Chega de jeitinho!

Estou farto do jeitinho brasileiro! Desculpem-me os leitores pelo desabafo, mas é isto mesmo: chega de jeitinho! Não agüento mais! Radical? Não. Radical é quem apela ao tal jeitinho para resolver praticamente todas as situações.

 

Jeitinho

 

Agora, com menos emoção: estou cansado do jeitinho porque, embora tenha como qualidades naturais a criatividade e a conseqüente capacidade de improvisação, ele tornou-se regra no Brasil quando deveria ser exceção. Em meu modesto pensar e algum viver, o jeitinho é uma versão disfarçada da malandragem. Em palavras mais duras, o jeitinho é uma forma de corrupção.

 

Para quem prefere uma definição mais acadêmica, há a do antropólogo Roberto Da Matta. Em seu livro “O Que Faz o Brasil Brasil?”, ele identifica o “jeitinho brasileiro” como uma característica cultural por meio da qual as determinações legais seriam dribladas para a defesa de interesses particulares.

 

Confesso que vejo com bons olhos o jeitinho quando não há saída ortodoxa possível em uma emergência, por exemplo. Vejo com bons olhos o jeitinho quando quebrar uma ou mais regras resulta em um benefício maior que a infração ou, pelo menos, não gera prejuízo a quem quer que seja. Infelizmente, o que observo nos espaços públicos — e em alguns privados também — é o abuso do jeitinho, a malandragem como regra, o egoísmo como padrão de comportamento.

 

Anúncio de cigarro que deu origem ao termo "Lei de Gérson".

Anúncio de cigarro que deu origem à famosa expressão “Lei de Gérson”.

 

Penso que o jeitinho é o filho mais querido da célebre Lei de Gérson, segundo a qual se deve levar vantagem em tudo. Como se sabe, essa expressão teve origem em um comercial de 1976, curiosamente quando o país vivia sob o domínio dos militares, reconhecidos por seu rigor e respeito a regras. Até onde sei, esse comercial não foi alvo da censura vigente à época. Seu protagonista, Gérson, então jogador da Seleção Brasileira de Futebol, embora fosse um atleta respeitado em campo, tornou-se garoto-propaganda de uma marca de cigarro (ver abaixo link para o comercial).

 

http://youtu.be/J6brObB-3Ow

 

Aparentemente, o jeitinho está de tal forma impregnado na alma do brasileiro que dificilmente será exeqüível eliminá-lo, até porque esse comportamento é contagioso.

 

Não sou historiador, nem especialista no tema. Não sei dizer quando nem como o jeitinho teve início no Brasil. Já o observei em outros países, mas apenas como exceção, não como regra. Nos socioeconomicamente mais desenvolvidos, o jeitinho é incomum, ainda que, no trânsito, ele apareça faceiro aqui e acolá.

 

A Lei de Gérson e o jeitinho são, para mim, os aspectos que mais me incomodam no Brasil. Ousaria dizer até que são os principais responsáveis pelo fato de o país não se desenvolver mais rapidamente e estão na raiz de vários outros problemas. Onde todos querem levar vantagem uns sobre os outros, ninguém ganha. Todos acabam saindo no prejuízo.

 

Malandragem

 

Quem não adota o jeitinho no Brasil está sujeito ao mal-estar. Sente-se um alienígena. Não raramente, sofre discriminação. Se for do tipo que denuncia malandragens, logo adquire a fama de delator, traidor, arrogante, entre outros predicativos nada lisonjeiros. Seguir normas à risca pode implicar a fama de ingênuo ou mesmo de imbecil.

 

A quem ou a que responsabilizar por isso? Difícil. Educação escolar? Pós-graduados também recorrem ao jeitinho. Educação familiar? Até certo ponto, sim. No entanto, se a prática abusiva do jeitinho se passa “de pai para filho”, quem educaria o pai? Como garantir que as próximas gerações de brasileiros estejam livres do “vírus” do jeitinho se a maioria no país é dele portador? Em curto prazo, não vejo resposta.

 

Pelo menos os brasileiros não têm a desfaçatez de negar o jeitinho. Assumem-no. Alguns, com certo constrangimento. Outros, desavergonhadamente. A verdade é que ninguém escapa, nem eu mesmo. Jeitinho, no Brasil, é questão de sobrevivência. A diferença está no uso que se faz dele: regra ou exceção.

 

Cobra_TOC

 

Para mim, acredite quem quiser, o jeitinho é exceção. Tenho fama de sistemático, de que sofro de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) e de alguns recebi o apelido de “Alemanha”, embora, sinceramente, eu não me considere tão certinho assim. A verdade é que, como afirma o ditado, em terra de cego, quem tem um olho é rei. Por não apelar com freqüência ao jeitinho e por evitar, a todo custo, “levar vantagem em tudo”, minha fama em parte procede.

 

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública acaba de divulgar o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2014. O panorama ali traçado é lamentável. O documento menciona estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) segundo o qual, para 81% dos entrevistados, é fácil desrespeitar as leis no Brasil. A mesmíssima porcentagem concorda que “Sempre que possível as pessoas escolhem dar um ‘jeitinho’ ao invés de seguir a lei”. Mais de 80%!!!

 

Etica

 

O anuário associa a descrença nas instituições legais, a falta de legitimidade delas para expressiva parcela da população brasileira, ao jeitinho. Seria, então, esse comportamento também uma espécie de “justiça pelas próprias mãos”? O estudo não diz isso, nem poderia. Até porque não há justiça no jeitinho. Ao contrário, há injustiça à mancheia. Falta de ética, então!

 

Desse costume de passar a perna, “enrolar”, ludibriar, querer levar vantagem em tudo, enfim, estou realmente farto. Felizmente, ainda encontro um ou outro que pensa e se sente como eu. Não sofro sozinho.

 

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