Crédito com o mundo.

Já observei que algumas pessoas se comportam como se o mundo lhes devesse algo. Têm uma postura que combina revolta, cinismo, inveja e arrogância. A dose de cada uma dessas atitudes varia de pessoa para pessoa e até de momento para momento.

Gente assim se sente lesada, injustiçada. Acha que merece muito mais do que tem. Acredita que seu prejuízo é superior ao de todas a outras pessoas e que as demais prejudicadas são covardes ou ingênuas por não cobrarem do mundo o que lhes é devido.

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Não me refiro, claro, às pessoas que reivindicam seus direitos éticos e legais. Refiro-me àquelas que projetam suas frustrações e insatisfações no mundo a sua volta. Não vão à luta para conquistar o que lhes falta. Preferem cobrar isso de quem está perto, sobretudo se essa pessoa próxima lhe parecer mais afortunada. Gratidão passa longe. Gente assim não enxerga favor, só obrigação. Afinal, repito, acredita que o mundo lhe deve algo.

A revolta íntima por não possuir tudo o que julga merecer mescla-se, então, à inveja. “Se ele tem, por que eu não posso ter também?”, pensa aquela ou aquele que vê no mundo seu eterno devedor. “Se ela faz isso, por que eu não posso fazer?”, raciocina.

Esse espírito competitivo, que poderia, em certa medida, até ser saudável, torna-se pernicioso. A autocrítica, evidentemente, inexiste. Se não consegue realizar algo, o sujeito sempre atribui a responsabilidade pelo fracasso às outras pessoas ou ao mundo ou à vida, nunca a si próprio. Ele é sempre vítima.

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Gente assim costuma ser cínica. O mais provável é que esse cinismo seja um subproduto da revolta, a qual tem por hábito endurecer o indivíduo por dentro. A arrogância vem completar o pacote. Afinal, o “credor do mundo”, julgando-se cheio de direitos e quase sem deveres, costuma fazer suas cobranças com o nariz empinado. “Grato”, “obrigado”, “por favor” são palavras raras na boca dessa gente.

Devo dizer que a postura de “credor do mundo” não se manifesta somente em pessoas menos afortunadas. É mais comum em quem enfrenta dificuldades, sejam de que ordem forem. Todavia, acomete também quem ocupa posição social confortável.

A frustração diante do insucesso só complica esse quadro psicológico. Quando a cobrança é inviável ou infrutífera, cresce a revolta no cobrador, que a exterioriza de formas diversas. Pode ser atravessando uma rua em movimento e obrigando, assim, os carros a frearem só para ele passar (soberba). Pode ser infringindo uma regra apenas para mostrar-se acima dela (infantilidade). Pode ser reagindo com desdém a uma queixa ou cobrança de alguém hierarquicamente superior, de maneira a demonstrar que não se sente por baixo ou que o outro não tem tanto poder quanto pensa (orgulho).

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Reitero que não se pode confundir o tipo que descrevo neste artigo com uma pessoa que conhece seus direitos de cidadã e procura exercê-los. Trata-se, nesse último caso, de uma questão de justiça, não de desforra. Não se percebe ressentimento, mas conciliação. O espírito competitivo dá lugar ao espírito colaborador. Há, enfim, muito mais cérebro que fígado. Geralmente, quem busca justiça para si também pensa no benefício direto ou indireto dos demais. O “credor do mundo”, ao contrário, costuma ser egoísta.

Conheci algumas pessoas assim e, de quando em vez, deparo com mais outras tantas. São bastante comuns na verdade. Nem sempre se pode identificá-las “a olho nu”. Uma observação mais atenta, porém, logo revela os sinais. Lá está mais um espécime da curiosa fauna dos “credores do mundo”. Segue garboso, autoconfiante, sorriso cínico. Ao menor sinal de ameaça, mostra as garras. Como o Rei da Selva, o “credor do mundo” é uma fera.

 

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4 respostas para Crédito com o mundo.

  1. Adriel disse:

    Excelente texto, Luciano! Reconheço-me nele. Acho que todos que são honestos consigo mesmos se reconhecem nele de certa forma.

    “Grato”, “obrigado” e “por favor” nunca foram palavras raras em minha boca, mas o grau de verdade com que saem dela pode oscilar muito.

    Como você disse, “[a] dose de cada uma dessas atitudes varia de pessoa para pessoa e até de momento para momento numa fase boa, de gratidão”. Vivo no momento uma fase boa, de gratidão, mas o cinismo…

    “O mais provável é que esse cinismo seja um subproduto da revolta, a qual tem por hábito endurecer o indivíduo por dentro”. Ainda bem que tenho encontrado em minha família motivos para me amolecer um pouco!

  2. Alessandra Carneiro disse:

    Às vezes observamos tantas situações ao nosso redor e não sabemos como expressá-las. Assim como estas palavras escritas com tanta habilidade.
    Resumindo, um texto coeso, que vale refletir.

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