Tio-coruja outra vez.

“Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja. ” (Mateus, 16, 18)

Pensava estar pronto para ter um filho quando minha terapeuta me deu um banho de água fria. Não. Eu não estava pronto. Como assim?! Após meia dúzia de perguntas dela, convenci-me de que ser pai, naquele momento, não era uma boa idéia. Quis a vida que, um mês depois, eu recebesse a notícia de que seria tio pela primeira vez. Fechava-se uma porta, abria-se uma janela. E que janela! Era daquelas que nem um hotel 6 estrelas, de frente para o mar, pode oferecer. Ganhei um sobrinho que, modéstia à parte, tem sido, para mim, nada menos que a perfeição, uma espécie de bênção.

Passaram-se 10 anos. Desenvolvi com meu sobrinho uma relação de amizade, companheirismo, cumplicidade, respeito, amor incondicional. Encontro-o menos do que gostaria. Quando nos encontramos, porém, é uma festa. Ele pula nos meus braços e, por alguns minutos, tenho a sensação de ser muito, muito, muito melhor do que realmente sou. Acho que não preciso dizer que ele supriu completamente meu instinto paterno (se é que isso realmente existe) ou pelo menos o desejo de ser pai.

Um pequeno fanfarrão... Puxou ao tio?

Um pequeno fanfarrão… Puxou ao tio?

Há pouco mais de 11 meses, recebi com surpresa a notícia de que seria tio novamente. A situação era outra. O fator “primeira vez” estava fora da equação, e eu já havia descartado a idéia da paternidade. Portanto, minha atitude foi mais racional que emocional. Dentro de mim, brotavam dúvidas sobre como me portar diante de meu novo sobrinho. Agir com ele como agi com o primeiro? Isso seria possível? Não haveria o risco de eu tratá-lo melhor ou pior que o irmão? Não haveria o risco de eu gostar mais ou menos dele que do irmão? Foram perguntas espontâneas, confusas, estranhas para mim.

Com ele ainda na barriga da mãe, tivemos nosso primeiro contato. Apresentei-me. Ele me respondeu com uma sequência de chutes, que interpretei como ótimo sinal. Foi quando me dei conta de que minhas dúvidas não faziam o menor sentido. Não há ensaio possível para a vida. Ela simplesmente acontece. Sem script. Como o amor. E lá estava meu segundo sobrinho, preparando-se para vir ao mundo! E lá estava eu, tão mais velho que ele e ainda despreparado para esse mesmo mundo!

Eis que ele nasceu e, mais do que nunca, provou que divagações filosóficas, psicológicas, antropológicas, lógicas e ilógicas não têm absolutamente nenhuma serventia para determinadas situações da vida. Vi aquela criaturinha diante de mim, simultaneamente frágil e poderosa, e não tive nenhuma dúvida sobre como agir com ela, nem me perturbou nenhuma preocupação sobre tratar melhor ou gostar mais ou menos dela que do irmão. Estavam ali outro ser, outra vida, outra história para começar. Quaisquer comparações me pareceram estúpidas, inúteis, estapafúrdias.

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Pietro recém-nascido.

O óbvio está certo: cada um é um. Meu segundo sobrinho e eu teremos nossa vivência, nossa relação, e ela, para ser saudável, não precisa ser igual nem sequer semelhante à que já tenho com o primeiro. Será inevitavelmente diferente. Ele é outro. Eu sou outro agora. Tudo isso me parece fascinante. Mirá-lo, tocá-lo, tê-lo em meu colo, tudo isso me fez sentir por ele um único sentimento: amor.

O primeiro sobrinho estava ali, querido como sempre, amigo como sempre e, juntos, ele e eu combinamos que seremos, para o irmãozinho dele e meu segundo sobrinho, companheiros leais, protetores quando e enquanto ele precisar de proteção, orientadores quando e enquanto ele precisar de orientação. Ele veio somar-se e dar novo gás ao time. Para isso, precisará de nossas boas-vindas.

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Sono de anjo.

Recém-nascido, evidentemente ele ainda não fala e não anda, mas já sorri. Abre os olhinhos de leve. Chora de vez em quando. Rodeado de familiares, só em seu inconsciente absorve o encanto e o afeto de todos. O mais engraçado é que não imagina o que sua simples presença representa para cada um em sua volta. Move pedras no íntimo de cada um. Como a flor que rompe o asfalto no poema de Drummond, ele veio trazer alento aos atuais dias secos de nossa (c) idade. Nasceu no auge do estio em Brasília. Que siga assim, como uma chuva refrescante! Bem-vindo, Pietro!

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4 respostas para Tio-coruja outra vez.

  1. Fernanda Maia disse:

    Que linda declaração de amor!!!!!!

  2. Marcus Vinicius disse:

    Muito bom!!

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