Carta a um amigo angustiado com o mal na humanidade.

Caro amigo, mais de uma vez, você compartilhou comigo suas dúvidas sobre a existência de Deus e a competência d’Ele ao criar a humanidade. Afinal, você admira a natureza, mas não consegue ter a mesma admiração pelos seres humanos.

Certa vez, em uma de nossas conversas, você afirmou o seguinte: “Se Deus foi o criador da raça humana, ele fez a pior burrada da vida dele. Como pôde colocar pessoas loucas para tomar conta do mundo? Como ele pôde deixar ‘crianças’ tomarem conta do planeta?” Na ocasião, não tivemos condições de prosseguir o diálogo. Seguem agora as considerações que eu gostaria de ter feito naquele dia.

Planeta_em_perigo

Compreendo sua dúvida. Mais que isso: compartilho da mesma dúvida, embora eu admita a hipótese de Deus não existir e nunca ter existido. Numerosos filósofos também abordam essa questão. Há séculos, pensadores de todas as partes vêm se debruçando sobre o que muitos chamam de “o mistério da iniqüidade”.

Em outras palavras, trata-se do mistério do mal no mundo. Se existe um Deus, criador de tudo e de todos, e Ele é soberanamente justo e bom, onipresente, onisciente e onipotente, como pode permitir que haja o mal?

Deus na pintura de Michelangelo.

Deus na pintura de Michelangelo.

Para os teólogos, ou seja, os estudiosos das escrituras que eles consideram sagradas, não há incompatibilidade nenhuma entre a ideia de um Deus perfeito e um mundo imperfeito. Cada igreja explica à sua maneira essa contradição.

A maioria das explicações religiosas para a existência do mal recorre ao livre arbítrio, isto é, à liberdade dos seres humanos para escolher entre o certo e o errado, o bem e o mal. Para os religiosos, a responsabilidade pelo mal está na humanidade, não em Deus. Há mesmo quem acredite que Adão e Eva deram início ao “estrago”.

Algumas religiões apontam o nome do maior culpado: Diabo (ou Demônio, Satanás, Lúcifer, entre outros). Mesmo assim, as pessoas têm responsabilidade (ou culpa) porque cedem às tentações desse supremo malfeitor.

DiaboxJesus

Imagino que você tenha dificuldade para aceitar essas explicações. Se as aceitasse, não teria tantas dúvidas, não proferiria “blasfêmias”. Pois saiba que também rejeito essas explicações, juntamente com centenas de pensadores de diferentes épocas.

Possivelmente, para a maioria das pessoas leigas (no sentido de não religiosas), o mal é um fato da vida, que se explica por meio de diferentes áreas de conhecimento. Para os agnósticos (aqueles que não se consideram ateus, nem crentes, pois não dão muita importância à religião), faz pouca ou nenhuma diferença se o mal é resultado das ações humanas ou de um ser maligno. O fato é que o mal está aí, e Deus, se existe, permite que ele ocorra. Melhor não contar com Ele, então.

O que você questiona está na mente de numerosos pensadores, assim como na de muita gente iletrada. Se Deus é todo-poderoso, por que Ele não controla a humanidade nem esse suposto Demônio? Mais: por que permitiu que o mal surgisse um dia? Pior ainda: se Deus criou tudo e todos, Ele também criou o tal Demônio, Ele também criou o mal. Como um ser de suprema bondade, perfeito, pode ter criado o Diabo ou a maldade ou ambos?

Explosão da bomba atômica sobre Hiroshima.

Explosão atômica sobre Hiroshima.

São muitas e variadas as dúvidas. Todas fazem sentido para quem não se contenta com as explicações religiosas (seu caso). Os ateus resolvem o problema simplesmente eliminando a ideia de um deus. Não há Deus nem deuses. A ciência e a filosofia lhes servem de apoio.

Sociologia, antropologia, psicologia, neurobiologia, psiquiatria, entre outros ramos de estudo e pesquisa, esforçam-se para compreender e explicar por que há maldade nas pessoas e no mundo. Nem sempre conseguem, mas apontam para interessantes reflexões.

Os agnósticos, como já disse, também preferem excluir Deus da equação. A maioria desiste de fazer perguntas desse tipo. Para eles, tanto faz se Deus existe ou não. Há as duas possibilidades. Não se atrevem a eleger uma.

Hannah Arendt: reflexões sobre a banalidade do mal.

