A língua dos jovens.

Quem se relaciona com jovens, seja como for, já deve ter observado que a maioria deles tem hoje a seguinte característica em comum: o uso de poucas palavras. A continuar nesse ritmo, daqui a alguns anos, a comunicação deles será exclusivamente em monossílabos. Os 140 caracteres do Twitter serão equivalentes, para os jovens do futuro, ao que o romance “Guerra e Paz”, de Tolstói, é para os jovens (e até muitos adultos) de hoje (e, sim, esse é um exagero – faz parte do meu estilo).

 

 

Sempre fui loquaz. Desde a adolescência, falo e escrevo mais que a média e adoto um vocabulário quase novecentista mesclado ao atual. Acho meu português meio vintage. Com o tempo, venho desenvolvendo a capacidade de síntese. De qualquer forma, parece-me improvável que, um dia, eu venha a me comunicar com no máximo três palavras, quase todas gírias, como observo meus amigos mais jovens fazendo – principalmente quando escrevem. Na verdade, não estou sequer convencido de que devo buscar incessantemente um quase-silêncio, muito menos o pauperismo vocabular.

Um típico e fictício diálogo virtual entre mim e qualquer um de meus amigos mais jovens ilustra o que estou dizendo:

 

– Tudo bem?

– Blz

– O que tem feito?

– Nd d+

– Como anda a faculdade? Está gostando do curso?

– Top

– E a turma?

– Topíssima

– Já fez muitos amigos lá?

– Hunhun

– Tem planos de fazer estágio?

– Sim

– Algum em mente?

– Ñ

– Se precisar de alguma dica, fique à vontade.

– Vlw

– Como faz para conciliar estudo e rolê (essa é a nova gíria para “balada”)?

– D boa

– Anda saindo muito? Aonde tem ido?

– Barzim. Rolês. Vc?

– Ah, tenho saído pouco. Chego cansado do trabalho durante a semana. Nos fins de semana, vou ao cinema, saio para almoçar ou jantar fora com amigos. Às vezes, vou a alguma festa, mas só quando parece que vai ser muito boa. Muitas vezes, aproveito o sábado e o domingo para dormir, descansar mesmo. Tenho visto muito filme e seriado na Netflix também.

– To lgd

– Tem planos para as férias de julho?

– + ou –

– Como assim?

– Tem q ver c a galera ae

– Entendo…  Combinar viagem em grupo é difícil, né? Cada um quer uma coisa. Fica difícil conciliar os interesses de todo mundo.

– D boa

– Foi bom conversar com você.

– Daora! Tmj!

 

 

O diálogo acima ainda é do tipo desenvolvido (!), embora eu tenha usado muitas abreviações, que alguns leitores, posso apostar, não entenderam. A maioria das conversas sofre longas pausas ou mesmo se interrompe (por parte do jovem) sem explicação, sem despedida. A impressão que se tem é a de que, do outro lado, o sujeito está teclando com mais cinco pessoas, instalando novo aplicativo no smartphone, devorando um sanduíche e sabe-se lá mais o quê. A juventude de hoje é provavelmente a mais multitarefa da história.

No afã de executar “n” funções ao mesmo tempo, os jovens só completam aquelas que, no momento, lhes parecem mais importantes (e sedutoras). Portanto, um download no Spotfy pode ter muito mais relevância que meu interesse na vida deles.

Claro que, nessa onda do diálogo minimalista, o vocabulário também se reduz ao mínimo. Propositadamente, inseri neste texto palavras que praticamente nenhum jovem utiliza hoje em dia, tais como: loquaz, incessantemente, pauperismo, afã. São termos raros tanto na fala quanto na escrita dos mais moços (outro substantivo em desuso).

 

 

Existem, claro, adultos que falam e escrevem pouco, mas raramente usam menos palavras que os jovens, sobretudo os adolescentes.

Eis onde entra minha dúvida: os “teens” de hoje expressam-se quase exclusivamente em duas, três palavrinhas, e reduzem ao mínimo o próprio vocabulário porque as escolas que frequentam não os têm estimulado a explorar mais os potenciais da língua ou são as novas tecnologias da informação e da comunicação que os têm afastado dos padrões linguísticos adotados nas escolas? Talvez os dois motivos combinados? Nenhum desses? Outros? Por ora, não arrisco uma resposta definitiva.

Sinto profunda satisfação em conviver com pessoas mais jovens que eu. Uso gírias também. Esse excesso de síntese e essa redução vocabular (sim, discordo de quem considera essa espécie de “novilíngua” da internet enriquecimento lexical) só me incomodam um pouco porque, como afirmei acima, sempre me expressei com mais palavras e com vocabulário menos vulgar que a média, mesmo quando eu era adolescente. Idade nunca foi motivo para eu ler, falar ou escrever pouco – nem para limitar meu vocabulário.

 

 

Lamento que certos termos estejam desaparecendo, especialmente porque não observo outros que os substituam à altura. Ademais, nessa contabilidade, vejo uma conta de resultado negativo: saem palavras de cena e entram novas que raramente vêm somar ou enriquecer as antigas. Por que não as conciliar? Por que não manter amplo o leque de opções lexicais? Por que restringir o vocabulário? Por que ser sintético demais (ainda que a síntese seja uma qualidade), sobretudo quando é necessário usar mais palavras para se desenvolver, elaborar adequadamente uma ideia? Será que o futuro está na telepatia? Mesmo a telepatia poderia, em tese, empregar mais ou menos sinais comunicativos mentais.

Gosto mais da ideia de uma comunicação farta, como um banquete de letras. Viva o luxo do idioma! Guarda-roupa para cada estação, cada situação. Não é frescura. É manter rica e sofisticada a língua-mãe e, assim, representar melhor o povo que a utiliza. Ser simples não é ser pobre. Xô populismo! Xô demagogia! Português sem miséria! Dicionário para todos!

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