O amor mora nos detalhes.

Quando a gente assiste a um filme como “La Tête en Friche” (“Minhas Tardes com Margueritte”, na versão em português do Brasil), a gente lembra que o amor está nos detalhes. Mais que isso. A gente lembra que o amor pode brotar a qualquer momento, em qualquer lugar, por qualquer pessoa, quando menos se espera. Esse amor do filme, baseado em romance homônimo, felizmente tem o sentido amplo que essa palavra merece.

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Uma história singela vai aos poucos revelando as muitas faces que o amor pode ter, inclusive quando brota em alguém que sofreu desamor. Numa cidade do interior da França, Germain (papel de Gérard Depardieu) conhece casualmente, em uma praça, a simpática Margueritte (interpretação de Gisèle Casedesus), senhora de 94 anos que tem como maior distração a leitura de clássicos da literatura, especialmente a francesa.

Germain é quase um ogro. Pode-se até considerá-lo um analfabeto funcional. Sua mãe sempre o rejeitou, e o menino passou a maior parte da vida sendo alvo de bullying em casa e na escola. Adulto, tornou-se um cidadão comum, pacato, de vida modesta e baixa autoestima, mas elevado grau de generosidade e simpatia.

Margueritte, internada em um asilo confortável da cidade, vai todas as tardes ler sob a copa das árvores de uma praça onde aprendeu a reconhecer cada um dos pombos que a freqüentam. É, pois, em uma dessas bucólicas incursões que ela conhece Germain e estabelece com ele uma inusitada amizade. Em pouco tempo, a simpática e frágil senhora conduz Germain ao mundo das letras. Começa pelo romance “La Peste”, de Albert Camus, e segue adiante à medida que aquele homem iletrado demonstra interesse e profunda atenção pelas incríveis histórias que ouve em seus encontros vespertinos na praça.

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Dessa relação nasce um afeto delicado, sutil, profundo e desinteressado. Na verdade, o único interesse entre ambos parece estar no prazer da companhia que fazem um ao outro. Ela sente também satisfação ao atraí-lo para as letras, e ele, a de ter quem lhe transporte para uma realidade completamente distinta da sua. Não é preciso dizer que, à medida que aprende com Margueritte, Germain vai se sentindo mais autoconfiante, ainda que o conhecimento chegue a assustá-lo em determinado momento.

Margueritte, por sua vez, também aprende com aquele homem do campo, autêntico, espontâneo, que lhe dedica uma atenção e um respeito que os familiares dela não são capazes de lhe oferecer. O diálogo que Germain e Margueritte mantêm sobre as limitações do dicionário é uma das sequências mais interessantes do filme, pois sintetiza com sutileza o intercâmbio de vivências na relação entre duas pessoas tão diferentes.

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Enquanto, no núcleo central da história, Germain e Margueritte exploram o amor pelo conhecimento e a empatia – ela, uma amante das letras, revela-se uma ex-cientista que já prestou serviços humanitários para a Organização Mundial da Saúde –, nos núcleos secundários, outras formas de amor se apresentam: a própria relação afetivo-sexual indefinida entre Germain e Anette; a sincera paixão de uma cinquentona, dona de um bar, por seu garçom de origem árabe; e finalmente o insuspeito amor maternal – ainda que anômalo – de Francine, mãe de Germain, pelo filho.

É no desfecho da história, porém, que o coração gigante do gigante Germain expressa toda a beleza dos amores verdadeiros. Atenção: aqui há um spoiler. Conto o desfecho do filme nas próximas linhas. O leitor deve saltar os dois próximos parágrafos e seguir para o último se tiver a intenção de assistir a “La Tête en Friche”.

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Quando Margueritte começa a perder a visão – e portanto seu maior alento, a leitura –, Germain está pronto para retribuir-lhe a gentileza e ler para ela. Nisso, conta com o apoio de Anette, que generosamente também o ajuda a ter mais fluência na leitura.

