Marco e a capital.

Os globos terrestres têm algo de fascinante. Tornam possível segurar a Terra com a palma das mãos. Marco tem um em seu quarto e se esquece do tempo quando começa a localizar países, mares, cadeias de montanhas. Tem paixão por geografia. Estudaria para ser geógrafo se os pais gostassem da ideia, mas eles já decidiram: Marco cursará Direito e prestará concurso para juiz.

 

 

Com a Terra entre os dedos, Marco de repente se dá conta de que não tem nenhum controle sobre seu futuro. É uma espécie de satélite. Gira em torno de um planeta, sua casa, com todas as suas regras, projetos, princípios, definições. Seguirá uma trajetória preestabelecida, sem espaço para criatividade, improvisação, independência, liberdade.

 

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Marco abandona, então, o globo de papel e vai ao encontro de outro, agora virtual, em seu laptop. Quase sempre faz esse percurso, que termina com a imagem via satélite do telhado do prédio onde mora. Foca no hemisfério ocidental, depois se aproxima do cone meio esverdeado da América do Sul até identificar nitidamente aquele pedaço de terra que lembra mão fechada, quase no formato de coração. Lá está o Brasil.

Dentro dele, bem no centro, aparece uma caixinha. É o Distrito Federal, que aos poucos vai revelando uma cidade-pássaro, Brasília, a capital do país. Asa Norte, Asa Sul, Eixo Monumental… Vai-se reduzindo o foco. Perto de uma mancha verde, o Parque da Cidade, assoma-se na tela o Setor Sudoeste.

 

 

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Dá para se chegar mais perto, mais perto, mais perto, até a quadra, o bloco. Pronto. Vê-se claramente a cobertura. Ali embaixo, no sossego de seu quarto, Marco tenta controlar sua visão do mundo. Pode ampliá-la, reduzi-la. Melhor que o deus Atlas da mitologia, que carregava o planeta sobre as próprias costas, Marco pode sobrevoar a Terra sem sair do lugar. Para ele, naquele momento, é o melhor que pode fazer. Na verdade, por enquanto, é tudo o que pode fazer.

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