A despedida de Chico e Griselda.

A noite de sexta foi de emoção na TV. A morte de Chico Anysio, claro, mobilizou a produção da Globo, que mergulhou o telespectador em uma máquina do tempo. Quem neste país nunca ouviu falar do Professor Raimundo?

A despedida de Chico e Griselda.

Voltei à infância, à adolescência, aos primeiros anos da juventude ao ver desfilar na tela aqueles personagens todos de um dos mais talentosos atores do Brasil. Antes de tudo, Chico Anysio era um ator. Sabia interpretar. Ia além da comédia. Lembro-me perfeitamente da participação especial dele na novela “Caminho das Índias”. Fazia tudo o que os comediantes da moda fazem e muito, muito, muito mais.

Admito que já não assistia aos mais recentes humorísticos do Chico. O gosto da gente muda. Mas me lembro de que, durante muitos anos, gostei de vê-lo, inclusive quando fazia comentários no Fantástico, lá se vão décadas. Eu era moleque e já me divertia com Alberto Roberto, Azambuja, Bento Carneiro, Bozó, Coalhada, Justo Veríssimo, Pantaleão, Roberval Taylor, Salomé, Seu Popó (foto), Tavares (até hoje, digo “Sou, mas quem não é?”).

Chico e sua galeria de tipos fazem parte do imaginário nacional. Não consigo pensar em outro artista capaz de criar e interpretar tantos personagens. Nem mesmo Jô Soares. Realmente, Chico Anysio foi desses cuja vida fez toda a diferença.

Para quem, além de programas de humor, aprecia telenovelas (aliás, como se sabe, algumas são comédias), a noite de sexta também trouxe emoções com o último capítulo de “Fina Estampa”. Como de praxe, houve seqüências sob medida para corações moles.

A melhor delas foi o discurso da protagonista Griselda na colação de grau (foto) do filho Antenor, personagem do apenas correto Caio Castro. Com quase todo o elenco na platéia, Lilia Cabral falou bonito. Resumiu a mensagem de Griselda: honestidade, integridade e trabalho. Lá estava “Pereirão” a representar a nova classe C, talvez para a própria classe C, que só vê televisão quando pára de trabalhar.

Já fui noveleiro. Hoje, só vejo novela quando estou de bobeira em casa na hora em que uma está no ar (o que não é difícil, dada a numerosa quantidade de telenovelas neste país). Geralmente, estou jantando, e a TV me faz companhia. Divirto-me com as “figuraças”.

Não levo novela a sério demais. Daí eu ter morrido de rir de Marcelo Serrado na pele de Crô, o mordomo mais bicha da história da televisão brasileira. Confesso que também dava boas gargalhadas com as crueldades de Tereza Cristina (um dos melhores personagens de Christiane Torloni, na minha opinião).

Embora eu goste muito dos atores Júlia Lemmertz e Dan Stulbach, achei o drama de Esther e Paulo muito chato. E que casalzinho mais água-com-açúcar (e dispensável na trama) o de Tania Khalill e Carlos Casagrande na pele de Letícia e Juan Guilherme!

“Fina Estampa” foi uma novela irregular — talvez mais irregular que a maioria dos últimos tempos. Houve momentos em que se arrastou. No final, o autor, Aguinaldo Silva, incrementou a história, deu-lhe novo gás. Pena que fez algumas besteiras, como reunir o bobalhão Quinzé — trabalho decente de Malvino Salvador — e a periguete e ladra Teodora — interpretação primorosa de Carolina Dieckman.

Quinzé merecia uma volta por cima. Que ficasse sozinho, rodeado de beldades, ou encontrasse um novo amor que o merecesse! Terminou mesmo nos braços da espertalhona, regenerada às pressas.

Essa mania de Arca de Noé precisa acabar nas novelas! Algumas até conseguem superar essa tolice de formar casais nos últimos capítulos, como se esses fossem o final dos tempos, não só da trama. A maioria, porém, insiste nessa fórmula desgastada.

Pior foi a volta de Tereza Cristina! O que Aguinaldo Silva quis dizer com aquilo? Que Griselda não teria paz? Ah! Melhor que terminasse a novela no final do discurso de “Pereirão” na formatura do filho! Preferia uma saída mais criativa para a “Rainha do Nilo”.

A propósito, gostei do desfecho de Crô. O “supergay” merecia mesmo herdar parte da fortuna de sua “Nefertiti” e ocupar o lugar dela. Já a relação dúbia entre Crô e o brilhante Baltazar de Alexandre Nero foi um final injusto para a adorável Celeste de Dira Paes.

Como quase sempre acontece, os autores de telenovela perdem o fio da meada e não conseguem dar um arremate decente para todos os personagens da história. Sobram pontas soltas no novelo. Uma pena!

Enfim, lá se foram Chico Anysio — brilhante ator de carne e osso — e Griselda — modelo fictício de integridade moral. Talvez a noite de sexta, diante da TV, me faça dormir pensando que o humor pode ser a única saída para um mundo onde pessoas de caráter irretocável só existem na ficção. Até o próximo post!

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