Pressão social.

Tenho para mim que uma das principais causas do estresse é a pressão social. Um amigo mais jovem se sente na obrigação de “pegar mulher” sempre que sai para se divertir. Uma amiga não sossega, em festas e shows, enquanto não beija na boca. Outro amigo se esforça sobremaneira para que ninguém desconfie de sua bissexualidade. Uma conhecida nutriu, durante anos, verdadeira obsessão por se casar. Todas essas pessoas sempre me pareceram tensas, angustiadas, estressadas enfim.

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O que faz com que tantas pessoas sucumbam diante da pressão social para adotar um comportamento que, numa ilha deserta, longe de tudo e de todos, provavelmente não adotariam? Parece-me absurdo e até certo ponto ridículo sair com amigas e amigos para se divertir e entrar na paranoia de “pegar alguém”. O que isso representa? Status? Poder? Satisfação carnal? Por que a companhia de pessoas queridas não basta? Por que todo rolê precisa terminar em sexo?

Causam-me estranheza também homens e mulheres que, ao contrário das obcecadas e dos obcecados com “pegar gente”, sacrificam sua sexualidade ou parte dela apenas para supostamente agradar à maioria heterossexual ou heteronormativa. Levam uma vida pela metade porque temem a reprovação e a rejeição de familiares, amigas, amigos. Ora! Não lhes ocorre que essas pessoas certamente têm seus segredos também? Será que elas fazem tudo o tempo todo como manda o figurino de seu meio social?

É razoável supor que reprimidas e reprimidos tenham de lidar com dose mais elevada de estresse. Além da pressão do trabalho, têm de administrar também a pressão do habitat. Acontece que a primeira é praticamente inevitável. Trata-se, afinal de contas, da sobrevivência material. Já a segunda é, em certa medida, opcional, pois ninguém deveria se sentir forçado a fazer isso ou aquilo em seus momentos de lazer, onde supostamente pode gozar de mais liberdade.

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É preciso reconhecer, porém, que a pressão social tem, como toda pressão, sua força. Não é muito fácil enfrentá-la e vencê-la. Família — sobretudo mãe e pai –, círculo de amigas e amigos, colegas de escola ou faculdade ou trabalho, conhecidas e conhecidos da academia ou do curso de idiomas, toda essa galera tem um poder dos diabos. Influenciam escolhas — da roupa ao vocabulário, do restaurante à namorada ou namorado, da série de TV à viagem de férias, da religião à carreira. É um poder imenso que a gente confere a outras pessoas, e elas, por sua vez, conferem à gente. A troco de quê?

A troco da poderosa sensação de pertencimento. As pessoas querem se sentir parte de um grupo. Temem a solidão involuntária, o abandono, o isolamento. Se o preço para pertencer a uma determinada comunidade é abrir mão de expressiva parcela da própria liberdade, que assim seja! Para muita gente, esse preço nem chega a ser alto. Há mesmo quem nem se dê conta de que está abrindo mão de algo valioso para poder se misturar à multidão ou integrar um “clube”. Individualidade, para algumas pessoas, importa bem menos que aceitação social. A identidade delas se confunde com a do meio em que vivem. São um grupo, uma comunidade, uma irmandade, uma comunhão. Não por acaso os jovens gostam tanto de usar a palavra inglesa “brother”. Ela parece mais abrangente que “irmão”, pois transcende o laço sanguíneo para incluir amigos em geral.

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O grupo retribui o sacrifício individual com afetividade, diversão, apoio (material, moral, psicológico, espiritual). Quanto mais coeso o grupo, mais ele favorece a dissolução da individualidade. Mesmo que ele preserve os traços individuais de seus integrantes, o “bando” acaba por padronizar, em menor ou maior extensão, o comportamento de todos. Claro que pessoas também se aproximam porque observam afinidades entre si. Essas afinidades, portanto, precedem a formação do grupo. De qualquer maneira, quando o círculo se forma, ele reforça os traços comuns de seus membros. Fica ainda mais difícil preservar a individualidade em um ambiente de adesão espontânea.

Alguém pode estar se perguntando: que mal há em pertencer a uma comunidade? Os benefícios não superariam os custos? Bem… Cabe a cada um e a cada uma determinar até que ponto a coletividade pode restringir a individualidade. É sempre possível ter vida social e resguardar o próprio “eu”. No entanto, há casos em que a dose de estresse a que algumas pessoas se submetem não compensa a carteirinha de sócio de um clube. O preço de pertencer a um círculo social torna-se alto demais.

Tenho observado que essa necessidade de pertencimento é mais forte na adolescência e na juventude — ou em pessoas adultas que não amadureceram o bastante. No mundo verdadeiramente adulto, ela me parece mais controlada ou dosada. Parece-me pueril a ansiedade de um sujeito que, quando sai para se divertir, precisa “pegar mulher” a todo custo. Classifico de imaturo também o comportamento da balzaquiana que impõe a si mesma a meta de beijar alguém numa festa ou num show custe o que custar. Chega a ser triste ver um rapaz renunciar a uma parte importante de sua sexualidade porque teme a rejeição da família e dos amigos. Desperta compaixão a jovem que aproveita pouco o presente porque não para de sonhar com o futuro de véu e grinalda. São vidas parcialmente desperdiçadas. Quanta perda de tempo e de energia!

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Gosto da ideia de relaxamento, de liberdade, de paz, só possível quando há despreocupação com o que as outras pessoas pensam. Libertas e libertos da pressão social, jovens, homens, mulheres podem levar uma vida mais autêntica, mais alinhada com quem são intimamente. O engraçado é que, ao menos na minha experiência, quanto mais verdadeiro você é consigo mesmo e com os outros, mais satisfeito você fica. Além de se livrar de uma poderosa fonte de estresse, você reforça a autoestima. Curiosamente, faz e mantém mais amigas e amigos. Fica sozinho se quiser, e é claro que muitas vezes você quer. Afinal, nenhum círculo social substitui o prazer da própria companhia.

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