Sede de vingança.

O garçom trouxe o vinho cor de sangue, que um dos quatro à mesa aprovou. A conversação prosseguiu. Perdão era o tema do momento – ou vingança, conforme o ponto de vista. Alice e Priscila defendiam que Leandro perdoasse Flávia pelo bem do filho deles, José. Separado havia pouco tempo, o casal estava em guerra declarada, e o menino já apresentava as indeléveis marcas psicológicas das balas perdidas. Lázaro discordava das duas, ao menos em termos. O debate prometia.

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“Separação”, tela de Tomas Soler.

— Essa raiva toda só faz mal a você mesmo. Agora, até seu filho está sofrendo com isso.

— Alice tem razão. Esse sentimento atrai energia negativa. Sua vida não anda, não vai para a frente assim.

Leandro as ouvia com carinho no olhar. Reconhecia a preocupação sincera das amigas. A mágoa da ex-mulher, porém, era mais forte. As memórias estavam em carne viva: palavras que ele certamente ouviu e chegava a ter vergonha de reproduzir em público, humilhações verbais do tipo que fere o orgulho e desperta sede de vingança. Por mais que tentassem, as duas não o convenciam a superar as lembranças dos meses terríveis que antecederam a separação definitiva do casal.

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“Separação”, de Hartmut Jager.

Lázaro compreendia o ponto de vista delas, mas sabia o suficiente para também compreender o ponto de vista de Leandro.

— Se vocês duas acreditam no que Leandro diz, então vocês defendem que tudo acabe em pizza? Flávia disse o que disse, diz o que diz, e fica tudo por isso mesmo? Não acho justo.

Ambas lembraram a situação do menino.

— É o garoto quem acaba sofrendo as consequências da briga entre os pais. Não é justo com ele. Os pais precisam se entender pelo bem do José.

— Não digo que o Leandro não deva poupar o garoto. Só acho que vocês estão pedindo muito dele agora. A separação é recente. Ninguém apaga uma mágoa assim da noite para o dia. O Leandro não é obrigado a ser de ferro. É justo que responda Flávia à altura de vez em quando. Não acham?

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“Amor e Ódio”, de Elin Bolgomolnik.

As duas amigas não pareciam convencidas disso. Insistiam no discurso do perdão, da energia positiva, na importância de seguir em frente sem rancor. Estavam visivelmente com ótimas intenções. Acontece que, para Lázaro, Leandro é de carne e osso. Em sua opinião, dar conselhos é fácil. Duro é viver na pele o que o outro está vivendo e se comportar como um anjo. Como se diz por aí: “Na prática, a teoria é outra” ou “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.

O jantar corria. O vinho descia ardente pelas goelas. Curiosamente, os quatro pareciam satisfeitos, apesar desse momento de análise sobre os sentimentos de Leandro. Na verdade, a conversação mantinha-se em nível bastante elevado. O fato de Lázaro ser, em seu ponto de vista, mais realista que Alice e Priscila não gerou desconforto. O assunto fluía naturalmente. O que chamava a atenção era justamente essa diferença de percepções sem atrito. Cada um ocupava seu lugar de fala e dali expressava seu discurso com naturalidade, sem imposições.

Lázaro deu sequência a seu raciocínio.

— Na verdade, penso que Leandro deve, sim, superar a mágoa que sente pela Flávia. O que não vejo como razoável é cobrar isso dele agora. Claro que ele pode e deve conter ímpetos agressivos e jamais, por exemplo, fazer um escândalo ou esbofetear a ex-mulher. Eu me refiro ao íntimo dele. Exteriormente, sim, ele precisa agir com maturidade, com racionalidade. Lá dentro, no âmago, sinceramente, acho pedir muito para ele apagar suas mágoas como quem usa um limpa-manchas. Não é tão simples assim.

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“Separação”, de Joy Lambert.

Os demais permaneciam calados. Não era possível saber se concordavam ou não com Lázaro naquele momento. Ele continuou.

