Costumo guardar segredos de amigos, mas este preciso revelar. Espero que os leitores não me condenem por isso. Testemunhei atos e ouvi palavras que me assustaram. Necessito desabafar. Isso não é desculpa, eu sei. De qualquer forma, acredito que pelo menos alguns me compreenderão e perdoarão quando lerem o que vem a seguir.

Meu amigo (só direi o nome dele no fim deste relato) revelou para mim ter características típicas de um psicopata. Ele não usou essa terminologia. Eu é que, com meus parcos conhecimentos de psicologia, suspeitei de que ele possa ter esse transtorno de personalidade. Como se não bastasse, presenciei episódios que me levaram a crer que meu amigo pode estar prestes a cometer uma insanidade ou talvez já esteja cometendo uma série de insanidades.
Bem… Talvez não sejam exatamente insanidades. Pode ser que eu veja as atitudes dele dessa forma, e elas pareçam naturais para outras pessoas. Em todo caso, creio ter elementos suficientes para interpretar como insanos vários atos dele, os quais me parecem coerentes com as revelações sobre si mesmo que ele fez a mim.

Ele admitiu algo que eu já havia observado: excesso de razão e ausência de emoção. Na verdade, no caso dele, não acredito haver total ausência de emoção. Parece existir certo déficit nesse aspecto, mas não falta completa. Por outro lado, ele também já provou ser capaz de simular emoções para obter vantagens para si próprio – um dos traços da psicopatia, conforme pesquisei.
Outra característica dele, talvez derivada da anterior, também tem despertado em mim mais atenção: a extrema necessidade dele de manter tudo sob seu controle, especialmente pessoas e situações. Faz isso de maneira sutil. Manipula discretamente.
Já li que psicopatas, justamente por terem esse déficit (ou mesmo ausência) de emoção, buscam prazer no sofrimento dos outros. Nesse aspecto em particular, suspeito de que meu amigo não tenha consciência de seu sadismo. Entretanto, presenciei atitudes dele que me levantaram a suspeita de que ele sente algum tipo de prazer (mesmo inconsciente) em ver algumas pessoas sofrerem – no caso dele, não se trata de satisfação com uma dor física, mas sim psicológica ou emocional ou ambas.

Também li que um psicopata pode levar uma vida normal, por assim dizer. Representa a maior parte do tempo. Usa máscaras conforme seus interesses, objetivos e o ambiente onde está. Por isso, diferentes pessoas podem ter impressões completamente distintas dele. Não por acaso, psicopatas costumam ter dificuldade para manter relacionamentos estáveis – inclusive parceiras ou parceiros sexuais.
O psicopata, segundo minha modesta pesquisa, não sente culpa. Afinal, vê o outro como objeto. Usa-o e descarta-o a seu bel prazer. Alguns fazem isso literalmente, ou seja, cometem crimes e livram-se dos cadáveres. Costumam ser muito inteligentes, e a frieza só os auxilia. Não acredito, nem por um segundo, que meu amigo seja capaz de matar calculadamente, mas já notei o quanto pode ser impressionantemente frio e capaz de tratar algumas pessoas como objeto. Aposto 5 dedos que ele não tem consciência de nada disso. Se tem, sou ingênuo ou não o observei o bastante.

O egocentrismo também aparece entre as características comuns em um psicopata. Esse meu amigo é muito egocêntrico, além de narcisista ao extremo. Costuma ser muito educado quando lhe convém – outro traço que se aponta como típico de um psicopata.
Há mais. Ele tem pouca consciência ética. Já presenciei situações em que demonstrou não ter nenhuma – e agiu com total naturalidade. Palavra-chave: empatia. Meu amigo parece ter baixíssimo nível de empatia. Não sabe se colocar no lugar do outro. Não parece sentir culpa. Se sente alguma, ela passa logo. Pede desculpas, mas não dá para saber se faz isso sinceramente ou apenas para manter sua imagem de pessoa íntegra – ou mesmo para se livrar logo de quem o está chamando à responsabilidade.
Suspeito também de que mente com certa frequência. Não engana sempre, pois não há só tolos no mundo (ainda bem!). Aliás, noto que mente sobretudo para si mesmo – consequência natural de quem se habitua a mentir. Engana-se constantemente.

