Quem me vê malhando forte três vezes por semana não deve sequer imaginar o quanto sinto preguiça. Sério! Muita mesmo. Só que preguiça é assim: ou você vence a infeliz ou ela detona você. O que é melhor? Descobri a resposta a duras penas…
Desde a infância, praticar exercícios físicos representa esforço extra para mim. Na escola, as aulas de educação física só não eram mais destestáveis que as de matemática. Esportes como futebol, vôlei e handball? Fugia deles como o Diabo da cruz! Na faculdade, graças a um problema de saúde que, bem administrado, não me impediria de malhar, dei um jeito de obter dispensa dos dois semestres de prática desportiva.
Resultado de anos de preguiça: sobrepeso. Seguisse aquele ritmo, chegaria à obesidade.
Vivi uma fase excepcional quando, já gorducho, decidi encarar uma longa temporada de academia. Fiquei empolgado com os resultados, tomei gosto pelos treinos (sobretudo os coletivos), mas curiosamente, uns dois anos depois, acabei retomando minha vida sedentária. Passei a fazer inócuas caminhadas ao ar livre, uma vez por semana, sem compromisso, aproveitando o momento para conversar.
Um belo (?) dia, passeando no Parque da Cidade, em Brasília, senti uma pontada na região lombar. Era o prenúncio de uma crise que, dias depois, teria como diagnóstico hérnia de disco. Pois foi ela a responsável por me fazer, na marra, vencer outra vez a preguiça de malhar, afinal o ortopedista fôra claríssimo: eu nunca me livraria dela (sem cirurgia) se não emagrecesse e me exercitasse regularmente para fortalecer a musculatura de apoio à coluna. Lá fui eu encarar uma academia outra vez!
Salto no tempo: doze anos e muita malhação depois, sob o acompanhamento rigoroso de um personaltrainer, venço três vezes por semana a preguiça de praticar exercícios físicos. Afinal, sempre me lembro da dor de uma hérnia e do que ela me impediria de fazer se eu não controlasse meu peso e reforçasse minha musculatura, além de me alongar.
Entre sofrer um pouco durante 40 minutos de treino, em média, e parar de dançar, correr, saltar e fazer sexo selvagem (esse último é brincadeira), adivinha qual prefiro?
A bem da verdade, estou longe de ser um daqueles magníficos exemplos de superação, que a gente admira nas reportagens de TV. Afinal, a preguiça de malhar nunca passou e provavelmente nunca vai passar. Por outro lado, gosto de lembrar que, mesmo sem cirurgia, levo uma vida absolutamente normal ou talvez até acima da média. Danço, salto, corro, faço caminhadas sem sentir dor e, quando sinto alguma, ela logo passa.
Não venci minha preguiça, mas ela tampouco me venceu. A gente vive uma espécie de cabo-de-guerra. Ela puxa de um lado. Eu, de outro. Não devo negar que ela me vence às vezes, mas eu acabo por superá-la em nome justamente da vontade de aproveitar a vida sem dores. Facilita muito o privilégio de poder pagar um personaltrainer. É dele expressiva parte do mérito de eu vencer a preguiça e ter a hérnia de disco sob controle. Em todo caso, eu poderia gastar o dinheiro com outras atividades. Pagar um profissional para me ajudar a malhar direito significa algo, não?
Meu caso é literalmente de no pain, no gain. Não fosse a dor da hérnia, provavelmente não teria conquistado os benefícios da atividade física regular. Era a preguiça ou eu. Ainda é. Sigo vencendo.
Esta é uma carta de revelações, endereçada apenas a meus amigos jovens — ou pelo menos mais jovens que eu.
“Centro da Juventude Bacchus dt.”, William Adolphe Bouguereau (1825-1905).
Antes de tudo, quero agradecer a vocês pelo carinho e pela atenção com que me tratam. Vocês me acolhem espontaneamente como se eu tivesse a mesma idade de vocês. Alguns fazem questão de minha companhia. Chegam a insistir para ter minha presença, e essa é uma demonstração inegável de afeto e ausência de preconceito etário.
Por isso mesmo, acho importante revelar a vocês o que vem a seguir. Espero ajudá-los a me entender melhor e, se houver algum “generationgap” entre a gente, que ele se reduza (ou se acabe de vez). Bora?
