Down, down, down no high society.

A palavra “rebu”, como redução de “rebuliço”, saiu de moda há tempos. Um ou outro ainda a emprega. Hoje, quem opta pelas gírias prefere dizer “rolo”, “bafão”(versão abrasileirada da expressão francesa “bas fond”), “bafafá”, “barraco”. Os mais formais adotam “qüiproquó”, “pandemônio”, “confusão”, “caos”, entre outros termos.

Em 1974, quando a TV Globo levou ao ar a telenovela “O Rebu”, de Bráulio Pedroso, o título certamente remetia, de imediato, a uma situação confusa, fora de ordem – assim como à palavra “rebuceteio”, que o mais célebre colunista social da época, Ibrahim Sued, empregava maliciosamente no sentido de “festa”.

 

Marca de "O Rebu" de 1974.

Marca da primeira versão de “O Rebu” (1974/75).

 

Em 2014, “O Rebu” certamente leva jovens que dormem tarde e ainda vêem TV aberta a consultar o dicionário ou alguém mais velho para entender o que significa o título da versão reduzida e adaptada da telenovela ora no ar por volta das 23h.

Trinta anos depois, muito mudou. Não por acaso, a TV Globo fez drásticas alterações na trama de Pedroso para que ela possa, no telespectador do século 21, provocar o mesmo impacto de três décadas atrás, quando a primeira versão inovou ao apresentar toda uma história no período de 24 horas, ou seja, entre o início de uma festa e o dia posterior em que teve início a investigação do crime.

 

Marca da versão atual de "O Rebu".

Marca da versão atual de “O Rebu”.

 

A emissora chama de “remake” essa nova versão de “O Rebu”. No sentido literal, de “algo refeito”, está correta. Na acepção corrente de regravação com adaptações indispensáveis, não. “O Rebu” de 2014 tem “O Rebu” de 1974 como referência, como ponto de partida, como argumento básico, mas realiza alterações substanciais na trama original, o que a torna praticamente nova. Inevitável? Penso que sim.

Por isso, defendo a idéia de que não cabe julgar a novela atual baseada na de três décadas atrás. Visivelmente, a proposta da emissora (apesar de empregar o termo “remake”) não é a de apresentar a regravação fiel de um antigo sucesso, mas a de revisitar uma obra e reconstruí-la. Nada há de ilegítimo nisso, diga-se de passagem.

A avaliação de “O Rebu”, versão 2014, merece descolar-se da obra que a inspirou – até porque expressiva parcela dos atuais telespectadores não viu a versão de 1974. Ademais, qual o sentido da comparação se a obra atual tem valor em si mesma?

 

Um corpo na piscina da mansão Mahler.

Um corpo na piscina da mansão Mahler.

 

Mais: o argumento da novela é instigante por si próprio. Durante qualquer recepção (real ou ficcional), uma morte repentina e misteriosa é motivo suficiente para gerar alvoroço. Em uma festa de luxo para dezenas de milionários, então, está garantido o rebu!

Ainda que algum telespectador não resista a comparar uma e outra versão e tenha todo o direito de preferir a primeira à segunda (ou vice versa), “O Rebu” de 2014 tem tantos ingredientes novos que exige nova leitura também, e esta deve considerar óbvia e inevitavelmente o fator tempo. O Brasil de 2014 está bastante diferente do Brasil de 1974.

Dizem os mais pacíficos que gosto não se discute. Em todo caso, como de hábito, tomo a liberdade de aproveitar o mote de “O Rebu” atual para compartilhar com o leitor algumas impressões pessoais.

 

Ângela Mahler e sua "protégée", Duda.

Ângela Mahler e sua “protégée”, Duda.

 

1- De todas, a percepção mais marcante para mim é a presença de uma espécie de realidade virtual paralela à realidade física, quase como uma “second life”. Na festa de “O Rebu” atual, diferentemente do que ocorria 30 anos atrás, numerosos convidados expandem o espaço da recepção. Ao mesmo tempo em que bebem, conversam, dançam, flertam, fofocam no luxuoso ambiente da mansão da anfitriã Ângela Mahler (Patrícia Pillar), eles publicam ininterruptamente comentários e fotos nas redes sociais. A investigação criminal, aliás, levará isso em conta nos próximos capítulos e, assim como a própria festa, parte da apuração também se dará no ambiente virtual, ou seja, as postagens na internet serão vestígios importantes para a polícia desvendar o suposto crime do primeiro capítulo.

2- As intrigas, temperadas com veneno, sempre fizeram parte da sociedade. “O Rebu”, no entanto, explora ao máximo esse aspecto na high society (como, aliás, se dizia nos idos de 1970). Os sócios e, ao mesmo tempo, inimigos cordiais Carlos Braga (Tony Ramos) e Ângela Mahler passam todo o tempo representando para seus convidados, mas acusando e ameaçando um ao outro quando a sós.

 

Ângela Mahler e Carlos Braga: amigos de fachada.

Ângela Mahler e Carlos Braga: amigos de fachada.