— Gente de carne e osso – com raras exceções – guarda mágoa. Certas pessoas são mais rancorosas. Podem ter raiva de alguém pelo resto da vida. Há quem seja realmente incapaz de perdoar. Há ainda os que se sentem injustiçados e não se contentam em romper relações com seu desafeto ou seus desafetos. Buscam justiça, reparo. Não deixam de ter razão. Os mais empedernidos querem desforra, revanche, vingança enfim. O problema está, como se diz em Direito, na “dosimetria da pena”. Na falta de um juiz competente, as pessoas julgam sozinhas. Não é de espantar que o limite entre justiça e vingança seja tênue em muitos casos. Na ânsia de obter justiça, alguém pode fixar uma pena maior que o delito. Como saber? A subjetividade torna tudo nublado.

Alice e Priscila entreolharam-se. Pareciam confusas. Aonde Lázaro quer chegar com esse discurso? É o que talvez estivessem indagando, em pensamento, uma à outra. Leandro demonstrava atenção, e seu olhar expressava ironia. Já dissera o que queria. Chegara a classificar a ex-mulher de ordinária. Quem os viu juntos um dia jamais poderia imaginar tanto desdém no futuro. Priscila serviu-se de mais vinho tinto.

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“Jantar”, de Veronica Holland.

Lázaro seguia empolgado.

— Por essas e outras, almas generosas preferem perdoar “não 7 vezes, mas 70 vezes 7”, como apregoa Jesus no Novo Testamento. Assim, elas se livram da responsabilidade de julgar e, claro, errar no juízo. Afinal, como vocês sabem, até os especialistas em leis podem falhar. Quantos casos não existem por aí de prisões indevidas, penas equivocadas? Nesse sentido, o conselho da Alice e da  Priscila é mesmo o mais indicado para você, Leandro.

Antes que qualquer um se expressasse, Lázaro continuou.

— O problema é que a maioria de nós está longe de ter alma generosa – ou o planeta seria outro! Daí meu realismo. Não se trata exatamente de discordar de vocês, Alice e Priscila. Trata-se de compreender a mágoa do Leandro e ajudá-lo a encontrar uma forma de obter justiça sem gerar mais injustiça. Difícil? Claro que sim! Mas quem disse que viver é fácil?

Priscila, que tinha mais intimidade com Lázaro, o desafiou.

— Está bem. O que você aconselha, então? Se ele não está em condições de perdoar a ex-mulher agora, mas isso está gerando problema para o filho deles, o que fazer?

— Já sugeri terapia. No mínimo, ela pode ajudar a colocar para fora a sujeira acumulada dentro dele. Também recomendei atividades físicas, desportivas, não foi, Leandro? Elas ajudam a exorcizar os demônios interiores. O suor pode ser um santo remédio às vezes. Lá se vão muitas toxinas! Além disso, Leandro tem todo o meu apoio para namorar. Nada como certa dose de romance para curar algumas feridas! Mas se a Flávia pegar pesado em algum momento, nada tenho contra ele dar nela umas boas alfinetadas.

Ouviram de Lázaro uma risada, mas não riram com ele, que prosseguiu.

— Talvez, mais saudável e contente com a vida, Leandro encontre naturalmente a dosimetria adequada da pena que pretende infligir à ex-mulher ou, melhor que isso, dê tempo ao tempo. Uma mente em equilíbrio encontra saídas que uma mente agitada jamais seria capaz de encontrar. Óbvio, não acham?

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“Justiça Verdadeira”, de Joella Skilleter.

O tom ligeiramente professoral de Lázaro não parecia irritar as duas jovens mulheres, mas Priscila achou por bem voltar a desafiá-lo.

— Você não está sendo contraditório? Não foi você quem disse que, na teoria, a prática é outra? Você também sente mágoa, raiva, sede de justiça e de desforra, que eu sei.

— Claro que sim! Sou gente. Pertenço a esta raça de víboras, como à espécie humana se refere sabiamente João Batista, também no Novo Testamento, que li mesmo sem ser cristão, aliás.

Priscila não se deu por vencida.

— Então?