Linguagem
Li muita literatura clássica na adolescência, muita mesmo. Essa leitura teve forte influência sobre minha maneira de falar e escrever. Desde os 13, 14 anos, portanto, tenho um vocabulário meio rebuscado. Uso “lhe” e “deveras”, por exemplo, não por ser de outra geração, mas porque sempre me expressei assim, devido à influência dos clássicos.
Nunca dei importância às críticas a meu estilo e vocabulário, até porque a maioria de meus colegas do Ensino Médio admirava a maneira de eu me expressar. Jamais pretendi ser um novo Machado de Assis, até porque eu não conseguiria, mas ele, de fato, influenciou um pouco meu estilo. Sou fascinado pelo século 19 e por seus escritores e demais artistas. Isso não quer dizer que eu despreze o vocabulário e as tendências atuais. Ao contrário, mesclo tudo e me divirto sinceramente com isso (como, aliás, poderão verificar neste texto).
Edição encadernada de “Dom Casmurro”, de Machado de Assis.
Adoto as gírias desta geração sem resistência, mesmo porque, mais cedo ou mais tarde, todo mundo acabará por adotá-las. Observem. Poucos anos atrás, era raro ouvir um adulto dizer “galera”. “Top“? Nem pensar! De uns tempos para cá, ouço amiúde senhores e senhoras usarem esses e outros termos, comuns entre jovens há anos. Por isso, não se incomodem com quem zoar — ou, como se dizia antigamente, “fazer troça” — da maneira como vocês se expressam. Vocês é que ditam as tendências, como gerações anteriores de jovens o fizeram e lançaram “legal”, “trampo”, “rango”, “balada”, “massa” etc.
Uma dica apenas: tentem conhecer também o vocabulário de seus tios, pais e avós. Pode ser útil e enriquecedor, além de divertido. Não limitem o léxico apenas por preconceito. Sei que a maioria de vocês tem interesse no palavreado formal e se expressa bem quando precisa, mas a dica vale, sobretudo, para quem só tem ouvidos para a fala do século 21. Usar o dicionário hoje está bem mais fácil. Basta um clique no Google ou num app.
Comunicação online
Galera, confesso que um dos “generationgaps” entre mim e vocês está na comunicação a distância. Não me refiro, claro, ao telefone celular (muito menos ao fixo), mas a meios como WhatsApp e messengers do Facebook e do Instagram. A maneira como vocês trocam mensagens é bizarra!
Telefone da Lata, por Joaz Silva.
Vocês não têm ideia do quanto me causa estranheza o fato de vocês ignorarem o princípio básico de qualquer comunicação humana: troca de mensagens com início, meio e fim. A maioria de vocês começa um diálogo e o abandona no meio. O mais bizarro: às vezes, vocês largam a conversa depois de vocês mesmos terem feito uma pergunta. Não esperam pela resposta! Podem ficar offline horas. Somem sem explicação, sem dar tchau. Oloko!
Comunicação offline
Tenho observado que vocês desconhecem ou conhecem pouco os movimentos estéticos de vanguarda do fim do século 19, os quais tanto influenciaram as artes dos séculos 20 e 21. Essa é outra questão geracional, suponho. Devo me limitar a poucos exemplos.
Quais de vocês têm ideia do que é Surrealismo? Posso apostar que muitos. Mas vocês já leram obras surrealistas? Viram filmes surrealistas? Saberiam mencionar de cabeça um ou dois nomes de expoentes do Surrealismo? Conhecem os princípios desse movimento?
E do Dadaísmo vocês já ouviram falar? Já leram poemas dadaístas? Têm em mente alguma obra ou autor ou autora dadaísta?
Calma. Não estou tretando nem pagando de fodástico das artes. Não mesmo! Só levanto esses pontos porque eles são relevantes para a geração de vocês superar ou, pelo menos, amenizar a tendência à literalidade. Vocês, por mais zoadores que sejam, costumam levar tudo ao pé da letra. Quando interpretam discursos em geral (falas, notícias, posts), vocês (não todas nem todos, evidentemente) esquecem que existem figuras de linguagem (metáforas, metonímias, hipérboles) e, principalmente, posturas surrealistas, dadaístas, futuristas, entre outras.