 

3- O extremo luxo da mansão Mahler e da própria festa é uma atração à parte. A produção da novela caprichou nos cenários e figurinos. O telespectador mergulha na atmosfera do grand monde. [O único não-VIP é um ladrão de jóias, que se faz passar por convidado em meio à multidão.] Poucos brasileiros tiveram, têm ou terão a oportunidade de estar presentes, como convidados, em uma recepção tão sofisticada.

4- A sonoplastia contribui imensamente para criar tanto o clima de suspense quanto (e principalmente) o de frivolidade, elegância, luxo e luxúria na festa de Ângela Mahler.

5- A combinação de poder, dinheiro e sexo fica mais explícita por meio de seqüências  sensuais e diálogos maledicentes. Farpas não faltam entre amigos (?) e inimigos.

6- As referências de “O Rebu” são mais sofisticadas, diferentemente da média das demais produções teledramatúrgicas da emissora. A primeira seqüência da novela, por exemplo, remete ao filme “Sunset Boulevard” (O Crepúsculo dos Deuses), um clássico do cinema. A presença de canção de Nina Simone na trilha sonora também se insere nesse contexto.

 

Seqüência de "Sunset Boulevard":  a semelhança não é mera coincidência.

Seqüência do filme “Sunset Boulevard”, de 1950: semelhança em “O Rebu” não é mera coincidência.

 

Em suma: em meio a tanto luxo, o lixo das relações de poder e cobiça vem à tona, pouco a pouco, com a ajuda de flashbacks e recursos ultramodernos.

O telespectador envolve-se nessa atmosfera e, mais do que se preocupar com quem pode ter matado o ambicioso Bruno (Daniel de Oliveira), ele quer desvendar mistérios que a trama insinua a conta-gotas, tais como:

1- Por que Ângela Mahler tem tanto afeto e apego a Duda (Sophie Charlotte)? Seria a empresária homossexual e apaixonada pela jovem, como parece ter insinuado sua advogada, Gilda (Cássia Kiss Magro)?

2- Onde está, afinal, o dossiê que incrimina Carlos Braga? O que ele contém exatamente? Quais seriam as provas que o executivo Bruno reuniu contra o ex-patrão e que entregaria à atual patroa, Ângela Mahler, antes de aparecer morto boiando na piscina.

3- Bruno realmente amou Duda ou a linda jovem era somente mais uma peça em seu jogo de conquista de cada vez mais poder e fortuna?

4- Como e por que Bruno teve um caso com Gilda, a advogada de Ângela?

5- Quem atirou na janela do quarto onde Ângela Mahler passava seria a mesma pessoa que matou Bruno e o jogou na piscina?

5- Quem se sairá bem no final? Todos, alguns ou ninguém? Afinal, se o início da trama sofreu mudanças, por que o final também não sofreria? Imprevisível…

 

A advogada Gilda, amante de Bruno.

A advogada Gilda, amante de Bruno.

 

Mesmo com tantos recursos dramatúrgicos e técnicos, há sempre quem reclame. Os mais críticos identificam alguns atores e atrizes com atuação abaixo do desejado; problemas na colorização das imagens (possivelmente, em função da adoção, pela emissora, do sistema 4K ou Ultra HD, de resolução muito superior à atual HD, mas que a maioria dos aparelhos de TV brasileiros não consegue captar); plágio disfarçado de seriados norte-americanos (como “House of Cards”, porém com foco no meio empresarial e não no político) etc., etc., etc., etc.

Concordo com algumas críticas. Discordo da maioria. Mas, como gosto de lembrar meus leitores, utilizo este espaço para compartilhar impressões, idéias, sem elevadas pretensões. Não espero que todos concordem comigo, tampouco apreciem tudo o que escrevo. Por ora, assumo que estou gostando muitíssimo da novela, mas abro mão de qualquer rebu.

Anúncios
Esse post foi publicado em Internet & redes sociais, Televisão e marcado , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Down, down, down no high society.

  1. Lala Campos disse:

    Adorei o texto!! Tb estou apaixonada por essa série e já tenho alguns palpites. Penso que o assassinato nada tem a ver com o atentado a Ângela. A mim é muito claro que Duda com ajuda de Betina contratou Severino (aspirante a garçom) para matar sua “mãe adotiva” (talvez por perceber um interesse homossexual da Ângela que por ciúmes “travava” sua relação com o Bruno ou, simplesmente, por querer a fortuna toda pra ela – uma espécie de releitura de Suzane Von Richthofen). Pierre está há tanto tempo sumido que acho que ele está morto e se isso se confirmar sua morte não foi algo planejado…deve ter morrido por estar no lugar errado ou ter feito algo errado. Minhas suspeitas para a morte de Bruno estavam na cúpula Braga-Lídia e Bernardo-Gilda…mas depois do beijo da Ângela no delegado acho que ela é uma FORTE candidata a mandante do assassinato de Bruno pois o enredo tem “humanizado” demais essa personagem. E se tem uma coisa que não existe naquela festa é gente “boazinha”. Enfim, posso estar totalmente “fora da casinha” (e tomara que sim) para que o final me surpreenda ao ponto de eu dizer: melhor do que eu imaginava! rsrs

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.