— Houve muitas vezes em que perdoei, sabia? Em outras, busquei justiça de maneira equilibrada. Os resultados valeram muito a pena. Já quando parti para o confronto, a revanche, o conflito, observei na prática o que… Gosto muito daquela frase do ex-primeiro ministro britânico… Qual é mesmo o nome dele? Um segundo! Arthur Neville Chamberlain! Agora, o que ele dizia… Lembrei! In war, whichever side may call itself the victor, there are no winners, but all are losers.

Todos ali sabiam inglês, mas Leandro fez questão de traduzir…

— Na guerra, ainda que qualquer dos lados possa se proclamar vitorioso, não há vencedores, somente perdedores.

Alice saiu do silêncio.

— Amo essa frase! Agora, confesse, Lázaro. No fundo, você quer admitir que concorda comigo e com a Priscila. O Leandro precisa superar logo essa mágoa da ex.

— Bem… Vocês têm toda a razão, sim. Mas Leandro também está certo em sentir mágoa, e eu em tentar compreender o lado dele. Só que, mais cedo ou mais tarde, o melhor é que as feridas se curem, se cicatrizem, e José cresça confiante de que, embora nada seja perfeito, sempre pode haver uma saída pacífica, mesmo que não lhe pareça a mais justa.

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Leandro finalmente retomou a palavra.

— Gente, quer saber? Obrigado pelo que vocês disseram. Não importa quem está certo ou errado aqui. Vejo que tenho verdadeiros amigos em vocês. Isso é o que vale. Lázaro está certo. Não vou me livrar dessa mágoa assim, da noite para o dia. Mas vocês, Alice e Priscila, querem o melhor para mim e o José. Sei disso. Vamos tomar nosso vinho tinto e mudar de assunto. Já enchi muito o saco de vocês com essa minha história de separação.

Todos sorriram, brindaram e passaram a falar de religião. Alice estava surpresa com o fato de Lázaro, um agnóstico, ter lido com atenção o Novo Testamento e até citá-lo. A noite estrelada, o vinho, os quatro à mesa… A conversa animou-se e só teve fim quando um garçom trouxe a triste notícia de que precisaria fechar a conta e o restaurante. Lá se foram o quatro com um novo encontro agendado para breve.

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O que vai, o que fica…

Dizem que o universo conspira. Talvez. Há momentos na vida em que a gente acredita nisso. Vê motivos para acreditar. Certos encontros, por exemplo, parecem destino. Digo parecem porque realmente não tenho certeza de nada, e isso importa pouco agora. O fato é que pessoas entram na vida da gente de mansinho — ou de supetão também — e simplesmente ficam ali até um dia ou, melhor ainda, para sempre. Quando marcam, elas ficam para sempre, mesmo que seja somente na memória. Grudam na gente. Grudam na alma da gente.

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Fiz amigas e amigos em 2016 que eu jamais poderia imaginar tão perto de mim, não porque estivessem geograficamente distantes, mas porque era remota a probabilidade de os caminhos da gente se cruzarem. Na verdade, bem na verdade, era mais remota a probabilidade de meu caminho e o dessas pessoas se cruzarem. Elas já se conheciam. Tinham a mesma faixa etária. Estudavam na mesma faculdade. Algumas dividiam apartamento. Em suma, formavam um grupo. Fui eu que entrei na festa de penetra. Garanto que foi sem querer.  Não me arrependo. Uma vez lá dentro, virei convidado VIP.

Sabe aquela velha situação em que um amigo apresenta você para outro, e os dois conhecem outros tantos, que acabam conhecendo você e gostando de você também? Pois é… Entrei no grupo. Pulei dentro da panela fervente. Foi o máximo! Afinal, essas pessoas fizeram toda a diferença! Se 2016 foi um ano extremamente positivo para mim, devo quase tudo a esse grupo de novos amigos e amigas. Com o perdão do clichê, foi como se eu conhecesse a maioria havia muitos anos, décadas. Daí os fatos ajudam. Não foram só barzinho, festinha, filmes, rolês. Foram diálogos, risadas, confidências.