Quando exagero (hipérbole), vocês se assustam. Quando faço analogias malucas (metáforas surrealistas), vocês se assustam. Quando meto o loko e apelo ao nonsense (dadaísmo), vocês se assustam. Esse espanto, noto, tem diminuído com o passar do tempo, mas volta e meia reaparece. Eu não chocaria ninguém que tivesse familiaridade com os movimentos estéticos de vanguarda ou, no mínimo, com as múltiplas figuras de linguagem — cada dia menos comuns no meio hiperliteral do ativismo social predominante nas universidades e alhures.
The Elephant Celebes, por Max Ernst (1891-1976).
Minha geração parecia mais simpática ao universo alegórico. A de vocês — sob a batuta do politicamente correto — tende ao rigor das palavras, à rigidez do discurso, ao controle dos gestos. Adere, às vezes sem resistência, à patrulha política.
Naturalmente, muitos de vocês odeiam o politicamente correto e preferem a liberdade de dizer o que quiserem e quando quiserem sem se preocuparem se estão ferindo almas sensíveis. De qualquer forma, acabam se contagiando com a literalidade destes tempos, graças especialmente aos meios de comunicação.
Sexualidade
Observo uma adorável diversidade entre vocês. Há, porém, pontos em comum. Alguns exemplos: confusão sentimental, liberalidade (às vezes, libertinagem) sexual em público, projetos de vida tradicionais.
A confusão sentimental aparece principalmente quando as relações caminham para algo mais sério. Muita gente sai correndo apavorada, às vezes sem dar qualquer explicação. Feio isso! Por outro lado, parece-me natural alguém se espantar diante de caras ou minas que partem para cobranças logo na primeira semana de contato. Isto mesmo: primeira semana! Muitas minas, principalmente, têm demonstrado interesse em “prender” os caras mal engatam a primeira. Claro que isso geralmente queima a largada. Dá ruim.
Muitos caras, por seu turno (e isso me parece incoerente), tendem a tratar as minas como se ainda vivessem nos tempos da cavalaria. Carregam as bolsas de suas donzelas, pagam a conta do bar, gastam fortunas com os tais combos nas festas, abrem para elas a porta do carrão e, em troca, esperam docilidade, fidelidade (que eles geralmente não oferecem) e, em alguns casos, até subserviência — fora sexo, naturalmente. Pagam de macho-alfa e, ao mesmo tempo, usam toneladas de cosméticos ou ajeitam os cabelos de cinco em cinco minutos, sem contar o “culto ao corpo”, que praticam nas academias, para depois exibirem a “shape” nos rolês e nas redes sociais.
Na minha geração, também havia tudo isso evidentemente, excetuando-se o frenesi nos social media. Só que eu esperava um mundo mais bem resolvido hoje. A atual geração parece ter potencializado as características da anterior. O tal “contatinho”, por exemplo, é uma versão mais banalizada do “pinto amigo”, da “gaveta”, do “gadinho”, da “amizade colorida”, do “amigo ou amiga com benefícios” etc. O vazio desse “amor líquido”, porém, continua, talvez mais forte e profundo ainda.
Da série de pinturas eróticas de Tania Maria Helena.
As pessoas se pegam em público como se fizessem as preliminares do sexo privado. São beijos afoitos, mãos atrevidas, libido regada a muito álcool e outras drogas, trajes sumários, confiança apressada. Sim, isso também vivi. No entanto, revelo que esperava postura mais comedida diante da avalanche atual de informações sobre epidemias de IST (infecções sexualmente transmissíveis), casos de gravidez precoce, estupros e outras formas de abuso sexual.
Moralista eu? Talvez. Fato é que minha geração parecia mais preocupada com as consequências de sua avidez carnal. O uso do preservativo era regra junto à maioria das pessoas que conheço. Digo isso baseado, por exemplo, no crescimento recente da aids junto a pessoas na faixa etária dos 20 aos 30 anos e nos depoimentos de muitos amigos (nenhuma amiga), que confessaram abrir mão da camisinha na maioria de suas relações sexuais, inclusive as casuais. Fogosos, não raramente bêbados, metem-se sob os lençóis de mulheres que mal conhecem. Elas, pelo jeito, são cúmplices. Poderiam exigir o uso do preservativo ou usarem-no elas próprias ou simplesmente não levarem para suas casas ou não irem para as casas de homens desconhecidos (ou quase). A via costuma ser de mão dupla: os dois querem brincar de roleta russa. Pois é…
Em meio a isso tudo, a eterna cobrança social pela constituição de uma família o mais tradicional possível: casal heterossexual, da mesma etnia, de preferência da mesma classe social, fértil (ainda que seja para ter um filho apenas), disposto a seguir o modelo familiar dos pais. Nada contra. A permanência de certos valores, todavia, me parece mais contraditória agora, quando o vale-tudo dos rolês aposta na “putaria”.