Hannah Arendt: reflexões polêmicas sobre a banalidade do mal.

Você parece ser um tipo especial de agnóstico. Afinal, não descarta a possibilidade de Deus existir, tanto que o menciona, mesmo para criticá-lo. Se fosse ateu ou um agnóstico “desligado”, provavelmente não teria conflito algum, nem lembraria Deus em uma conversa sobre a maldade humana (ou a incapacidade da humanidade de cuidar do próprio planeta em que vive).

O que parece incomodar você é justamente a dúvida: se Deus existe, como o ser humano pode ser mau? Aliás, nesse ponto, você chega a afirmar que a maldade faz parte da criatura humana. Para você, todos os seres humanos são maus por natureza. Nesse ponto, finalmente divergimos.

Estou com você quando levanta dúvidas sobre a origem do mal (ou do que julgamos ser mau). Para mim, as religiões não oferecem respostas satisfatórias para a existência da maldade. Essa questão permanece um mistério mesmo. Mas não compartilho sua ideia de que o ser humano é mau por natureza. Já discutimos isso, e eu lhe disse que acho sua posição determinista, maniqueísta e generalizante. Vou tentar lhe explicar melhor minha visão por etapas. Espero conseguir ser claro.

Maniqueu (c. 216-276): profeta de origem iraniana.

Maniqueu (século III a.C): bem x mal.

Por que considero sua posição determinista (ou fatalista)? Porque tenho dúvidas – e a própria ciência parece tê-las também – se indivíduos estão destinados a isso ou àquilo, se existe bondade ou maldade inata. O determinismo biológico, por exemplo, faz sentido quando se trata de fatores genéticos. Sou propenso a ser baixo se, em minha família, nenhum antecessor meu é ou foi alto. Porém, não há provas definitivas de que esse tipo de determinismo valha para explicar, sozinho, certos comportamentos.

Para mim, os primeiros seres da espécie humana não eram bons nem ruins. Assemelhavam-se aos bichos. Agiam mais por instinto. Eram simples e ignorantes. Em contato com o ambiente, ao longo de séculos, foram desenvolvendo a razão, o raciocínio, e aprendendo novas formas de solucionar problemas. Nesse processo, experimentaram muito. Não tinham noção clara de certo e errado, bom e mau. Como animais – mesmo que racionais – carregavam instintos de sobrevivência (luta pela autopreservação).

Homem_primitivo

Talvez o primeiro assassinato da história da humanidade tenha ocorrido por causa de comida. Ao se darem conta de que a morte do outro poderia ser uma solução, os primeiros hominídeos podem tê-la adotado em diversas situações – além de matar por alimento, também passaram a matar para obter sexo, espaço físico, objetos etc. Até hoje, quando uma pessoa é violenta, nós, brasileiros, a chamamos de “animal”.

Os primeiros humanos talvez se parecessem mentalmente com crianças (evidentemente, sem qualquer tipo de formação, instrução). Não possuíam ainda valores morais. Não se pode considerá-los bons ou maus por natureza. A natureza não parece ter valores morais.

Em vista disso, discordo de sua visão determinista. O ser humano não é mau por natureza, da mesma forma que não é bom por natureza. Ele simplesmente é. Existe. Age e reage. O que ele será e como será dependerão do ambiente, de sua formação geral, das experiências ao longo da vida e de como aprenderá a administrar os instintos prejudiciais ao convívio social saudável.

Homem_Meio

Por que considero sua posição maniqueísta? Porque você (mesmo inconscientemente) estipula valores morais do tipo “bom e ruim”, “certo e errado”. Como ter certeza sempre de que algo é bom ou ruim? A experiência pode até ensinar: isso funciona, isso não funciona, isso dá certo, isso não dá certo, isso faz bem, isso faz mal (para mim, para os outros, para todos). Mesmo assim, há casos de  supostos “males que vêm para bem” ou de supostos “bens que vêm para mal”. Como sabê-lo? Difícil…

El-pensador

Lembro ainda as situações em que não se pode afirmar que algo é bom ou ruim. Algo pode não ser nem um nem outro. Pode ser neutro. Ou pode ser bom e ruim ao mesmo tempo – dependendo das circunstâncias ou da perspectiva ou de outros fatores quaisquer.

Enfim, dizer que o ser humano é mau por natureza equivale a defender a ideia de que existe um mal. Como seria isso? O que mais vemos por aí são pessoas agirem de maneira ora construtiva, ora destrutiva (ou de ambas as formas).

