes por aí).

dona-de-casa

  • Vida doméstica. Mulheres que, a despeito das conquistas do feminismo, optam por ser donas-de-casa também são alvo de preconceito, especialmente de outras mulheres que, diferentemente delas, trabalham fora e ganham seu próprio dinheiro. É como se essas mulheres do lar ignorassem o esforço e a luta de tantas por direitos iguais aos dos homens. De fato, parece anacrônico uma mulher hoje em dia preferir cuidar da casa, do marido e dos filhos a construir uma carreira e conciliá-la com os compromissos familiares. Mas tal escolha — sobretudo quando, de fato, se trata de opção e não de alternativa única, como no passado — é legítima e merece respeito. Ademais, há mulheres que fazem essa opção por determinado tempo porque desejam, espontaneamente, dar mais atenção a seus filhos e acompanhar a educação deles de perto, pelo menos nos primeiros anos.
  • Profissões. Não é raro encontrar profissionais das chamadas Ciências Humanas com preconceito contra profissionais de Ciências Exatas e vice versa. Isso costuma ocorrer ainda na universidade, quando estudantes de Filosofia, Sociologia, Letras, Arquitetura (para ficar em poucos exemplos) consideram seus colegas de Engenharia (civil, elétrica, eletrônica, mecatrônica etc.), Tecnologia da Informação, Ciência da Computação, entre outros, um bando de asnos que não leram nada. Pensam assim como se não soubessem que aprender a erguer uma barragem, a encontrar soluções para milhões de usuários de informática, a inventar novas máquinas fosse possível sem o uso da inteligência. O mesmo tipo de preconceito descabido existe do outro lado, quando ases do cálculo debocham de “poetas” que mal sabem lidar com a contabilidade doméstica. No meio desse tiroteio infeliz, pobres profissionais de Educação Física! Esses são, volta e meia, comparados a trogloditas que necessitam de pouco cérebro para prescrever treinos ou ensinar o que qualquer um poderia aprender sozinho, como correr, nadar, pedalar, saltar. Na primeira lesão, descobre-se que a falta de devida orientação para a prática de exercício físico regular é um risco mais alto e caro que qualquer preconceito intelectual.

professor-academia

Chega a ser impressionante como seres humanos são capazes de desenvolver idéias preconcebidas e tirar conclusões precipitadas sobre praticamente tudo. Entendo que os exemplos acima tenham realmente menos relevância social, do ponto de vista de escala e impacto, que racismo, sexismo, intolerância religiosa, homofobia, elitismo etc. De qualquer maneira, preconceitos, sejam quais forem, evidenciam uma tendência – talvez natural, infelizmente – a lidar mal com a diversidade.

De onde vem tanta resistência ao diferente? Não tenho a pretensão de querer oferecer uma resposta a essa pergunta (embora eu mesmo tenha, como a maioria, minha cota de preconceito). Contento-me em formular a questão. Afinal, sei de gente que nem sequer pára para pensar nisso…

Publicado em Comportamento | Com a tag , , , , , , , , , , , , , | 4 Comentários

Vantagens de um relacionamento clandestino.

Existe alguma vantagem em um relacionamento clandestino? Quem já viveu a experiência sabe que sim. É a relação ideal? Penso que não. Mas…

Há diferentes motivos para se optar por uma relação amorosa às escondidas. Às vezes, essa é a única opção em dado momento. Às vezes, não é a única, mas a melhor.

Aqui vão alguns exemplos:

  • Um dos dois ou ambos são comprometidos. Não sou nada simpático à idéia da chamada traição, mas há pessoas casadas que conhecem alguém, apaixonam-se, não resistem à paixão e acabam se envolvendo em uma relação extraconjugal. Não sabem ainda se o que vivem é apenas uma aventura passageira ou se vai durar. Então, preferem não abrir o jogo com o parceiro ou a parceira até terem a certeza do que — e de quem — realmente querem.
Relação extraconjugal em clássico da literatura russa.

Relação extraconjugal como tema em um clássico da literatura russa.

  • O tipo de relação é alvo de preconceito ou discriminação ou ambos. É o caso de alguns relacionamentos interraciais, interclasses, homossexuais etc.
Dois homens de classes sociais diferentes: inviável no século 19.

Dois homens de classes sociais diferentes: inviável no século 19.

  •  O casal pertence a grupos inimigos. A tragédia “Romeu e Julieta”, de Shakespeare, retrata um caso clássico, mas há situações mais comuns nos dias de hoje, como relações entre judeus e muçulmanos.
Amor proibido mais famoso da história da literatura.

Amor proibido mais famoso da história da literatura mundial.