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Daí o ano chega ao fim. Projetos chegam ao fim. Novos projetos se anunciam. É hora de cada um tomar seu rumo. Como assim?! Vai quase todo mundo embora? Compra uma passagem de avião, embarca e pronto? Lá se vai tudo o que a gente viveu e poderia viver? Não. Felizmente, não é bem assim. Algo fica. Lembrança? Memória? Sim, claro. Só que esse algo que fica é mais forte que qualquer recordação. É a mudança que se operou dentro de cada um silenciosa e deliciosamente. É o que uns e outros, umas e outras fizeram com a cabeça da gente. Às vezes, essa mudança é visível, palpável. Na maioria das vezes, não. A gente apenas sabe, sente que ela está lá.

Abraços, beijos, selfies, diálogos, sorrisos, erros e acertos, macarronadas na madrugada… Tudo isso ainda é pouco se comparado a essa mudança íntima. Não sou mais o mesmo. Ninguém é mais o mesmo. Não há adeus mais forte que a mudança que outra pessoa fez na gente. Marcou, já era! Ficou, tatuou, malandro! Não há carro, ônibus, navio, avião que separe almas quando elas se tocaram fundo e descobriram juntas a diferença entre estar vivo e viver (como um do grupo afirmou).

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De repente, alegria rima com melancolia porque a gente sabe que nada será igual amanhã. Pode ser melhor. Pode ser pior. Mas igual jamais será. Esse encontro é único. Se o universo conspirar para um reencontro, tanto melhor. A gente torce. A gente deseja. A gente chora de saudade. A gente se comunica. A gente se recorda. A gente vai e volta no tempo. Enquanto isso, o tempo mexe com a gente. Mexe fundo. É quando me lembro de que a amizade é a mais bela forma de amor.

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Amizade não correspondida.

Praticamente todo mundo tem pelo menos uma história para contar de paixão ou de amor não correspondido. Raramente se ouvem histórias de amizade não correspondida. Será que ninguém quebra a cara ao investir em pessoas com o único propósito de torná-las amigas? Claro que sim. Mas por que será que isso acontece?

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“Amizade Mágica”, tela de Adélia Sarro.

Na adolescência, isso é comum. Há sempre um tipo na escola que alguns não querem como amigo, geralmente (mas não necessariamente) por causa de preconceito: origem geográfica, classe social, religião, orientação sexual, cor da pele e por aí vai. Na fase adulta, o preconceito costuma ser disfarçado, dissimulado e, felizmente, pode até diminuir — quando as pessoas de fato amadurecem.

Entre adultos, suspeito de que cada caso seja um caso.  Às vezes, é preconceito. Outras, desconfiança baseada em intuição, feeling — quem nunca ouviu de alguém ou pensou “Este sujeito não me engana…”? Há também as situações em que a pessoa simplesmente é reservada, prefere viver em um círculo fechado de amigos; ou é tímida e tem dificuldade para demonstrar afeição. Sem contar quando alguém “não vai com a cara” da outra pessoa gratuitamente ou porque não viu afinidades exploráveis naquela relação.

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Grafite (arte urbana) de Alice Pasquini.

Acho mais fácil entender uma paixão não correspondida. Afinal, ninguém é obrigado a corresponder a esse sentimento, nem a sentir atração física por quem quer que seja. Já a não-correspondência de uma amizade me parece mais difícil de explicar (a não ser nos casos que apontei acima). Digo isso porque já vivi situações em que fui extremamente afável com uma pessoa, e ela não fez o menor esforço para se aproximar de mim, ainda que não houvesse nenhum motivo aparente (como os que listei no parágrafo anterior) para o desdém. Mistérios do comportamento humano…

Em situações assim, quanto insistir? Estou entre os que persistem dentro de certa medida. Pode valer a pena vencer as barreiras de uma pessoa e mostrar a ela que você não é o bicho de 7 cabeças que ela imagina. Conquistar amigos é saboroso. Há limites, porém. Uma sequência seguida de “nãos”, por exemplo, cansa e pode até ferir a autoestima. Restam a dúvida (por que essa pessoa não quer minha amizade?) e o sentimento de reprovação e frustração. Uma pena! Perde quem tem amizade para oferecer. Perde quem deixa de recebê-la.

Desenho de Pat Perry.

 

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