Admito a existência de padrões predominantes. Pode haver pessoas que agem de maneira mais destrutiva do que construtiva. Um assassino serial pode ser um exemplo de pessoa má. Todavia, até um criminoso desse tipo pode agir construtivamente em alguns momentos da vida. Seria muito difícil, talvez impossível, apontar uma pessoa totalmente má ou totalmente boa. E repito: o que é bom e o que é mau?

Dexter: serial killer "do bem"?

Personagem da série de TV “Dexter”: serial killer “do bem”?

Para admitir o mal de forma absoluta, como você faz de vez em quando, seria preciso admitir também seu oposto, ou seja, o bem absoluto. Nesse caso, se o bem absoluto existe, por que você não pode acreditar, então, que todo ser humano é bom por natureza, e o mundo eventualmente o corrompe? É possível medir a quantidade de bondade e de maldade no planeta?

Assim, o maniqueísmo confunde-se, perde-se. Há mal absoluto? Há bem absoluto? Ou bem e mal misturam-se dentro de cada ser humano? Talvez, então, não haja seres humanos completamente maus, mas apenas seres humanos nos quais o mal predomina. Da mesma forma, haveria outros nos quais o bem predomina. Mais uma vez, é preciso crer em bem e mal… Caímos na armadilha do maniqueísmo.

Em outras palavras, quero dizer: se existe oposição clara entre bem e mal, por que somente o mal seria natural no ser humano? Por que o bem também não poderia sê-lo? Meu ponto de vista é o de que essa divisão entre bem e mal é relativa, se não em todas, pelo menos na maioria das vezes. Lembra-se do filme “Crash – No limite”? Ele é um típico exemplo de rejeição à visão maniqueísta.

Crash_filme

Por último, considero sua posição generalizante. Por quê? Porque não temos elementos suficientes para universalizar e dizer: todos os seres humanos são maus por natureza. Como podemos provar isso? Podemos dizer que há muitos seres humanos destrutivos, mas não podemos dizer, com segurança, que todos o são.

Mesmo quando lemos sobre guerras ou vemos imagens delas, não podemos generalizar e dizer que todos ali são responsáveis pelo conflito. Há vítimas entre eles. Nem todos são favoráveis à luta armada. Muitas batalhas se travam sem apoio popular. Normalmente, é o poder (e o interesse) de uma minoria que empreende a guerra.

Guerra_urbana

A maldade – ainda que não seja absoluta – parece ser o resultado de instintos animalescos somados a uma mente possivelmente doentia, a uma formação eticamente frágil e a circunstâncias específicas, ou seja, ela pode ter origem tanto no interior quanto no exterior do indivíduo ou em ambos.

Contribuem para ela a personalidade e o caráter, que se moldam pela educação (ambiente), mas também pesam as inclinações individuais (fatores biológicos explicam a agressividade em alguns casos, e até certo ponto). O mesmo se pode dizer da bondade. Mas reitero: não há como ser maniqueísta puro, pois o bem e o mal absolutos talvez não existam. E aqui me rendo quando utilizo a palavra “talvez”…

Esse é um tema realmente complexo, traiçoeiro. De qualquer forma, será que consegui ser claro? Podemos discutir esse assunto horas e horas. Por isso, preferi escrever-lhe esta carta. Por mensageiro eletrônico, seria quase impossível expor todas estas idéias. Por telefone, caríssimo. À distância, enfim, não me parece a melhor forma. Mas, pessoalmente, só se você e eu tivéssemos realmente muito tempo juntos, e ambos estivéssemos com muito boa-vontade para debater a questão, mesmo sem ter a leitura dos milhares de livros que esse tema já gerou ao longo de séculos.

Em todo caso, estou aberto ao debate e à mudança de ideias. Sempre.

Abraço,

Luciano.

P.S.: Em respeito ao fato de você não ser versado academicamente em filosofia, poupei-lhe de citações. Ademais, eu próprio não me considero um expert no assunto.

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7 respostas para Carta a um amigo angustiado com o mal na humanidade.

  1. Daniele disse:

    O meu nome é Daniele e encontrei esta reflexão muito interessante. Meu português é pobre mas vou tentar de escrever a minha opinião sobre este assunto. Eu fiz agora o cadastro ao seu Blog.

