Sobre a gratidão (parte 2).

Outro dia, publiquei aqui comentários sobre meu desapontamento com pessoas que não valorizam o bem que recebem de outras. Seriam ingratas? Acho que muitas vezes sim, mas nem sempre. Parece haver casos em que a pessoa reconhece e valoriza o que recebeu, mas, por um ou mais motivos, não demonstra isso.

Desconfio de que, freqüentemente, um desses motivos é o orgulho. A pessoa sente-se mal por ter precisado da outra. Há até quem se sinta humilhado quando recebe um favor. Daí o silêncio diante da generosidade do outro. Um simples “obrigado” pode ser difícil de sair. Às vezes, sai na marra, quase como um balbucio.

Outro motivo usual para não se demonstrar reconhecimento pelo ato positivo do outro é a desconfiança de que o autor da gentileza agiu por interesse. A suposição de que faltou nobreza, generosidade sincera, justificaria a ausência de um gesto de agradecimento.

Um terceiro motivo costuma estar relacionado a uma postura de incompreensão ou revolta (ou ambas) diante da vida. Algumas pessoas simplesmente se sentem em crédito perante o mundo. Julgam-se injustiçadas. É como se a vida lhes devesse algo. Portanto, vêem o bem que recebem, seja de quem for, não como um favor, mas quase como uma obrigação.

Em linha parecida de raciocínio, opera o presunçoso. Ele acha sempre que merece o bem que recebe. No fundo, pensa que o outro é quem está tendo a honra de prestar-lhe um serviço. Ele até reconhece e valoriza a gentileza, mas não a ponto de admiti-la como um favor, como um ato de esforço (eventualmente até de sacrifício) do outro. Assim, seu “obrigado” costuma ser da boca para fora.

“Last, but not least”, isto é, mais um motivo, entre outros que posso deixar de mencionar, é a velha conhecida falta de educação. A pessoa enxerga a gentileza que recebeu, valoriza-a intimamente, mas não identifica a oportunidade e mesmo o dever de demonstrar reconhecimento.

Com isso, quero dizer que a gratidão pode estar presente, mas não se manifestar. Isso, claro, em minha opinião, não justifica a atitude menor daqueles que recebem algo inegavelmente positivo e não são capazes de retribuí-lo, seja como for. Orgulho, desconfiança, revolta, presunção, falta de educação, tudo isso combinado ou isolado, ao todo ou em parte, não deveria servir como pretexto para alguém ser ou parecer ingrato.

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