Namorar às escondidas, em qualquer uma dessas situações e em outras que não mencionei, pode parecer sempre um desconforto – para dizer o mínimo. Afinal, é preciso mentir, dissimular, ocultar, e isso tem seu preço em termos de consciência e conveniência. No entanto…

Seria mesmo o caso de sacrificar uma relação em que há profundo sentimento ou forte desejo apenas porque não se pode assumi-la em público? Por que abrir mão de uma experiência afetiva só por ela contrariar a opinião ou o interesse de outras pessoas? Em termos mais românticos: vale a pena sacrificar um grande amor só porque não se pode vivê-lo abertamente?

Eis onde entra a importância de se enxergar vantagem onde, aparentemente, só há desvantagem. Uma relação clandestina não precisa ser necessariamente uma tortura. Por mais desagradável que seja em alguns momentos, ela tem seus prós. Aqui vão alguns:

  • Há um forte componente de aventura, de “adrenalina”, numa relação às escondidas. É mais emocionante e, por isso mesmo, mais divertida.
  • Menos pessoas interferem no relacionamento. Quando um casal (ou um trio ou um “quatrilho”, sabe-se lá) tem uma relação de que ninguém tem conhecimento ou apenas poucos o têm, há menos perguntas, cobranças, palpites etc. da parte de terceiros. Casais regulares volta e meia ainda ouvem as clássicas perguntinhas (sobretudo de parentes): “E esse casamento? Quando é que sai?” ou “Já estão planejando um bebê?”.

Caras

  • A inveja fica mais longe. A relação discreta atrai menos (ou nenhuma) inveja, pois ninguém vê o casal exibindo felicidade por aí, nem brigando em público.
  • O grau de intimidade pode ser maior. Sem interferências externas, ou seja, com alguma privacidade e sobretudo graças ao aspecto clandestino da relação, pode-se reforçar a cumplicidade. Os amantes são como fugitivos que só podem contar um com o outro. A união tende a ser mais forte.
Vida real, final romântico.

Vida real, final romântico.

Eu sei que há muitas desvantagens em uma relação clandestina, e ela não me parece a ideal, mas me permito pensar também que — ao menos por certo período de tempo — é possível, necessário e até empolgante manter um relacionamento sem exposição. Mesmo porque, sem pressão social, os amantes só ficarão juntos se estiverem realmente a fim. Caso, um dia, resolvam tornar a relação pública é porque estão de fato seguros do que querem e prontos para enfrentar juntos qualquer obstáculo.

Publicado em Amor & sexo | Com a tag , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Livre até para perder leitores!

Quando era repórter de jornal, recebia salário para fazer o que sempre fiz por gosto: escrever. Mas isso tinha um preço: meu limitado poder de decisão sobre o que, quando e como redigir. Hoje, que não sou mais repórter, nada recebo para produzir textos neste blog. Em compensação…

Os leitores não podem imaginar a satisfação que sinto por escrever o que, quando, quanto e como eu bem quiser. Limitações sempre há. As atuais, porém, não representam nenhum sacrifício para mim. Aqui sou meu próprio patrão — e dos mais complacentes. Não cobro de mim mesmo nem sequer alto índice de leitura.

 

Rompimento3

 

Escolho o tema – pouco me importa se é “quente”. Essa é uma regra jornalística que um repórter jamais pode quebrar em um veículo de imprensa. Posso ficar dias sem publicar uma linha. Eis outra regra que até mesmo os gurus da blogosfera fazem questão de lembrar. Pois eu não me prendo a isso.

Elejo as palavras e o estilo com que pretendo redigir um texto. Se quero empregar um termo ou uma expressão em desuso, emprego-os sem preocupação. Até a extensão do texto é livre decisão minha. Nada da ditadura do número de caracteres!

Liberdade

Claro que essa liberdade também tem um preço: posso perder (ou deixar de conquistar) leitores. Risco, aliás, que qualquer cronista sofre. Talvez eu apenas me arrisque mais. Não sei. Fato é que, tal como uma pessoa autêntica, meus textos só agradam àqueles que realmente apreciam meu jeito de escrever. Não faço concessões, não bajulo leitores.

Mesmo que eu siga uma ou outra regra, não é por obrigação. É porque concordo com ela. Nada me custa. Por exemplo, evitar ofensas e erros de português (segundo o padrão culto do idioma) não chega a ser norma para mim, mas ato espontâneo.

 

Autor

 

Com isso, não quero dizer que dou de ombros para meus leitores e o que eles pensam. Apenas procuro usufruir desse raro prazer de ser eu mesmo neste espaço. Estou seguro de que muita gente gosta de franqueza, sinceridade e espontaneidade tanto em pessoas quanto em textos. Esses devem ser meus leitores fiéis.

Publicado em Relatos & depoimentos | Com a tag , , , , , , , , , , , , | 2 Comentários