  2. Daniele disse:

    Depois ter lido uma segunda vez o Blog, estou refletindo e lendo uns trechos da Bíblia pois eu também não sou experto deste assunto a respeito do bem e do mal. Ainda estou integrando a experiência da minha vida com as mensagens escritos na Bíblia. O que eu queria dizer é que o meu comentário obviamente será condicionado da minha fé em Deus e no Filho Dele. Estou, fazendo isso, tentando de escrevê-lo em português, coisa não fácil pra mim. A coisa positiva deste artigo é que eu posso melhorar me mesmo. Obrigado por isso e até logo, quando vou acabar de escrever a minha reflexão. Desculpa por o meu português.
    Bertini Daniele

  3. Daniele disse:

    A MINHA REFLEXÃO:
    A minha vida foi muito serena, apesar de qualquer problema que me procurou grande dor. O falecimento dos meus país, o meu despedimento sem pré-aviso a novembro do ano 2000, o longo período de três anos e meio em que meu filho de 30 anos não conseguiu encontrar trabalho, a convivência de quase 15 anos com a minha sogra. Portanto não posso dizer nada a respeito do mal que muitas pessoas têm tido na vida deles. A velhice manda-me a refletir que provavelmente a experiência do mal possa chegar na maneira improvisa. Por isso eu estou-me preparando. Penso com frequência ao mal que destrói o mundo, mas não posso atribuir a Deus a responsabilidade disto. A presença do mal no mundo, pra mim, é de atribuir só a humanidade que recusou o projeto de Amor Dele. O egoísmo, a arrogância, a fome de poder, a ignorância, não respeitar os dez mandamentos, e sobretudo a falta de Amor, são pra mim as principais causas do mal no mundo. Eu também não sou perfeito, ninguém o é, mas é a vontade de melhorar, a consciência de ser fraco, a força de superar as dificuldades que nos diferencia daquelas pessoas que fazem do egoísmo até a falta de Amor a própria crença, o próprio estilo de vida. O binômio do bem e do mal é um mistério que ninguém pode explicar. A resposta é na fé que cada um de nós tem. Há uma experiência de São Agostino que pode bem explicar tudo isso, quando a beira do mar encontra um menino que tenta de por a água do mar num pequeno balde. São Agostino lhe diz que não é possível fazer isso, e o menino lhe réplica que explicar também o mistério da Trinidade só com a razão não é possível. Eu acredito que Deus tenha resolvido o problema mandando o Filho Dele a sofrer na terra até a morte. Vencendo a morte Ele venceu o Mal também, salvando toda a humanidade, mas só quem se arrependerá das ações malditas feitas na terra. Só assim o Novo Eterno Mundo será em Paz matando por sempre o Mal. A presença da dor nesta terra, causada pelo Mal, é escrita muito bem para Paolo Coelho também num episódio (A história do lápis) de um livro dele que se intitula “Ser como o rio que flui”. Ele escreve: “De vez em quando eu preciso parar o que estou escrevendo, e usar o apontador. Isso faz com que o lápis sofra um pouco, mas no final, ele está mais afiado. Portanto, saiba suportar algumas dores, porque elas o farão ser uma pessoa melhor.”
    Esta minha reflexão é muito sintética mas espero de ter bem explicado o meu pensamento. Espero que você entender o meu português. Sempre disponível a mudar as minhas opiniões porque tudo isso é realmente muito complicado.
    Daniele Bertini

    • lm2104 disse:

      Caro Daniele, grato por ter se dado ao trabalho de escrever em português e com tanto interesse. Desculpe-me por só lhe responder anos depois, mas confesso que raramente leio os comentários que os leitores deixam aqui para mim, sobretudo se são comentários longos. Tenho pouco tempo no dia a dia. Sobre o que você me disse, só me resta observar que você tem a típica visão do homem religioso. Respeito sua maneira de pensar. No entanto, sou assumidamente agnóstico. Portanto, para mim, toda tentativa de explicação é válida, mas nenhuma, até hoje, me convenceu. Abraço.

  4. Tereza Ribeiro disse:

    Gosto dos seus textos e gosto também do seu jeito polido de responder aos comentários, mesmo não concordando com eles!

    • lm2104 disse:

      Grato! Acho que todas as leitoras e todos os leitores merecem no mínimo minha polidez, afinal escrevo para as pessoas, não somente para mim. Elas estão me dando um feedback, e valorizo isso. Abraço.

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