Diante do espelho cruel da verdade, adota, claro, a negação. Faz de conta que está tudo bem. Faz de conta que não está fora de si. Faz de conta que não está violando uma ética que, um dia, ele mesmo defendeu – inclusive nos bancos de templos religiosos. O hedonismo o fez cego e surdo e apoderou-se dele. Tudo ou quase tudo gira em torno do prazer, quando não da volúpia.
Nada disso seria preocupante se ele vivesse sozinho em uma ilha ou rodeado de pessoas semelhantes ou esses fossem comportamentos isolados, esporádicos. O problema é que age assim com frequência e tem em torno de si pessoas sensíveis, generosas, sinceras, honestas. Muitas delas (ou todas ou a maioria, não sei) acreditam no sorriso e no olhar singelos dele. Seduzem-se por seu jeito adorável, sua beleza, sua inteligência. As mulheres, então! Não sabem que por trás de Dr. Jekyll existe um Mr. Hyde.

Antes que os leitores me acusem de moralista, de juiz vulgar ou de psicólogo barato, defendo-me. Advogo que somente um profissional de psicologia, psiquiatria e/ou neurociência tem a devida competência para dizer se alguém é de fato psicopata. Exponho aqui minhas suspeitas, baseadas no que já li sobre o tema, nas confissões que ouvi, na observação atenta e nas reflexões sobre as ações desse meu amigo. Não por acaso, o título deste relato contém um ponto de interrogação.
Apesar de tudo, não vejo esse meu amigo como um monstro. Longe disso! No entanto, já fiquei surpreso com algumas de suas atitudes, bastante semelhantes às de pessoas tão egoístas, mas tão egoístas que chegam a zombar do mundo a seu redor. Sentem-se acima do bem e do mal (Nietzsche que me perdoe!). Empatia zero!
Ainda quero acreditar que meu amigo esteja vivendo uma fase, embora inconsciente dela. Comete imprudências, age com leviandade e egoísmo, supervaloriza-se em vários momentos. Mesmo assim, desejo profundamente que ele esteja apenas exteriorizando, extravasando desejos reprimidos. Cruzo os dedos!

Agora, preocupa-me quando ele, sem perceber (creio), adota o “Dane-se!” como princípio de vida, com uma pitada de cinismo, ao menos socialmente. No ambiente de estudo e no de trabalho, parece-me que não age assim. Pode ser sinal de que minha suspeita é exagerada.
Li também que o fato de uma pessoa apresentar várias características típicas de psicopatas não significa que ela seja psicopata. Além disso, aprendi ainda que há formas mais ou menos requintadas de manifestação da psicopatia. Ao contrário do que a ficção leva muitos a crer, nem todo psicopata é criminoso, menos ainda do tipo serial killer. Pode ser apenas (?) um sujeito frio e manipulador ou um vaidoso de poucos escrúpulos.
Perdoem-me, mas não direi o nome de meu amigo. Prometi fazer isso por malandragem, para prender a atenção de alguns de vocês até aqui. Não foi por mal. Acreditem. Diferentemente dos psicopatas, tenho cá meus princípios éticos e empatia. Mesmo nos piores momentos, penso nos outros e, quando erro, tento me redimir.

Gosto muito desse meu amigo. Quando nos conhecemos, ele não parecia nem um pouco ser como é. Não gosto de vê-lo assim. Preferia que ele demonstrasse empatia (acho essa palavra e esse sentimento que ela descreve preciosos!), compaixão (diferente de piedade, pena) e consideração pelos outros com mais frequência.
Preferia que ele acordasse e enxergasse além do próprio umbigo, que caísse do pedestal que construiu para si próprio (o qual ele resiste em reconhecer). Preferia que ele fosse mais prudente (sem perder os necessários e saudáveis momentos de loucura). Lamento, porém, que ele esteja cego e surdo para minhas palavras e atos e talvez para os de outras pessoas que, porventura, tentem abrir-lhe os olhos também. Dizem os especialistas que psicopatia não tem cura. Dói pensar que talvez seja tarde demais.