Sobre a gratidão (parte 1).

Todas as vezes em que faço algo positivo por uma pessoa, espero que ela valorize meu ato. Essa valorização inclui, evidentemente, tratar-me com a mesma deferência. Como diz o ditado: amor com amor se paga. Fico inconformado, portanto, quando sou gentil e recebo em troca indiferença ou grosseria.

Por outro lado, procuro valorizar tudo de positivo que alguém faz por mim. Demonstro esse reconhecimento sempre que possível. Acontece algumas vezes de eu me convencer da impossibilidade de retribuir à altura, mas faço o que está ao meu alcance. Além disso, evito a todo custo contrariar quem me fez um bem. Ajo como se essa pessoa tivesse uma espécie de crédito comigo. Se falho nesse esforço, costumo pedir desculpas.

Na maioria das vezes, reconhecer uma gentileza ou um favor requer pouco. Retribuição não é sinônimo de pagamento. Um gesto simples basta. Curiosamente, atitudes mínimas de valorização da gentileza do outro são menos comuns do que parecem. Tomo a liberdade de citar um exemplo pessoal bastante ilustrativo da minha opinião.

A pedido de uma amiga, fui cicerone de um amigo dela em Brasília, onde moro. Estrangeiro, recém-chegado em uma cidade socialmente inóspita para quem ainda não tem conhecidos nela, ele encontrou em mim um apoio. Fiz com ele numerosos passeios e apresentei-lhe diversas pessoas. Buscava-o e deixava-o no hotel sempre que saíamos, pois ele não tinha carro aqui.

Ele mostrava-se entusiasmado. Agradecia-me efusivamente pela atenção que eu lhe dava. Infelizmente, a certa altura, em função do meu trabalho, reduzi nossos encontros, embora ainda lhe desse atenção, mesmo a distância. Jamais o ignorei e, quando possível, procurava-o e convidava-o para algum programa. Sabia que ele não estava mais tão sozinho, pois já se entrosara com outras pessoas, inclusive algumas que eu lhe apresentara. Enfim, fiz o melhor que pude.

O rapaz estava em Brasília a trabalho. Veio para uma curta temporada, que acabou se prolongando um pouco. Ele tinha meu número de celular e meu e-mail, e estávamos conectados também pelo Facebook. Trocávamos mensagens amiúde. Foi, portanto, com muita surpresa que eu soube, pela rede social, que ele já partira de Brasília. Fora embora sem ao menos me dar um telefonema para se despedir. Devo ressaltar que não tivemos nem um só atrito durante a estada dele no Brasil.

É pedir muito para uma pessoa ser minimamente gentil com alguém que a recebeu e a tratou tão bem? Acho que não. No lugar dele, eu teria me esforçado ao máximo para encontrá-lo antes de partir. Talvez até o convidasse para comer uma pizza ou lhe desse uma pequena lembrança, barata que fosse, pois seria pelo gesto e não pelo valor material. Quando, surpreso, perguntei-lhe por que fora embora sem me dizer um tchau, ele se contentou em me dizer que foram muito corridos os dias antes de sua partida e que voltaria ao Brasil (não sabia quando).

Não me arrependo de ter sido generoso com esse rapaz, nem o quero mal. Afinal, fui gentil com ele a pedido de uma de minhas melhores amigas, capaz de fazer o mesmo por mim se eu lhe pedisse. Ela merecia (e merece) minha boa-vontade. Mas me pergunto o que passa pela cabeça de uma pessoa que, como esse moço, ignora a importância de demonstrar, mesmo com um simples telefonema ou uma mensagem por e-mail, alguma consideração. Lamentavelmente, há muita gente assim.

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