Pequeno milagre de Páscoa.

Aproximadamente 22 horas de sábado, véspera da Páscoa, quando os cristãos celebram o maior dos supostos milagres da cristandade, a ressurreição de Jesus. Algo terrível me ocorre e me faz pensar, depois, na idéia de renascimento. Detalhe importante: não tenho religião, nem seita. Admito a hipótese de uma força superior, e isso é tudo o que minha mente racional me permite.

Estou a caminho de um bar na Asa Sul. Vou encontrar amigos, espairecer, ver a cara da noite. A idéia é voltar para casa mais cedo, no máximo até 1 hora. Moro no Sudoeste, então corto caminho pelo Parque da Cidade, talvez o lugar mais bucólico de Brasília, outrora seguro, mesmo à noite.

Não ingeri uma gota de álcool em casa. Jantei para poder tomar um ou dois drinks e não ficar “alto”. Sinto-me bem. Sigo tranqüilamente meu caminho, a cerca de 60 km por hora, quando noto um movimento brusco, vindo da escuridão, à direita, precisamente na altura dos fundos da Escola Maria Montessori. São rapazes, não sei precisar quantos.

Um deles, de bermuda branca estampada (e só observo a cor porque, no escuro, o branco se destaca), ergue rapidamente o braço direito e arremessa um objeto, que atinge o pára-brisa do meu carro. A pancada, claro, faz um estrondo, que curiosamente não me assusta a ponto de eu perder o controle do veículo. Sigo adiante. Não paro.

Em segundos, ocorre-me retornar e tentar descobrir quem são os delinqüentes que tentaram provocar um grave acidente, sabe-se lá por quê. Também em segundos, dou-me conta de que aquela é uma má idéia e opto por telefonar para a PM. Disco 190 uma, duas, três vezes. Ninguém atende. Desisto. Toco para o bar.

Relato a alguns amigos o que me aconteceu. Ana é quem mais me incentiva a registrar ocorrência imediatamente. Beto, então, descobre que os meliantes não destruíram apenas o vidro do pára-brisa, mas também a pequena janela da lateral direita do carro, próxima ao banco traseiro. O objeto a atravessou, e há estilhaços de vidro para todo lado.

Foi um ataque coletivo. Mais de um vândalo tentou atingir meu veículo. O que pretendiam? Fazer com que eu parasse para eles me assaltarem? Ou teria sido um gesto gratuito de um bando de drogados fora de si? Pouco me importa o motivo. Podiam ter causado uma tragédia. Felizmente, não causaram.

Com André, vou ao Batalhão de Trânsito próximo ao bar. Um dos agentes me orienta a procurar a 1a DP e registrar lá a ocorrência. Vou mesmo precisar do BO para acionar o seguro. Um PM prontifica-se a ir até o local do incidente para tentar descobrir algo, embora, àquela altura, fosse improvável que os malfeitores continuassem por lá.

O condutor disse que viu um grupo de rapazes, mas não identificou ninguém (Luciano Milhomem/Divulgação)

Pedra (?) atingiu em cheio o pára-brisa.

Na 1a DP, uma agente muito simpática registra minha queixa e me revela que a PM está em operação-padrão. Daí não atender as minhas chamadas. Saio de lá com o BO e uma solicitação de perícia para meu carro (foto acima). Ainda é cedo, pouco mais de 23 horas. Por que estragar minha noite? Volto ao bar. Reencontro os amigos. Relaxo.

Sempre me ocorre que presos devem ficar os bandidos, não eu, não os cidadãos honestos que pagam imposto de renda retido na fonte, entre tantas outras taxas. Ainda resisto ao medo. Não sei até quando. Penso que, dessa vez, tive fleuma. Em outro momento, talvez tivesse perdido o equilíbrio e instintivamente lançado meu carro para a esquerda e… Melhor nem imaginar!

No domingo de Páscoa, logo cedo, vou à central da Polícia Civil, e o agente que faz a perícia me confessa seu desconsolo diante da violência crescente no DF. Ele, um policial, admite que não se tem mais segurança em Brasília. Sei disso. Poucos anos atrás, ainda me gabava de habitar uma cidade segura. Hoje…

Um post no Facebook sobre meu incidente gera numerosos comentários e outros tantos “curti” (na falta de um “lamento”). Família e amigos estão chocados. A violência chega cada vez mais perto da gente. Todos têm algo a relatar, alguma experiência no mínimo desagradável relacionada à violência urbana.

Ninguém se sente seguro na outrora Ilha da Fantasia. Mário, um colega das antigas, me convida para uma reunião que fará em breve para discutir a questão da violência. A classe média, antes meio apática, se mobiliza. Bom sinal.

Comento com outro amigo jornalista que desejo alertar mais pessoas sobre esse novo risco. Afinal, um agente que viu meu carro estacionado à porta da 1a DP admitiu que ataque a carros em movimento são incomuns na cidade. Quero que o maior número possível de brasilienses e visitantes saiba que esse tipo de agressão talvez não seja algo pontual, pode se repetir.

Meu amigo foi rápido. Em minutos, recebo uma chamada do Correio Braziliense. Relato à repórter o que me ocorreu, tal como descrito aqui. Ela promete tentar publicar uma nota no Correioweb em algumas horas, se o editor dela estiver de acordo. Espero que sim. Também sou jornalista e sei que uma das missões do Jornalismo são os serviços de utilidade pública. Minutos depois, ela me pede fotos do carro atingido. A imprensa também está atenta à insegurança pública no DF.

Matéria publicada no Correioweb.

Felizmente, mantive o equilíbrio, e nada de grave me ocorreu. No final das contas, tive um ótimo domingo de Páscoa, de alegre confraternização. Dei e ganhei ovos de chocolate. Não me deixei abalar pelo vandalismo de um bando de delinqüentes. Afinal, de certa forma, renasci. Mas tudo poderia ter sido diferente, muito, muito pior. Esses pequenos (?) milagres da vida é que dão ainda alguma esperança. Alguma.

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