Casamento de fato ou de ficção?

O rapaz traiu a namorada sistematicamente anos seguidos. Acabam de se casar. Aparecem sorridentes nas fotos da cerimônia e da recepção. Acontece que ela nunca soube das traições dele – ou fez de conta que não sabia. Se as escapadas dele tivessem vindo a público, ela certamente teria posto fim ao relacionamento.

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Antes que me chamem de moralista, reitero o que já afirmei neste mesmo espaço: fidelidade é opção. Nada tenho contra quem opta por um relacionamento aberto. Se há comum acordo, não existe traição. O problema é que, muitas vezes, há um trato de exclusividade, e só um dos lados o cumpre – ou ambos o descumprem às escondidas.

Trair não é necessariamente ter uma parceira ou um parceiro fixo e ir para a cama com outra ou outro. Trair é mentir. Trair é descumprir um acordo de exclusividade que um dia se fez espontaneamente. Trair é iludir, fazer a companheira ou o companheiro pensar que é único, quando não é.

De volta aos recém-casados: ele sempre fez a namorada (depois noiva) acreditar que ele era um modelo de namorado fiel. Ela duvidou disso algumas vezes, mas ele sempre a convenceu de que ela era única, exclusiva, especial. Ela, por sua vez, deixava claro para ele que, se descobrisse uma traição dele, o relacionamento estaria acabado.

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“Bênção ao jovem casal antes do casamento”, de Pascal Dagnan Bouveret.

É possível que ela jamais tenha acreditado nele. Por paixão ou pelo profundo desejo de se casar (ou por ambos os motivos), ela pode ter fingido tanto para ele quanto para si mesma que ele era mesmo o homem de seus sonhos. Em caso extremo e improvável (pelo que conheço dela), ela pode tê-lo traído também, talvez por vingança, e isso lhe bastou.

Seja como for, parece-me que, em um caso como esse, a união do casal baseia-se em mentiras. Pode ser que ele tenha mentido sozinho. Pode ser que ela tenha mentido também (o que, repito, acho improvável). Fato é que, tudo indica, ela não sabe exatamente com quem se casou. Mesmo que tenha suspeitado da infidelidade dele, ela não tem ideia do quanto ele “pulou a cerca”. Houve época de ele fazer isso todos os dias.

O mais estranho em uma relação assim é que ela pode dar certo. Se a verdade nunca vier à tona, eles não terão mais problemas do que qualquer outro casal. Entre altos e baixos, poderão ter um casamento feliz. Virão filhos, que acreditarão no amor dos pais.

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“Assinando a certidão”, de Edmund Blair Leighton.

Claro está que esse amor (?) une personagens de uma ficção. Ele não é o homem em que ela acredita (ou quer acreditar), e ela talvez não seja a mulher em que ele acredita (ou quer acreditar). Só que se gostam, o sexo entre eles é prazeroso, as famílias aprovam o relacionamento, os amigos também apoiam a união… A força da atração mútua e das conveniências levou-os contentes até o altar.

Não compareci à cerimônia. Não suportaria o cinismo dele e a ingenuidade (ou sujeição) dela, uma vez ciente de que tudo aquilo era reles encenação. Há e talvez haja sempre esqueletos no armário (ele passará a ser fiel com o passe de mágica de uma certidão de casamento?). Se esses esqueletos saírem do esconderijo um dia, não haverá prece que sustente a união dos dois.

Ou talvez haja. Talvez as conveniências socorram o casal, e ela o aceite para manter as aparências e não sair da zona de conforto, mesmo que, dentro de si mesma, corroam a dor da traição, a sensação de estupidez, o ego destroçado. Pode ser também que lhe ampare a mundana convicção de que, ao fim e ao cabo, fez um bom negócio. Afinal, para ela, casar sempre foi um sonho, um projeto de vida, uma questão de honra.

 

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O mulherengo fiel.

Quem tem um amigo mulherengo levante a mão! Todo mundo tem. Posso apostar. Eu tenho vários, mas um se destaca. Pensa e fala de mulher quase o tempo inteiro. A gente se encontra e, mal se cumprimenta, ele já vem com uma história quente sobre uma ou mais garotas. Agora, acredite quem quiser: quando namora, ele é fiel.

