Educados mal-educados.

As estatísticas costumam ser generosas com Brasília. A cidade figura entre as que possuem mais elevado grau de renda e escolaridade do Brasil. Para se ter uma idéia, o Distrito Federal (DF) é a primeira Unidade da Federação a receber, do Ministério da Educação, o Selo de Território Livre do Analfabetismo.

Concede-se tal chancela a localidades que atingem 96% de alfabetização, segundo recenseamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O DF atingiu o índice de 96,5%. A cerimônia de entrega do selo foi no último dia 9 de maio.

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Brasília exibe indicadores (entre eles o prestigiado Índice de Desenvolvimento Humano – IDH) de causar inveja a muitos países. No entanto, observa-se que a educação – apresentada como uma, senão a melhor, das soluções para uma série de problemas do subdesenvolvimento – nem sempre faz a diferença por aqui. Obviamente, trata-se, nesse caso, da educação no sentido de instrução escolar.

Alguém duvidaria de que a esmagadora maioria dos moradores do Setor Sudoeste, uma das áreas mais nobres da capital do país, possui curso superior? É praticamente certo que expressivo número deles cursou pós-graduação. Como a relação entre grau de escolaridade e renda costuma ser bem próxima, pode-se inferir facilmente que os prósperos habitantes desse bairro passaram no mínimo 15 anos em bancos escolares. Sem contar o tempo gasto em formação extra, como cursos de idiomas, informática, história da arte, entre outros!

Sudoeste2

Curiosamente, muitos dos ilustres ocupantes de uma das áreas de metro quadrado mais caro do DF demonstram, com espantosa freqüência, que seus diplomas valem pouco ou nada quando se trata de boas maneiras, de respeito a normas públicas, de consideração ao próximo, de política da boa vizinhança enfim. Basta observar como alguns se comportam no tumultuado trânsito do bairro ou onde estacionam seus veículos quando não encontram vaga em frente a seus respectivos blocos. Prender outros carros é comum, e parar em esquinas é a mínima infração que cometem.

Antes de prosseguir, cabe a ressalva: elegi o Sudoeste como uma espécie de microcosmo-padrão da maioria dos bairros nobres de Brasília e de outras cidades brasileiras (onde já notei problemas idênticos e até piores) porque sou antigo morador desse setor, de maneira que me sinto mais à vontade para falar tanto bem quanto mal dele.

Morador descumpre regra do condomínio e deixa carrinho no corredor para vigilane noturno ir buscá-lo.

Morador ignora regra do condomínio e deixa carrinho de compras no corredor para vigilante ir buscá-lo. Detalhe: isso não é serviço do vigia.

Um exemplo corriqueiro ajuda a entender melhor o paradoxo dos educados mal-educados do Sudoeste. Em um bloco onde morei por mais de uma década, localizado em uma das quadras da SQSW, a chamada “área nobre” do bairro, ou seja, a dos prédios de seis andares, freqüentemente ocorria falha no controle remoto que permitia a abertura do portão de entrada da garagem. A administração do prédio encontrou, então, saída razoável para o problema: deu aos moradores a opção de abrir o portão também com uma chave.

Vale lembrar que a maioria dos moradores do bloco (provavelmente todos) tinha aparelho celular. Se eles quisessem, poderiam incluir, na lista telefônica de seus smartphones, o número da portaria do edifício. Assim, na hipótese de tanto o controle remoto quanto a chave falharem (algo raro), eles teriam sempre a opção de ligar para o porteiro e pedir para ele abrir o portão a distância (ou seja, ele não precisaria sequer deixar a portaria).

Na remotíssima possibilidade de o controle, a chave e o aparelho celular não funcionarem, podia-se ainda puxar o freio de mão, desligar o motor e caminhar até a portaria – não muito distante – ou mesmo dar marcha à ré no veículo (manobra um pouco complicada, mas não impossível), sair da rampa da garagem e pedir o auxílio do porteiro. Espantosamente, quando o controle remoto falhava, pouquíssimos adotavam uma dessas alternativas. A grande maioria preferia usar a buzina. Posso apostar que muitos continuam a comportar-se assim até hoje.

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Cumpre observar que tal comportamento não era esporádico. É sempre possível desculpar e relevar o que ocorre uma única vez ou apenas eventualmente. O desrespeito à lei do silêncio era freqüente, abusivo. Detalhe importante: havia uma placa grande e visível, na entrada da garagem, que avisava ser proibido o uso da buzina.

Mais: uma carta-circular chegou às mãos de todos os condôminos e esteve, durante semanas, afixada nos elevadores. Na mensagem, a administração do bloco solicitava gentilmente que os motoristas não buzinassem à entrada da garagem. Aliás, em todo o DF, o uso da buzina é proibido, segundo leis locais. Os moradores do Sudoeste sabem disso.

Eis quando pipocam certas dúvidas: por que pessoas com nível superior de escolaridade e renda não conseguem cumprir norma elementar, como a do uso restritivo da buzina em seu próprio condomínio? Por que não compreendem a importância da segurança para seus próprios apartamentos? Por que não respeitam o direito dos vizinhos de dormir, recuperar-se de uma enfermidade, ler, estudar em casa, sem buzinas constantes sob suas janelas? Por que se ofendem quando alguém lhes recorda uma regra, norma ou lei? De onde vem tanto egoísmo? Qual a origem de tanta preguiça?

Egoismo

Realmente, comportamentos como esse e outros dão margem à desesperança. Afinal, quando se defende a educação para todos, há a expectativa de um mundo mais justo e aprazível em diversos sentidos. No entanto, ao observar-se a atitude de determinadas pessoas que tiveram acesso a uma educação de qualidade e a bons postos de trabalho, desencanta-se, desanima-se.

Sempre penso: o resto do Brasil (e significativa parte do mundo) quer chegar ao nível de emprego, renda e educação formal que o Sudoeste alcançou. Mas, quando/se o atingir, ainda será assim: mal-educado, em termos de cidadania?

A educação pode ter contribuído para meus privilegiados vizinhos “subirem na vida”, mas não para ter educação realmente, em sentido amplo, que envolve o respeito aos direitos de todos e aos deveres mínimos para a saudável e civilizada convivência social.

Falta, evidentemente não a todos, mas a muitos deles, a verdadeira prática da civilidade, às vezes mais que nos chamados “excluídos sociais”, que não puderam freqüentar uma faculdade. Confirma-se, mais uma vez, que a educação formal, por si só, não basta para constituir cidadãos de verdade.

A civilidade genuína depende também da consciência individual, da formação dentro de casa desde a infância, de campanhas educativas ininterruptas e, claro, de maior fiscalização e punição por parte do poder público. Como uns e outros falham amiúde, durma-se com um barulho desses!

Civilidade-transito

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2 respostas para Educados mal-educados.

  1. A gente fica realmente acabrunhada com um comportamento assim. Lamentável sob todos os ângulos.

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