Ouço um funk a distância. Opa! Leiam isso em sentido figurado.
Trabalho
No que diz respeito à vida profissional, sinto orgulho de vocês. Não brincam em serviço, literalmente. Todos cursaram uma faculdade, ou seja, aproveitaram a oportunidade de fazer isso. Hoje perseguem a realização profissional com determinação admirável. Quem vê a maioria de vocês nos bares e nas festas jamais pode imaginar o quanto vocês se dedicam ao trabalho — ou aos estudos ou a ambos simultaneamente.
Alguns de vocês cagam para a política. Ao mesmo tempo, estão por dentro das principais notícias e votaram em quem votaram porque acreditaram no discurso de seu candidato, ou seja, acompanharam as campanhas eleitorais. Tenho, entre vocês, amigas e amigos de esquerda, de direita e de centro no espectro político. Desconfio dessa divisão assim, rígida, mas a emprego para simplificar. Todas e todos, porém, trabalham com afinco porque acreditam no próprio futuro e no do país — uma fé que morre em mim a cada dia.
Amizade
Sou uma pessoa de sorte porque, no âmbito da amizade, não tive decepções e frustrações traumáticas. Na infância e na adolescência, sofri bullying “de raiz”. Não foi esse bullying Nutella que faz um moleque chorar porque o coleguinha riu de seu par de meias furadas. Passei por situações que me fizeram acreditar ser impossível ter amigas e amigos de verdade um dia. Foi foda! Pior do que podem imaginar. Ainda assim, superei essa fase.
Há muitos anos, cultivo amizades que quase só me dão alegrias. Digo “quase” porque somos todos falíveis. Rolam tretas de vez em quando. Erro com as pessoas. Elas erram comigo. Só que, em meio a tantas amigas e tantos amigos, nunca me faltam ombro, colo, abraço, cafuné, palavras de conforto. Vocês me acolhem, e eu acolho vocês.
Nem todos sabem que, como em alguns romances e em todas as telenovelas, minha vida social se divide em núcleos. Os que sabem estranham isso. Quando se trata de amizade, vocês costumam ter um grupo só, no máximo dois. Eu tenho diversos. Uso até apelidos para cada núcleo: os twenties, os coxinhas, as meninas, os meninos, os onusianos.
Vocês são muito mais sussa que eu! Tenho essa parada meio cartesiana que me faz parecer sistemático, rígido, rigoroso, linha dura. Às vezes, sou mesmo. Levo certas situações a ferro e fogo. Nāo deveria. Melhor ser suave. Vocês se espantam com meus “surtos” de indignação, raiva, ressentimento. Costumam compreender e me dar razão no que diz respeito a minhas motivações, mas sei que nāo aprovam o radicalismo de certas atitudes. Bem… Estou me esforçando para mudar, inclusive por meio de psicoterapia.
Amor
Galera, cada um de vocês tem lá sua dose de romantismo. Contudo, duvido de que tenham bebido tanto na fonte dos românticos quanto bebi. Aliás, foram diversas fontes: música, literatura, cinema, televisão. Que influência negativa, eu diria! Vocês vivem a era do “amor líquido”, como teoriza Zygmunt Bauman. Eu ainda inalo o aroma de uma esperança cada vez mais distante.
Acredito – estupidamente, talvez – que as relações amorosas tenham de durar para sempre. Não faço amigos para descartá-los em alguns meses, quando não me servirem mais. Faço amigos na esperança de que a relação dure uma vida inteira. O mesmo vale para as relações afetivo-sexuais.
Precisamos de muito tempo para conhecer alguém de verdade. Semanas e meses são pouco. Por isso, quando amo, quando me envolvo afetivamente com alguém, desejo que essa relação dure. Não desisto facilmente das pessoas. A paixão sempre acaba, então é preciso cultivar o amor que ficou, se ficou. Isso demanda um empenho que vocês nāo parecem ter — salvo algumas exceções.