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Parece estranho, eu sei. Muitos leitores vão pensar: “Esse cara é ingênuo. Não existe mulherengo fiel”.  O fato é que não tenho motivos para duvidar dele.

Ele se faz de modesto. Diz que não pega mais ninguém: “Já me aposentei”. Segundos depois, o cara-de-pau relata que, dias antes, ficou com uma colega de trabalho ou com uma vizinha ou com uma ex-colega de faculdade. Melhor de tudo: está longe de ser um Rodrigo Lombardi ou um Cauã Reymond ou qualquer que seja o galã do momento.

Esse meu amigo é um tipo bem comum. Nada tem de especial fisicamente. Não se destaca na multidão. Só que tem uma lábia! Nunca duvido de que ele seja capaz de conquistar uma mulher, por mais atraente que ela seja. Já o vi fazer isso muitas vezes. Namorou mulheres lindas. Isto mesmo: lindas (pelo menos para o padrão estético vigente da maioria).

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Ele se gaba, mas não chega a ser arrogante, nem tem o hábito de maltratar aquelas que se apaixonam por ele. Algumas sofreram quando eles se separaram – não porque ele tenha provocado o sofrimento propositadamente. Ele gosta tanto de mulher que não magoaria nenhuma assim de graça. Aliás, ele não é de magoar nem quem o magoa.

Quem lê este meu relato deve imaginá-lo como um Casanova, um Don Juan. Não chega a tanto. Ele não coleciona mulheres. Não acumula relacionamentos. Conquista uma por vez. Que eu saiba, não mente para nenhuma, não ilude nenhuma. Reitero: acredito nele porque ele não teria por que mentir para mim. Quando o censuro, é de brincadeira. Mesmo porque sei que todas as aventuras dele são via de mão dupla. Ele costuma se envolver com mulheres emancipadas, a maioria delas bem resolvida.

Portanto, eu jamais o classificaria como um cafajeste. Prefiro chamá-lo de mulherengo. Seu foco, sua prioridade, é sempre mulher. Um rabo de saia vem antes de carreira, dinheiro, posses e, não raramente, de família e amigos também. Frio? Insensível? Nada disso! O sujeito se apaixona, namora sério e já foi capaz até de dividir o mesmo teto. Não posso reclamar dele como amigo. Só não posso negar que ele é viciado em mulher.

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Admito que o fato de ele ser tão mulherengo me preocupa um pouco às vezes. Profissionalmente, ele estaria em situação muito melhor se tivesse despendido mais tempo estudando e investindo na carreira que envolvido com o mulherio. Talvez pudesse balancear melhor os lados afetivo-sexual e profissional.

Fato é que esse meu amigo é um tipo extremamente agradável e excelente companhia. Quem me garante que seria assim se dirigisse uma BMW do ano e morasse em um sobrado com piscina ou tivesse livros publicados? Talvez o preço do luxo ou do sucesso ou de ambos não fosse pago apenas em tempo e dinheiro, mas também em elevado grau de responsabilidade e, por conseguinte, estresse. Não sei.

No fundo, no fundo, acho que ele gosta da vida que leva. Mesmo quando diz se sentir frustrado no campo profissional, noto nele uma falsa cobrança. É como aquele filho que só tira o diploma para agradar à mãe. Esse meu amigo me passa a impressão de que cobra de si mesmo mais êxito na carreira apenas porque vive em um mundo onde isso tem relevância. Vivesse ele sozinho, em uma terra distante, sem parentes, amigos nem conhecidos por perto, talvez chutasse para o alto o tal “sucesso na vida” e seguisse, sem culpa, a ter e a oferecer prazer às numerosas mulheres que cruzam seu caminho.

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Muito mais que um jovem e seu cão

Zeus era filho de Cronos. Traiu o pai, um tirano, e converteu-se, ele também, em tirano. Mas Zeus era um deus. Para os gregos, durante séculos, Zeus foi o rei dos deuses.

Zeus: o senhor dos deuses para os gregos antigos.

Zeus: o senhor dos deuses para os gregos antigos.

