Beijinhos na morte.

Brasileiro dá a impressão de ser amante da vida. Carnaval, futebol, samba, pagode, funk, cerveja, praia, sexo, tudo isso e muito mais ajudam a compor um estereótipo do brasileiro, um clichê que tem certo fundo de verdade. O que parece menos evidente é a característica oposta, a atração do brasileiro pela morte. Exagero? Talvez não.

Quem dirige em qualquer estrada do país já viu do que são capazes certos motoristas. Impacientes, fazem ultrapassagens arriscadíssimas. Pouco se importam se vão matar ou morrer. A contradição é ainda mais absurda porque, muitas vezes, a pressa na estrada se deve à vontade de chegar logo a um destino que provavelmente significa prazer para o motorista – um passeio, uma visita, uma festa, mais vida enfim. Posso apostar que a maioria não corre porque tem um compromisso de trabalho ou outra obrigação qualquer.

No afã de ganhar a vida, milhares de motoboys a perdem em seu ziguezague alucinado em ruas e avenidas das metrópoles brasileiras. De novo, a contradição salta aos olhos. E os condutores que falam animadamente ao celular enquanto dirigem? Querem estar conectados com o mundo, com a vida e, paradoxalmente, colocam-na em risco. Não é exagero pensar que uma alegre mensagem por WhatsApp pode resultar em doloroso acidente. Que tal dirigir embrigado? Não preciso dizer mais nada.

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Nos tempos de faculdade, professor Luís Humberto, um de meus favoritos, gostava muito de dizer que nós, brasileiros, com nossa postura às vezes irresponsável diante da vida, temos o hábito de “mandar beijinhos para a morte”. Imagem justíssima. O brasileiro brinca tanto que brinca até com a morte. Não a leva a sério. Acha que pode zombar dela à vontade. Nada vai lhe acontecer. Parece duvidar do que lê nos jornais, ouve no rádio e vê na televisão.

Afinal, o brasileiro ama realmente viver? Desconfio de que sim. Mas, tal qual um pré-adolescente rebelde, acha-se imbatível, indestrutível, cheio de direitos. Quer saltar muros, dar mergulhos profundos, fazer sexo alucinadamente (sem preservativo), aventurar-se, testar os limites da vida. Impunemente. Manda “beijinhos para a morte”, uma distante assombração. De repente, um caminhão, uma carreta, uma lancha, um vírus, um imprevisto previsível, enfim, coloca ponto final na história, e o romance de aventura transforma-se em drama ou tragédia. Na pior das hipóteses, a morte dá seu beijo frio na vida, e fim. Vale a pena?

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