O amor líquido evapora-se ou congela-se. Oscila conforme a temperatura do momento. Prefiro o amor sólido, menos vulnerável, ainda que demande mais esforço. Para mim, relação = ralação. Pena que essa minha forma de ver assuste muitas pessoas, que ficam logo temerosas de que eu esteja a fim de dominá-las, controlá-las, prendê-las em um castelo de sonhos. Falha minha também por não conseguir traduzir meu real modo de ver. Envio a mensagem errada. Lost in translation, we lose ourselves.
Um aparte muito importante, sobre o qual poderemos conversar um dia se quiserem: minha intuição. Ela é uma característica que nem todo mundo entende e aceita. Parece mediunidade. Sacam? É forte, impactante, incontrolável às vezes. Simplesmente enxergo e sei. Antecipo comportamentos. Como? Já li a respeito em revistas de psicologia. Encontrei explicações interessantes e convincentes, mas ninguém deve ser obrigado a aceitá-las.
Encontro uma pessoa pela primeira vez. Posso não “ver” nela absolutamente nada, mas também posso ver muito: caráter, personalidade, traumas, intenções. Quando cometo o erro de expor o que vi, geralmente me dou mal. As pessoas acham estranho, suspeitam de mim, ficam com um ou dois pés atrás. “O que diabos esse cara quer com isso?”, alguns de vocês devem pensar. Perdoem-me. Estou me empenhando para guardar só para mim mesmo as “visões” que tenho sobre as pessoas. Desistir de ser assim não posso nem devo, pois o tempo prova que estou certo – pelo menos na esmagadora maioria das vezes, e tenho várias testemunhas disso. Acreditem se quiserem.
Sigo…
Prometi revelações, não fofocas ou confissões embaraçosas. Por isso, encerro esta carta-artigo com uma revelação final. Preparem-se para ficar um pouco tristes, talvez.
Valorizo tanto o amor entre duas pessoas que, como já disse, acabo enviando a falsa mensagem de que estou ansioso e pronto a sufocar quem se envolver comigo. Curiosamente, nas poucas vezes em que senti alguma segurança ao lado de alguém, relaxei, pois me entrego com certa facilidade a quem me inspira confiança e também se entrega para mim. Inseguro, porém, comporto-me mais ou menos como uma fera ferida: rosno, avanço, mordo e, lamentavelmente, chego até a ferir de vez em quando. Nunca matei ninguém, felizmente, nem pretendo matar. Quer dizer…
Eis a parte um tanto dramática desta história. Espero que a compreendam, especialmente à luz de tudo o que escrevi aqui. Abomino a ideia de tirar a vida de qualquer pessoa, exceto a minha própria. Ao afirmar isso, não estou alertando vocês para um ato fatal contra mim mesmo. Estou tentando dizer que prefiro morrer a matar. Como vivo um tempo que me corrói internamente com sua arrogância e superficialidade extremadas, confesso que não raramente desejo partir deste mundo o quanto antes.
Sei que vocês já estiveram em rolês errados. Então… De vez em quando, sinto como se minha vida, este mundo, a sociedade atual fossem um imenso rolê errado. Ai que vontade de vazar! Partiu Marte! Partiu Vênus! Partiu Sol! Partiu Céu! Ou será que eu partiria para o Inferno? Lembrem-se, por favor, de não ser literais… Lembrem-se de tudo o que revelei antes de chegar até aqui.
“Namorados”, de Ismael Nery.
É a frustração amorosa, galera, que pega. Tão ligados? Um amigo me disse outro dia: você superestima essa parte. A vida é mais que isso. Outro falou algo semelhante: Love’s overestimated. Ambos namoram sempre que podem. Será que pensam mesmo assim? Ou será que se aproveitam destes tempos de amor líquido e se refestelam num rolê errado, porém viável, suportável, conveniente, do tipo “é o que temos para hoje”?
Ah, esse pragmatismo que flerta com a frieza, com a leviandade, com o cinismo! É justamente isso que me deixa infeliz. O pior é que pouca gente realmente entende aonde quero chegar e o que estou de fato afirmando. Beleza!
Vocês, que chegaram até aqui (tenho certeza de que foi mais de um), merecem um agradecimento especial: em breve, receberāo algo meu. Como? Copiem este parágrafo (o antepenúltimo) e colem-no em uma mensagem que vocês podem enviar para mim por e-mail ou WhatsApp. Depois, é só aguardar.