Finalmente, quando a adorável senhora perde o direito de viver no asilo (a família não pode e não quer mais custeá-la ali), Germain a acolhe na casa que surpreendentemente herda da mãe (um gesto derradeiro de amor da genitora que sempre o maltratara).

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A partir de um pequenino ato de cortesia em uma praça, desencadeia-se, portanto, uma seqüência de atitudes que expressam amor genuíno: gratidão, compaixão, benevolência, generosidade, ternura. O filme,  despretensioso, acaba por tocar a gente e fazer pensar. Ah, se houvesse mais Germains e Marguerittes neste mundo!

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Império em decadência.

Admito que já fui noveleiro. Um dia, levei novela tão a sério que cheguei a defender uma dissertação de mestrado sobre telenovela brasileira. Com o tempo, passei a assitir somente às novelas mais divertidas. Afinal, para mim, elas são mero entretenimento. Atualmente, não acompanho nenhuma. Quando me sobram tempo e paciência, vejo os primeiros e os últimos capítulos. Isso tem bastado para me convencer de que, independentemente de audiência, as telenovelas brasileiras precisam mudar.

O Pensador na versão em desenho de Gonçalo Viana. O Pensador na versão de Gonçalo Viana.

Creio ser questão de tempo para esse império das telenovelas ruir, a menos que se recicle. Com poucas exceções, as tramas têm batido sempre nas mesmas teclas: filhas ou filhos que, adultos, descobrem seus verdadeiros pais; disputa entre irmãos pelo controle da empresa da família; prisões injustas (toda telenovela brasileira não resiste a meter algum personagem na cadeia, geralmente o protagonista); riqueza perdida e depois recuperada; relacionamentos clandestinos; a descoberta de uma doença grave que provoca reviravolta na vida de personagens.

As emissoras de TV ainda têm a seu favor os elevados índices de audiência (já foram melhores…) de suas novelas. Mas insisto que pode ser apenas questão de tempo para o público atual desses folhetins eletrônicos seguir os passos de quem já prefere assistir aos seriados da HBO, da Fox, da Netflix.

Felizes_para_Sempre

A própria TV Globo, responsável pela maior quantidade de novelas do país, parece ter-se dado conta disso e tem investido em minisséries mais criativas, que vêm dando o que falar, como a recente “Felizes para Sempre?”. De qualquer forma, enquanto significativa parcela de seu público ainda aprecia os velhos folhetins, a emissora mantém no ar as tramas de sempre. Muda autores, cenários, atores, contextos, mas “todo dia, ela faz tudo sempre igual”, como na canção de Chico Buarque. E lá vêm cadeia, disputas familiares, paixões exacerbadas, figuras caricatas (os gays têm sido a bola da vez).

Em “Amor à Vida” (2014), o vilão Félix armava arapucas para o pai e a irmã porque cobiçava a direção do hospital San Magno, da família. Em “Império”, José Pedro fez praticamente o mesmo, com a agravante de ter cometido um parricído no final. Ao menos Félix era divertido, soltava comentários que geravam brincadeiras nas redes sociais.

Windeck

Não basta exibir uma trama com a maioria de atores e atrizes negros, como a angolana “Windeck”, atualmente no ar pela TV Brasil. Ainda que tenha o mérito de valorizar um elenco majoritariamente negro, a novela, do ponto de vista de narrativa, distingue-se muito pouco da maioria de suas congêneres brasileiras.

Das duas uma: ou as emissoras apostam em inovação e levam ao ar novelas verdadeiramente marcantes, como “Beto Rockfeller” (1968/69), “Pantanal” (1990) e “Avenida Brasil” (2012), ou desistem do gênero e concentram a teledramaturgia em minisséries e seriados, cujas tramas costumam ser mais ágeis, instigantes, irreverentes. Se mantiverem a velha fórmula, as telenovelas brasileiras correm o risco de ver sua audiência cair a ponto de entrarem para a história como o Comendador de “Império”: poderosas por muito tempo, mas fantasmagóricas no final.

Comendador_Imperio

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