Onde mora o perigo: aventura e ética (parte 1).

Certa vez, um amigo me disse, à queima-roupa, que minha vida é muito certinha, sem emoção, pois não quebro regras. Quando ele assim se expressou, senti vontade de rir, mas lhe respondi educadamente que já quebrei muitas regras, vivi e ainda vivo, sim, diversas emoções. Mal sabe ele! Meu amigo disse gostar de aventura, risco, perigo “de verdade”. Fiquei pensando no que ele me falou. O resultado de minhas reflexões está nos próximos parágrafos e na segunda parte deste artigo, a qual publicarei em breve.

 

Aventura

 

De cara, brotaram dúvidas. O que as pessoas aventureiras querem, afinal de contas? O que buscam no risco, no perigo? Por que se desafiam a si mesmas? Parte da resposta, já sei, está na biologia: adrenalina. Porém, muita gente não tem essa necessidade. Talvez a maioria das pessoas se contente com as pequenas e comedidas emoções do dia-a-dia (algumas nem tão pequenas e comedidas assim…). Por que, então, algumas necessitam de mais adrenalina do que outras? Será que a resposta estaria só na ciência?

 

Biologia, neurologia, psicologia e ciências afins poderiam, sozinhas, esclarecer por que certas pessoas precisam mais de emoções fortes (ou de adrenalina) do que outras? Penso que não. Em todo caso, creio que a ciência pode contribuir muito para elucidar essas questões. A adrenalina, de fato, relaciona-se com o estado de excitação do corpo e da mente, e algumas pessoas parecem querer prolongar ao máximo a secreção desse hormônio. O cérebro ficaria, assim, viciado no prazer que vem do perigo.

 

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Do ponto de vista psicológico, a atração pelo risco pode ter explicação na formação da pessoa, no estilo de vida que leva, nos exemplos que teve ao longo da vida, entre outras hipóteses isoladas ou combinadas entre si. No caso do amigo responsável por despertar em mim esta reflexão, suspeito de que, em uma perspectiva psicológica, ele busque uma válvula de escape para sua rigorosa e extenuante rotina. Quando lhe sobra algum tempo livre, abre a gaiola e solta o pássaro. Vive preso. É natural que deseje voar.

 

Aliás, ouso ir além. Chego a supor que ele próprio não tenha consciência da real dimensão de sua clausura. Não se trata apenas de seu trabalho repetitivo, exaustivo e medíocre, apesar de útil e necessário, digno de meu profundo respeito, por sinal. Trata-se também de uma insatisfação íntima e profunda com o mundo a seu redor.

 

Ele próprio já admitiu, para mim, sentir freqüentemente desprezo pela humanidade. Prefere a companhia dos bichos. Ama a natureza. Evita festas. Aprecia a solidão. Além do trabalho, portanto, há também para ele o cárcere do mundo, ou melhor, da sociedade, da qual ele procura se libertar sempre que pode.

 

Solidao2

 

Dá para ir ainda mais longe. Meu amigo tem outra grade: ele próprio. Conheço-o suficientemente para identificar nele claros indícios de auto-opressão, auto-repressão. À primeira vista, tudo isso parece apenas autocontrole, inteligência emocional. Em parte, é mesmo. Só em parte. O mais, desconfio, é autocensura. Ele não se permite determinados avanços, escolhas, situações. A causa? Atrevo-me, sob o risco de parecer leviano, a apostar em sua criação. Em outros termos: formação familiar.

 

Há um ditado preconceituoso, mas que não deixa de expressar uma imensa probabilidade: “O homem deixa a roça, mas a roça não deixa o homem.” Parafraseio esse dito popular para continuar especulando sobre meu amigo: “O homem deixa a família, mas a família não deixa o homem.” Detalhe: ele ainda mora com os pais, embora tenha quase 30 anos. Outro pormenor relevante: os pais dele são cristãos praticantes, paradoxalmente veterotestamentários, heterodoxos, defensores da moral e dos bons costumes (o que quer que isso queira dizer hoje em dia).

 

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Um jovem, com essas características, teria ou não motivos de sobra para buscar aventura, adrenalina? Continuo no próximo artigo. Até lá!

 

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2 respostas para Onde mora o perigo: aventura e ética (parte 1).

  1. Marcela Correia disse:

    Interessante a análise sobre a “necessidade de adrenalina” para romper com as amarras sejam quais forem. Pode ser a bolha do medo estourada pela coragem e, então, o pássaro voa. Em outros momentos pode ser a falta de autoconfiança, autoestima baixa e aquela bolha parece perfeita, confortável. Mas como o perfeito não existe, bem-vinda, Adrenalina, a bolha da minha alma se abre pra você.

    Parabéns pelo texto.

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