O último lance.

Fosse um jogo, e ele teria pelo menos cinco lances.

O primeiro: um atleta desponta. Obtém vitórias importantes. Segue em ascensão. Conquista campeonatos consecutivos, que o projetam internacionalmente. Alcança o estrelato.

Lance Armstrong no auge da fama.

Lance Armstrong no auge da fama.

Segundo lance: no ápice da fama, um câncer. O superatleta vence de novo. Supera a doença. Mantém seu prestígio. Sobe novamente aos pódios.

Terceiro: em pleno gozo de sua celebridade, recaem sobre ele suspeitas de doping. Seguem-se acusações e investigações. O atleta nega tudo com veemência e processa quem o acusa.

Quarto: as investigações levam à comprovação. O astro do esporte realmente cometeu o crime de doping. À denúncia, segue-se a condenação na Justiça. O superatleta perde todos os seus títulos. É expulso do mundo esportivo. Vexame.

Lance3

Quinto lance: o atleta vem a público e confessa seu crime em entrevista veiculada a milhões de telespectadores mundo afora. Perplexidade.

Fosse um filme, uma obra de ficção, e haveria um desfecho pronto. Mas é tudo verdade, e não se tem a menor idéia de qual será o último capítulo da história do ciclista Lance Armstrong, sete vezes consecutivas campeão do Tour de France, considerado um fenômeno do ciclismo internacional.

Assisti atentamente à entrevista que Lance Armstrong concedeu com exclusividade à jornalista Oprah Winfrey na semana passada. O que mais me interessava ali não era tanto o ciclista em si, mas o homem. Aquela era a história de um ex-herói, era a confissão de um ex-mito.

Enquanto falava, Lance Armstrong como que se despia de uma fantasia (não sei dizer se para vestir outra, mas isso não vem ao caso para mim agora). O super-herói do ciclismo tirava a máscara e mostrava-se como um homem comum, ou melhor, como um homem que se tornou incomum graças a uma série de mentiras. O rei do ciclismo ficou “nu” diante das câmeras, que transmitiam sua entrevista a milhões de tevês e computadores.

Oprah Winfrey entrevista o ex-atleta.

Oprah Winfrey entrevista o ex-atleta.

Lá estava um homem de aparência pacata, serena, consciente de seus graves e numerosos erros. Não tinha a cabeça baixa, porém. Parece ter mantido a altivez de quem conheceu o topo da glória. E, em grande parte graças à assistência de hábeis advogados e possivelmente a um eficiente media training, Lance Armstrong mostrou-se seguro e prudente ao longo da entrevista à experiente Oprah.

Lance não delatou colegas. Não expôs as entranhas do mundo esportivo, que ele conhece tão bem. Evitou mais escândalos – embora tenha informações suficientes para provocar um vendaval. Talvez idoso, certo da proximidade da morte, publique suas memórias e exiba ao mundo uma realidade que ele apenas insinuou quando disse a Oprah que o doping lhe parecia tão natural quanto ter água na garrafa e ar nos pneus da bicicleta, algo da “cultura” do ciclismo de altíssimo rendimento.

Ouvindo as confissões de Lance Armstrong, não resisti a alguns pensamentos de mais longo alcance. Por exemplo: ele certamente não é o primeiro, nem o único superatleta a praticar o doping. Quem são os outros? Estariam sob investigação também? Se não, por que não? Se o próprio Lance admitiu que não poderia ter obtido as vitórias consecutivas que obteve sem o uso de certas substâncias, o que dizer dos demais superatletas? Suponho que muitos teriam de devolver suas medalhas, títulos, troféus se toda a verdade viesse à tona. O que seria do mundo do esporte profissional? Onde ficaria sua credibilidade?

Armstrong confessou, mas se manteve altivo.

Armstrong confessou, mas se manteve altivo.

Vou mais longe: faz realmente sentido glorificar atletas como se fossem super-homens ou semideuses? Nesse “circo”, até onde vai a responsabilidade dos meios de comunicação de massa, especialmente dos meios noticiosos? Não lhes faltariam espírito crítico e certo ceticismo, como mandam os bons manuais de jornalismo? Sempre prontos a desmitificar políticos e empresários, os mass media mostram-se predispostos a incensar estrelas dos esportes e do show bizz, em parte pelo interesse comercial que têm neles.

Tenho amigos esportistas que me pedirão licença para me dizer mais ou menos o seguinte: o doping apenas potencializa um talento já existente; o atleta mantém seu mérito. Ademais, se a maioria pratica o doping, a maioria compete em pé de igualdade. Faz sentido, ainda que haja regras claras contra essa prática.

De qualquer forma, pergunto-me como seria se nenhum atleta lançasse mão de subterfúgios como o doping. As competições, penso eu, seriam menos artificiais. Elas realmente colocariam à prova o corpo humano e não quase-máquinas.

O que quero dizer não afeta meu respeito pelos esportes, pelos esportistas, pelas competições desportivas. Cogito apenas a hipótese de um mundo esportivo menos artificial, onde “vencer a qualquer custo”, como admitiu Lance Armstrong, não faça parte da “cultura” esportiva. E com essa cultura, insisto, contribuem os meios de comunicação, os quais conheço um pouquinho. Não por acaso, Muniz Sodré intitula um de seus livros sobre televisão “A Máquina de Narciso”, e outro pensador da cultura, o filósofo francês Guy Debord, chamou a atenção para a perigosa “sociedade do espetáculo”.

A_Maquina_Narciso

É nesse lago midiático que narcisos brotam e florescem. É no circo midiático que quase tudo se converte em um grande reality show. A própria entrevista de Lance Armstrong foi possivelmente mais um golpe de marketing pessoal, uma estratégia de comunicação, que se não o livra dos processos e penas ao menos lhe dá voz e lhe devolve o direito de revelar-se por si mesmo. Por que outro motivo a estrela dos esportes, habituada aos flashes e holofotes, se exporia dessa maneira?

Curioso notar como o mundo dos esportes – onde os lucros passeiam na casa dos bilhões de dólares – assemelha-se cada vez mais ao mundo do show bizz. Cada um a sua maneira, eles vêem seus astros, ídolos, ícones morrerem de overdose. Não me parece exagerado dizer que se trata também de overdose de brilho, de fama, de narcisismo enfim. Num e noutro desses mundos, há cada vez mais espetáculo e cada vez menos esporte e arte de fato. Uma pena.

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