Surto de lucidez.

O verbo inglês “to fall down” pode ter os significados de “cair”, “desabar”, “falhar” e até mesmo “decepcionar”. Daí “Falling Down”, título do filme de Joel Schumacher, no Brasil traduzido como “Um Dia de Fúria” (EUA, 1993, 112 minutos) . O nome da obra no original fornece pistas para a interpretação da história, o que não acontece com o título em português – como de hábito, aliás.

 

Falling_Down_poster

 

Bill Foster, o protagonista, papel de Michael Douglas, vive de fato um dia de fúria, mas seu comportamento não se explica apenas como um súbito ataque de raiva com 24 horas de duração. É o resultado do acúmulo de grandes e pequenas contrariedades na rotina de um homem mentalmente atordoado. Um dia, Foster simplesmente “desaba”, surta e leva sua raiva reprimida às últimas conseqüências.

 

Em um primeiro momento e durante grande parte do filme, é possível até identificar-se e solidarizar-se com Foster. Afinal, ele tem a coragem de expressar o incômodo, a angústia e a indignação que muitos sentem quando se vêem em situações semelhantes às que ele enfrenta: presos em engarrafamentos; diante de lojistas que se recusam a trocar dinheiro para quem não comprar uma mercadoria; vítimas da violência urbana; testemunhas de preconceitos; sujeitos aos abusos do comércio, que freqüentemente se esquece dos direitos do consumidor; e por aí vai (abaixo, link para o trailer do filme).

 

http://youtu.be/gQpTziYzcLQ

 

Com o avançar da história, porém, vai-se descobrindo que Foster não é apenas um cidadão indignado que, um belo dia, perde a cabeça e extravasa sua revolta contra as injustiças do mundo. Ele é também um homem atormentado, desequilibrado mentalmente, que sempre teve tendência a um comportamento violento. Em suma: um sociopata sob controle que, finalmente, deu vazão a sua insanidade.

 

Falling_Down_pic

 

Em certa seqüência da trama, Foster deixa claro que vive uma situação-limite e sem volta. Mostra-se consciente de sua condição de perdedor – o típico looser, tão desprezado na cultura norte-americana. Possivelmente, sente-se decepcionado consigo mesmo. Afinal, está desempregado há um mês, separou-se da mulher e da filha, deve cumprir ordem judicial para manter-se afastado delas. Portanto, faz mesmo todo o sentido o título que remete a “falhar”, “decepcionar” e, finalmente, “desabar”.

 

Fracassado, Foster entra em colapso, desaba. Começa, então, a experimentar a sensação de liberdade de quem nada mais tem a perder. Matar ou morrer torna-se, aos poucos, indiferente para ele.

 

Falling_Down_pic4

 

“Falling Down” é uma crítica à vida urbana atual em praticamente todos os seus âmbitos: afetivo-sexual, econômico-financeiro, político-social. Cada um desses aspectos merece destaque e ganha corpo no filme, mesmo que de passagem: o policial prestes a aposentar-se para agradar à esposa dependente e manipuladora, o desconhecido que protesta no meio da rua porque os bancos consideram-no “economicamente inviável”, o cirurgião plástico milionário que ocupa imensa área verde da cidade com seu campo de golfe particular, os operários que bloqueiam uma avenida para realizar obra inútil apenas para justificar o uso de verbas públicas.

 

Foster, enfim, encarna um paradoxo: sua lucidez sobre si mesmo e o mundo deflagra sua loucura. É como em certo ditado: “A sociedade prepara o crime. O criminoso o comete.”

 

Falling_Down_pic3

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