Dar o nome de Zeus a um cão é, simbolicamente, dar-lhe poder, força, superioridade. Significa enxergá-lo como um ser maior. É depositar nele confiança. O curioso disso é que, na verdade, um animal doméstico é que vê em seu dono o poder, a força, a superioridade, um ser maior no qual ele pode confiar, com o qual ele pode contar.

Mal sabe ele que seu dono pode vir a depender dele tanto quanto ele de seu dono! Ou mais… Afinal, quando o dono tem sensibilidade aguçada, ele se relaciona com seu cão como se estivesse diante de um menino. Cães de estimação se parecem com crianças. Mesmo quando bravos, são inocentes. Não têm crueldade, como gente.

Um cão envelhece, mas não amadurece. Portanto, não muda. É sempre o mesmo. Fica mais fácil confiar em um ser que não muda ou só muda um pouquinho, diante de determinadas circunstâncias passageiras.

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É até estranho usar um termo como “dono” porque, psicologicamente, a relação de propriedade entre o bicho e o homem que cuida dele é outra. Zeus, o cão, também mandava, também conduzia, também impunha suas vontades — à maneira dele, do jeito que ele sabia que convenceria seu cuidador — ou assim me pareceu, até onde pude acompanhar essa relação.

O dono, por sua vez, ficou psicologicamente dependente do bichinho. Afinal, aquela criatura só lhe dava alegrias. Tristeza mesmo, só quando morreu. Lá se foi aquele ser que não falava, não escrevia, não compunha, não cantava, mas encantava, distraía, divertia, manifestava-se com o rabo, o olhar, as patinhas. A alguns, claro, ele podia irritar. Ao dono, jamais. Do dono sensível, ele preenchia vazios existenciais.

Era Zeus, o senhor absoluto. Era melhor que o Zeus da mitologia grega porque não maltratava seu súdito. Não o perturbava com palavras agressivas. Só latia quando precisava, quando sentia que algo ia mal. Não mordia seu dono-súdito. Quando recebia carinho, estava dando carinho. Nada pedia em troca. Doava-se.

Mesmo quem não tem cão, gato ou qualquer outro animal de estimação (como eu) é capaz de entender, se tiver oportunidade, a relação de amor entre um homem e seu bicho preferido. São dois amigos, dois cúmplices, dois irmãos. Para quem é crítico da humanidade — cheia de gente mesquinha — seu cão nada tem que ver com o mundo-cão. É o contrário disso. É a porta de saída, a válvula de escape de um planeta difícil de tolerar. O homem sensível vê o bicho e pensa: “Ele é melhor que tanta gente que conheço!”

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Quem ama de verdade não esquece nunca,  não substitui um ente querido por outro como quem troca um carro velho por um novo. Relações de afeto, quando sinceras, sobrevivem. Mesmo quando uma das partes é um cão — e este falece.

Zeus está vivo. Dentro daquele que foi seu dono, ele está vivo. Sempre estará vivo. Além das lembranças, há tudo aquilo que ele, Zeus, construiu sem saber, sem interesse: exercício de amor incondicional, silêncio na hora certa, capacidade de doação e confiança, respeito ao mundo animal, elevação espiritual por meio do afeto descompromissado. A tristeza pela perda pode passar. A memória física e afetiva jamais. Seu dono é uma pessoa melhor hoje porque Zeus foi seu amigo um dia.

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A vida segue, com alegria, tristeza, beleza, fealdade, inteligência, estupidez. O mundo continua a girar, com sua generosidade, sua ganância, sua grandeza, sua pequenez, seus momentos de compaixão e suas guerras sangrentas. Zeus livrou-se dessa gangorra. Seu dono não. Mas há um consolo: se todos os homens decepcionarem, um cão com nome de um deus provou a seu dono que amor de verdade existe.

Nota: Redigi este texto em homenagem a um grande amigo que perdeu seu cão  há pouco tempo e sofre com essa perda como se fosse a de uma pessoa da família. Finalmente, compreendi o quanto um animal de estimação pode fazer diferença na vida de alguém. Eu mesmo, confesso, nunca experimentei esse sentimento – bonito de se ver.

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