Que viagem! No tempo.

Vale a pena ver de novo “A Viagem”, novela de Ivanir Ribeiro exibida pela Globo em 1994. Por quê? Há vários motivos, mas o principal é histórico. Como era o Brasil 31 anos atrás? Como se fazia telenovela há três décadas? O que mudou? O que permaneceu?

Para muita gente, o que primeiro chama a atenção é o estágio da tecnologia na época. Os carros, claro, eram bem menos sofisticados que os de hoje. Não existiam veículos elétricos. Os melhores automóveis da novela são latas velhas hoje em dia. Os aparelhos celulares estavam chegando no Brasil. Pouca gente tinha um, e mesmo quem tinha usava o seu com moderação, pois as chamadas eram caríssimas. Chega a ser engraçado ver os personagens fazendo ligações de telefones fixos ou de orelhões. Em “A Viagem”, as crianças e os jovens ricos brincam na piscina, e os pobres, na rua. Nada da gurizada jogando videogame ou mergulhada no smartphone. Os casais falam em “pegar um cineminha”, já que ainda não existiam serviços de streaming.

Para outras pessoas, o que mais desperta a atenção é a moda. Curiosamente, o vestuário masculino mudou mais. Na época da novela, os homens vestiam camisas e calças largas, paletós em tom pastel com lapelas amplas e longas, pulôveres sobre os ombros, camisa ou camiseta por dentro das calças jeans. O mais interessante é notar o improvável: blusas de frio no calor escaldante do Rio de Janeiro. O personagem de Cláudio Cavalcanti, Dr. Alberto, por exemplo, está sempre agasalhado, mesmo em pleno verão carioca. Já as mulheres não se vestem de forma tão diferente hoje em dia. Os cortes de cabelo, sim, se alteraram bastante — embora as idas e vindas da moda reduzam os contrastes.

Em termos de comportamento, dá para notar o quanto o país mudou. É raro – para não dizer impossível – atualmente assistir a uma novela desprovida de qualquer conteúdo político. Alguém poderá dizer que toda produção cultural é política, mesmo se não tiver essa intenção. Portanto, toda telenovela seria política. Isso pode ser verdade, mas também é fato que esse componente político às vezes se dilui mais em uma obra do que em outra. É o caso de “A Viagem”. Não há ênfase em um discurso politizado. Ele se distribui pela trama, se dilui nas diversas sequências, de maneira a soar natural.

Mais um contraste entre 1994 e 2025: presença de atores e atrizes negros. São poucos, e a maioria em papéis de subalternos. Nesse sentido, observa-se que a sociedade evoluiu a ponto de hoje as telenovelas trazerem negras e negros como protagonistas e em posições de comando, algo raro naqueles tempos. Em “A Viagem”, não se vê negros em papéis de destaque.

As mulheres, porém, já figuram como protagonistas e ocupam espaço respeitável na trama – muitas vezes superior ao dos homens. O que mudou de lá para cá foi algo mais sutil: a consciência em torno do que as mulheres devem aceitar no comportamento dos homens. Em 1994, já se notava que elas buscavam autonomia e independência, porém eram constantemente cobradas por não terem um companheiro. Há diálogos de diferentes personagens que trazem esse tipo de cobrança, como se as mulheres estivessem sozinhas por culpa delas, ou seja, por não aceitarem traições, por exemplo. A maioria das personagens, porém, se mostra consciente de que os tempos mudaram, e elas não devem nem precisam mais se sujeitar a determinados comportamentos dos homens só para manterem o casamento. No entanto, o caso Diná, a protagonista de Christiane Torloni, prova que 30 anos atrás persistia a visão de que a mulher ciumenta está sempre errada, como se o homem mulherengo não desse motivos para a mulher sentir-se insegura. Por mais paranóica que seja Diná, os ciúmes dela não são sempre infundados. O marido, Téo, do então galã Maurício Mattar, tinha de fato um lado Don Juan. Infelizmente, isso é destacado poucas vezes nas falas dos personagens em torno de Diná.

O ritmo mais lento de “A Viagem” também ajuda a lembrar alguns ou mostrar a outros como era menos elétrica a vida de 30 anos atrás. A teledramaturgia atual reflete um mundo em alta rotação. Há três décadas, os espectadores esperavam menos ação constante. Tinham paciência para diálogos mais longos e sem frases de efeito. Conseguiam tolerar uma cena longa de um homem desconhecido cantando atrás das grades. Aturavam calados – pois não tinham redes sociais – passagens sem muito respaldo na realidade, como presos de roupa nova e limpa ou, como apontado acima, cariocas de blusa de frio sob o sol, sem contar as falhas de continuidade. Hoje, os erros – ainda que discretos – de “A Viagem” não escapariam de comentários mordazes no Instagram.

Quanto ao tema principal da novela – vida após a morte –, parece que pouco mudou. O preconceito contra o espiritismo em geral e o kardecismo em particular se mantém. Não chega a ser fisicamente agressivo, como no caso da umbanda, mas tampouco é leve. Talvez, em vista do avanço do pentecostalismo no Brasil (insignificante há 30 anos), uma novela como “A Viagem” despertasse incômodo hoje, algo de que não parece ter havido registro três décadas atrás. O personagem Alexandre, incrivelmente interpretado pelo ator Guilherme Fontes, poderia gerar controvérsias hoje ou interpretação diferente da kardecista. Ao renegar Deus e comportar-se como um demônio, Alexandre poderia ser visto como o próprio Satã. De uma sociedade obcecada com redes sociais, espera-se tudo.

Independentemente de mudanças mais ou menos relevantes, a verdade é que “A Viagem”, assim como muitos filmes, séries e outras telenovelas do passado, permite – com o perdão do trocadilho – uma viagem no tempo e uma reflexão sobre o que ganhamos e o que perdemos em três décadas.

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