Visão e revisão.

Revisão dá trabalho, principalmente a quem presta atenção a detalhes. É o meu caso. Quando reviso um texto com tempo e calma, não fico atento apenas ao uso do idioma. Reflito sobre cada palavra, cada frase, cada parágrafo, cada idéia. Essa análise minuciosa converte-se, depois, em síntese, isto é, em visão de conjunto. Como se sabe, as palavras, que compõem frases, as quais formam parágrafos, são como fios que se convertem em tecido, o texto. Essa trama precisa fazer sentido e inserir-se em um contexto.

Nuvem_palavras

Revisar pode representar ainda maior desafio quando se trata de narração. Pelo menos para mim. O texto narrativo me envolve, me distrai. Daí a necessidade de mais concentração. A história escamoteia falhas do discurso. Serelepe, a narrativa pode enganar o raciocínio lógico. Permite-se irreverências. Tudo isso parece lindo. Viva a liberdade da arte! O problema é que mesmo a arte mais libertária, mais transgressora pode vir a carecer de quem a aprecie. Se for demasiadamente hermética, impenetrável ou confusa, só terá sentido para seu autor – geralmente um aspirante a gênio solitário.

Felizmente para mim, modesto revisor de textos tradicionais, o autor do romance “Desertos” tinha em mente o simples desejo de contar uma história interessante. Não nutria a pretensão de revolucionar a literatura brasileira, muito menos a mundial. Não tinha como inspiração Marcel Proust, James Joyce ou Guimarães Rosa. Queria tão-somente relatar parte de sua vida, um rico período que o marcou para sempre.

Desertos_capa

Com isso, não quero dizer que o autor se contentasse com uma obra medíocre, menos ainda abaixo da média. Ele queria um livro bem escrito, compreensível, com estrutura lógica. Aspirava a uma narrativa majoritariamente linear, na qual o conteúdo tivesse mais importância que a forma, ainda que esta devesse servir ao conteúdo com elegância. Em síntese, seu objetivo era documentar, com clareza, leveza e beleza, passagens extremamente importantes de sua vida.

Foi por isso que aceitei a proposta de revisar “Desertos”. Seu autor, Adriel Amaral, é velho amigo e procurou-me com a humildade de um escritor estreante. Conversamos longamente sobre o livro, embora ele não tenha entrado nos detalhes da história. Dias depois, Adriel enviou para mim os originais impressos, encadernados em espiral. Logo que os recebi, dei início à primeira de algumas leituras. Queria apenas conhecer o conteúdo da narrativa, descobrir o universo no qual eu precisaria mergulhar nas semanas seguintes.

Adriel Amaral em Teotihuacan.

Adriel Amaral em Teotihuacán, México: “Desertos” seria um “road novel”?

À medida que lia o romance, ele me seduzia, pois os fatos saltam das páginas e começam a dançar na frente do leitor.  Mas me contive. Nada de envolvimento emocional com o texto. Parti, então, para uma segunda leitura, pronto a executar a varredura do português. Para meu conforto, Adriel cometeu apenas deslizes aqui e ali. Domina com maestria a língua portuguesa. Não foi trabalhoso revisar seu texto.

Encontrei pouquíssimos erros em “Desertos” (considerando-se a gramática tradicional, como ele próprio me recomendara), assim mesmo porque os procurei com lupa. Se deixei passar algum foi de propósito – para não deixar o texto castiço – ou por se tratar de um tropeço que não faria muita diferença. Mesmo assim, Adriel assustava-se quando se dava conta de que tinha deixado escapar um mero deslize da norma padrão.

Caminho de Santiago: parte da história de Adriel Amaral.

Caminho de Santiago de Compostela: parte da história de Adriel Amaral.

A empreitada mais desafiadora e, por isso mesmo, mais interessante estava na etapa de leitura aprofundada do texto. Não era o caso de mergulhar na história somente. Era preciso identificar nela possíveis equívocos de informação ou de construção. Lembro-me das numerosas vezes em que anotei ao lado de certas passagens: o que exatamente você quis dizer com isso?

A experiência de fazer esse tipo de revisão – que vai além da gramatical e da técnica – deu-me a oportunidade de combinar minhas formações em Jornalismo e em Filosofia. Como jornalista, eu revirava o texto: conteúdo e forma precisavam estar alinhados, dialogar com harmonia. Como graduado em Filosofia, eu perscrutava o discurso em busca de sentidos nem sempre explícitos, apertava o texto contra a parede para extrair dele confissões.

Texto

Quando se passa da camada do uso do idioma, penetra-se na camada do emprego do estilo (o qual pode convir ou não, convencer ou não), em seguida na da verificação da qualidade das informações e, finalmente, adentra-se na camada das idéias. Claro que tudo isso está interligado e pode ocorrer concomitantemente em alguns momentos, mas análises, como a própria etimologia da palavra explica, realizam quebras (lises). A visão de síntese só costuma vir após o despedaçamento do texto. Tem-se, então, uma leitura mais rica.

Bem, assim entendo eu. É o método que adoto e que tem agradado a quem já contratou meus serviços – dos quais, devo dizer, não vivo, pois tenho carreira à parte, à qual me dedico integralmente. A revisão de “Desertos” foi o que jornalistas costumam chamar de free lance, e isso não significa encarar o trabalho como algo menor, como simples “bico”.  Até porque há revisores profissionais, que vivem exclusivamente disso. Adriel deu-me tempo para revisar sua obra de acordo com minha disponibilidade.

A revisão ia além do exercício solitário de refletir sobre palavras e expressões, consultar dicionários, manusear diferentes gramáticas, procurar passagens de determinados livros, acessar o Google para verificar uma informação. Envolvia também encontros com Adriel, tanto para lhe entregar capítulos já revisados quanto para dialogar com ele a fim de compreender por que dissera isso e não aquilo, dessa forma e não de outra, nesse momento e não em outro. Entrevistava-o, enfim. Buscava acessar uma espécie de hipertexto, o próprio autor.

Mulher e criança da comunidade Nuba, no Sudão, onde Adriel trabalhou por alguns anos.

Mulher e criança da comunidade Nuba, no Sudão, onde Adriel trabalhou por alguns anos.

Meu amigo deu-me a alegria e a honra de incluir meu nome em seus agradecimentos, inclusive com palavras tão generosas quanto sinceras. Entre vários elogios, chamou-me de cáustico – sem maldade. De fato, em meu trabalho de revisor, assumi o papel de advogado do diabo. Enfrentei o ego do autor. Fi-lo pensar e repensar no que escreveu. Não obstante, considerei e respeitei sempre suas principais escolhas, seu lugar de fala, sua identidade. Fiz o papel semelhante ao de um editor. E tenho certeza: o romance agradaria com ou sem minha revisão.

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Desejo realizado: noite de autógrafos de “Desertos”, em Brasília (DF).

“Desertos” realizou o desejo do autor. Ali está uma história simples, direta, verdadeira, narrada com clareza, coerência e beleza. É catártica para Adriel e para quem, como ele, já atravessou um longo deserto de depressão e chegou a um oásis onde finalmente encontrou alívio. O romance, apesar da proposital polissemia do título, é tudo menos um deserto de idéias e emoções. A narrativa, em tom confessional, é repleta de ação, em diferentes partes do mundo. Parabéns, Adriel. Que venham outras histórias! Revise-as ou não, farei questão de lê-las.

P.S.: Mais informações, inclusive imagens e um vídeo sobre o romance, estão disponíveis na página “Meu livro: Desertos”, de Adriel Amaral, no Facebook.

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