Grato, mil vezes grato, por estarem em minha vida, perto ou longe. Esteja eu em Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Sol, outro sistema solar ou esteja eu no Sétimo Céu, saibam que vocês fazem toda a diferença em minha vida. Meu tempo é curto. Aguarda-me, como sabem, o lendário cemitério de elefantes. Vocês ficarão e, mansos, herdarão a Terra. Transformem-na em um mundo de amor sólido, por favor.
Já observei que algumas pessoas se comportam como se o mundo lhes devesse algo. Têm uma postura que combina revolta, cinismo, inveja e arrogância. A dose de cada uma dessas atitudes varia de pessoa para pessoa e até de momento para momento.
Gente assim se sente lesada, injustiçada. Acha que merece muito mais do que tem. Acredita que seu prejuízo é superior ao de todas a outras pessoas e que as demais prejudicadas são covardes ou ingênuas por não cobrarem do mundo o que lhes é devido.
Não me refiro, claro, às pessoas que reivindicam seus direitos éticos e legais. Refiro-me àquelas que projetam suas frustrações e insatisfações no mundo a sua volta. Não vão à luta para conquistar o que lhes falta. Preferem cobrar isso de quem está perto, sobretudo se essa pessoa próxima lhe parecer mais afortunada. Gratidão passa longe. Gente assim não enxerga favor, só obrigação. Afinal, repito, acredita que o mundo lhe deve algo.
A revolta íntima por não possuir tudo o que julga merecer mescla-se, então, à inveja. “Se ele tem, por que eu não posso ter também?”, pensa aquela ou aquele que vê no mundo seu eterno devedor. “Se ela faz isso, por que eu não posso fazer?”, raciocina.
Esse espírito competitivo, que poderia, em certa medida, até ser saudável, torna-se pernicioso. A autocrítica, evidentemente, inexiste. Se não consegue realizar algo, o sujeito sempre atribui a responsabilidade pelo fracasso às outras pessoas ou ao mundo ou à vida, nunca a si próprio. Ele é sempre vítima.
Gente assim costuma ser cínica. O mais provável é que esse cinismo seja um subproduto da revolta, a qual tem por hábito endurecer o indivíduo por dentro. A arrogância vem completar o pacote. Afinal, o “credor do mundo”, julgando-se cheio de direitos e quase sem deveres, costuma fazer suas cobranças com o nariz empinado. “Grato”, “obrigado”, “por favor” são palavras raras na boca dessa gente.
Devo dizer que a postura de “credor do mundo” não se manifesta somente em pessoas menos afortunadas. É mais comum em quem enfrenta dificuldades, sejam de que ordem forem. Todavia, acomete também quem ocupa posição social confortável.
A frustração diante do insucesso só complica esse quadro psicológico. Quando a cobrança é inviável ou infrutífera, cresce a revolta no cobrador, que a exterioriza de formas diversas. Pode ser atravessando uma rua em movimento e obrigando, assim, os carros a frearem só para ele passar (soberba). Pode ser infringindo uma regra apenas para mostrar-se acima dela (infantilidade). Pode ser reagindo com desdém a uma queixa ou cobrança de alguém hierarquicamente superior, de maneira a demonstrar que não se sente por baixo ou que o outro não tem tanto poder quanto pensa (orgulho).
Reitero que não se pode confundir o tipo que descrevo neste artigo com uma pessoa que conhece seus direitos de cidadã e procura exercê-los. Trata-se, nesse último caso, de uma questão de justiça, não de desforra. Não se percebe ressentimento, mas conciliação. O espírito competitivo dá lugar ao espírito colaborador. Há, enfim, muito mais cérebro que fígado. Geralmente, quem busca justiça para si também pensa no benefício direto ou indireto dos demais. O “credor do mundo”, ao contrário, costuma ser egoísta.
Conheci algumas pessoas assim e, de quando em vez, deparo com mais outras tantas. São bastante comuns na verdade. Nem sempre se pode identificá-las “a olho nu”. Uma observação mais atenta, porém, logo revela os sinais. Lá está mais um espécime da curiosa fauna dos “credores do mundo”. Segue garboso, autoconfiante, sorriso cínico. Ao menor sinal de ameaça, mostra as garras. Como o Rei da Selva, o “credor do mundo” é uma fera.