Dedo na ferida.

Os leitores que me desculpem, mas um dia eu acabaria por tratar deste tema aqui. A maioria de nós evita-o no dia-a-dia. Não sem razão. Morte é um assunto que incomoda, porque angustia, deprime. Em muitos, chega a provocar revolta.  Só que, por ela ser inevitável, creio ser preciso pensar nela de vez em quando. Se a reflexão não evita a dor, ao menos ajuda a suportá-la com algum grau de sobriedade.

Death1Minha tia e eu não nos encontrávamos pessoalmente com freqüência. Morávamos em cidades diferentes. Mas quem disse que não se encontrar é sinônimo de não gostar ou de não sentir a presença? Eu sabia que ela estava lá e, graças a uma rede social, mantínhamos contato quase diário, acompanhávamos a vida um do outro.

Ela era o esteio psicológico de muita gente, inclusive de meu pai e de minha irmã caçula. Uma de suas últimas postagens na rede pedia orações ao sogro, um senhor com mais de 100 anos, entre a vida e a morte em um hospital. Ironicamente, ela se foi antes dele. Partiu de repente, quando menos se esperava. Havia realizado check-up recentemente. Nada visivelmente errado com a saúde, e um infarto fulminante levou-a em questão de minutos.

Death2Como se sabe, o fator surpresa é uma agravante quando se trata de lidar com a morte. Desconheço quem esteja realmente pronto para ela, mas uma doença, uma longa estada em um hospital, um quadro instável, boletins médicos desanimadores podem, aos poucos, ir prevenindo parentes e amigos, que psicologicamente começam a admitir a hipótese de uma perda iminente. Por mais que se agarrem à esperança, passam a conceber a idéia de o pior acontecer. Não deixa de ser uma forma de preparação, ainda que a dor seja inevitável.

A morte repentina tira-nos todos da zona de conforto. Chacoalha tudo. Desarruma a casa interior. Como um súbito vendaval, destelha, derruba paredes, estraga o jardim. Raios e trovões dão um choque de realidade. Lembramos, então, que o destino é traiçoeiro, malicioso e não raramente cruel. Às vezes, deixa-se prever, ilude-nos com a possibilidade de controlá-lo ou ao menos administrá-lo. De repente, ergue o topete, deixa-nos de joelhos e mostra quem manda, ao surpreender, alterar planos, eliminar expectativas. Tudo isso soberbamente, sem se dignar a dar explicações.

Sadness

É evidente que as reações humanas variam diante da morte. Uns reagem melhor que outros, seja por temperamento, seja por experiência, seja por ambos. A grande maioria sofre, em maior ou menor grau. A indiferença, porém, desperta suspeita: falta de empatia, distúrbio neurológico, recalque, representação, orgulho? Difícil dizer…

Estou entre os que reagem mal à morte. Mesmo que não grite e até hoje não tenha entrado em pranto convulsivo diante de um esquife, sinto profunda dor quando um ente querido se vai. Choro, entristeço-me e fico deprimido por alguns dias, semanas ou meses – depende do grau de intimidade de quem faleceu. Tenho também momentos de relaxamento e descontração. Mas, de súbito, lembro-me da perda e, novamente, fico abatido.

Despair

Há quem exploda: brada sua dor, verte lágrimas copiosamente, resiste à idéia de que não há nada que se possa fazer. Os extremos, certamente patológicos, embalsamam o corpo e recusam-se a enterrá-lo. É a negação em estado absoluto. Elaborar o luto, como dizem os psicólogos, está fora de cogitação para essas pessoas. Algumas se deprimem tão profundamente que, em pouco tempo, morrem também. Há de tudo.

Ao que parece, a maioria aprende a conviver com a dor da perda de um ou mais entes queridos. Alguns religiosos, que crêem em vida após a morte, confortam-se com a idéia de que morrer é como partir para outra dimensão. Há, portanto, a perspectiva de um reencontro ou mesmo de comunicação entre um e outro, apesar da diferença entre as dimensões física e espiritual. É um consolo, sem dúvida.

Death3

Agnósticos como eu sofrem de qualquer jeito. Afinal, independentemente de a morte ser ou não “apenas” uma viagem para outra dimensão, a pessoa querida se foi. Ponto. Não sei quando nem se vou reencontrá-la.

Uma de minhas irmãs mora no exterior. Sempre que nos despedimos, fico profundamente triste porque não sei quando exatamente poderei revê-la. A mera distância física de quem gostamos (e está vivo!) é, no mínimo, um desconforto. Por que a morte não o seria?

Goodbye

Daí eu aceitar a dor e ver nela algo simplesmente natural. Não sinto vergonha nem culpa por sofrer, chorar, ficar angustiado com longas separações. De qualquer forma, se dependesse de mim, toda pessoa querida estaria sempre ao meu alcance. O teletransporte está entre meus sonhos tecnológicos favoritos. Ferramentas como o smart-phone e o Skype, assim como as redes sociais, já são um alívio e tanto para a distância física!

Em suma, a morte é uma separação, e separações são sempre doloridas. Doem porque alguém saiu de nossa vida – seja por quanto tempo for. Doem porque remetem a outras perdas, a outros afastamentos, e a lembrança deles agrava o sofrimento presente. Doem porque, na maioria das vezes, suponho, resta um mínimo de culpa que seja por não se ter aproveitado melhor a companhia de quem partiu.

No caso da morte, não há mais o que fazer. Não há reparo possível. Não há resgate cabível além das lembranças. Resta, como uma espécie de compensação, desfrutar a companhia dos entes queridos que (ainda) estão por aqui.

Apoio

No caso de minha tia, dói também observar o sofrimento de meu tio, de minhas primas, de meu pai, de minha mãe, de minhas irmãs. Sou empático até o último fio de cabelo – por mais que não pareça. A dor do outro é minha dor também. Neste momento, somo ambas: a minha e a deles.

Com o tempo, minha dor pela perda de minha tia será menos intensa, como é natural. Mas a lembrança, sobretudo quando eu sentir a falta dos registros dela em minhas postagens na rede social, essa ficará para sempre. Conforta pensar que algo dela ficou. Sua recordação é imortal. Até que eu mesmo me vá e a reencontre (quem sabe?) ou, simplesmente, deixe de existir para sempre.

Stairway_to_heaven_2

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3 respostas para Dedo na ferida.

  1. Dilza Simas Milhomem disse:

    Terminei o texto em lágrimas… Choro todos os dias. Quando fiquei em casa depois de toda uma maratona, até de ir a Pirenópolis para almoçar com vc no seu aniversário, junto com alguns membros da família incluindo seu pai, o meu corpo doía inteiro.. a fibromialgia se instalou e nada de conseguir levantar da cama, uma grande apatia um entorpecimento, tristeza, muita tristeza.
    Minha amiga de infância,.Tivemos uma época separadas por razões familiares, mas quando voltamos a nos entender ficamos mais íntimas e mais amigas do que éramos antes… e assim ela se foi deixando um grande vazio. Mas eu acredito na vida após a morte e nas comunicações e sei que ainda vamos nos encontrar seja em sonhos ou nos comunicando espiritualmente.

  2. Lindo, Luciano.
    A morte de uma pessoa querida provoca uma revolução interior. Em alguns momentos, fico quieta, quieta… esperando que, pelo menos, as memórias façam a tia Mary presente mais uma vez.

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