Fútil rima com inútil? Talvez não.

Curiosidade científica: por que tanta gente sente atração por futilidades? O que explica o fato de uma pessoa perder horas preciosas de seu dia com notícias ou programas que nada acrescentam a sua vida? Diversão, distração, cansaço mental, preguiça de pensar, ignorância? Um pouco disso tudo? Muito de tudo isso?

Talvez o ser humano tenha uma necessidade natural de frivolidade. Daí o consumo de tanto lixo cultural. É uma hipótese plausível. Afinal, creio que dá para combinar diversão, distração, repouso intelectual com um mínimo de inteligência. Isso só não é possível quando o caso é de ignorância (independentemente do grau de instrução da pessoa). Todavia…

Há gente inteligente e bem informada que leva uma vida fútil ou se permite dedicar horas a uma ou mais atividades intelectualmente medíocres. Por quê? De novo, emerge a hipótese da necessidade humana de frivolidade. Se essa suposição faz algum sentido, de onde viria esse impulso?

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Audrey Hepburn em “Breakfast at Tiffany’s”.

 

Há quem prefira responsabilizar o capitalismo pela futilidade no mundo. Não acredito nisso, ainda que o capitalismo seja, de fato, pano de fundo de uma sociedade de consumo que a publicidade alimenta sem parar.

O modo de produção capitalista não caiu do céu nem subiu do inferno; gente o desenvolveu, gente o mantém. Ademais, há uma adesão, até certo ponto espontânea, de muita… gente.

A semente do capitalismo germinou e ainda cresce e dá frutos (ô se dá!) porque houve terreno fértil para ela, ou seja, adeptos tanto entre ricos quanto entre pobres, tanto entre ilustrados quanto entre analfabetos.

Gente gosta de dinheiro. Ponto. OK. Há franciscanos, budistas, minimalistas, entre outros adeptos da vida frugal, que lograram a façanha de desapegar-se da pecúnia. Mas quantos terráqueos vivem genuinamente sem qualquer apego material? Bilhões? Duvido! Milhões? Sei não… Bem, tudo leva a crer que sejam minoria neste cúpido planeta.

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A relação entre materialismo e futilidade é próxima, mas não exatamente necessária. Portanto, o toque de Midas não justifica a atração das pessoas pela frivolidade. Daí minha suspeita de que ela seja natural, como a fome, a sede, a libido. O capitalismo certamente explora essa propensão, tira o máximo proveito dela, mas não é sua causa.

Aliás, a atração pelo fútil é bem anterior ao capitalismo. É possivelmente tão antiga quanto a História. Achados arqueológicos não me deixam mentir. Há séculos, o mínimo não basta. Há séculos, o estritamente necessário é insuficiente. O luxo é um velho imperecível!

Ah, se fosse apenas o luxo! Ele ao menos tem a atenuante de muitas vezes buscar e gerar beleza. O diabo da futilidade é que ela não se limita ao luxo. Ela compreende também o medíocre. Supervaloriza o banal. Ilude. É um falso brilhante.

Diamante

Bem, começo a me afastar do que realmente interessa: a gênese dessa suposta necessidade humana de frivolidade. Fome, sede, libido relacionam-se ao instinto de sobrevivência. Mas o impulso natural ao fútil estaria relacionado a quê?

Na falta de ciência, especulação. Vou chutar. Lá vai!

A carência de futilidade também teria relação com o instinto de sobrevivência, porém no âmbito mental. Se a fome, a sede e o desejo sexual vão ao encontro da preservação física da espécie, a demanda pela vacuidade intelectual garantiria a conservação da mente.

Como assim?! Não seria uma contradição pensar que o consumo de bobagens, ao invés de atrofiar, fortaleceria a psiché?!

Friedrich Nietzsche: mente agitada teria causado colapso mental?

Friedrich Nietzsche: a mente agitada teria causado seu colapso mental?

Sigo especulando. Por mais bizarra que esta hipótese pareça, talvez não seja absurdo supor que o ser humano tenha sentido, em algum momento de seu processo evolutivo, que o conhecimento útil, eventualmente profundo, pode levar a uma espécie de esgotamento mental ou à melancolia ou a ambos. Não por acaso, tantos intelectuais acabam loucos ou deprimidos. Alguns chegam a cometer suicídio.

A atual busca pela frivolidade teria sua origem, portanto, em uma forma primordial e inconsciente de autopreservação. Da mesma forma que a fome — um instinto animal básico — pode degenerar em gula; a sede, em consumo excessivo de bebidas prejudiciais ao organismo; o sexo, em compulsão sexual e luxúria; o desejo original pelo que é leve, ameno, despretensioso, divertido, pode ter-se corrompido em frivolidade.

Seqüência do filme "The Meaning of Life" (Monty Python).

Cena do filme “The Meaning of Life” (Monty Python).

Assim, a necessidade do fútil seria nada mais, nada menos que a degradação da necessidade de descompressão mental.

Certamente, muitos outros já pensaram e escreveram sobre este tema. Não me iludo quanto à possibilidade de ser original após séculos e séculos de filosofia — tanto elevada quanto barata. Fato é que este assunto tomou-me de repente, e bateu em mim a vontade de expor todas estas idéias. Se foram úteis ou fúteis para os leitores, não sei. Para autores em geral, externar pensamentos costuma ser questão de sobrevivência.

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Uma resposta para Fútil rima com inútil? Talvez não.

  1. Luís Cláudio disse:

    Sobrevivência! A frivolidade é vital! Afinal, eu aumento, mas ñ invento…

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